Capítulo I O Valor Econômico da Biodiversidade e os Países
1.3 Biocomércio: Importância Social e Econômica
A biodiversidade fornece à humanidade matéria prima para a obtenção de produtos para consumo como: alimentos, cosméticos, produtos farmacêuticos. Além disso, provê insumos para aplicações industriais. Os diversos componentes da biodiversidade dispensam, ainda, uma série de serviços ambientais para a sociedade por meio da conservação dos solos através do ciclo de nutrientes e decomposição da matéria orgânica, no controle de pragas e enfermidades, na polimerização de plantas, na manutenção do ciclo hidrológico, no controle da erosão, na regulação climática, dentre outros (BEATTIE et al., 2005, p. 274).
O crescimento populacional e as decorrentes expansões das atividades econômicas afetaram significativamente o uso de recursos da biodiversidade. Tal fato tem aberto portas para o comércio de bens e serviços dos produtos derivados da biodiversidade comumente chamados de naturais. O processo de unir a conservação da biodiversidade com a busca de alternativas produtivas que melhorem a qualidade de vida das populações locais, surgiu o conceito de Biocomércio, Bionegócios e Mercado Verde, dentre outras definições (CHRISTIE et al, 2006; RAGAVAN, 2008).
Atendendo a esta necessidade, em 1996 a Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Desenvolvimento (United Nations Conference on Trade and
Development - UNCTAD), por iniciativa da BioTrade11, criou critérios e princípios do biocomércio, com a finalidade de contribuir para a conservação e o uso sustentável da biodiversidade por meio da promoção do comércio e investimento de produtos e serviços do biocomércio em conformidade com os objetivos e princípios da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB).
O Biocomércio é definido como a cadeia de atividades de coleta, produção, transformação e comercialização de bens e serviços derivados da biodiversidade a ser desenvolvida como parte dos seguintes critérios:
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BioTrade é uma série de programas temáticos da UNCTAD dedicada à comercialização de produtos derivados da utilização sustentável, contribuindo ao desenvolvimento econômico mediante ao manejo responsável dos recursos naturais e garantindo a alta qualidade do produto. Fonte: http://www.cbd.int/incentives/int-trade.shtml.
• Sustentabilidade social, criando estratégias para evitar o uso indiscriminado; a depredação e o desaparecimento dos recursos naturais;
• Sustentabilidade social, por meio da promoção de estratégias e atividades produtivas que apoiem o uso e aumente a conservação sustentável em áreas de alto grau de biodiversidade;
• Sustentabilidade econômica, gerando benefícios econômicos e a distribuição equitativa com comunidades locais e indígenas, que são depositários do conhecimento e dos cuidados dos recursos naturais.
Como citado anteriormente, os critérios e princípios do biocomércio estão em consonância com os objetivos da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) como também, da Comissão de Desenvolvimento Sustentável (CDS); Desenvolvimento do Milênio (ODM), e os outros tratados como: Acordos Multilaterais sobre o Meio Ambiente – AMUMA; Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Silvestres (Convention on International
Trade in Endangered Species of Wild Fauna and Flora – CITES); Convenção das
Nações Unidas de Combate à Desertificação (United Nations Convention to Combat
Desertification – UNCCD) e a Convenção sobre Zonas Úmidas – (Convention on Wetlands – RAMSAR12) (Figura 1.5).
A Convenção de Ramsar é um tratado intergovernamental que estabelece marcos para ações racionais e para a cooperação entre países com o objetivo de promover a conservação e o uso racional de zonas úmidas no mundo. Essas ações estão fundamentadas no reconhecimento, pelos países signatários da CDB, da importância ecológica e do valor social, econômico, cultural e científico de tais áreas (BRASIL, 2013a; CGEE, 2006a p. 13).
Seguindo as diretrizes para o biocomércio, têm-se as abordagens ecossistêmicas, a cadeia de valor e o manejo adaptativo que são complementos dos princípios e estão implícitos na estrutura do biocomércio.
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Ramsar foi estabelecida em fevereiro de 1971, na cidade iraniana de Ramsar. A Convenção de Ramsar está em vigor desde dezembro de 1975, e seu tempo de vigência é indeterminado. No âmbito da Convenção, os países membros são denominados “partes contratantes” e até janeiro de 2010, a Convenção contabilizava 159 adesões. O Brasil, que por suas dimensões, acolhe uma grande variedade de zonas úmidas importantes, assinou a Convenção de Ramsar em setembro de 1993.
Figura 1.5 - Contexto, níveis de execução e aplicações dos princípios de Biocomércio.
Fonte: adaptado de UNCTAD Iniciativa BioTrade.
As abordagens inerentes aos princípios indicadas na figura 1.5 podem ser descritas como:
• Gestão ou manejo adaptativo: visa contribuir para a implementação de práticas sustentáveis na identificação dos impactos sobre as espécies e ecossistemas e para a contínua melhoria do biocomércio;
• Cadeia de valor: são as relações estabelecidas entre os atores envolvidos direta ou indiretamente em atividades produtivas. É considerado um elemento crítico no sentindo de atuar com as boas práticas relacionadas ao uso sustentável e à conservação da biodiversidade e à promoção da divisão equitativa dos benefícios entre os envolvidos;
• Abordagens ecossistêmicas: com base numa visão holística, integra questões ecológicas e sociais, bem como interações e processos que estão envolvidos em um sistema produtivo. Na prática, o planejamento dos processos
produtivos relacionado ao biocomércio é realizado de acordo com as abordagens ecossistêmicas. Isso irá garantir que as iniciativas sejam ambiental e socialmente responsáveis no que diz respeito ao seu impacto sobre as espécies, habitats, ecossistemas e comunidades locais.
Os princípios do biocomércio devem ser aplicados tanto a níveis institucionais, governamental e não governamental. No nível institucional os impactos gerados pelas entidades e/ou pelos projetos devem ser mensuráveis e implementados nos itens desta categoria. Ainda neste item, espera-se que os princípios de aplicação possam orientar os envolvidos no biocomércio e estejam em contínua melhoria para as boas práticas ambientais e sociais. Na prática, o biocomércio foi, ou é, possível graças as iniciativas empresariais dos países andinos que envolveram princípios e critérios de sustentabilidade em suas atividades produtivas e comerciais, que geram benefícios econômicos, ambientais e sociais (VÉLEZ e BECERRA, 2001; UNCTAD, 2005).
A Comunidade das Nações Andinas (CAN)13, a Corporação Andina de Fomento (CAF) e a Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) desenvolveram um programa, em 2001, que teve como objetivo o apoio a Estratégia Regional da Biodiversidade na Região Andina e o desenvolvimento do biocomércio nos países andinos: Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela14.
A Região Andina pertence aos países biodiversos do mundo e oferece um grande potencial para o desenvolvimento de negócios derivados do uso sustentável da biodiversidade. Conscientes da importância que representa o biocomércio para os países andinos, as oportunidades de mercado e a necessidade de utiliza-las como ferramentas de conservação e desenvolvimento sustentável, a Comunidade das Nações Andinas (CAN), a Corporação Andina de Fomento (CAF) e a Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD)
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A Comunidade das Nações Andinas (em espanhol, Comunidad Andina de Naciones – CAN) é um bloco econômico formado por Bolívia, Colômbia, Equador e Peru. Possui como membros associados: Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai e como países observadores, México e Panamá. A Venezuela deixou o bloco em 2006.
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Serão demonstrados os resultados da Venezuela fazendo parte da região andina porque sua saída do bloco foi somente em 2006.
formularam um documento abordando a situação do biocomércio naqueles países (VÉLEZ e BECERRA, 2001). Sendo assim, mesmo que brevemente, serão demonstrados exemplos da situação de alguns países andinos no programa de biocomércio direcionado a plantas medicinais.
1) Colômbia
A Colômbia vem desenvolvendo várias atividades relacionadas ao uso sustentável da sua biodiversidade. O Instituto de Pesquisa de Recursos Biológicos “Alexandre Von Humboldt”, com o apoio da UNCTAD e do Ministério do Meio Ambiente e do Ministério de Comércio Exterior da Colômbia, iniciou em fevereiro de 1998 o projeto de Biocomércio Sustentável, no qual se prestavam serviços aos empresários e às comunidades indígenas. Paralelamente, o Ministério do Meio Ambiente da Colômbia implementou o Programa Mercado Verde no qual busca desenvolver uma posição clara do governo com relação aos produtos derivados do aproveitamento sustentável da biodiversidade, aos ecoprodutos industriais e aos serviços ambientais. Atualmente, as plantas medicinais e seus extratos desempenham um papel predominante no comércio local e regional. A utilização de plantas medicinais na medicina tradicional é vista como um dos diversos métodos de tratamento de enfermidades (MELGAREJO, 2003; POLÍTICA..., 2011, p. 6).
2) Peru
O Peru é o quarto país do mundo com maior biodiversidade. Sua economia, tanto a produção agrícola, pesqueira, pecuária e florestal como a produção industrial depende pelo menos de 22% de sua biodiversidade. Em números, o Peru tem cerca de 9 bilhões de dólares em valor de exportação relacionados à biodiversidade (MULLER, 2001; PROMPERÚ, 2010).
O Peru possui mais de 40 produtos procedentes da biodiversidade, com uma taxa de crescimento médio anual de mais de 10% de tais produtos que estão em diferentes mercados dos Estados Unidos, Ásia e Europa. Os setores que se destacam nas exportações são a agricultura (US$ 4 bilhões), pesca (US$ 2 bilhões), turismo (US$ 2 bilhões). O total de exportações vinculadas à diversidade biológica em 2009 foi de quase US$ 9 bilhões (PERÚ, 2010).
Esse trecho sobre a Venezuela apresenta de forma sucinta as dificuldades de valoração do biocomércio em geral. A Venezuela possui empresas na área biotecnológica que realiza pesquisas em plantas medicinais, setor no qual se criou uma Comissão Nacional de Aproveitamento de Plantas Medicinais. De acordo com Vélez e Becerra, (2001), no caso particular da aplicação da prática na utilização dos recursos genéticos a Comunidade das Nações Andinas (CAN) tem pouca experiência, havendo a necessidade de simplificar os processos existentes e buscar formas ou mecanismos para promover as atividades de bioprospecção, pesquisa, produção e geração de produtos, processos e serviços.
Devido à complexidade da definição dos valores potenciais advindos da bioprospecção, os estudos têm recorrido a modelos que indicam o valor atribuído a esta prática. Nos anos 70, a posição sobre a biodiversidade era totalmente diferente, a natureza era intangível. Neste sentido, as questões sobre a valoração da biodiversidade só foi discutida em âmbito mundial a partir da década de 80. Hoje, essa visão mudou, e a biodiversidade passou para uma posição econômica, social e política a nível mundial (CHRISTIE, et al., 2006; BRASIL, 2010a; CDB, 2010).
Todavia, ainda hoje, não se conhecer o valor econômico da biodiversidade e apresenta-se como um desafio para o estabelecimento de políticas e incentivos que favoreçam as iniciativas que utilizam os recursos naturais do biocomércio.