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Tratado sobre os Direitos de Propriedade Intelectual

Capítulo III Marco Regulatório nos Programas de

3.1.1 Tratado sobre os Direitos de Propriedade Intelectual

O Acordo de Direito de Propriedade Intelectual Relacionado ao Comércio (TRIPS) foi um dos resultados das negociações da Rodada Uruguai52, realizada entre 1986-1994. O TRIPS foi construído sob a base jurídica da Convenção de Paris sobre Propriedade Industrial, a Convenção de Berna sobre obras literárias e trabalhos artísticos e o Acordo de Washington em Circuitos Integrados. O acordo TRIPS que entrou em vigor em janeiro de 1995, apesar de ter sido construído sobre pilares dos princípios de territorialidade e tratamento nacional, marcou o início da era global da propriedade intelectual (BEATTIE et al., 2005; TROMMETTER, 2005; MAIA FILHO, 2010 p. 62).

Para Pereira (2009, p.18-36), os acordos internacionais, CDB e TRIPS, foram feitos para se complementarem, porém em alguns itens não são convergentes, o que torna complexo criar uma conciliação nas políticas nacionais para uso dos recursos da biodiversidade, partilha de benefícios e Direitos de Propriedade Intelectual (DPI). Para melhor entendimento, a Tabela 3.1 trás uma comparação entre as cláusulas da CBD e o TRIPS. Observa-se que a CDB estabelece um regime de inclusão de um maior número de atores que se colocam juntos para realizar um bem comum. O TRIPS, por outro lado, enfatiza essencialmente a necessidade de proteger apenas os direitos dos titulares da propriedade intelectual53.

Tabela 3.1 – Comparação das cláusulas da CDB e TRIPS.

CDB TRIPS

Conservar a biodiversidade é o principal objetivo do acordo.

A força motivadora do regime de proteção de propriedade intelectual é realizar os objetivos do livre comércio. Cada Estado tem direitos soberanos

sobre seus recursos genéticos.

É permitido que os Direitos de

Propriedade Intelectual (DPI) sobre as inovações biotecnológicas são

concedidas sem qualquer consideração

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A Rodada Uruguai foi iniciada em setembro de 1986 e concluída em abril de 1994. Baseada no encontro ministerial de Genebra do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), foi lançado em Punta del Este, no Uruguai, seguido por negociações em Montreal, Genebra, Washington e Tóquio. A rodada do GATT criou a Organização Mundial do Comércio (OMC).

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O Acordo TRIPS estabelece padrões mínimos no âmbito do direito internacional relacionado às patentes, incluindo aquelas de medicamentos. Países membros da OMC, que hoje são 150, concordaram com certos padrões comuns na forma de elaboração e implementação de legislação patentária.

aos recursos genéticos que foram usados como insumos.

Reconhecimento sobre a contribuição realizada pelos povos indígenas e comunidade local na conservação e uso sustentável da biodiversidade.

Os DPI só podem ser atribuídos a órgãos corporativos e particulares. Conceder

direitos coletivos é limitado.

Qualquer uso de recursos genéticos requer consentimento prévio informado do Estado, comunidade local e povo indígena.

O titular de uma patente não precisa revelar o recurso genético e/ou

conhecimentos tradicionais sobre a qual foi baseada para obter a inovação. O uso de recursos genéticos deve ser

acompanhado de divisão de benefícios entre os atores envolvidos.

O titular da patente será o único

beneficiário de qualquer direito alcançado pelos DPI.

Os países em desenvolvimento que fornecem os recursos genéticos devem ser envolvidos na pesquisa

biotecnológica

Não há referência sobre o envolvimento de países em desenvolvimento nas atividades de pesquisa biotecnológica. Este acordo considera somente a fase pós-pesquisa onde a proteção do produto resultante da pesquisa é o único objeto. A transferência de tecnologia para os

países em desenvolvimento provedores dos recursos genéticos devem ser acordado por consentimento mútuo.

O valor econômico de uma licença deve ser o parâmetro fundamental para determinar os termos de qualquer transferência de tecnologia. Fonte: German-Castelli, 2007 apud Dhair, 2003; Maia Filho, 2010.

Assim pode-se dizer que, a CDB criada com o intuito de definir uma política de desenvolvimento sustentável, não conseguiu eliminar o conflito entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento devido algumas cláusulas dos acordos TRIPS. No entanto, os signatários desses dois acordos têm por objetivo buscar caminhos para a prática de bioprospecção, que beneficiem todos os atores envolvidos, sem contrapor os princípios da CDB e TRIPS.

Desta forma, durante a 8ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP 8), realizada em 2006 em Curitiba - Brasil, representantes de 188 países tentaram chegar a um consenso para criar um protocolo de biodiversidade. De um lado, Brasil, Índia e países da África defendiam a criação de uma regulamentação internacional, que definiria regras explícitas sobre o uso comercial de recursos genéticos. Essa regulamentação prevê que cada país tenha o direito de patente sobre os recursos genéticos de seus recursos naturais. Ao mesmo tempo, obriga as empresas a patentearem esses recursos para poder

comercializá-los. No entanto, o representante da Austrália, presidente do conselho do Centro de Estudos Apec Austrália, afirmou que muitos países consideram que esse tipo de obrigação iria engessar o processo de pesquisa e poderia enfraquecer a patente de uma empresa. Citou um exemplo que um medicamento passaria a ter várias patentes, detidas por agentes de diferentes países (BEATTIE et al., 2005; CRAGG et al. 2012).

A partir disso, países da Europa, Ásia (com exceção da Índia) e a Austrália consideraram desnecessária a criação de uma legislação internacional para uso de recursos genéticos e defenderam regras menos rígidas nos países em desenvolvimento. Ainda de acordo com o representante da Austrália, este sugeriu que esses países adotassem acordos comerciais que facilitariam o desenvolvimento de pesquisas sem provocar a perde da propriedade dos países sobre seus recursos genéticos:

“O melhor jeito de facilitar o acesso à bioprospecção é os países firmarem contratos com as empresas, ao invés de criarem um novo regulamento extra-governo” (BEATTIE et al., 2005).

O consenso sobre essas questões parecia incerto, quando em 2010 durante a Conferência das Partes (COP-10) realizada em Nagoya54 (Japão), foi aprovado um protocolo sobre acesso e repartição dos benefícios dos recursos genéticos da biodiversidade, conhecido como Protocolo de Nagoya55 ou Protocolo de ABS (Access and Benetif Sharing). Este documento reafirma que cada país é soberano sobre os recursos genéticos de sua biodiversidade e que o acesso a essa biodiversidade só poderá ser realizado com o seu consentimento. E ainda, se a riqueza biológica resultar em desenvolvimento de um produto, os lucros deverão ser divididos com o país de origem, embora, “a forma de partilha financeira ainda precise ser definida” (MARQUES, 2010, p. 17; CASTRO, 2011, p. 66).

Na reunião, alguns países como Irã, Malásia e Índia exigiram que os países desenvolvidos divulgassem as informações sobre a origem dos recursos genéticos utilizados na hora de depositar a patente. Isso não foi validado, porém foi definida a

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Os Estados Unidos não participaram da Conferência.

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Cerca de 200 países chegaram a um acordo sobre o protocolo, cem países assinaram e 18 o ratificaram. Entretanto, somente quando tiver sido ratificado por 50 países, o protocolo entrará em vigor. Em outubro de 2014, na Coreia do Sul, país sede do próximo encontro, os 50 países começarão a definir os detalhes do acordo. O Brasil até o momento não o ratificou. Fonte: http://www.cbd.int/abs/.

designação de instituições para verificar como o material genético apresentado na patente foi obtido (MARQUES, 2010). A repartição de benefícios retroativos dos bioprodutos já comercializados não entrou no Protocolo de Nagoya.

O Brasil, na presidência do grupo dos 17 países megadiversos, teve um papel importante na articulação do protocolo. No entanto, até o momento não integra a lista de países que o ratificaram. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (BRASIL, 2013c), o governo tem se dedicado para que o novo marco legal dê todas as garantias para que o Brasil possa entrar com segurança no Protocolo de Nagoya. Afirma que o país precisa equacionar impasses, como o receio do setor agrícola de que a participação do Brasil no acordo aumente o custo no setor, por exemplo, encarecendo o preço da semente para uso na agricultura ou provoque dificuldades no acesso aos recursos genéticos de outros países para aprimorar as atividades.

No entanto, o que deve acontecer é o contrário. O principal objetivo do acordo é facilitar as transações, uma vez que não há retroatividade dos direitos sobre o acesso da biodiversidade, essa repartição de benefícios ocorrerá pela legislação nacional, ainda em elaboração.

De acordo com Castro (2011), Brasil tem a vantagem por ser uma das poucas nações com legislação nacional que está sendo revisada e com sistema de governança estabelecido, conduzido pelo Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN). Todavia, o que aconteceu desde então foi que a legislação vigente no Brasil estava voltada a coibir a biopirataria e não a estimular o acesso para fins de pesquisa em bioprospecção e desenvolvimento tecnológico.

Desta forma, já se passou muito tempo desde a CDB e várias experiências foram surgindo para uma reformulação da lei. Assim, surge a necessidade da regulamentação nacional quanto ao acesso dos recursos genéticos sem afetar de forma negativa a bioprospecção, provocando o afastamento dos interessados na primeira etapa quanto na fase de comercialização, assim como, a diminuição do incentivo ao estabelecimento de contratos e à transferência de tecnologia.

Pode-se afirmar que não é somente o Brasil que encontra dificuldades em trabalhar sobre uma legislação frágil. Porém, alguns países possuem um maior senso de urgência quanto aos seus interesses. Por exemplo, a Costa Rica com suas políticas nacionais para regular o acesso aos recursos genéticos na sua Lei da Biodiversidade, a Ordem Executiva 247 das Filipinas e a Decisão 391 (Regime

Comum de Acesso a Recursos Genéticos) na Colômbia, podem ser indicados como Marcos Legais que respondem à necessidade de regulação (BRENES, 2003). Parcerias para realizar a bioprospecção foram implementadas pelo mundo, variando conforme a realidade e a cultura de cada país, mesmo levando ou não regulamentação nacional sólida específica, como os casos demonstrados no capítulo I, por exemplo, o caso da África do Sul.

Dentre os casos de sucesso, apesar das críticas, pode-se apontar a Costa Rica que fez um acordo de cinco anos com a indústria farmacêutica Merck no valor de US$ 2 milhões. Tal o acordo previa o direito de compartilhar a patente dos produtos desenvolvidos a partir do recurso genético utilizado no território costa riquenho (BRENES, 2003; BRASIL, 2006).

No capítulo II, foi visto as potencialidades das redes de pesquisa no Brasil que desenvolvem a bioprospecção e o que parece não conseguem avançar para a terceira etapa quanto a comercialização ou até mesmo no início das pesquisas específicas para a obtenção de bioprodutos. Isso pode-se dar dois motivos: 1. por não ter um mecanismo, por meio de um plano nacional específico em bioprospecção, de “como fazer”; 2. por ficarem com receio das possíveis perdas que uma parceria da comercialização possa resultar.

Um fato é certo, quanto mais o Brasil demora nas suas tomadas de decisões, mais perdas econômicas serão refletidas no desenvolvimento das regiões e o país ficará para trás neste contexto.

3.2 – Marco Regulatório nos Países Megadiversos e a Regulamentação da