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142 BLOM, op cit., p 232.

No documento Fabio Viana Ribeiro.pdf (páginas 124-128)

Ao que tudo indica, são raros os casos de colecionadores ou fãs não empenhados numa organização e conservação sistemáticas de seus acervos, ainda que a definição dessas ações possa variar de caso para caso. Freqüentemente esse obsessivo esforço em classificar, organizar, conservar, etc, todos os elementos da coleção parece concorrer, como no acima citado caso de Sir Thomas Phillipps, com o próprio objetivo de aumentar a coleção. Dito de outro modo e utilizando o mesmo exemplo, um livro ou um manuscrito se apresentam inicialmente interessantes em função da finalidade com que foram produzidos (seus conteúdos e o que estes pudessem apresentar de relevante). Num segundo momento, em função da urgência de outro objetivo – acumular a maior quantidade possível de tudo que possa se relacionar ao assunto – o interesse pelos conteúdos e usos originais do objeto tornam-se secundários. O posterior esforço feito no sentido de classificar, organizar e conservar todo o conjunto não parece ser senão um desenvolvimento lógico da própria atividade do aficionado.

O fato, não muito freqüente, do acervo de um colecionador encontrar-se disperso e desorganizado não parece significar, muitas vezes, a inexistência de algum princípio organizador. Ou mesmo que a idéia de organizar tudo sob os mais diversos critérios tenha sido abandonada. Do mesmo modo que “o objeto mais precioso de uma coleção vem a ser o objeto seguinte”, a forma ideal de organização de todas as coisas que constituem uma coleção vem a ser, muitas vezes, sua forma futura. Antecedendo este momento, tais objetos aguardarão o dia em que serão classificados em função dos mais prováveis e improváveis princípios: raridade, cronologia, origem, valor, autenticidade, estado de conservação, etc. O fato de uma coleção não ter sido ainda organizada e classificada é talvez, do ponto de vista de um colecionador, uma idéia ainda mais tentadora: na medida em que permite ao mesmo se decidir sobre qual ordem desejará dar, no futuro, a um mundo que foi criado por obra de seu exclusivo desejo.

Nenhum entrevistado se revelou indiferente a respeito desse aspecto, elemento central naquilo que se refere aos mais profundos vínculos existentes nessas relações entre indivíduos e objetos. Curiosamente isso só

pôde ser percebido quase que por acaso,144 talvez mesmo em função dos critérios de ordenamento e classificação utilizados por cada aficionado não serem muito habituais (e, assim, não percebidos pelo pesquisador como coisas que possuíssem essa natureza). Casos como o da biblioteca de Sir Thomas Phillipps são emblemáticos nesse sentido: muitas vezes a morte – elemento normalmente fundamental na vida de um não aficionado – poderá ser considerada pelo aficionado como sendo apenas um “detalhe” em relação à existência da coleção. À partir de determinado momento, e em função dos vínculos que vão se estabelecendo entre o colecionador e seus objetos, deixa de ser relevante saber se haverá tempo para ler tantos livros, tempo para dirigir tantos carros ou mesmo vida para saber o que fazer com tantos objetos após a morte.

Em certo sentido, colecionar é classificar o mundo. Não por acaso são freqüentes casos de colecionadores que demonstram encontrar um interesse muitas vezes maior na organização e sistematização de seu acervos que na apreciação de cada elemento em particular. Tais atividades, menos indicativas do zelo com que o aficionado administra seu acervo, encontram- se aparentemente relacionadas ao controle e precisão que o reordenamento feito ao livre sabor do aficionado confere ao mesmo:

Tais noites ardentes e febris, ele as passava com seus livros. Circulava entre suas estantes, percorria as galerias de sua biblioteca com êxtase e encantamento; depois detinha-se, com os cabelos em desordem, os olhos fixos e faiscantes, as mãos trêmulas ao tocar a madeira das prateleiras: que eram quentes e úmidas. Apanhava um livro, folheava suas páginas, manuseava seu papel, examinava suas douraduras, a capa, os tipos, a tinta, as dobras, e o arranjo dos desenhos para a palavra finis; depois, trocava-o de lugar, colocava-o numa prateleira mais alta, e permanecia horas inteiras a observar-lhe o título e a forma.

Dirigia-se, a seguir, para os manuscritos, pois eram seus filhos preferidos; apanhava um deles, o mais velho, o mais gasto, o mais sujo, contemplava o pergaminho com amor e júbilo, cheirava-lhe o santo e

144 Ao ler parte das anotações do pesquisador um dos entrevistados (que

aparentemente não demonstrava qualquer preocupação em relação à distribuição absolutamente caótica de seu acervo de HQ pela casa) comentou que, de fato, seu maior e mais ambicioso projeto era o de um dia guardar todo esse material de acordo com determinado projeto, num cômodo específico de sua residência, utilizando móveis especiais, etc.

venerável pó, e suas narinas se inflavam de alegria e de orgulho, um sorriso assomava à sua boca.

Oh! ele era feliz, esse homem, feliz em meio a toda essa ciência cujo alcance moral e valor literário mal penetrava; era feliz, sentado entre todos esses livros, passeando os olhos sobre as letras douradas, sobre o pergaminho desbotado; amava a ciência como um cego ama o dia.145

Do ponto de vista de um fã de filmes de western, a construção dos mais diversos “mapas classificatórios”, nos quais possam ser localizadas as origens do gênero, seus principais nomes, números e datas de toda ordem apresenta-se como algo absolutamente fundamental. Tão importante talvez quanto possuir a maior quantidade possível de filmes de western, seria, nesse sentido, possuir a classificação absoluta do gênero, pelo fato de que, mais talvez que a posse, a classificação absoluta de um mundo parece fornecer a um aficionado maiores garantias de que tudo encontra-se, afinal, sob seu absoluto controle. Ainda que a idéia e o fascínio central de toda coleção esteja relacionado ao fato de se constituir num mundo isento de conflitos e impossibilidades, ainda assim, em determinado momento todo colecionador terá de se haver com algum tipo de limite, colocado, por exemplo, por uma peça irremediavelmente perdida, pela morte do ídolo, ou, mais freqüentemente, pelo passar dos anos e a impossibilidade de aquisição de muito mais daquilo que se quis obter. Como contraponto desta descoberta quase inevitável, a classificação desse universo conhecido de coisas parece acrescentar à coleção aquilo que já parecia perdido: controlar seus limites, reordenar seu conjunto sob os mais diversos critérios, hierarquias, cronologias, tipos, origens, etc. Tratar-se-ia, talvez, da idealização de um mundo já por sua vez construído como ideal; a garantia, extra, de que tudo se encontraria no lugar em que o colecionador gostaria que estivesse.

Mesmo no caso de aficionados por quadrinhos, em geral não muito preocupados com a coleção sistemática de números e edições, a preocupação com a classificação dos muitos aspectos envolvidos no mundo das HQ – fases relacionadas a cada roteirista, editoras, “arco de histórias”, cronologias, etc – possui grande importância. O “mapeamento” desses espaços, assim tão estáveis e reconhecíveis, parece oferecer ao fã o domínio

sobre aquilo que ainda poderia lhe escapar ao controle. Da mesma forma que, pelo menos em tese, toda e qualquer coisa poderia ser colecionada, cada objeto ou personalidade poderia vir a ser classificado e examinado sob perspectivas quase que infinitas. O espantoso volume de informações contidas na home-page do Omnibus do Brasil,146 poderia exemplificar esse procedimento. Mesmo entre os sócios não envolvidos na construção e atualização da mesma, habilidades como a de elaborar longas planilhas manuscritas, relativas aos modelos e veículos que se encontram ou não circulando no sistema de transporte da cidade de Curitiba parecem confirmar essa necessidade de “controle platônico” do objeto cultuado.

Um dos casos mais emblemáticos desses procedimentos que misturam classificação e controle é, certamente, o dos membros da Frota Estelar Brasil. Nesse caso, vários níveis de classificação encontram-se sobrepostos, estando o próprio tema cultuado – o conhecido seriado americano “Jornada nas Estrelas” – organizado sob a forma de série e fases, com personagens permanentes e eventuais, inimigos e aliados, cronologia real e utilizada pela série, etc. Sobreposto ao universo estético e ficcional criado pelo próprio seriado, outro universo terminará sendo construído pelos fãs: elaboração de home-pages, promoção de encontros, venda de uniformes, palestras com os atores da série original, etc. E, principalmente, o reordenamento e classificação, sob os mais diversos critérios, de tudo aquilo que se encontra contido nos muitos episódios do seriado.

Em termos de seu característico “fechamento” e das regras que presidem os muitos campos do colecionismo, é notável a semelhança dos mesmos com a idéia de jogo. As observações de Johann Huizinga a respeito das principais características do jogo – entendido como fenômeno cultural – parecem se aplicar, de fato, aos mundos criados por colecionadores e aficionados:

Seja como for, para o indivíduo adulto e responsável o jogo é uma função que facilmente poderia ser dispensada, é algo supérfluo. Só se torna uma necessidade urgente na medida em que o prazer por ele provocado o transforma numa necessidade. É possível, em qualquer momento, adiar ou suspender o jogo.

No documento Fabio Viana Ribeiro.pdf (páginas 124-128)