ou temáticas em questão. Em maior ou menor grau, todo grupo organizado em torno do gosto único por determinado objeto ou tema, apresenta um caráter missionário. Como origem desta disposição, o fato daquele objeto ou tema haver sido “descoberto” e “compreendido” pelo grupo como algo investido de natureza incomum, passível de ser transmitida e revelada a tantos quantos forem aqueles dispostos e capazes de compreender o sentido único dessa natureza. Tais disposições podem se estender desde tendências francamente proselitistas até posturas que, não deixando de sê-lo, caracterizam o grupo como comunidade de eleitos. As absolutamente incontáveis páginas construídas na internet, dedicadas aos mais diversos ramos do colecionismo ou aos muitos ídolos criados pela indústria cultural, possuem entre suas principais funções a arregimentação de novos membros, potenciais colaboradores e divulgadores da “obra”. De fato, são possivelmente raros os casos de colecionadores ou fãs empenhados em ocultar, sempre que possível, as peças e objetos de suas coleções. A divulgação, através dos mais diversos meios, do tema ou objeto eleito, possui sempre implícita a idéia de expandir a fé no próprio objeto ou tema; ainda que, para tanto, outros argumentos possam ser utilizados: “divulgar um hábito saudável”, “levar às pessoas um pouco de nossa história”, “reunir pessoas que gostam das mesmas coisas”, etc.
Se em alguns casos posturas deste tipo podem ser bastante explícitas – um fã, por exemplo, que se dedica a divulgar por conta própria o lançamento do último CD do grupo de rock que aprecia – por outro, os mais freqüentes casos em que o tema é divulgado na internet ou pela imprensa em geral buscam, igualmente, alcançar um público que eventualmente poderia vir a se interessar pelo assunto. Em todos esses contextos encontra-se presente o propósito de levar ou fazer conhecer ao público não iniciado a natureza de um objeto ou tema que só não possui maior número de adeptos por conta de suas características excepcionais não terem sido ainda devidamente conhecidas e apreciadas. Muito longe de se constituírem num comportamento compulsivo, tais tentativas de expansão da fé em determinado objeto ou tema poderão ainda ser acompanhadas da explicação a respeito do porquê de algo “tão excepcionalmente acima de tudo” não haver sido ainda compreendido por um número maior de pessoas. Para tanto cada grupo de aficionados produzirá uma explicação que seja capaz de
justificar o porquê de algo assim constituído ser vivido e compreendido apenas por poucos. Excluídos casos cuja explicação é óbvia – objetos ou temas que impliquem altíssimo poder aquisitivo, conhecimento muito específico, etc – a explicação, quase religiosa, estabelecerá uma lacônica fronteira entre o mundo dos que “crêem” e o daqueles que, destituídos daquilo que é necessário à crença, jamais poderiam alcançar essa dimensão.
De forma bastante evidente, fãs de quadrinhos ilustram casos deste tipo. Se por um lado, e ao contrário de muitos outros objetos “colecionáveis” (ainda que só muito raramente aficionados por quadrinhos se dediquem efetivamente, a colecionar todos os exemplares de um determinado título) revistas em quadrinhos são relativamente baratas, estando sua compra ao alcance de um número relativamente grande de pessoas, por outro, o domínio de sua estética, linguagem, técnicas, evolução, etc, demandam períodos de “iniciação” normalmente longos. Tais características, somadas à concepção “dominante” que interpreta o universo dos quadrinhos como uma espécie de subproduto da literatura e das artes gráficas, contribui para o desenvolvimento de um característico hermetismo presente entre os aficionados do gênero. Por conseqüência, o caráter missionário e proselitista, ainda que aí também presente, volta-se menos para o público em geral e mais para aqueles nos quais poderão ser encontrados os sinais de aptidão e preparo.
A idéia de “missão”, que, naturalmente de forma menos desenvolvida, poderá ser encontrada entre diversos fãs, é descrita num muitíssimo interessante conto de Júlio Cortázar escrito sobre o assunto.133 Em dado momento os fãs da atriz Glenda Garson concluem, de forma absolutamente lógica, que teriam de tomar as medidas necessárias e capazes de preservar a perfeição que julgavam haver encontrado em sua figura:
Nesse tempo, as reuniões eram apenas Glenda, sua deslumbrante ubiqüidade em cada um de nós, e não sabíamos de discrepâncias ou reparos. Só pouco a pouco, no começo com um sentimento de culpa, alguns
133 CORTÁZAR, Julio. Orientação dos Gatos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
O conto narra, de forma incrivelmente precisa e completa (não obstante suas meras nove páginas) a lógica que orienta a ação de um grupo de fãs da não muito hipotética atriz Glenda Garson (claramente inspirada nas atrizes hollywoodianas das décadas de 40 e 50).
se atreveram a introduzir críticas parciais, o desentendimento ou a decepção diante de uma seqüência menos feliz, os deslizes do convencional ou do óbvio. Sabíamos que Glenda não era responsável pelos deslizes que turvavam, por momentos, o esplêndido brilho de O açoite ou o final de Nunca se sabe por quê. Conhecíamos outros trabalhos de seus diretores, a origem dos enredos e dos roteiros, com eles éramos implacáveis porque começávamos a sentir que o nosso amor por Glenda ia mais além do mero território artístico e que só ela se salvava do que imperfeitamente faziam os demais. Diana foi a primeira a falar de missão, e o fez com sua maneira tangencial de não afirmar o que de verdade a importava, então vimos nela uma alegria de uísque duplo, de sorriso satisfeito, quando admitimos que não podíamos ficar somente nisso, o cinema e o café e querer tanto a Glenda.134
O conto descreve todas as ações do grupo de fãs como absolutamente racionais e lógicas, como, de fato, parecem ser as ações da maior parte dos grupos de aficionados. Apenas a excepcional perfeição de Glenda parecia escapar a qualquer racionalidade, não sendo necessário, para sua explicação, qualquer outro motivo que não fosse a razão profunda e insondável que fazia com que todos a julgassem perfeita e a “quisessem tanto”. Todo o restante dessas ações, contudo, se pautavam pela mais estrita racionalidade, levando a história a um desfecho tão mórbido quanto lógico.135 É possível suspeitar que, não fossem os muitos e normalmente