162 GEERTZ, op cit., pp 285 e 286.
OS MUITOS MODOS DO CONSUMO DE UMA COISA SÓ
Realmente, nenhum aborrecimento, nenhum tédio resiste ao cáustico que se aplica à alma quando se lhe dá uma mania. Vós todos que já não podeis beber nisso que, em todos os tempos se denominou a taça do prazer, tratai de colecionar o que quer que seja (tem- se colecionado até cartazes!) e em troca tornareis a achar a barra de ouro da felicidade.
Honoré de Balzac – O Primo Pons
Um dos traços mais característicos dos grupos pesquisados refere-se à presença simultânea de conteúdos afetivos e racionais em suas práticas e no modo como estes as interpretam. A primeira dessas características, menos surpreendente talvez, diz respeito às motivações que ligam personalidades e objetos eleitos aos sentimentos e afetos de colecionadores e fãs. Pela própria natureza desse tipo de motivação, sua existência não parece se manifestar de modo tão claro quanto em relação aos conteúdos mais racionalizados. Muitas vezes, o sentimento de ver somente ali, no ítem colecionável, algo que não foi visto em nenhum outro lugar, assume um caráter auto-justificável: por assim dizer, o “gostar por gostar”. Mesmo que os momentos seguintes possam ser facilmente explicados dentro de uma clara racionalidade, o momento inicial, no qual se dá a revelação desse gosto, freqüentemente não o é. Se por um lado o iniciado é perfeitamente capaz de explicar e justificar suas atividades práticas, por outro, raramente é capaz de fazê-lo em termos de lhes explicar a gênese. Possivelmente esse espaço de imponderabilidade explica em boa medida o porquê de não haver um tipo característico de colecionador ou fã: potencialmente qualquer pessoa pode passar a se interessar por algo ou alguém sem que essa inclinação possa ser pré- determinada fora dos (amplos) limites colocados pelo meio. Ou seja, de haver maior probabilidade de, em nossa cultura, alguém se tornar fã, por exemplo, de um grupo de música brasileira ou americana que de outros grupos da Guatemala ou da Birmânia – pelo simples fato de serem esses os gêneros de música mais executados no país ou, do mesmo modo, passar a se interessar por ônibus urbanos e não por quebra-gelos....
Apesar de todas as entrevistas terem sido realizadas individualmente, foi possível tomar conhecimento, por esse meio, dos vínculos que o entrevistado mantinha com outros colecionadores ou fãs e concluir a inexistência de um tipo geral e característico de aficionado. Ainda que dentro de temas específicos possa haver traços comuns e recorrentes entre fãs e colecionadores,168 parece ser impossível predizer que fatores predispõem tais grupos de indivíduos a essas práticas de consumo. Elementos como idade, grau de escolaridade, renda, religião, ocupação profissional, etc, encontram- se perfeitamente distribuídos em meio ao aparentemente democrático mundo dos aficionados. Como único elemento destoante do conjunto, o fato de serem as mulheres tão raramente encontradas entre colecionadores apresenta-se como algo, no mínimo, intrigante. É possível suspeitar, como explicação para o caso, da existência de uma racionalidade tipicamente masculina inerente às práticas de colecionismo. Tal racionalidade, menos nata que adquirida por meio da educação e socialização, privilegiaria elementos técnicos, visuais e emulativos, caracteristicamente masculinos e inerentes à prática do colecionismo. Em “Ter e manter”, Philipp Blom explicita um ponto de vista análogo, observando que a grande desproporção existente entre colecionadores e colecionadoras teria, em última análise, relação com a psique dos dois gêneros. Considerando a clareza e humor de sua explicação, vale a pena expor quase na íntegra seu raciocínio:
(...) Embora em geral um número ligeiramente maior de mulheres se descrevam como colecionadoras, a maioria daqueles cuja vida é dominada por suas coleções, que vivem para elas e são dominados por suas exigências, é de homens. (...) Se as mulheres tivessem dominado as sociedades ocidentais nos últimos três mil anos, e relegado os homens à posição de úteis, apesar de
168 Marco Antônio de Almeida observa, por exemplo, uma interessante oposição
entre dois grupos de aficionados (os fãs do seriado “Jornada nas Estrelas” e de filmes de faroeste, respectivamente): “No caso dos trekkers, parece-me que a relação que se estabelece é com o futuro, com a possibilidade de se visualizar uma sociedade diferente e novas formas de sociabilidade; os filmes seriam o objetivo da agregação que se estabelece, por serem os ‘portadores’ desses novos valores, disseminados por produtos culturais ligados à série: livros, dicionários, palestras, etc. Já no caso dos cowboys o ethos do grupo parece gravitar em torno de valores relacionados à nostalgia, a busca de se remontar uma sociabilidade lúdica das matinês que habitam as memórias de cada membro do clube. Neste sentido, os filmes, mais que interesse principal, seriam o pretexto para se estar junto, reconstruindo uma identidade fundada em rituais que os tempos modernos parecem desprezar.” ALMEIDA, Marco Antônio. Trekkers e cowboys: algumas considerações sobre a recepção e o consumo audiovisual dos gêneros ficcionais. Recife: INTERCOM, 1998 (texto digitado). pp. 09-10.
abrutalhados, servos e amantes ocasionais, nosso mundo talvez fosse muito mais feliz, mais harmonioso e mais medieval. A perseguição obsessiva de uma idée fixe que exclui tudo o mais, e os fenômenos conseqüentes do isolamento, da competição feroz, a vontade superpoderosa de vencer, um atrofiamento da empatia, parecem associados à psique masculina. Certo tipo de mentalidade é necessário para que alguém devote sua vida inteira ao desenvolvimento de um movimento de relógio modificado, um pouco mais exato e que agüenta ser um pouco mais sacudido. (...) Esse tipo de mentalidade é necessário, esse isolamento voluntário e essa busca obsessiva de uma meta, apenas dessa meta, para prosseguir, alheio às conseqüências. (...) O espelho dessa obsessão é a penosa identificação e a estrita classificação de objetos em hierarquias e sistemas. As características de penúria emocional e a linguagem do colecionador se sobrepõem de muitas maneiras: agarrar-se às próprias emoções, sufocar, reter e não largar.169
E ainda, observando a curiosa relação do problema com o autismo, em particular uma de suas variações:
Todo o fenômeno de retirar-se para um mundo de padrões previsíveis, para longe de um ambiente de complexidades sociais e de conflitantes motivos de atenção e amor faz pensar em autismo, e, com efeito, a maioria dos que padecem dessa condição são meninos e homens. Enquanto o âmbito do autismo vai da leve excentricidade à mais grave incapacidade, um problema clínico em particular, a síndrome de Asperger, a menos grave das doenças autísticas, serve para ilustrar a afirmação. Esta síndrome se caracteriza por uma multiplicidade de sintomas: resistência a mudança, apego a padrões que se repetem, conversa afetada, mergulho em assuntos misteriosos, como horários de meios de transporte, que adquirem grande importância, e colecionar séries de objetos sem valor para outros. Enquanto a forma mais grave de autismo mostra apenas uma leve tendência masculina na distribuição dos casos, nos níveis mais altos de habilidade, no lado mais “normal” e funcional do espectro, a proporção pode chegar a 15 para 1. (...)170
Se entre colecionadores há, de fato, uma desproporção tão evidente entre os dois gêneros, o mesmo não pode ser dito em relação aos fã-clubes. Em alguns casos, em função da personalidade escolhida de fãs, a participação feminina pode ser muito maior. Contudo, é preciso observar uma diferença
que talvez explique esse caso, ao se perceber que os dois gêneros não parecem vivenciar o ídolo da mesma forma. As práticas das fãs (e também das colecionadoras) parece estar mais relacionada a fatores, por assim dizer, externos ao ídolo ou objeto colecionado que ao objeto ou ídolo em si mesmos. Se, do ponto de vista do fã de um grupo de rock interessa possuir grande conhecimento a respeito da técnica, dos contratos, da história e de uma infinidade de detalhes e curiosidades a respeito de seus ídolos, por sua vez, uma fã do mesmo grupo estará menos interessada nesses detalhes que na música, nas apresentações ou na vida dos integrantes como músicos e pessoas comuns.171
As entrevistas foram realizadas em sua maior parte durante o segundo semestre do ano de 2003 e segundo semestre de 2004. Característica comum às mesmas seria o caráter hermético do universo de coisas a ser discutido. O fato das temáticas serem necessariamente específicas (no sentido de sempre girarem em torno do objeto ou personalidade em questão) e centrais na vida do entrevistado, tornava necessária certa preparação e aquisição de conhecimento especializado por parte do entrevistador. De fato, como foi possível perceber mais tarde, era, do ponto de vista do entrevistado, muito relevante o fato do entrevistador conhecer com algum grau de profundidade o assunto em questão ou, também aspecto fundamental, perceber que o mesmo descobrira o que havia de especial e incomum naquilo que era sua especialidade. O surgimento de uma empatia entre as partes, tão necessária a qualquer entrevista, vinculava-se, assim, à existência de certa cumplicidade entre entrevistador e entrevistado. Ainda que este ideal possa sofrer grandes variações em função da personalidade do pesquisador ou do entrevistado, curiosa e agradavelmente a sensação de se estar discutindo um assunto de interesse mútuo foi constante em todos os encontros. É preciso lembrar, por um lado, que as entrevistas tratavam do assunto, por definição, de maior interesse por parte dos entrevistados. Por outro, e por conta do preceito antropológico de ver no outro e na diferença algo que pode ser tão cheio de sentido quanto aquilo que nos é familiar, o resultado sempre foi o de perceber todos os universos pesquisados como espaços realmente muito interessantes.