Parece sintomático, nesse sentido e além daquilo que já foi anteriormente observado, que as práticas e os espaços de colecionismo sejam tão sistematicamente definidos e circunscritos. Há uma evidente utilização, por parte dos entrevistados, de critérios capazes de definir e separar de maneira muito nítida o tema eleito de outros temas; aquilo que lhes diz respeito daquilo que não se refere ao assunto, etc. Um colecionador de forte apaches organiza, classifica, e adquire novas peças para sua coleção dentro de critérios que não permitem dúvida a respeito do que poderia ou não fazer parte da mesma. Um fã de filmes de faroeste, em meio à imensa lista do gênero, separa o tipo de filme que diz respeito à sua atividade de fã e colecionador. Ou ainda um colecionador de jipes Willys fabricados no ano de 1951 construirá um território muito nítido, dentro do qual se encontra tudo aquilo que se relaciona ao veículo: os próprios carros, publicações especializadas, oficinas de restauração, grupos de discussão na internet, etc. Nesses e em todos os outros casos há uma separação muito precisa entre o mundo que se refere à personalidade ou objeto e tudo aquilo que a isso não diz respeito. Separação que, em contraposição, não parece ser regra em outros campos da atividade humana: são freqüentes os pontos de imprecisão na ciência, nas artes, lazer, religião, etc.
Tal precisão no estabelecimento de um campo de atuação, comum a todos os colecionadores e fãs, parece ter relação com uma necessidade de que seus limites não sejam confundidos ou contaminados com nenhuma exterioridade capaz de alterar a estabilidade que possuem. Em outros termos, ao separarem com precisão aquilo que pertence daquilo que não pertence ao campo de seu interesse, colecionadores e fãs garantem às suas práticas uma autonomia que seria, em parte, causa de sua própria atividade. Esta, isolada do mundo exterior, passará a oferecer ao aficionado ou grupo de aficionados uma sociabilidade que em larga medida independe das alterações provocadas por causas seculares (modismos, leis de mercado, relações familiares, etc).
Uma vez que as práticas de colecionadores e fãs estejam relacionadas a uma estabilidade, autonomia e sociabilidade que, mais que em qualquer outro espaço da vida social, encontram na posse de uma coleção ou na dedicação a algum ídolo sua forma ideal; uma vez que isso aconteça torna-se
necessário definir e circunscrever de forma precisa os limites que separam tais práticas de outras existentes no mundo exterior. Assim, a mais imediata e óbvia distinção feita por um colecionador ou fã a respeito de seus temas se refere ao porquê de haver se interessado por aquele e não por qualquer outro tema.
As respostas para esta questão, além de enaltecerem as características notáveis e incomuns do objeto ou personalidade em questão, estabelecem uma separação entre o mundo das coisas comuns e o mundo do objeto ou personalidade eleitos. Entre outros grandes cantores, Elvis Presley não foi apenas grande; foi também um artista completo, dono de características que o tornavam um cantor incomparável já nos anos 50, etc. O grupo canadense Rush se notabiliza pela competência e preciosismo musical de seus membros, que por sua vez possuem uma vida pessoal exemplar, demonstram grande respeito pelos fãs, etc. Os veículos utilizados pela Viação Cometa S.A. se distinguiam não apenas por conta de seu design station coach, mas também pelo fato de serem fabricados pela própria empresa, terem sua corroceria fabricada em duraluminio, etc. Os carros fabricados pela Chrysler do Brasil entre os anos 60 e 80 (em particular o modelo Dodge Dart) não poderiam ser comparados a nenhum outro em termos de conforto, opulência, etc. Comum a todos os casos, a excelência ou notoriedade do objeto ou personalidade era também aquilo que os circunscrevia e distinguia de outros espaços da vida social.
Efetivamente não parece haver, entre fãs e colecionadores,204 casos de ambigüidade: ainda que não haja uma maior preocupação em definir formalmente características e limites, há sempre uma constituição ainda que intuitiva dos mesmos envolvendo características do objeto, tempo, raridade, comparação com objetos e personalidades “concorrentes”, etc. Muitas vezes, os problemas de definição e ambigüidade não se apresentam sequer como relevantes. Caso, por exemplo, dos aficionados por quadrinhos, entre os
204 Quando, efetivamente e não fosse o motivo apontado, tais ambigüidades
poderiam ser encontradas: um colecionador de filmes de faroeste poderia não se preocupar em estabelecer os limites de um gênero tão vasto e sujeito a imitações. No entanto, e de forma semelhante a outros colecionadores ou fãs, o campo alcançado por seu gosto é nítido o suficiente para excluir tudo que escape à sua própria definição de filmes de faroeste.
quais os limites do campo parecem ser tão nítidos do ponto de vista do grupo quanto imprecisos para qualquer não aficionado.
Uma vez eleito o ídolo ou objeto da coleção, passam a ser remotas as chances de que algo venha a alterar o caráter fechado e auto-suficiente do culto a alguma personalidade ou objeto. Tal estabilidade corresponderia, nesse sentido, ao propósito de perenidade buscados por fãs e colecionadores. Se, por um lado, há uma desconstrução da ordem estabelecida por meio do deslocamento funcional do objeto colecionado, por outro e ao mesmo tempo, há um enorme esforço de preservação da ordem em que o mesmo se encontrava originalmente inscrito. Não obstante esta oposição, tanto uma quanto outra tendência contribuem para que os espaços de sociabilidade construídos em torno das práticas de fãs e colecionadores se estabeleçam como espaços – tal como ocorre com museus, que são também coleções – cujo tempo (mas não apenas o tempo) como que perderia a linearidade de sua duração. Dito de outro modo, a eleição de um objeto ou personalidade por um grupo de colecionadores ou fãs implica sua inserção num “tempo mítico” que passará a ser por estes continuamente atualizado. De modo diverso ao que ocorre no mundo das coisas comuns, os objetos ou personalidades eleitas deixam de ter desenvolvimento e fim para existirem no domínio do “sempre”.
Ao serem criadas em torno de objetos ou personalidades imunes à ação do tempo, as práticas de colecionadores e fãs adquirem a autonomia e o fechamento que tão freqüentemente caracterizam o mundo dos aficionados. Desse modo, as atividades dos membros da Frota Estelar Brasil205 possuem como referência central a versão mais conhecida do seriado (a chamada “série clássica”). Ainda que outras quatro versões tenham sido produzidas para a televisão, bem como lançados longa-metragens, livros, atores da primeira série costumem correr o mundo dando palestras a respeito do seriado, etc; ainda assim todo o universo trekker gira em torno de um núcleo central; consensual, estável, não modificável, etc. A existência desse núcleo central forneceria aos fãs do seriado a sensação – central, conforme foi anteriormente observado – de estabilidade e auto-referenciamento capazes
205 É este o nome do maior e mais estruturado fã-clube do seriado americano Star
de fazer desse espaço e de sua sociabilidade um universo auto-suficiente. No caso de grupos dedicados a temas “históricos” o domínio do passado é ainda mais evidente. Os colecionadores e fãs de filmes de faroeste tenderiam igualmente a cultivar seu gosto e estabelecer suas práticas em torno de um passado que não se modifica206 e que, exatamente por não se modificar, é capaz de lhes fornecer essa espécie de salvo-conduto em meio a um mundo inteiro de coisas e situações que continuamente se alteram.
À semelhança do que ocorre no caso de temas que estejam diretamente ligados ao passado, também os aficionados por temas dotados de alguma contemporaneidade parecem proceder de acordo com princípios semelhantes. Um busólogo, um aficionado por quadrinhos, ou um fã do grupo Rush estarão empenhados em colocar suas atividades de colecionadores ou fãs, mesmo que seus objetos de culto ainda sejam produzidos ou ainda atuem como músicos, dentro de estruturas fechadas à prova de quaisquer riscos de alteração; tão mais interessantes e compensadoras quanto mais fechadas e avessas ao mundo exterior possam ser organizadas. Mesmo que níveis semelhantes de “consciência e intencionalidade” nem sempre se apresentem tão evidentes e explícitos, a perspectiva utilizada pelos próprios aficionados e revelada por meio de entrevistas demonstrou quase exatamente isso.
De resto, a predisposição de fãs e colecionadores em delimitarem espacialmente suas práticas, evitando maiores riscos de serem contaminadas pela ação do mundo exterior, encontra-se estreitamente vinculada às características inicialmente descritas na definição de tais práticas: (a) eleição de uma categoria de objetos (ou uma personalidade, no caso de fãs) em relação à qual o culto é organizado; (b) perfeita distinção entre o objeto de culto e suas versões impuras (imitações, covers, critérios de desclassificação, etc); (c) elaboração de uma explicação fundadora, capaz de justificar a singularidade e primazia do objeto eleito sobre todos os demais; (d) utilização de critérios classificatórios (hierárquicos, cronológicos, etc) para efeito de organização das práticas devocionais; (e) exercício de algum tipo de proselitismo ou divulgação dos significados particulares do objeto ou
206 Ou, dito de outro modo, um passado interpretado de uma única forma, e, nesse
personalidade eleita. Ou seja, como se as próprias características que definem a condição de um aficionado concorressem para a construção dessa espécie de “fechamento institucional” que marca suas diversas modalidades.
Ainda que outros significados possam ser retirados do conjunto das práticas de colecionadores e fãs, suas principais características indicam, como um todo, o princípio de uma prática que busca, antes de mais nada, separar e definir de forma nítida o mundo da coleção ou do ídolo do mundo exterior (em grande medida e naturalmente, também “freqüentado” por todo e qualquer aficionado). Nesse sentido, suas práticas só muito imperfeitamente poderiam ser tomadas como simples resultado de alguma compulsão irracional. Poderiam, antes disso, serem entendidas como sendo resultado consciente de práticas que buscariam construir o isolamento do conjunto de coisas colecionadas do universo de coisas exteriores. Tanto quanto as características acima indicadas, a redefinição ou reinvenção da personalidade ou objeto colecionado concorreria igualmente para o mesmo efeito, na medida em que esta sua reelaboração implica uma separação não apenas do mundo exterior quanto do próprio contexto original do objeto.
A hipótese de que os universos construídos por colecionadores e fãs são vividos como mundos satisfatórios porque isolados e auto-referenciados parece encontrar correspondência nos relatos fornecidos pelos entrevistados. Efetivamente e independendo da atividade, posição social, escolaridade, etc do entrevistado, o espaço reservado ao tema escolhido apresenta-se invariavelmente como algo melhor, mais interessante, divertido, etc, que quaisquer outras atividades disponíveis. Exatamente por serem estes os espaços sobre os quais existem maiores “quantidades” de liberdade, controle, satisfação, etc. Em outros termos, espaços únicos cujo maior fascínio vem talvez do fato de associarem o mais particular gosto individual ao maior controle possível sobre sua administração.
A característica satisfação “em si mesma” dos universos de fãs e colecionadores alimenta-se de uma aparentemente inesgotável exploração de suas possibilidades: independente da complexidade e extensão do tema escolhido – de canivetes a filmes de faroeste –, o risco de esgotamento da devoção ao objeto ou personalidade parece ser inexistente. A percepção, por
parte do aficionado, de serem quase infinitas as possibilidades de fruição do tema escolhido faz crescer seus vínculos com um mundo que, ao contrário de outros – os numerosos mundos da vida cotidiana, por exemplo – possui uma extensão exata e tacitamente definida como infinita.
Além da dedicação geral ao próprio tema, o gosto de um fã ou colecionador pode crescer em variadas proporções, especializando-se em algum ponto particular, relacionando-se com outros aficionados, montando páginas na internet, etc. Um colecionador de ônibus dividirá seu interesse pelo tema entre ônibus urbanos e rodoviários, empresas particulares, sistemas de transporte rodoviário de passageiros no mundo, sistemas de transporte rodoviário de passageiros no Brasil, etc. Um fã da dupla sueca Roxette terá acumulado em sua coleção mais de 40 CDs do grupo, não obstante a discografia oficial do mesmo se limitar a apenas 13 discos. Além das músicas propriamente ditas, sua atividade de fã irá se estender ao contato com outros fãs (no Brasil e no exterior), a acompanhar a trajetória pessoal dos músicos, etc. Em todos os casos, a certeza de se tratar de um espaço cuja exploração é inesgotável parece conferir enorme fidelidade e prazer aos membros. Acrescente-se que, com a popularização do uso da internet, tal caráter inesgotável assumiu contornos ainda mais satisfatórios do ponto de vista dos mais diversos aficionados. Se, como foi observado por alguns dos entrevistados, o uso da internet retira um sentido pessoal e particular à busca de informações e troca de correspondência entre os mesmos, por outro lado diminui incrivelmente custos de pesquisa, intercâmbio, cotação, etc. O conhecido conto de Jorge Luís Borges207 que trata da existência de uma biblioteca absolutamente completa se aproxima muito, nesses termos, do sentido de infinitude que a internet imprimiu aos também infinitos mundos do colecionismo.
Teoricamente qualquer coisa ou qualquer pessoa poderia vir a se tornar objeto de uma coleção ou tema de um fã-clube. Excluída talvez a fração de coisas ligadas à natureza, freqüentemente encontradas nos museus de mineralogia, paleontologia, etc, quase toda a parte restante de objetos colecionáveis tem como origem algum processo de fabricação seriada. A
207 BORGES, Jorge Luís. A biblioteca de Babel. In: Ficções. São Paulo: Abril
existência de uma produção em escala de objetos semelhantes ou praticamente iguais não parece interferir naquilo que é comumente encontrado como razão para iniciar uma coleção e, quase sempre, motivo para administrar uma coleção: respectivamente a singularidade do objeto e sua autenticidade. Segundo Philipp Blom
Foi a produção em massa que permitiu a uma grande variedade de pessoas se entregarem à fantasia, inundando o mundo com uma multidão de coisas baratas. Foi o momento de democratização do ato de colecionar. Enquanto a moda da naturalia e da artificialia exigia boas relações e dinheiro para adquirir espécimes exóticos de pássaros, pedras ou plantas, ou para comprar obras de arte, para encomendar a artistas obras originais e escavações a ladrões de túmulos, objetos produzidos em massa puderam ser colecionados pelas próprias pessoas às quais se destinavam: as pessoas comuns.208
E ainda, observando as mudanças trazidas pela produção em massa dos mais variados objetos e os inusitados desdobramentos que isso provoca no campo do colecionismo:
A graça dos artigos de consumo incessantemente produzidos tem seu lado negativo, é claro. A disponibilidade adquirida anda de mãos dadas com a perda da autenticidade, e a fome do verdadeiro, do único e do raro torna-se ainda mais forte. Colecionadores procuram edições limitadas, raros erros de impressão, primeiras edições, e objetos com defeitos interessantes justamente porque eles restabelecem sua singularidade, enquanto outros dão às costas para o mercado da produção em massa, e colecionam coisas que não são e não podem ser produzidas em massa: antigüidades e velhos pintores, conchas, borboletas. Nada, com efeito, é mais importante do que recuperar essa autenticidade, e por causa dessa fome do original sempre haverá um mercado fornecendo falsificações, coisas feitas para parecer aquilo que não são (embora elas também sejam, consequentemente, colecionadas). O colecionador e o fraudador vivem em incômoda proximidade.209
No caso da singularidade do objeto, parece ser sempre necessário que o aficionado perceba no mesmo alguma característica que lhe pareça absolutamente extraordinária; suficientemente extraordinária para que