reconhecida de desejar, uma vez que os objetos do desejo evanescem. Segundo Jayot, a partir de Neefs, a originalidade flaubertiana é conseguir tematizar a falta de desejo (“escritura do bovarismo”), desenvolvendo o “realismo da carência” e desnudando duas ilusões bováricas: 1) a crença na possibilidade de preencher o mundo e os seres (a partir de lembranças e desejos anteriormente projetados);; e 2) a crença de que buscar um outro lugar ou um outro alguém pode satisfazer o desejo (quando este sempre estará exilado do sujeito). O jogo quase nefasto do desejo seria, então, o bovarismo flaubertiano. Colocá-lo na escrita corresponderia ao que Neefs chama de “bovarismo da escritura”: “A escritura por si só constitui essa experiência do trabalho do desejo, que consiste em buscar alcançar um objeto que não se obterá, salvo aceitando-se produzir um outro”120 (JAYOT, 2007, p. 219). Com esses e outros autores, sobretudo a partir da década de 1970, omite-se Gaultier e despsicologiza-se o bovarismo. Lentamente, mesmo que evocado, o bovarismo vai se tornando arcaico, permanecendo mais no uso corrente do que no discurso crítico.
Assim, do percurso conhecido na percepção de Emma e do bovarismo na França – e consequentemente nas associações feitas entre esses temas em outros países europeus ou não – iniciou-se um caminho psicologizante e moralista após a escrita gaultieriana já em suas primeiras aparições. Misturou- se a crítica da personage com a do conceito, e reflexos disso ainda são percebidos.
3.3 Bovarismo e seu diálogo com outros conceitos
Existem ainda diálogos mais ou menos difusos estabelecidos entre bovarismo e outros conceitos, sejam do campo da psicologia/psicanálise (narcisismo, neurastenia, borderline, histeria, paranoia etc.), sejam surgidos a partir de obras literárias, autores ou personagens. Far-se-á uma breve notícia de associações com conceitos advindos de obras literárias e/ou autores. Jayot
120 “L’écriture elle-même constitue cette expérience du travail du désir, qui consiste à chercher atteindre un objet qui
mostra pontos de contato entre conceitos surgidos na/da literatura que também tematizam a leitura. O quixotismo, palavra criada a partir de Dom Quixote (obra de Miguel de Cervantes, publicada em 1604), designa um estado denominado por Jayot como “loucura da leitura”. Da mesma maneira, foi criado com base em uma obra literária, especificamente atrelado a uma personagem;; no entanto, a conceituação superou o referente, podendo ser evocada sem que se retorne à obra, e foi também tomada pelo discurso médico (em associação à monomania, melancolia, paranoia). Por essas semelhanças, existem críticos, especialmente do campo da psicologia, que praticamente equalizam os dois conceitos. Jayot (2007) afirma, todavia, que a lexicalização do termo “quixotismo” é mais evidente e, por isso, gera menos variações conceituais, por exemplo, em dicionários do que o ocorrido com o bovarismo. Ambos, porém, são teorias “exógenas”, surgidas fora da obra. O bovarismo apresenta sentidos relativos à compreensão mais direta da sufixação do nome – tal como ocorre com o quixotismo – acrescido do sentido teórico que Gaultier estabeleceu. Jayot clarifica que tanto quixotismo, “loucura da leitura”, quanto bovarismo, “doença da leitura”, tematizam a “literatura que reflete a literatura” (JAYOT, 2007, p. 290-291).
Duas classificações (monomania e mitomania) são citadas de Hatzfeld por Jayot. Dom Quixote dissociou-se da conotação negativa de “desregramento do imaginário”, representando, sobretudo, valorização de um ideal não passível de ser sustentado pelo real – “a monomania da justiça”. Emma é uma leitora que busca realizar seus sonhos pertencentes à “mitomania do amor”. Quixote é apresentado de modo claro desde o início da obra cervantina como um louco guiado por analogias entre a vida real e suas leituras de romances de cavalaria. Ainda assim, apresenta momentos de lucidez no que tange ao reconhecimento de suas analogias e, ao fim da trama, entende que deve parar de ler como forma de curar-se. Emma, no entanto, não é logo apresentada como leitora no romance. A relação entre leitura e males da leitura é feita, como aponta Jayot, de maneira sugestiva, sendo impossível atestar a loucura da personagem: “[…] a loucura de Emma se apresenta como
uma ameaça surda, crescente e dificilmente controlável”121 (JAYOT, 2007, p.
284). Além disso, Quixote tem um projeto de reviver a cavalaria;; Emma é incapaz de fundar seu próprio projeto: “O quixotismo condensa o desejo de ser herói e o status de herói [...]. O bovarismo permanece por esse olhar um quixotismo não realizado, ao menos no espaço diegético do romance”122
(JAYOT, 2007, p. 287).
Oblomovismo – surgido da sufixação de Oblomov, romance russo de Ivan Goncharov, publicado em 1859 – é um conceito endógeno, ou seja, foi criado pelo autor e consta no romance. Oblomov, personagem principal, segundo outra personagem, um amigo, sofre de oblomovismo: mal da existência sentido pelo protagonista. Oblomov não consegue manter interesse pela leitura, até mesmo a romanesca – ele sofre, segundo Jayot, da “doença da não-leitura”. Tanto bovarismo quanto oblomovismo nascem de obras-primas de suas épocas em seus países. Tais conceitos respondem, em contextos diferentes da França reacionária e da Rússia de Lenine, a atitudes a serem combatidas – entre os franceses, o bovarismo era criticado em favor da sociedade conservadora em relação à modernidade;; na Rússia, a apatia típica do oblomovismo era impedimento para o progresso social. Ambos, contudo, ligam-se ao aspecto nacional. Segundo Jayot, a dimensão social do oblomovismo perdura concomitantemente com a significação psicológica. Entende-se-lhe como preguiça ou apatia.
A leitura, “insígnia do desejo”, segundo Jayot (2007), é desaconselhada pelos médicos a Emma;; com Oblomov ocorre o oposto: sugere-se que a leitura possa ser um bom tratamento. Este (“o tédio”), buscando distanciamento dos outros e do mundo, não encontra motivações para ler, o que passa a significar falta de desejo, passividade, apatia, atrofia. Emma (“o desejo”), entretanto, buscando identificar-se com algum outro sem conseguir, realiza tal processo de maneira simbólica, pela linguagem. O tédio é sentido por Emma, mas de maneira diversa, já que seu tédio é quase material e negativo, resultante da excessiva vontade de viver. Para Oblomov, o tédio é harmonioso e não
121 ““[...] la folie d’Emma se présente comme une menace sourde, grandissante et difficilement saisissable”.
122 “Le donquichottisme condense le désir d’être héros et le statut d’héros [...]. Le bovarysme reste à cet égard un
incomoda: é a vida que atrapalha. O oblomovismo não suscita nada além do retorno a um momento do passado (no caso, a infância da personagem) que foi harmônico;; reflete a inação – “nada mais precisa ser vivido” (JAYOT, 2007, p. 359). Para Oblomov, o passado apaga o presente. O bovarismo é ativo, múltiplo, e representa o desejo de movimento e mudança – sendo, então, o presente que apaga o passado. E assim Jayot compara os três conceitos:
[…] Dom Quixote toma laranjas por maçãs quando Emma pede laranjas às macieiras, Oblomov se contenta em pedir laranjas às laranjeiras do domínio de sua infância em Oblomovka de onde ele reposiciona, em sonho, os pomares123 (JAYOT, 2007, p. 353-354).
Outras observações a esse respeito são feitas por Jayot. Termos como donjuanismo, robinsonismo estão ligados a uma gênese de obra literária, devido a um movimento comum no século XIX, o domínio da psicopatologia. É o caso de narcisismo – que, inclusive, já fora relacionado ao bovarismo –, sadismo e masoquismo. Essas palavras estão no uso corrente e, na maioria dos casos, desligadas da gênese literária – o mito de Narciso ou as obras de Masoch, por exemplo. O bovarismo, em sua polivalência (seja pela teoria gaultieriana, seja pela obra em si), está presente, como se pôde constatar, no discurso social, no da psicopatologia, não só do século XIX, e na crítica literária. Temáticas semelhantes, relativas ao desajuste psíquico e social, bem como à leitura, acabaram por encontrarem-se múltiplas vezes, sendo feitas equalizações, confusões e paralelos. Não será diferente essa percepção em algums pontos da crítica francesa e brasileira.
3.4 Considerações iniciais sobre a comunidade interpretativa brasileira: