2.2 O PLANEJAMENTO URBANO E NECESSIDADES
2.2.3 Breve panorama da informalidade da terra urbana no
2008, pela primeira vez na história, o número de pessoas que vive em
áreas urbanas ultrapassou o número de habitantes da zona rural. Estima-
se que dentro das próximas duas décadas, sessenta por cento das pessoas
do mundo residirão nas áreas urbanas (UN-HABITAT, 2008, p. 3).
Paradoxalmente, as cidades que atraem de forma avassaladora a
população, seja por sua riqueza, seja pelas oportunidades de emprego,
oferta de cultura, educação, saúde e realização pessoal, também são
universo de pobreza, exclusão e degradação ambiental, manifestando
nas favelas essa faceta cruel, onde faltam os serviços básicos, essenciais
à vida com dignidade.
Davis (2006, p. 34) apresenta números impressionantes sobre a
generalização de favelas no mundo e considera que o fenômeno foi
agravado pelo neoliberalismo a partir de 1970. Segundo o autor, embora
os favelados sejam apenas 6% da população urbana dos países
desenvolvidos, constituem espantosos 78,2% dos habitantes urbanos dos
países menos desenvolvidos, o que corresponde a um terço da população
urbana global.
Dados da ONU de 2005 confirmam que uma em cada três
pessoas que moram nas cidades do mundo em desenvolvimento viviam
em uma favela. Estudos recentes (UN-HABITAT 2008) indicam que
metade da população de favelas do mundo reside na Ásia, seguido pela
África e América Latina e o Caribe. O percentual de pessoas vivendo
em favelas nas áreas urbanas é mais alto na África, com 62% da
população urbana da região vivendo em favela ou sofrendo das
condições que caracterizam uma favela. Na Ásia Oriental, o percentual é
de 43%, na Ásia Sul, de 27%, e na Ásia Ocidental, de 24%. Na América
Latina e no Caribe foram classificados 27% da população urbana como
vivendo em condições de favela.
Os moradores de favela em muitas das cidades mais pobres do mundo experimentam privações múltiplas que são expressões diretas de pobreza: muitas das casas são impróprias para habitação e lhes faltam freqüentemente comida adequada, educação, saúde e serviços básicos. Freqüentemente, os bairros deles não são reconhecidos pelas autoridades. Em muitas partes do mundo, estes “invisíveis”, fazem parte das áreas não planejadas de cidades e estão crescendo
mais rápido que mais partes visíveis, planejadas. (UN-HABITAT, 2008, p. 52, tradução nossa).
As pesquisas demonstram que, em algumas cidades, moradores
de favela constituem a maioria da população urbana, e favelas são o tipo
mais comum de assentamento humano, dando origem às chamadas
“cidades de favela”, enquanto em outras cidades, favelas são pequenos
bolsões de privação fisicamente isolados do resto da cidade.Os estudos
revelam cidades inteiras com prevalência de favelas onde os serviços
urbanos, ou são inadequados para ricos e pobres de forma semelhante,
ou onde as casas de favela incluem uma grande maioria de casas na
cidade, e o crescimento de favela é tão alto quanto crescimento urbano.
Relatório da UN-HABITAT (2008) conclui que nem todos os
moradores de favela sofrem do mesmo grau ou magnitude de privação, e
nem todas as favelas ao redor do mundo são homogêneas nas suas
carências ou sofrem o mesmo destino, algumas são piores que outras.
Porém, as regiões mais pobres do mundo tendem a ser território de
favelas maiores, que sofrem privações múltiplas, incluindo as cinco
condições que caracterizam uma favela: falta de acesso à água tratada,
serviço de saúde pública, superpovoamento (mais de três pessoas por
quarto), alojamentos precários e posse insegura.
Como exemplo, o relatório aponta que em Angola, Congo, Guiné
Bissau, Sudão e Sierra Leone, os moradores de favela experimentam
uma combinação de privações, mas em países como Benin, Burundi,
Camarões, Gabão, Quênia, Gana e Senegal, moradores de favela tendem
a sofrer uma ou duas privações de abrigo.
O relatório também mostra que as mulheres chefes de família
sofrem desproporcionalmente
múltiplas privações de abrigo. No Haiti,
por exemplo, quase 60% das mulheres chefes de família sofrem pelo
menos três privações de abrigo, enquanto no Quênia e Nicarágua, um
terço das mulheres chefes de família experimenta quatro privações de
abrigo.
Em alguns países como Colômbia, Turquia e Zimbábue, as
privações mais comuns são relativas a densidades excessivas, já no
Egito e México os moradores de favela sofrem principalmente da falta
de serviços de saneamento público.
Entretanto, em alguns lugares, mesmo os moradores que estão
fora das favelas experimentam privações comuns às favelas, e a
população residente em uma favela do Cairo, por exemplo, pode ter uma
condição de vida melhor do que a população de fora da favela em
Lagos, Luanda e muitas outras cidades da África, no que diz respeito a
indicadores como saúde, educação e condições ambientais.
Os estudos da UN-HABITAT citam o Brasil e Colômbia como
exemplos de países em que as cidades grandes têm como principal item
de privação a densidade excessiva, enquanto nas cidades pequenas o
principal problema é a falta de saneamento básico. Dados da República
Dominicana e Honduras indicam condições semelhantes, com domínio
de superpovoamento nas cidades grandes e falta de serviço de
saneamento em cidades pequenas.
A Bolívia está entre os países na América Latina e o Caribe com
uma predominância alta de casas de favela, particularmente na capital e
outras cidades grandes, onde 60% das casas são favelas, comparadas
com 47% dentro das cidades pequenas e médias. Em Bangladesh, 79%
são casas de favelas, comparado com 67% em cidades pequenas. Nas
Filipinas ocorre uma prevalência moderada de casa de favela comparada
com o resto de Ásia, com 37.8 % de casas nas cidades grandes
classificadas como favelas, comparadas com 29.1% em cidades
pequenas.
Esses níveis diferenciados de desigualdade social e exclusão
podem afetar cidades e regiões adversamente, com referência ao
desenvolvimento social e econômico.
Os conselheiros da UN-HABITAT defendem que, identificando a
privação particular que é prevalecente em favelas, os governos e
autoridades locais podem focalizar os recursos públicos para a melhoria
de favelas mais efetivamente e contribuir para cidades mais
harmoniosas:
By disaggregating, the type and level of shelter deprivation in slums (i.e. severe or non-severe), policymakers can be in a better position to devise policy responses that are better focused and targeted. Furthermore, by categorizing slums according to the type or intensity of deprivation they experience, it is possible to better target interventions in cities and even within specific neighbourhoods. This information can be combined with other urban and slum indicators in order to make more informed decisions about how to improve the lives of slum dwellers and build cities that are more socially harmonious. (UN- HABITAT , 2008, p. 13).