3.2 MEDIDAS INSTITUCIONAIS E ADMINISTRATIVAS DO
3.2.6 Programa Habitar Brasil BID e Caixa Econômica Federal
caracterizados pelos fatos elencados anteriormente, deve-se também
destacar dois elementos fundamentais a este trabalho que são o
Programa Habitar Brasil BID, cujos recursos disponibilizados
financiaram as experiências objeto de estudo, e a instituição Caixa
Econômica Federal, parceira estratégica do Ministério das Cidades nos
programas de governo relacionados às questões urbanas.
O Programa Habitar Brasil BID surgiu em fevereiro de 2000,
como um dos caminhos para solução da carência de condições
adequadas de moradia e infraestrutura nas favelas brasileiras, por meio
da Secretaria de Desenvolvimento Urbano da Presidência da República,
atual Ministério das Cidades, que o implantou em trinta cidades,
mediante um acordo de empréstimo com o Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID).
O programa tem como objetivo elevar os padrões de
habitabilidade e de qualidade de vida das famílias, predominantemente
aquelas de baixa renda, que residam em assentamentos subnormais, bem
como estimular os governos municipais a desenvolver esforços para
atenuar os problemas dessas áreas, tanto nos efeitos como nas causas.
A proposta inovadora trazida pelo Programa Habitar Brasil BID é
que os projetos ocorram de forma integrada, resolvendo a situação das
áreas ditas “subnormais”, de forma a permitir que, a partir das
intervenções, essas comunidades transformem-se em bairros legais,
integrados ao restante da cidade, retirando-os da situação de exclusão
em que se encontram e, principalmente, que as famílias beneficiadas
alcancem um novo patamar de qualidade de vida.
O Regulamento Operacional do Programa Habitar Brasil BID
(2000, p.10) prevê como objetivo específico do subprograma
Urbanização de Assentamentos Subnormais:
Implantação de forma coordenada, de projetos integrados de urbanização de assentamentos subnormais, que compreendam a regularização fundiária e a implantação de infra-estrutura urbana e de recuperação ambiental nessas áreas, assegurando a efetiva mobilização e participação da comunidade na concepção e implantação dos projetos.
Isso significa dizer que a intervenção nas áreas irregulares
entendidas como prioritárias do município devem ser atendidas com
projetos integrados cujas ações contemplem solução para os problemas
da comunidade escolhida sob todos os aspectos, sejam eles sociais,
físicos, ambientais ou jurídicos. É importante salientar o aspecto
jurídico, pois é sobre essa dimensão que o trabalho é dedicado, mais
especificamente às ações de regularização fundiária.
O Regulamento do Programa prevê a regularização fundiária
como item que compreende o conjunto de ações técnicas e jurídicas,
incluindo o cadastramento físico da ocupação e o projeto de
regularização ou parcelamento, necessárias à outorga de direitos de uso
ou de propriedade dos lotes ou unidades habitacionais aos beneficiários.
Denomina o conjunto de ações sociais, urbanísticas ambientais e
jurídicas de Projeto Integrado de Urbanização.
O programa teve muitas dificuldades para ser implementado,
desde o início, na fase de construção dos projetos, na constituição das
equipes executoras e, até mesmo, na seleção das áreas prioritárias. O seu
regulamento operacional, estabelecido por consultores do BID, é
extremamente burocrático, e os seus procedimentos operacionais,
carregados de controles excessivos e sujeitos a deliberações de diversas
instâncias: Município, CAIXA, Ministério, BID e Órgãos de Controle.
Em razão desses fatores, aliados à descontinuidade administrativa
nos municípios, pouca capacitação institucional e contingenciamento de
recursos, os projetos custaram a deslanchar no País, e muitos ainda estão
em andamento até hoje (2009), com dificuldades de conclusão.
Contudo, são experiências diferenciadas daquelas até então
vivenciadas no País no âmbito da urbanização de favelas e que
trouxeram relevantes aprendizados para todos os envolvidos.
A Caixa Econômica Federal (CEF), é uma empresa financeira
pública, com caráter de Banco Múltiplo, que atua na área de
desenvolvimento urbano desde a década 1930, numa dupla condição de
banco comercial e agência pública de fomento. Na década de 60, com a
criação do Banco Nacional de Habitação (BNH) e do Sistema
Financeiro de Habitação (SFH) a CAIXA passou a ocupar o papel de
principal agente financeiro de habitação do País.
A partir de 1986, com a extinção do BNH, assumiu também o
papel de administradora do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço
(FGTS) e de principal órgão de fomento ao desenvolvimento urbano,
como braço operacional de órgãos públicos federais para os programas
de habitação, saneamento e infraestrutura urbana.
A atuação na área de desenvolvimento urbano foi crescendo
gradativamente e teve um grande impulso em 1996, a partir da
assinatura de convênios para o repasse de recursos do Orçamento Geral
da União (OGU). Desde então, a empresa acompanha e fiscaliza a
execução dos objetos contratados com recursos de diversos órgãos
federais tais como o Ministério das Cidades, Ministério da Justiça,
Ministério do Esporte, Ministério do Desenvolvimento Agrário,
Ministério do Planejamento e Gestão, Fundação Nacional do Meio
Ambiente, Ministério do Turismo, dentre outros.
Por meio de suas agências e das Gerências e Representações de
Desenvolvimento Urbano existentes em todos os estados, a CEF atua de
forma crescente na esfera pública, prestando um conjunto cada vez
maior de serviços especializados em desenvolvimento urbano e gestão
pública em todos os municípios brasileiros.
As Gerências e Representações de Desenvolvimento Urbano
(GIDUR e REDUR) são unidades da estrutura administrativa da CEF,
formadas por equipes multidisciplinares, compostas por técnicos sociais,
administradores, economistas, advogados, engenheiros e arquitetos, que
têm como principais atividades: análise e aprovação de projetos; análise
de custos; acompanhamento da execução de obras e serviços; liberação
financeira e aprovação de prestação de contas, dentre outras.
A empresa é agente financeiro de diversos programas federais na
área de desenvolvimento urbano, como o Programa Habitar Brasil BID,
e, em função disso, é coadjuvante dos ministérios e entidades federais,
na construção e implementação de diversas políticas públicas do
segmento de saneamento, infraestrutura, habitação e gestão pública.
Na sua atuação em desenvolvimento urbano a CEF busca
assegurar: a participação efetiva da comunidade na concepção e na
decisão das soluções a serem adotadas nos referidos programas, a
observância das diretrizes estabelecidas pelas políticas e programas
governamentais, a execução de projetos conforme aprovados pelos
órgãos públicos e a correta aplicação de recursos públicos (CEF, 2008).
Constata-se que nem sempre esses objetivos são alcançados em
face da submissão das entidades repassadoras de recursos aos interesses
dos municípios, pela falta de vontade política e pouca capacitação
municipal, bem como pelos entraves burocráticos e políticos que sofre
uma instituição governamental de grande porte. Contudo, a sua atuação
nesse seguimento é bastante reconhecida, seja pelos órgãos
governamentais de controle como o Tribunal de Contas da União
(TCU), seja pela própria população, que a vê como uma entidade forte e
confiável.
Ao mesmo tempo, a empresa é também objeto de críticas e
pressões sociais, pela burocracia excessiva e pelo fato de que, sendo o
principal braço operacional do Governo, incorpora a responsabilidade
pelo atendimento da demanda de habitação, saneamento e infraestrutura
no País, questões que estão longe de serem resolvidas.
4 MARCO LEGAL
Neste capítulo, apresenta-se o marco legal existente em apoio às
ações de regularização fundiária, contemplando o Estatuto das Cidades e
legislação subsequente.
São também apresentados os instrumentos urbanísticos e
jurídicos disponíveis para atuação em regularização fundiária, tanto os
preventivos – de ampliação de acesso à terra urbana, como aqueles de
caráter essencialmente curativos.
Pela influência nas ações de regularização fundiária, são
efetuadas ainda neste capítulo duas reflexões que necessariamente se
apresentam à discussão: o contraponto entre a função social da
propriedade e o direito individual de propriedade, assim como a
relevância do Plano Diretor Municipal, para onde culmina toda a
responsabilidade da política de desenvolvimento urbano.
No documento
Efeitos da regularização fundiária: estudo de caso em assentamentos precários de Santa Catarina
(páginas 88-93)