5.4 EFEITOS DA REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA URBANA
5.4.2 Efeitos indesejáveis e de impacto negativo
Embora se espere somente efeitos positivos e eles sejam os mais
diversos como exposto anteriormente, são observadas situações em que
a regularização fundiária pode trazer efeitos indesejados e negativos.
Paradoxalmente, existem casos em que se verifica o aumento da
insegurança na posse ao invés da garantia de segurança.
Rosa (2007, p. 107) constatou a insegurança trazida por um dos
projetos estudados. A autora verificou que os moradores que receberam
casa não estavam dispostos a pagar tanto tempo por ela e sentiam-se
inseguros em assumir o pagamento. A maior preocupação dos
moradores era em relação ao pagamento do imóvel e a situação do
terreno. Famílias que tinham abrigo, mesmo sem todas as condições
adequadas, passaram a ter uma moradia mais adequada, mas também
uma dívida que as deixa inseguras:
[...] As regras colocadas pelo projeto de habitação em que as negociações de compra, venda e aluguel da casa devem passar pelo consentimento da Prefeitura garantem a esta um controle sobre as pessoas, mas não agrada aos moradores que mantêm uma relação de dependência e se sentem desconfortáveis com a idéia de morarem em uma casa da qual não são donos. Mesmo os moradores que pagam só terão autonomia em relação à propriedade assim que quitarem sua dívida e receberem a escritura. (ROSA, 2007, p. 107, grifo nosso).
Cardoso e De Oliveira (2007) também averiguaram em alguns
projetos analisados que a segurança na posse não se efetivou, e as
famílias não usufruem com segurança os seus lares.
Durand-Lasserve e Selod (2007) também identificam essa
ambiguidade e alertam que a titulação na posse pode ter efeito contrário,
pois ao invés de aumentar a segurança na posse, pode diminuí-la. Citam
como exemplos dessa situação:
a) A formalização promove conflitos relativos ao uso da terra e
pode conduzir ao despejo de algumas casas por outro agente
que consegue regularizar a propriedade para si em detrimento
de outros ocupantes que têm uma posição econômica menos
privilegiada ou que não podem apresentar todos os
documentos exigidos para a posse;
b) Algumas casas não são elegíveis, e somente os donos são
beneficiários ou, ainda, não contam com meios para pagar os
custos da legalização;
c) Os Inquilinos, normalmente mais pobres entre os urbanos
pobres, podem ser despejados pela elevação do aluguel de um
imóvel formalizado;
d) Aqueles que recentemente formalizaram suas casas podem
concordar em vender a propriedade deles em condições
adversas, pois o poder de pechincha entre o dono do imóvel
regularizado e o investidor são desequilibrados;
e) Lotes regularizados às vezes são vendidos a um preço muito
baixo. Isso pode ser observado quando casas formalizadas
recentemente não podem obedecer a normas de construção e
padrões, e os moradores são expostos à expropriação (por
exemplo, quando o lote é muito pequeno para loteamentos).
f) A formalização pode ser problemática se é implementada com
diferentes arranjos. Por exemplo, quando se concede títulos de
propriedade para áreas que não podem acomodar famílias
extensas ou se concede a propriedade somente para um
determinado grupo, a titulação pode dividir a população em
dois grupos: casas com e casas sem direitos de terra. Na
presença de direitos habituais com contratos sociais já
estabelecidos, a titulação pode aumentar insegurança, pois não
se sabe qual direito prevalecerá o contrato social ou o novo,
via titulação formal.
Smolka (2003, p. 275) alerta para os efeitos imprevistos não
antecipados e indesejáveis da regularização fundiária. Cita o aumento do
preço de loteamentos ante a simples perspectiva da regularização:
“Assim, como em qualquer outro segmento do mercado de terras, os
valores presentes refletem e incorporam as expectativas de uso futuro do
terreno”.
O autor lembra também que a perspectiva de regularização pode
ser um atrativo para a irregularidade na medida em que há evidências
que apontam para a chegada da população aos assentamentos precários,
justamente no período em que os assentamentos são objeto de algum
programa de regularização, ou, então, antecedem os períodos eleitorais
de candidatos cuja plataforma contempla a regularização fundiária.
Souza (2004, p. 258) revela um ponto considerado por ele mesmo
polêmico, mas que pode ser também um efeito negativo da
regularização fundiária: o possível risco de fortalecimento adicional dos
traficantes na esteira da conversão de favelas em “condomínios”, como
decorrência da aplicação do usucapião coletivo, já que uma vez
declarada a favela como “condomínio” , “a polícia não poderia mais
entrar”. O autor, ao mesmo tempo que considera a possibilidade, lembra
que a polícia já não entra em muitas favelas, e que a instituição do
condomínio não implica que as favelas se tornarão invioláveis,
sugerindomedidas inteligentes e progressistas de segurança pública que
viabilizem ações de segurança nessas situações.
Fernandes (2003a) alerta para a faceta perversa de alguns dos
programas
de
regularização
implementados
somente
para
reconhecimento dos direitos de propriedade. Para ele, os programas
devem prever a integração socioespacial dos assentamentos e serem
formulados de acordo com políticas socioeconômicas compreensivas,
pois, caso contrário,
[...] os programas podem ter efeitos indesejados, trazendo novos encargos para os ocupantes, tendo impacto pouco significativo na redução da pobreza urbana e o que é ainda mais importante, reforçando diretamente o conjunto de forças econômicas e políticas que tem tradicionalmente causado a exclusão social e a segregação espacial. (FERNANDES, 2003a, p. 187).