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6.1 – BREVE PERCURSO DAS PARTES QUE COMPÕEM A TESE

A literatura infantojuvenil foi por muitos anos relegada à condição de inferior ou secundária e só há pouco tempo passou a ser estudada e visibilizada pela academia. O viés da tradução de LIJ não poderia ser diferente. Nos últimos 30 anos a área passou a despertar o interesse de estudiosos, deixando de pertencer exclusivamente ao âmbito de bibliotecários e pedagogos.

Juntamente com aspectos organizacionais da pesquisa apresento questões pertinentes à literatura/tradução de LIJ no primeiro capítulo desta tese, momento em que situo o percurso delineado por estudiosos das áreas dos Estudos da Tradução e dos Estudos de LIJ, campos de pesquisa em ascensão que contribuiram para que o objeto em estudo ganhasse evidência. O qualificativo infantil atribuido à literatura em

análise é percebido como colaborador na criação de estereótipos relegando o gênero à condição de superficial e simplista, voltado prioritariamente para questões utilitárias, argumento assentado em aspectos históricos que conectam a literatura em apreço a instituições como igreja, família e escola, pilares da sociedade burguesa na qual surgem as obras primeiramente direcionadas a crianças e jovens. Vista como um gênero sem qualquer preocupação com aspectos estéticos e artísticos, dado o público a que se destina, diferentemente da condição atribuída à literatura feita para adultos, considerada canônica e superior, a literatura infantojuvenil sofre interferências diretas dos adultos, estes responsáveis pela escrita, publicação, tradução, inserção e distribuição das obras no mercado, deixando para as crianças e jovens a recepção pouco contestadora de obras que passam por intervenções outras, ainda que muitas vezes necessárias para a manutenção e existência do gênero.

Essas discussões perpassam o primeiro momento do trabalho acrescidas de dados sobre o mercado editorial que apontam o significativo crescimento do gênero, um filão apontado por pesquisas de instituições especializadas em levantamentos sobre o mercado livreiro. Nesta mesma direção crescem as publicações de livros teóricos especializados em tradução de LIJ. Ainda neste momento são disponibilizados dados sobre as pesquisas realizadas no Brasil dentro da interface desta pesquisa, qual seja a dos Estudos da Tradução, mais especificamente da tradução de LIJ com base em corpora. Quando confrontados os dados levando-se em conta o período investigado que foi de vinte anos, comprova-se um crescimento ainda tímido nos estudos da área.

No segundo capítulo perfaço o roteiro de teóricos da área em busca de uma conceituação para a literatura infantojuvenil, dos pontos de intersecção entre os vários discursos e das dificuldades encontradas para estabelecer o objeto em estudo. Tal atitude também se aplica à definição do gênero aventura. Os argumentos do capítulo inicial agregados às ponderações acerca da definição de literatura infantojuvenil permitem um olhar mais aprofundado acerca da complexidade e das peculiaridades do gênero, estas já apontadas por Hunt (2010), Jobe (1996) e Shavit (1986). As particularidades da tradução de LIJ são apontadas nesta seção, entre as quais destaco a relação assimétrica/leitor dual em que o adulto se interpõe em todas as etapas que compõem a (tradução de) literatura infantojuvenil; a multiplicidade de funções, dado apontado pela inserção/pertencimento do gênero aos sistemas sócio-educacional e literário e permeado de

valores por eles atribuídos; e a manipulação textual, percebida nas liberdades tomadas em virtude da condição periférica do gênero. Cortes, omissões, acréscimos, adaptações, ajustes de linguagem determinados por questões ideológicas são alguns dos aspectos discutidos nesta seção.

Ainda neste capítulo questiono o papel do tradutor de LIJ diante da complexidade de questões apresentadas na tradução de LIJ. É neste sentido que proponho um olhar mais aprofundado sobre esta figura a fim de investigar sua presença discursiva na tradução. Para chegar a tal ponto me aproprio das discussões apresentadas por Baker (2000), Hermans (1996 a/b), O‘Sullivan (2006) e Schiavi (1996). Em perspectivas diferentes os teóricos direcionam os debates a um ponto comum: o apontamento de que uma segunda voz se faz notar na tradução, uma voz que está sempre presente, mas que nem sempre aparece de forma explícita: a voz do tradutor.

No terceiro capítulo me dedico a questões acerca da tradutora. Na primeira seção descrevo as atividades desenvolvidas por Clarice Lispector de maneira mais abrangente através de dados biográficos, recortes de documentos pessoais e pesquisas acadêmicas evidenciando a importância da sua produção literária e o reconhecimento no âmbito acadêmico nacional e internacional, para então me dedicar com mais afinco à atividade de tradutora discutindo aspectos mais específicos nas seções seguintes. A atividade de tradutora é exposta sob o ponto de vista externo, qual seja o da crítica e interno, ou seja, a partir do olhar da própria tradutora na seção em que é analisada a crônica ―Traduzir procurando não trair‖, documento em que a tradutora expõe o seu olhar acerca da atividade tradutória.

Ao quarto momento da tese compete a parte metodológica utilizada na pesquisa. Aqui são apontadas as contribuições da Linguística de Corpus no desenvolvimento dos Estudos da Tradução com base em corpus, atentando para a legitimidade das traduções, apontadas por Baker (1993) como distintas dos outros textos e dignas de terem suas diferenças investigadas e catalogadas. Seguem as seções sobre as diretrizes utilizadas na digitalização, tratamento e alinhamento dos textos, bem como as ferramentas utilizadas para tais etapas, além da sistematização dos dados e dos meios que conduziram à averiguação da voz da tradutora através das estratégias de tradução.

Ainda neste capítulo seguem as reflexões acerca das estratégias de tradução apontando as diferenças conceituais quando se trata de estratégia a depender do foco: no processo ou no produto. Entre os teóricos marco a relevância dos trabalhos de Chesterman (1997), Baker

(2011) e Molina e Hurtado Albir (2002), que serviram como parâmetro para a apresentação heurística das categorias utilizadas nesta tese, estabelecidas a partir dos principais desafios encontrados por tradutores na tradução de LIJ almejando à produção de textos conformados às normas da comunidade receptora. Por fim, são apresentadas sete estratégias que hipotetizo como meios para a detecção da voz da tradutora. São elas: 1 - amplificação narrativa, 2 - amplificação lexical, 3 - transposição, 4 - tradução de dialetos/línguas ficcionais e termos/expressões estrangeiros, 5 - mudança de coesão (conectores), 6 - coesão lexical e 7 - antecipação. No capítulo cinco, referente aos resultados e à análise dos textos- fonte e alvo, realizo um cotejamento do corpus atentando para a análise qualitativa dos dados. No entanto, faço inicialmente uma exposição de dados quantitativos relativos à estatística global gerados a partir do Wordlist do Wordsmith Tools 6.0. Os dados são analisados e suas implicações são discutidas na comparação texto-fonte e texto-alvo, procurando compreender as diferenças apontadas, tais como número de tipos e formas, razão tipo/forma, número de sentenças e parágrafos, entre outros. Elementos paratextuais são brevemente discutidos e norteiam alguns esclarecimentos acerca das divergências entre os dados. Finalmente, me atenho a um olhar mais centrado nas estratégias de tradução visibilizadas nas obras que compõem o corpus. Nos três momentos, quais sejam, os olhares sobre cada um dos pares de obras, parto de uma visão mais panorâmica da distribuição lexical através da análise de listas de palavras-chave para, então, identificar, ainda que de forma intuitiva, elementos mais específicos que possam conduzir à voz da tradutora.

Na última parte do trabalho faço um breve percurso acerca dos aspectos desenvolvidos ao longo da tese. Em seguida, retomo as perguntas de pesquisa a fim de confrontá-las com os resultados obtidos e discutir questões concernentes à voz da tradutora. As limitações/lacunas da pesquisa e contribuições a serem dadas por futuros pesquisadores também fazem parte deste capítulo.

6.2 – PERGUNTAS DE PESQUISA: RESPOSTAS E