3. PODER E ATIVIDADE ELEITORAL
4.6 BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE OS PROCEDIMENTOS ELEITORAIS
CONSULTIVOS
Considerando procedimento como um conjunto de atos para determinado fim, durante as atividades acima indicadas, inúmeros são os procedimentos jurisdicionais e administrativos submetidos à apreciação pela Justiça Eleitoral188. Embora haja diversas divergências doutrinárias acerca da natureza jurídica de vários desses procedimentos, não é objetivo desse trabalho resolver essas questões. Para o momento, basta elencar a existência de alguns desses procedimentos para ilustrar a complexidade das atividades eleitorais.
a) Procedimentos relativos ao cadastro eleitoral: requerimento de alistamento eleitoral, requerimento de atualização de situação de eleitor, procedimento de duplicidade ou pluralidade de inscrição eleitoral, requerimento de dispensa de multa eleitoral, requerimento de regularização de inscrição cancelada ou suspensa etc.;
188
Há diversas divergências doutrinárias acerca da natureza jurídica de vários procedimentos realizados em sede de Justiça Eleitoral. Só para citar alguns exemplos: o procedimento de alistamento, o procedimento de dupla filiação partidária e as prestações de contas. Não é objetivo desse trabalho resolver essas questões. Para o momento, basta elencar a existência desses procedimentos.
b) Procedimentos relativos aos partidos políticos: Pedido de registro de Partido Político, procedimento de dupla filiação partidária, Ação de declaração de justa causa, prestação de contas anual de partido político; c) Procedimentos específicos relativos ao pleito: Requerimento de Registro de
Candidatura, Ação de Impugnação do Registro de Candidaturas, Representação por Propaganda Irregular, Representação por Propaganda Antecipada, Reclamação Eleitoral, Pedido de Direito de Resposta, Representação por Captação Ilícita de Sufrágio, Ação de Investigação Judicial Eleitoral, Ação de Impugnação de Mandato Eletivo, Recurso Contra a Diplomação, Ações Penais Eleitorais etc.
A lista acima é exemplificativa e não é o momento de explicar tais procedimentos. O objetivo de elencá-los é apenas para ilustrar que todos eles fazem parte de um contexto maior: o processo eleitoral. Em tópicos seguintes demonstraremos que esses procedimentos só podem ser devidamente compreendidos se vistos como meio para um fim maior, que é a realização de uma eleição cujo resultado seja livre de qualquer abuso de poder político ou econômico. Dizer que o processo eleitoral é apenas algumas das atividades acima, ou que há procedimentos que importam mais do que outros é ver o fenômeno eleitoral político apenas de forma parcial. Pretendemos demonstrar que um estudo sério do processo eleitoral não se resume à análise de algumas das ações acima.
Além de apreciar os procedimentos elencados, a Justiça Eleitoral necessita, para realizar uma eleição, disciplinar uma série de questões. A competência para isso é dada ao Tribunal Superior Eleitoral pelo inciso IX, do art. 23, do Código Eleitoral189 e na forma do Art. 105 da Lei das Eleições190.
As resoluções expedidas pela Justiça Eleitoral não podem inovar no mundo jurídico. A importância da expedição dessas resoluções de caráter interpretativo e regulatório a cada eleição dá-se em função da linguagem aberta e de conteúdo político que caracteriza as normas constitucionais e processuais eleitorais, da eventual
189
Art. 23 - Compete, ainda, privativamente, ao Tribunal Superior [...] IX - expedir as instruções que julgar convenientes à execução deste Código.
190
Art. 105. Até o dia 5 de março do ano da eleição, o Tribunal Superior Eleitoral, atendendo ao caráter regulamentar e sem restringir direitos ou estabelecer sanções distintas das previstas nesta Lei, poderá expedir todas as instruções necessárias para sua fiel execução, ouvidos, previamente, em audiência pública, os delegados ou representantes dos partidos políticos.
deficiência da legislação eleitoral elaborada pelo Poder Legislativo, e do emprego de novas tecnologias ao processo eletrônico (elaboração e utilização de sistemas de dados que vão auxiliar Partidos Políticos e Justiça Eleitoral na procedimentalização do pleito com o objetivo de torná-lo mais rápido e eficiente). A dinamicidade dos valores sociais e políticos, assim como a evolução acentuada das técnicas de comunicação aplicáveis ao processo eleitoral (e aqui vale ressaltar que o processo eleitoral é essencialmente dialético e dialógico) imprimem à legislação uma plasticidade tal que a cada eleição são firmadas novas interpretações no momento de aplicação do direito aos casos concretos. Muitas vezes, são verificadas verdadeiras mutações normativas. Outras, o uso da tecnologia, das técnicas de publicidade e marketing e a própria engenhosidade humana permitem a elaboração de meios de propaganda que desafiam os limites traçados pela lei e põem em risco a legitimidade do resultado do pleito e a liberdade de escolha do eleitor. As resoluções, então, vão determinar o alcance dos enunciados normativos com base na experiência e nos julgados verificados das eleições anteriores e nos valores políticos predominantes naquele momento, assim como estabelecer novos procedimentos que tragam modernidade ao processo.
A maior conclusão dessas observações é que a atividade legislativa da Justiça Eleitoral não é de menor importância. Não podemos classificá-la como atividade atípica
realizada pelo Judiciário Eleitoral. Sem essas resoluções, a eleição seria impraticável.
Trata-se, por isso, de atividade imprescindível.
Apenas para ilustrar, tomemos como exemplo as Eleições Municipais de 2012. Além da Constituição Federal, Código Eleitoral (Lei nº 4.737/1965), Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997), Lei nº 9.096/1995 (Lei dos partidos políticos) e da Lei Complementar nº 64/1990 (Lei das Inelegibilidades), foi necessária a expedição das seguintes resoluções pelo Tribunal Superior Eleitoral: 23.378/2012 (sobre a utilização e geração do horário gratuito de propaganda eleitoral reservado aos partidos políticos e coligações nas eleições de 2012), 23.376/2012 (sobre a arrecadação e os gastos de recursos por partidos políticos, candidatos e comitês financeiros e, ainda, sobre a prestação de contas nas eleições de 2012), 23.373/2011 (sobre a escolha e o registro de candidatos nas eleições de 2012), 23.372/2011 (sobre os atos preparatórios, a recepção de votos, as garantias eleitorais, a justificativa eleitoral, a totalização, a divulgação, a proclamação dos resultados e a diplomação para as eleições de 2012), 23.370/2011 (sobre a propaganda eleitoral e as condutas ilícitas em campanha eleitoral nas eleições de 2012), 23.367/2011 (sobre representações, reclamações e pedidos de resposta
previstos na Lei nº 9.504/97), 23.365/2011 (sobre a cerimônia de assinatura digital e fiscalização do sistema eletrônico de votação, do registro digital do voto, da votação paralela e dos procedimentos de segurança dos dados dos sistemas eleitorais), 23.364/2011 (sobre pesquisas eleitorais para as eleições de 2012), 23.363/2011 (sobre a apuração de crimes eleitorais), 23.362/2011 (sobre os modelos de lacres para as urnas, etiquetas de segurança e envelopes com lacres de segurança e seu uso nas eleições de 2012), 23.359/2011 (sobre os formulários a serem utilizados nas eleições de 2012), 23.358/2011 (sobre as cédulas oficiais de uso contingente para as eleições de 2012) e a 23.341/2011 (instituiu o Calendário Eleitoral para as Eleições de 2012).
A quantidade de resoluções acima assusta. Não podemos esquecer que os Tribunais Regionais também editam resoluções quando necessário.
Contudo, situações surgem que ainda deixam dúvidas aos participantes do processo eleitoral sobre a maneira como uma norma eleitoral deve ser interpretada. Para esses casos, a Justiça Eleitoral possui a competência de responder, sobre matéria eleitoral, às consultas que lhe forem feitas em tese pelos legitimados previstos no Código Eleitoral191.
As consultas mostram-se importantes não apenas para elucidar a dúvida do consulente. Na verdade, todas as observações feitas sobre a atividade normativa da Justiça Eleitoral podem aqui ser aplicadas. Bem pensadas as coisas, não é no indivíduo que se pensa, mas em todo o processo eleitoral. O Tribunal pode entender que alguma questão consultada merece maior atenção e, por isso, editar uma resolução sobre o tema consultado para evitar problemas durante a disputa eleitoral. A consulta é, então, uma maneira de permitir à sociedade alertar a Justiça Eleitoral sobre alguma questão mais sensível, merecedora, talvez, de disciplinamento próprio.
Para realizar uma eleição, a Justiça Eleitoral desempenha, como atividade fim, não apenas atividades de cunho jurisdicional, mas também de cunho administrativo, legislativo e consultivo.
191
Código Eleitoral (Lei 4.737/1965) Art. 23 - Compete, ainda, privativamente, ao Tribunal Superior [...] - XII - responder, sobre matéria eleitoral, às consultas que lhe forem feitas em tese por autoridade com jurisdição, federal ou órgão nacional de partido político. Art. 30. Compete, ainda, privativamente, aos Tribunais Regionais: [...] VIII - responder, sobre matéria eleitoral, às consultas que lhe forem feitas, em tese, por autoridade pública ou partido político.