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3. PODER E ATIVIDADE ELEITORAL

3.3 CONSTITUCIONALISMO

LUÍS ROBERTO BARROSO,em seu Curso de Direito Constitucional, inicia seus estudos sobre o Constitucionalismo de forma irretocável:

No princípio era a força. Cada um por si. Depois vieram as famílias, as tribos, a sociedade primitiva. Os mitos e os deuses – múltiplos, ameaçadores,

vingativos. Os líderes religiosos tornam-se chefes absolutos. Antigüidade profunda, pré-bíblica, época de sacrifícios humanos, guerras, perseguições, escravidão. Na noite dos tempos, acendem-se as primeiras luzes: surgem as

leis, inicialmente morais, depois jurídicas. Regras de conduta que reprimem

os instintos, a barbárie, disciplinam as relações interpessoais e, claro, protegem a propriedade. Tem início o processo civilizatório. Uma aventura

errante, longa, inacabada. Uma história sem fim. 76

Eis a razão do constitucionalismo, consubstanciado na busca de mecanismos e instituições para o controle do poder político77, com uma ideologia avessa a governos tirânicos, em qualquer tempo e lugar.78 Desvincula-se, desde já, constitucionalismo com processo formal de elaboração de uma constituição. Havendo uma sociedade politicamente organizada, haverá uma constituição, é dizer: um conjunto de normas, escritas ou não, que trate de sua estrutura e organização. Na verdade, embora o verbete

constitucionalismo tenha surgido há pouco tempo, traduz ideia vetusta. Platão, por

exemplo, já concebia a ideia de um Estado constitucional e de leis protetoras dos governados frente aos governantes. 79

Conquanto doutrina autorizada relacione constitucionalismo com limitação do poder governamental, “[...] indispensável à garantia dos direitos em dimensão estruturante da organização político-social de uma comunidade [...]” 80, há quem prefira tratá-lo em dois sentidos:81 a) um amplo, relacionado ao fato de que todas as comunidades, independentemente de tempo e lugar, possuem organização mínima e normas (escritas ou não) conferindo poderes (ilimitados ou não) aos seus soberanos; b) e um estrito, significando técnica jurídica de tutela das liberdades, a partir dos movimentos sociais contra os abusos estatais do final do século XVIII, resultando em constituições escritas que consagravam os direitos escolhidos pela população como fundamentais, além de estabelecimento de mecanismos diversos para coibir abusos e arbítrios dos governantes. Essa divisão é interessante, pois nos remete a tempos em que o governante podia tudo e contra ele não se podia nada. Tais abusos não mais devem

76

BARROSO, Luís Roberto. Curso de direito constitucional contemporâneo: os conceitos fundamentais

e a construção do novo modelo / Luís Roberto Barroso. – São Paulo: Saraiva, 2009, p. 3.

77

A ser desvendado a seguir. 78

CUNHA JR., Dirley da. Curso de direito constitucional. 5. ed. Salvador: Jus Podivm, 2011, p. 33. 79

BULOS, Uadi Lammêgo. Curso de direito constitucional. 5. ed. rev. e atual. de acordo com a Emenda Constitucional n. 64/2010. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 64.

80

CANOTILHO. J. J. Gomes, Direito constitucional e teoria da constituição. 7. ed., 9. reimp. Coimbra: Almedina, 2003, p. 51. No mesmo sentido: BARROSO, Luís Roberto. Curso de direito constitucional contemporâneo: os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 5.

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ocorrer. É papel do constitucionalismo dito moderno82 a organização do Estado e limitação do poder estatal por meio de uma declaração de direitos e garantias tidos como fundamentais. 83

As constituições, então, desempenham papel protagonista em um Estado. Não se fala mais em supremacia da lei ou do parlamento, em poder absoluto do monarca ou ditador, mas sim da supremacia da Carta Política, prevalência de valores constitucionais sobre a letra insensível da lei e consagração dos direitos fundamentais.

Nesse contexto, os princípios abandonaram papel coadjuvante na aplicação do Direito, tornando-se norma ao lado das regras. Antes, um princípio, embora fonte de direito, não era considerado norma. 84 Além disso, atualmente há uma preocupação maior com a efetividade das normas constitucionais e o desenvolvimento de uma dogmática acerca da interpretação dessas normas.85

Essas mudanças de paradigmas redimensionaram a importância da Carta Maior, é dizer: o centro de gravidade do direito brasileiro, outrora focado no direito privado e no Código Civil, trasladou-se para o direito público e a Constituição Federal. “A Constituição passa a ser, assim, não apenas um sistema em si – com a sua ordem, unidade e harmonia – mas também um modo de olhar e interpretar todos os demais ramos do Direito.” 86

O centro gravitacional do Direito Brasileiro é a Constituição da República Federativa do Brasil.

A Constituição, portanto, dispõe sobre o poder político, sua titularidade e forma de exercício. Em verdade, essas questões são tão cruciais para o Estado que, junto

82

CUNHA JR., Dirley da. Curso de direito constitucional. 5. ed. Salvador: Jus Podivm, 2011, p. 36. 83

Para um bom histórico da evolução das Constituições no mundo e no Brasil, indicamos: MENDES, Gilmar Ferreira. Curso de direito constitucional. Gilmar Ferreira Mendes, Paulo Gustavo Gonet Branco. – 7. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2012, pp. 43-60.

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Arnaldo Vasconcelos, por exemplo, ao discorrer sobre os princípios gerais do direito, afirmou que esses, “[...] apesar de terem positividade, não constituem normas jurídicas.” In: VASCONCELOS, Arnaldo. Teoria geral do direito. 4. ed. São Paulo: Malheiros, 1996, p. 206. Devemos, entretanto, reconhecer que o jurista citado reconheceu que princípios não devem ser vistos apenas como aspiração ideológica. Lendo seus escólios sobre o assunto, parece que Arnaldo Vasconcelos percebeu a força normativa dos princípios, mas não teve coragem de afirmar isso expressamente.

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BARROSO, Luís Roberto Barroso. Fundamentos teóricos e filosóficos do novo direito constitucional brasileiro (pós-modernidade, teoria crítica e pós-positivismo). In: BARROSO, Luís Roberto. (Org.) A

nova interpretação constitucional: ponderação, direitos fundamentais e relações privadas/ Luís Roberto

Barroso (organizador). 3a. ed. revista. Rio de Janeiro: Renovar, 2008, p. 43. 86

a outras não menos relevantes, são alcunhadas de fundamentais. É dizer: o poder

político, os direitos que dele decorrem e sua forma de efetivação são direitos

fundamentais brasileiros.