3. PODER E ATIVIDADE ELEITORAL
3.5 PROCESSO ELEITORAL E ARTIGO 1º DA CONSTITUIÇÃO
O artigo primeiro da Constituição da República Federativa do Brasil assim preceitua:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I - a soberania; II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V - o pluralismo político.
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.
Somos uma República, um Estado Democrático de Direito e temos como fundamentos, entre outros: a cidadania e o pluralismo político. Não nos cabe discutir, no
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PINTO FERREIRA, já em 1976 e em pioneiro ensaio sobre o processo eleitoral, alertou-nos sobre isso:
“Uma boa e sábia legislação eleitoral é útil ao processo do País, porque assegura uma melhor representação popular. É verdade que a lei eleitoral em si não corrige as distorções do ambiente, a falta de educação política, a imaturidade social de um povo, a ignorância resultante da miséria e da fome. Porém, ajuda a corrigir as distorções.” In: FERREIRA, Pinto. Teoria geral do processo eleitoral brasileiro/ Transcrito do Boletim Eleitoral/TSE nº 298, maio/76. TRE-PR Revista Paraná Eleitoral – n.º 006, jan./1998, disponível em <http://www.paranaeleitoral.gov.br>, acesso em 14 de abril de 2011.
momento, a razão dessas escolhas pelo constituinte originário, mas explicar, no que interessa ao nosso trabalho, o que isso significa para o processo eleitoral.
Somos uma República. Disse há muito Cícero que res publica é a coisa do
povo. Seus elementos distintivos eram o interesse comum e uma lei comum pela qual a
comunidade afirmava sua Justiça. Por essa compreensão, República era contraposição de governos injustos. Essa acepção também foi utilizada na Idade Moderna. República traduzia qualquer regime (monarquia, aristocracia e a monarquia) que não se baseassem na injustiça e violência. 111
Porém, o termo em comento, atualmente, recebe variada compreensão, fugindo da sua concepção original. TORQUATO JARDIM, analisando o significado do verbete em nossa Constituição, elencou suas características, dentre as quais nos importa salientar a
soberania popular e a responsabilidade. 112 A primeira significa que o poder é do povo que o delega a seus representantes nos termos da Constituição. A segunda, implica dizer que os agentes públicos submetem-se aos princípios expressos na Carta Maior e aos intrínsecos do sistema113, dentre os quais destaca-se a renovação periódica dos mandatos em eleições livres, “[...] julgamento subjetivo não motivado que renova a legitimidade ética do agente público.”114
Somos um Estado Democrático de Direito (ou Estado Constitucional Democrático)115. Isso significa a consagração, na Carta, de duas ideias próximas, mas que não se confundem: constitucionalismo e democracia. O primeiro, já foi oportunamente debatido linhas atrás. O segundo traduz, em aproximação sumária, soberania popular e governo da maioria116. Esse governo, entretanto, não pode ser de qualquer maneira, mesmo quando as deliberações forem por maioria. Lembremos que o
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MATTEUCCI, Nicola. Verbete ‘república’. In: BOBBIO, Noberto. Dicionário de política. Noberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino; trad. Carmen C, Varriale et ai.; coord. trad. João Ferreira; rev. geral João Ferreira e Luis Guerreiro Pinto Cacais. 13. ed., 5. Reimpressão. Vol. 2. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2010, p. 1108.
112
JARDIM, Torquato Organização do estado brasileiro. In: CLÈVE, Clèmerson Merlin. Direito
constitucional: teoria geral do Estado. Clèmerson Merlin Clève, Luis Roberto Barroso (organizadores).
Coleção doutrinas essenciais; v.2. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2011, pp. 717-728. 113
“[...] porquanto, sabidamente, um sistema jurídico não se esgota nas suas normas positivas, muito menos um sistema constitucional, cuja capacidade jurídica de responder no tempo às exigências novas é essencial à estabilidade do Estado, e por via de consequência, mais crucial ainda à certeza de liberdade, não só individual, mas também de todo o agregado social.” JARDIM, op. cit., p. 718.
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Ibid., p. 718. 115
NOVELINO, Marcelo. Direito constitucional. 6. ed. rev., atual. e ampl.. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2012, pp. 44-46.
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BARROSO, Luís Roberto. Curso de direito constitucional contemporâneo: os conceitos fundamentais
constitucionalismo prestigia a limitação do poder e os direitos fundamentais. Constitucionalismo e democracia, assim, completam-se.117 Nessa perspectiva, lembra MARCELO NOVELINO, a importância do princípio da soberania popular, “[...] uma das vigas mestras deste novo modelo, impondo uma organização e um exercício democráticos do Poder (ordem de domínio legitimada pelo povo)”118.
Temos, entre os fundamentos de nosso Estado: a cidadania e o pluralismo político. A cidadania, aqui, significa participação política do indivíduo na gestão do Estado. Atualmente, é conceito cujo conteúdo está sendo alargado para além das fronteiras dos direitos políticos, englobando também outros direitos e garantias fundamentais.119 O pluralismo político é decorrência do princípio democrático. No Brasil, deve-se garantir a diversidade e as liberdades (de opinião, filosófico-religiosa, intelectual etc.). Um dos aspectos desse pluralismo é o partidarismo, a ser analisado no próximo capítulo, ao tratarmos das atividades da Justiça Eleitoral.
Expostos todos esses magistérios, podemos chegar a uma comezinha conclusão. Sem um processo eleitoral, que, provisoriamente designaremos de processo de escolha política pelo povo, não seria possível, no Brasil, efetivarmos o princípio republicano e democrático120, nem legitimar o poder instituído e suas decisões. Não seriam permitidos amplo reconhecimento e exercício da cidadania, nem a oxigenação de ideais políticos. Teríamos um constitucionalismo utópico. Palavras sem qualquer possibilidade de efetivação. Eis a importância do nosso processo eleitoral
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Sobre a questão, os dois pensamentos a seguir se completam e permitem melhor compreensão do exposto: “O constitucionalismo democrático foi a ideologia vitoriosa do século XX. Nele se condensam as promessas de modernidade: limitação do poder, dignidade da pessoa humana, centralidade dos direitos fundamentais, justiça material, pluralismo, diversidade, tolerância e – quem sabe? – até felicidade.” In: BARROSO, Luís Roberto. A reconstrução democrática do direito público do no brasil. In: BARROSO, Luís Roberto. A reconstrução democrática do direito público no Brasil/ Luís Roberto Barroso (org.). – Rio de Janeiro: Renovar, 2007, p. 1. “Não há verdadeira democracia sem respeito aos direitos fundamentais. Quando as cortes constitucionais os garantem contra a vontade da maioria ou diante da sua inércia, não estão violando o princípio da democracia, mas estabelecendo as condições para sua plena realização.” SOUZA NETO, Cláudio Pereira de. Deliberação pública, constitucionalismo e cooperação democrática. In: BARROSO, Luís Roberto. A reconstrução democrática do direito público no Brasil. Luís Roberto Barroso (organizador). Rio de Janeiro: Renovar, 2007, p. 44.
118
NOVELINO, Marcelo. Direito constitucional. 6. ed. rev., atual. e ampl.. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2012, p. 44.
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SILVEIRA, José Néri da. Aspectos do processo eleitoral. Porto Alegre: Livraria do advogado, 1998, p.15.
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“Destaca-se, assim o Direito Eleitoral como o ramo do Direito que contribui decisivamente para tornar realidade a democracia. Daí, com certeza, a precisão da sentença de Ortega y Gasset, tantas vezes citada: A saúde das democracias, quaiquer que sejam o seu tipo e seu grau, depende de um mísero detalhe técnico: o procedimento eleitoral. Tudo o mais é secundário”. In: SEREJO, Lourival. Programa de direito
A seguir, descobriremos a quem foi incumbida a missão de realizá-lo.
Sem um processo de eleições políticas não seria possível, nos Estados democráticos e republicanos modernos, a manutenção de seus regimes, nem a legitimação do poder instituído.