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2.2 Um modelo canônico de continuidade

2.2.3 Cânone, Continuidade e leitor modelo

Como já apontamos antes, o cânone se expande continuamente. Todo mês novas histórias são adicionadas a ele, mas o leitor não é obrigado a conhecer a totalidade do cânone para compreender e fruir as narrativas, ele precisa conhecer as histórias que possuem relação de continuidade com a que está lendo. Isso normalmente é composto pelo conjunto de histórias que formam o arco narrativo, a fase ou a passagem em que essa história está inserida, alguns acontecimentos chave anteriores que tem ligação com essa história e, em última instância, com a origem do personagem central (ou dos personagens no caso de um grupo).

Por exemplo, para compreender Kingdom Come (um exemplo mais simples porque ele existe fora do cânone da DC), é preciso conhecer os personagens mais importantes da editora, Superman, Wonder Woman, Batman, Green Lantern, Flash, Captain Marvel, além do Spectre que serve como guia para o pastor Norman McCay, o personagem que serve de ponto de vista para o leitor da mini série, presenciando os mesmos eventos. O leitor necessita apenas de conhecimentos gerais sobre os personagens e suas origens, não sendo preciso saber qual versão da história de origem ela é ligada. Da mesma maneira, o leitor precisa conhecer o mínimo sobre o universo ficcional desses personagens, como que Gothan City é infestada de criminosos e corruptos e que o Superman é casado com Lois Lane. Ao ter alguma noção de todos esses fatores, que são relativamente extensos, o leitor está apto a fruir o texto.

Esse modelo também funciona para explicar como os arcos narrativos são compreendidos. Algumas vezes o arco atual continua uma história diretamente do arco ou edição anterior, em outrasinicia uma história que não se liga a esses. Sob o modelo da continuidade linear, mesmo quando umarco não explicita a continuação dos eventos do

anterior, essa sequencialidade é presumida, o que pode não ser verdade, principalmente para um leitor que não tenha lido o arco anterior. Quando o leitor inicia um arco, ele precisa ser informado sobre o que é esperado que ele saiba para compreender essa narrativa, se é necessário um conhecimento do arco prévio, isto, de alguma forma, deve estar transparente na narrativa. Da mesma maneira, se há a intenção de se iniciar uma narrativa com elos mais fracos com a anterior, é preciso que haja instruções para que ela seja fruída. Assim, a própria narrativa instrui o leitor sobre o estado de sua ligação com a continuidade.

Essa série de instruções é muito similar ao conceito de leitor-modelo que (ECO, 2008) desenvolve. Para ele “...o texto é um produto cujo destino interpretativo deve fazer parte do próprio mecanismo gerativo. Gerar um texto significa executar uma estratégia de que fazem parte as previsões de movimento dos outros...” (ECO, 2008, p. 39). Ao escrever um texto, o autor pensa emcomo ele vai ser interpretado, pressupõe quem vai lê-lo e cria um alvo, um leitor-modelo, que seria capaz de interpretar o texto de forma correta. Tal leitor possui algumas competências essenciais para a compreensão correta do texto, podem ser conhecimentos básicos inferenciais, como conhecimentos de gêneros narrativos, ou conhecimentos complexos sobre filosofia e autores antigos, mas o texto sempre os antecipa de algum modo.

Acontece que o autor não pode pressupor que todo e qualquer leitor possua todas as competências necessárias para a interpretação correta do texto, assim apenas um seleto grupo seria capaz de ler o texto de modo correto, ou todo texto precisaria ser genérico demais para que qualquer um o compreendesse. O texto precisa, pelo menos, comunicar quais as competências que ele espera, apresentando-as ao leitor e permitindo que ele as busque ou fique ciente delas, possibilitando que o leitor a construa e se capacite a ler o texto na sua completude. Como Eco coloca: “Portanto, prever o próprio leitor-modelo não significa somente ‘esperar’ que exista, mas significa também mover o texto de modo a construí-lo. O texto não apenas repousa numa competência, mas contribui para produzi- la.” (Eco, 2008 p.40). Partindo desse princípio, o autor coloca no texto instruções que permitem ao leitor reconhecer não apenas o que é necessário para se ler o texto, mas para se instruir sobre essas competências e o sentido pretendido pelo autor. Assim “O leitor- modelo constitui um conjunto de condições de êxito, textualmente estabelecidas, que devem ser satisfeitas para que um texto seja plenamente atualizado no seu conteúdo potencial” (Eco, 2008 p. 45).

Nessa linha de pensamento, um autor, ao determinar com quais histórias há uma ligação de continuidade, precisa compreender que tipo de leitor pretende que a leia, mas também imbuir a narrativa com instruções capazes de levá-lo a possuir os conhecimentos necessários para fruí-la como concebida. Isto pode tomar diversas formas, desde citações no texto remetendo a encontros anteriores entre personagens, pequenas recapitulações de acontecimentos passados, notas de rodapé apontando acontecimentos importantes, ou simplesmente, uma passagem em que o estilo gráfico seja diferente, uma citação visual. Em um nível mais avançado, seria possível identificar instruções de leituras no texto prevendo diversos graus de competência do leitor. O texto poderia apresentar um conjunto de instruções mínimas, próprias para leitores que não possuem familiaridade com os personagens nem com o universo ficcional. Nessas instruções haveria a implicação de como os personagens agem de parte de seu passado, o suficiente para a fruição dessa história separada do cânone. Um conjunto de instruções paralelas dizem respeito à relação dessa história com outras histórias, em outras palavras, ela institui a continuidade entre elas. Um conjunto de instruções ainda mais complexas dariam conta de todas as relações entre a história atual e o conjunto canônico de histórias, inclusive seus movimentos de validação e invalidação, permitindo ao leitor mais experto visualizar como uma narrativa, podendo ser um arco ou apenas uma edição, reorganiza o conjunto completo de histórias. Voltando ao nosso exemplo de Kingdom Come, o que nós descrevemos anteriormente como condições de leitura, funciona muito bem para o nosso conjunto mínimo de competências. O segundo nível não aparece muito porque a continuidade com o restante do cânone é fraca na mini-série, nem as histórias de origem remetem a versões específicas. No entanto, a série é muito rica para o leitor que consiga alcançar o nível de experto, ele consegue distinguir que os heróis centrais são mostrados em sua versão nos anos 1960 e 1970, consegue também identificar os novos heróis advindos de legados desses heróis centrais e ele pode perceber que o tema central da mini-série é o conflito entre os modos de heroísmo até os anos 1980, a chamada era de prata, e os modos de heroísmo posteriores. Um leitor atento não só ao cânone da DC, mas também ao da Marvel e ao movimento da indústria com a Image, conseguiria identificar ainda mais conexões, principalmente com Magog, o herói que mata o Joker e inicia os eventos centrais da história, com o Cable, personagem da Marvel, conhecido pelo excesso de músculos, pelas armas grandes e pelo pouco comprometimento com o ideal de heroísmo.

Os personagens tinham em comum uma aparência parte robótica, músculos grandes e um olho branco com uma cicatriz.

O mais interessante é que o próprio texto permitiria a um leitor com tempo e interesse suficientes galgar esses níveis de leitura. Mesmo que o leitor não esteja familiarizado com os personagens, suas ações dão uma compreensão básica e seus nomes podem levar o leitor a pesquisar sobre eles. As capas da mini-série são pôsteres com diversos personagens enfileirados, heróis clássicos, heróis que estenderam um legado e vilões, com legendas identificando o seu nome e o seu codinome. Caso um leitor continuasse a ler o universo DC após Kingdom Come, poderia identificar as referências feitas à ele posteriormente e usar isso para compreender melhor o texto original.

Como demonstramos, grande parte dessas competências presumidas dizem respeito ao conhecimento prévio do leitor sobre o universo narrativo no qual a história está inserida. Assim, o autor lida não apenas com as histórias em continuidade, nem apenas com o cânone, mas também com as presunções e expectativas que os leitores possuem em relação ao personagem e ao funcionamento do universo narrativo. Essas expectativas são fundadas nas leituras das histórias anteriores, no modo como os leitores acompanharam a construção do cânone e do acúmulo de experiências de leituras que informam às editoras e aos autores as preferências do público. Embora parte dessas expectativas sejam individuais, há uma atividade compartilhada no ato de ler e discutir histórias.

Jauss (1994) chama esse acúmulo de experiências de leitura compartilhadas e situadas historicamente de horizonte de expectativa. Ao descrever o processo histórico da literatura e fundar uma estética da recepção, ele coloca que: “A história da literatura é um processo de recepção e produção estética que se realiza na atualização dos textos literários por parte do leitor que os recebe, do escritor, que se faz novamente produtor, e do crítico, que sobre eles reflete.” (Jauss, 1994 p.25). Embora trate da literatura, não há porque supor que seja diferente com outras formas expressivas que se deem historicamente. Assim, poderíamos aproximar a construção do cânone através do acúmulo de histórias com a decantação de apreciações que formam esse horizonte, já que na sua formulação e manutenção é levada em conta a reação do público e da crítica pelas editoras e que os novos criadores começam a ter contato com os Comics nesse processo, sendo influenciados por ele.

O conceito de horizonte de expectativa também auxilia na compreensão das mudanças no cânone como parte de um processo, e não de atos isolados. É necessário conhecer os momentos históricos e as repercussões de cada mudança, além de sua influência nas histórias futuras e suas bases nas histórias passadas. Como diz Jauss:

A reconstrução do horizonte de expectativa sob o qual uma obra foi criada e recebida no passado possibilita, por outro lado, que se apresentem questões para as quais o texto constituiu uma resposta e que se descortine, assim, a maneira pela qual o leitor de outrora terá encarado e compreendido a obra... Além disso, traz à luz a diferença hermenêutica entre a compreensão passada e a presente de uma obra, dá a conhecer a história de sua recepção... (Jauss, 1994 p.35)

Gerando esse modelo histórico, se pode captar o emaranhando de relações entre os muitos agentes que influenciam a produção dos comics. Quais dos agentes envolvidos (editores, desenhistas, roteiristas) teve maior influência para que a história fosse publicada daquela maneira? Como os leitores reagiram àquela alteração no cânone? Como esse processo veio a modificar as histórias anteriores? Como as leituras das histórias anteriores ainda afetam a leitura das atuais? Todas essas perguntas são essenciais para a compreensão da construção do cânone. Em especial a última, que institui o que Jauss chama de classicidade, a mudança de uma obra transgressora para uma óbvia, fundando um novo horizonte de expectativa que precisará ser ultrapassado para a evolução da arte.

Voltemos à Kingdom Come novamente. Como já mostramos no começo do capítulo, a mini-série não foi concebida como uma obra canônica, mas sim como uma história que utiliza do universo DC, mas não tem ligação com ele, uma linha de histórias chamadas de Elseworlds. No entanto, devido ao sucesso de público e de crítica de Kingdom Come, aos poucos algumas de suas idéias foram sendo incorporadas ao cânone, não a história em si, mas personagens e temas. Assim, partes de Kingdom Come foram sendo citadas na continuidade de algumas histórias, o que gera, por sua vez, uma pressão na editora para permitir mais. Após o retorno ao modelo de multiverso (com Infinite Crisis em 2006), a DC acabou por canonizar Kingdom Come como uma terra paralela, sendo que esse movimento ocorreu na revista da Justice Society of America v.3 #7-#22 entre 2008 e 2010 escrita por Geoff Johns, desenhada por Dale Eaglesham e com capas de Alex Ross, desenhista e coautor de Kingdom Come. Nessa fase, que possui ainda algumas edições especiais, os membros da Justice Society encontram com os personagens da mini-série e retornam a discutir os temas da série, legado e modelos de heroísmo.

Essa trajetória informa o modo como o horizonte de expectativa dos leitores foi gradativamente aceitando mais e mais temas e referências à Kingdom Come. O que era antes uma obra de crítica ao modo vigente de contar histórias, é incorporada ao repertório básico do público e se torna uma história fundante de outras, completando o círculo. Essa expansão de repertório se refere exatamente ao modo como o horizonte de expectativa se movimenta, um modo de contar histórias seriadas longas e ininterruptas (nesse caso uma história e seus temas) deixa de ser transgressor e aos poucos se torna parte do modo comum. Com isso, Kingdom Come se torna uma história clássica, fundadora de outras e referenciada com regularidade.

O movimento que leva à classicidade acaba por, com o tempo, também levar à obscuridade histórias e modos de contar que um dia foram fortes e clássicos. O surgimento de novas histórias transgressoras acaba por ir expandindo o horizonte de expectativa dos leitores até o ponto em que certas histórias mais antigas acabam sendo vistas como ultrapassadas ou até mesmo de mal gosto. O exemplo do projeto New Batman já citado é instigante, ele vislumbrava que histórias anteriores do personagem o deixavam distante do seu ideal, com mais humor e temas leves do que sombras e drama, se encarregando assim de desautorizar essas histórias, prevendo e apontando uma nova direção para o personagem. Ao mesmo tempo que essa fase retirou do cânone algumas histórias, ela buscou restaurar a validade de histórias mais antigas, principalmente próximas à criação do personagem, se justificando como restaurando algo perdido no Batman.

Esse movimento todo demonstra como o horizonte de expectativa é central para compreender não só como cânone se movimenta e como esse movimento altera o modo de ler as histórias atuais, mas também como a editora não pode se desligar das experiências de leitura dos seus cliente e leitores. As editoras precisam estar atentas não só às vendas iniciais, mas também em relação à opinião de críticos e as vendas das compilações encadernadas de histórias passadas. Todos esses fatores indicam um clima de opinião geral que é suplementado por pesquisas específicas, auxiliando a editora a tomar decisões. Decisões essas, recordemos, que precisam ser combinadas, discutidas e negociadas com os autores, que também tem demandas e planos para os personagens.