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2.3 Estudando as mudanças no Cânone

2.3.1 Categorias da continuidade

Falaremos primeiro das relações de continuidade nos Comics. Há três categorias básicas delas, a citação, a necessidade narrativa e a necessidade temática. A citação se refere a uma relação de continuidade muito pequena, a citação de nomes, um personagem específico que aparece no fundo ou tem uma conversa rápida com o protagonista, ou mesmo a utilização de um determinado traço ou estilo visual de forma localizada. Na maioria dos casos a citação não tem relevância para a compreensão da obra, mas é apenas um aceno ou piscadela para o leitor mais atento e experto, que se sentirá recompensado por reconhecer essa nota. Em alguns casos a citação pode servir como um indicativo sutil acerca da época ou da história que está se colocando em questão, podendo abrir outras interpretações para o leitor mais experiente.

Exemplos dos dois modos de citação podem ser vistos em diferentes histórias do Batman. A citação mais simples pode ser vista na Batman #655, no sexto quadro da página 20, o mordomo Alfred cita as conquistas amorosas prévias de Bruce Wayne “Você sempre estava nos jornais. Garotas Glamorosas como Kathy Kane, Julie Madison, Vicky Vale, Silver St. Cloud. Eu mesmo mal consigo lembrar de todos os nomes.” (MORRISON; KUBERT, 2006, p. 20). Essa fala serve apenas para afirmar que Bruce Wayne era um conquistador e que teve diversas mulheres, mas os nomes citados são de personagens que já haviam aparecido anteriormente em histórias do Batman. Esses nomes não cumprem uma função narrativa maior, são apenas um aceno ao conhecimento de leitores mais ciosos do cânone do personagem. Apesar disso, a citação ao nome de Kathy Kane serve

como uma pequena dica dos planos de Morrison, uma vez que ela é a primeira Batwoman de 1956, que depois foi retirada do cânone e quase esquecida.

A citação mais complexa pode ser vislumbrada em Batman: The Killing Joke, quando em uma das cenas iniciais do Batman em seu esconderijo é mostrado uma moldura com uma imagem da Bat-família dos anos 1950, incluindo Kathy Kane (Batwoman), Betty Kane (a

primeira Batgirl), Bat-Mite (uma criatura de outro plano com poderes mágicos que é fã do Batman) e Ace The Bat-Hound (o cachorro do Batman). Essa imagem se encontra com um traço completamente diferente, muito parecido com o traço normalmente utilizado nos anos 1950 e 1960. A citação é apontada por Miettinen (2011) como uma das fontes do que ele chama de anarquia textual em The Killing Joke, um modo como Moore apontaria a falta de lógica da continuidade dos Comics e exporia a sua construção. Para outros leitores, ela aponta para a distância desses tempos mais felizes e ajudaria no contraste para explicar porque o Batman mataria o Joker na última página da história, ao invés de apenas rir com ele, como poderia parecer numa interpretação mais ingênua. A necessidade narrativa é mais simples, se refere a histórias ou fatos que é necessário que o leitor conheça, caso contrário ele não conseguirá entender a história atual. Isso se refere principalmente aos arcos narrativos, ou a ligação entre arcos narrativos, mas também pode se referir ao conhecimento mínimo de alguns fatos como a história fundadora de um personagem, ou de alguns fatos chave na sua trajetória. Esses são os elementos mais fáceis de serem sumarizados em uma recapitulação escrita e também são

os maiores motivos para as notas de rodapé que os editores colocam para apontar em que outras edições tais fatos ocorreram.

No entanto, é preciso dizer que o conhecimento colocado aqui é em graus. Existe um reconhecimento mínimo que não precisa fazer referência a uma história ou edição específica. Saber sobre um personagem é saber sobre o que ele faz e sua idéia básica, não saber todos os detalhes de sua existência fictícia. Um bom exemplo é falar de origens: um leitor, quando for feita uma referência à origem do Batman, precisa saber apenas do contorno mais geral da história (menino rico que vê os pais morrerem e jura acabar com o crime). No entanto, em alguns casos, uma versão específica pode ser referenciada, pode haver a citação a um colar de pérolas, ou ao filme que o jovem Bruce foi ver com seus pais (Zorro), ou pode a ver uma referência bem específica a uma cena específica, como o morcego quebrando a janela em Batman: Year One. Nesse caso, muitas vezes, há uma preparação para níveis de leitura diferentes, um leitor com menos conhecimento entenderá apenas parte da referência, enquanto o mais experto, compreenderá a referência específica.

A necessidade temática é uma relação entre duas histórias que não passa pelos acontecimentos, mas sim pelo modo de contar histórias, pelos temas tratados e pelo tipo de traço ou de cor que é utilizada. Nesse caso o específico raramente aparece, o mais interessante é modelo geral, evocar a sensação de uma época, relembrar o leitor de uma certa experiência com as histórias anteriores. Essa lembrança pode ser utilizada de modo reverencial ou de modo irônico, como um objeto para construir em cima, ou um edifício que precisa ser demolido para se continuar.

Já mostramos alguns exemplos de necessidade temática aqui como a compreensão de que Kingdom Come contrasta os heróis e o modo de heroísmo dos anos 1960 e 1970 com os dos anos 1990. Mesmo a citação em The Killing Joke passa por um conhecimento temático do estilo do traço em que os personagens são apresentados. Mas, como podemos ver, raramente esse conhecimento é necessário para uma leitura mínima, e sim para um nível de leitura mais avançado. Isso ocorre porque a necessidade temática normalmente faz referência a épocas passadas que não estão disponíveis para um leitor que acompanha pouco os Comics. Assim, apenas leitores mais experientes e com uma carga de leitura maior podem identificar e perceber as relações de continuidade temática entre diversas obras.

Como podemos ver, todas as categorias acerca da continuidade acabam por presumir a existência de diferentes níveis de leitura. Isso é muito importante para sublinhar que essas histórias não são feitas apenas com um tipo de leitor em mente como pensa Reynolds, mas sim com grupos de leitores que precisam de apresentações e cuidados diferenciados. A editora pode entender que alguns títulos são mais voltados para um dos tipos de leitores, mas ela não pode abrir mão completamente de nenhum deles, o que incentiva os autores a tentarem criar histórias que tentem funcionar para todos esses leitores.