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2.2 Um modelo canônico de continuidade

2.2.2 O cânone nos Comics

O uso do termo cânone nos quadrinhos de super-heróis é variável, mas muito similar aos dois modos já apresentados. Quando os leitores mais expertos pesquisam se uma história é canônica, eles se perguntam se ela é validada pela editora e se é importante na continuidade do título ou do personagem específico. Ou no modo como os leitores julgam se uma história é boa o suficiente para ser considerada canônica, mesmo que a editora não a valide, sendo que o oposto também ocorre, uma história invalidada pelos leitores, apesar de ser canônica na visão da editora. Isso mostra que a utilização do termo é mais ambígua em relação aos comics: ele não é puramente validativo ou valorativo, mas sim uma interseção entre eles.

Nesse contexto a qualidade do material não é o único nem o maior guia do que é validado, seja porque há certa discordância sobre o que é melhor,mesmo entre fãs e especialistas, seja porque a editora controla a maior parte desse processo, e ela está preocupada com as vendas tanto quanto com a qualidade. Não que vender muito seja sinônimo de má qualidade, mas algumas vezes autores que são ojerizados pela crítica especializada, como Robb Liefeld, continuam vendendo, o que não dá margem para as editoras desautorizarem as histórias em que trabalharam. Por outro lado, mesmo excelentes histórias podem atrapalhar os planos da editora, que pode preferir retirá-las do cânone para abrir espaço para uma reformulação ou para uma nova ideia. Por isso, não é possível estabelecer critérios puramente internos e valorativos para o cânone dos comics, é preciso levar em consideração o seu meio produtivo.

Mesmo assim, a editora precisa prestar contas ao seu público e acomodar as ideias e vontades de seus artistas e roteiristas. Se um caminho narrativo não traz retorno financeiro, a editora pode recuar para agradar aos fãs, revalidando narrativas antigas e ignorar as recentes, ou pode simplesmente tentar recomeçar do zero, com novas histórias fundadoras e por consequência um novo cânone. Uma outra possibilidade é que um autor de renome, com prestigio entre os fãs e boa relação com a editora seja capaz de fazê-la reconsiderar, seja pela qualidade da proposta ou porque a editora tem interesse em manter esse criador contente. Com isso, fica claro que não há uma ditadura da editora, ela precisa pesar suas opções e nem sempre a manutenção do cânone é necessária para o seu sucesso, o que já a diferencia do contexto do cânone bíblico.

Apesar de esses dois pontos ilustrarem bem o porquê do cânone nos comics não poder ser perfeitamente igualado aos dois modelos apresentados anteriormente, eles não mostram a maior característica desse modo narrativo, a sua contínua propagação. Diferentemente dos outros modelos, não há um corpus finito do qual se fala no passado, não há um processo acabado que se possa classificar facilmente, as narrativas dos comics de super- heróis são constantes e sempre inacabadas, é de sua natureza a sua não finitude. Com isso, não é possível ter o julgamento reflexivo do cânone bíblico. O que há é sempre uma busca do passado para se explicar e construir o futuro, mas este passado é mutável e mutante, se adaptando às histórias escritas no presente. Os comics “apócrifos”, invalidados, não somem, apenas submergem, podendo ser redescobertos futuramente e revalidados. Cria- se um sistema em que o passado constrói um futuro, mas não se está preso a esse passado narrativo, os sedimentos de todas as histórias se acumulam e são terra fértil para a criação do novo.

Assim, podemos definir o conceito de cânone nos Comics como: o conjunto de histórias válidas dentro de um universo ficcional compartilhado em determinado momento. Esse conceito permite que nós lidemos com duas questões importantes que o modelo da continuidade linear não consegue tratar, 1) com o constante movimento de validação e invalidação de histórias passadas; 2) que os motivos da invalidação dessas histórias não sejam narrativos. O movimento de validação e invalidação de narrativas sob o modelo linear pensa neles como exceções, não como um fluxo natural de como as narrativas se organizam. Com isso qualquer mudança neles precisa ser descrita e retratada, exposto dentro e fora da narrativa, como um sacrilégio à santidade da continuidade, quando na verdade ele ocorre para a manutenção, ou melhor, para a sua melhor utilização. Afinal, qual a serventia de um acervo de 30 anos de histórias se elas não podem ser referenciadas por terem sido invalidadas por qualquer motivo. A utilização desse manancial narrativo depende da possibilidade de poder revalidar, em algum aspecto, aquelas narrativas. Não é possível se orgulhar de um longo passado se não se pode utilizá-lo.

A outra questão é que essas validações e invalidações nem sempre tem como objetivo melhorar a continuidade, mas sim melhorar as vendas propondo algo novo, agradar algum roteirista, ou mesmo para se livrar de possíveis processos por direitos autorais. Acontece que esses motivos afetam o conjunto de histórias publicadas e das histórias que os autores podem executar, então esses movimentos devem ser levados em conta no modo como eles influenciam as narrativas. O estudo de como e porque as editoras permitem que um

determinado autor publique tal história, ou porque ele precisa mudar tal plano alteram diretamente o cânone, a continuidade e a experiência de leitura daquela narrativa, sendo assim a gestão da editora merece algum destaque nesse estudo.

Deixaremos o modo como a editora influencia diretamente esse processo para o próximo capítulo, quando lidaremos com autoria e produção coletivas e o modo como a demanda guia e modifica uma obra artística. Agora, trataremos do modo como esse modelo trata a experiência de leitura em frente a essas definições de cânone e de continuidade.