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2.2 Um modelo canônico de continuidade

2.2.1 Dois Conceitos de Cânone

Cânone vem do grego Kanon, que significa régua, mas também lista, norma ou ideal. O termo possuiu diversos usos na sociedade grega, como proporção ideal na escultura, base de como considerar algo verdadeiro ou falso na filosofia, e o que nos une no direito. Com o tempo, seu principal sentido se tornou referente às escrituras sagradas da bíblia, especificamente ao conjunto de textos considerados válidos numa determinada versão. Ulrich apresenta duas definições de cânone: “1... a regra da fé articulada pelas escrituras

(= norma normans), ... os princípios definitivos e o espirito guia que governam a fé e a prática.”, e “2... a lista de livros aceitos como escrituras [divinamente] inspiradas (= norma normata), a lista que foi determinada, a lista autorizada de livros que foram aceitos como a escritura.” (ULRICH, 2002, p. 28). Mesmo considerando as duas definições como válidas, ele coloca que a segunda é a mais comumente utilizada e a mais importante, sendo que muitos usam a sua definição como argumento para a primeira.

Ulrich também apresenta três características principais do cânone bíblico, “Primeiro, o cânone envolve livros, não a forma textual dos livros; segundo, ele requer um julgamento reflexivo; e, terceiro, ele denota uma lista fechada” (ULRICH, 2002, p. 31). A primeira e a terceira característica são auto evidentes, os textos bíblicos evoluíram e tiveram diversas versões antes da atual e que a lista completa de livros que compõe a bíblia não pode ser discutida, ela é final. A segunda característica admite que “O fato do cânone representa um julgamento oficial, consciente e retrospectivo; ele confirma que o que gradualmente se tornou é agora e será para sempre... Ele olha para trás em um processo e o afirma conscientemente agora como uma situação estática e duradoura” (ULRICH, 2002, p. 32). Isso mostra que há uma pressuposição de que a discussão se encerrou, de que há uma autoridade que delimitou e implantou esse cânone que agora é aceito. Tomando essas três características em conjunto com a definição anterior é possível ver que o conteúdo de um cânone, nesse sentido, não passa por um estudo de suas características formais, como princípio básico, sua autoridade advém, ontologicamente, da sua inspiração divina que é reconhecida por alguma instituição que o mantém. Assim, o cânone na acepção bíblica, ou teológica, possui um caráter validativo, admite apenas o que é considerado válido por uma autoridade externa, levando pouco em consideração o texto em si.

Outro uso comum do termo cânone é o empregado nas discussões sobre literatura e pedagogia, assemelhado ao de lista em dois sentidos, o primeiro, o de obras válidas é similar ao uso bíblico, o segundo, de livros, autores e estilos considerados “maiores” ou mais importantes. Este último passa por duas ideias essenciais, 1: é possível classificar obras pela sua qualidade intrínseca, de modo que algumas obras são melhores do que outras; 2: é possível adquirir um conhecimento adequado sobre determinadas eras, autores e artes tendo contato apenas com suas obras mais iluminadas. Partindo desses pressupostos haveria um cânone literário de cada país, um cânone de estilos literários, um cânone de épocas, entre outros, sendo que nessas listas haveria o que há de melhor nessas áreas específicas.

Tomando esses pontos, diversos críticos literários, professores, filósofos e pensadores tentaram criar cânones gerais sobre o que deveria ser lido para uma educação completa sobre o melhor do pensamento na tradição ocidental. Esses esforços deram origem a diversos compêndios, almanaques, coleções e enciclopédias, cada um com suas particularidades, mas todos com o intuito de apresentar uma base sólida sobre a origem e a evolução do pensamento filosófico, da literatura e das artes no decorrer da história. Mas quais são os critérios utilizados para construir essas listas canônicas? John Searle apresenta um argumento convincente ao mencionar os motivos para a existência de um cânone: “muitas dessas obras são historicamente importantes por causa de sua influência; e que a maioria delas, diversas obras de Platão e Shakespeare, por exemplo, são de uma qualidade intelectual e artística muito elevada, ao ponto de serem de universal interesse humano” (SEARLE, 1990).

Com base nesses argumentos é possível perceber que o autor toma como elementos mais importantes características internas às obras, partindo de um juízo de valor sobre suas qualidades. Nota-se aqui que quando fala da influência de uma obra, Searle se refere à influência de suas ideias sobre as obras futuras, sobre o pensamento dos futuros autores, e não à influência social ou política do livro, peça ou tratado. Essa influência é vista como traço residual nos textos dos pensadores seguintes que, se bons o suficiente, influenciarão outros e assim por diante, podendo gerar uma linha de pensamento que vai até a antiguidade. Essa linha é o que embasa Searle para afirmar a existência de um cânone ocidental de “Sócrates a Wittgenstein na filosofia, e de Homero a Joyce na literatura” (SEARLE, 1990).

Sumarizando essa discussão, é possível afirmar que o cânone literário é baseado em noções internas as obras, mesmo quando se discute estilos ou eras artísticas se procura noções e categorias que existam no interior das obras. Por essas razões, esse tipo de cânone pode ser considerado valorativo, no sentido que se embasa em um juízo de valor para com a obra, juízo muitas vezes histórico e regressivo, que permite a uma obra antiga reganhar valor, ou mesmo “descobrir” um trabalho antigo que vá ter muita influência. É preciso atentar também para a questão do fio de influências, a linha que vem de uma tradição, capaz de moldar estilos muito depois de sua criação.