O Mercado do Agronegócio no Mundo
A partir da perspectiva do saber fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem:
� Compreender as principais características do agronegócio mundial.
� Conhecer as principais transformações do agronegócio mundial para compreender sua dinâmica.
� Conseguir interpretar e diagnosticar as tendências e rumos do agronegócio.
MERCADO NO AGRONEGÓCIO
45 O Mercado do Agronegócio no Mundo
Capítulo 2
Contextualização
A globalização, urbanização, crescimento populacional, melhoria tecnológica e mudanças no padrão de consumo das pessoas são fatores que se modificam o tempo todo e ditam o ritmo dinâmico da organização mundial. Os mercados do agronegócio sofrem modificações juntamente com os outros ramos da economia.
Entender esse setor como sinônimo de atraso já não faz mais sentido.
Hoje esses mercados, cada vez mais concentrados e diversificados, não se restringem aos supermercados como último elemento – apesar do protagonismo que o setor de varejo assume. Marcas de alimentos industrializados, restaurantes, fast foods são elementos cada vez mais presentes na alimentação do nosso dia a dia. Por outro lado, inovações no setor de insumos, na indústria e na distribuição são frequentemente apresentadas.
O que esse capítulo pretende mostrar é como o agronegócio mundial está em franca expansão e as grandes modificações que vem sofrendo ao longo de toda a cadeia produtiva: de antes até depois da porteira, nada mais está se mantendo como era até pouco tempo atrás.
Mudanças do Agronegócio
No capítulo anterior analisamos o mercado do agronegócio. Essa visão geral é fundamental para compreendermos as mudanças recentes pelas quais está passando esta estrutura produtiva. Além disso, a compreensão dos termos, dos sistemas econômicos e das estruturas de mercado nos ajudará a buscar nosso objetivo principal aqui: saber as principais características e transformações recentes do agronegócio mundial para, então, conseguirmos fazer uma interpretação e um diagnóstico coerentes com as novas tendências e rumos deste setor-chave na economia. As seções estão divididas a fim de apresentar as tendências de cada segmento determinante da estrutura do mercado do agronegócio.
Para isso, vamos retomar a estrutura da cadeia produtiva do setor do agronegócio. Ela será importante para visualizarmos mais facilmente onde se localiza cada segmento. Antes da porteira temos a indústria de insumos e equipamentos que produz as máquinas, ferramentas e todo tipo de instrumento necessário dentro da fazenda. A agropecuária está dentro da porta e trata das operações que visam a produção de fato dos produtos agrícolas. Logo em seguida, já fora da porteira, a agroindústria é o segmento que adicionará valor ao produto in natura recebido do campo, junto com ela está a indústria de alimentos e bebidas. O próximo segmento está ligado à distribuição do que foi produzido na
MERCADO NO AGRONEGÓCIO
etapa anterior e agrega uma série de agentes para que isso de fato ocorra. Por fim, na etapa do consumidor trataremos de temas pertinentes aos hábitos dos indivíduos e todos os fatores que afetam a demanda por parte deste.
Figura 5 - Cadeia produtiva do agronegócio e seus segmentos
Indústria de insumos e
equipamentos Agropecuária Agroindústria Indústria de alimentos e bebidas
Distribuição (atacado e
varejo) Consumidor
Fonte: Adaptado de Waquil, Miele e Schultz (2010, p. 31).
Além disso, nos utilizaremos a todo momento das tendências feitas por Waquil (2010), que nos parecem bem próximas da realidade em se tratando da dinâmica dos mercados do agronegócio. Essas tendências estão sintetizadas, para uma melhor compreensão, no quadro a seguir:
Quadro 3 – Tendências do agronegócio mundial
Segmentos Tendências
Insumos e máquinas agrícolas Aumento da produtividade dos fatores de produção.
Aumento da oferta de novas tecnologias de produção.
Agropecuária Aumento da produção.
Aumentos dos riscos de produção e de mercado.
Indústria de alimentos Maior oligopolização do mercado.
Aumento do número de inovações.
Distribuição Maior concentração no setor varejista.
Maior participação das marcas.
Demanda Crescimento populacional.
Mudança nos hábitos alimentares.
Fonte: Adaptado em Waquil, Miele e Schultz (2010).
De modo geral, as tendências dos setores serão guiadas pelo aumento da demanda dos consumidores, que, por sua vez, será influenciada pela tendência contínua de aumento da população mundial, mais especificamente na Ásia e África, e pela mudança de hábitos alimentares. Essa é uma variável que sofre grande influência da renda das famílias. Desta forma, os outros segmentos serão
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Capítulo 2
Mudanças na Indústria de Insumos e Máquinas Agrícolas
Como apresentado no capítulo anterior, a indústria de insumos e máquinas agrícolas localiza-se “antes da porteira” da fazenda e corresponde a um conjunto grande de produtos e serviços: tratores, colheitadeiras, corretivos de solo, defensivos agrícolas (inseticidas, herbicidas, fungicidas etc.), mudas, sêmen, rações, produtos veterinários, pesquisa, elaboração de projetos, análises laboratoriais etc. Mas não foi sempre assim, esta profissionalização e as inovações tecnológicas mais radicais começam a aparecer em meados do século XIX, nos Estados Unidos. Inicialmente, o trabalho simples e movido pela força humana foi gradualmente substituído pelas máquinas tracionadas por cavalos. Durante esse período, calcula-se que a produção por hora-homem tenha quadruplicado, ou seja, apenas com a alteração de algumas tecnologias a produção agrícola foi quatro vezes superior (PARKER; KLEIN, 1966).
Um exemplo clássico é o da introdução do arado, antes de madeira e produzido pelos próprios agricultores ou artesãos locais em baixa escala. A partir de 1820 passa-se a utilizar o arado de ferro ou aço, produzido em larga escala por métodos fabris, que diminuíram os custos da produção e aumentaram a produtividade do campo, por serem mais leves e duráveis (GOODMAN, 2008).
Para saber mais sobre as mudanças tecnológicas que revolucionaram o campo, leia:
GOODMAN, D.; SORJ, B.; WILKINSON, J. Da lavoura às biotecnologias: agricultura e indústria no sistema internacional [on-line]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2008.
204 p. ISBN: 978-85-9966-229-8.
Segundo Waquil (2010), duas tendências principais podem marcar o futuro da indústria de insumos e máquinas agrícolas no mundo: aumento da produtividade dos fatores de produção e aumento da oferta de novas tecnologias de produção. Vamos entender cada uma separadamente.
As duas tendências se unem para um motivo único: alimentar a crescente população mundial. Ao fato da população mundial ainda crescer consideravelmente soma-se o fato de existir cada vez menos terras para cultivo. A única forma de conseguir ofertar a quantidade de alimentos
necessária ao suprimento da demanda crescente é aumentar a produtividade,
A única forma de conseguir ofertar a quantidade de alimentos necessária ao suprimento da demanda crescente
é aumentar a produtividade
MERCADO NO AGRONEGÓCIO
ou seja, aumentar a produção dentro do limite físico da quantidade de terras disponíveis. As terras disponíveis podem ser definidas como aquelas agricultáveis, isso quer dizer que é possível estabelecer algum tipo de cultura nelas.
A tabela a seguir traz informações sobre o total de terras aráveis nas diferentes regiões do mundo. Segundo esses dados da FAOSTAT, todas as regiões aumentarão até 2050 o tamanho de suas terras agricultáveis, com exceção do Oriente Médio, dos países industriais e dos em transição. Essa diminuição em algumas regiões se deve muito à crescente difusão da agroecologia e de plantios mais responsáveis com o meio ambiente (BRUINSMA, 2009). O crescimento de 2005 a 2050 será o menor se comparado com os outros períodos anteriores.
Segundo Bruinsma (2009), 80% do crescimento da produção mundial projetada para 2050 virá do crescimento da produtividade.
Tabela 2 - Total de terras aráveis: dados e projeções (em milhões de hectares)
Regiões 1961/63 1989/91 2005 2005 ajustado 2030 2050
África subsaariana 133 161 193 236 275 300
América Latina 105 150 164 203 234 255
Norte da África e Oriente Médio 86 96 99 86 84 82
Sul da Ásia 191 204 206 206 211 212
Leste Asiático 178 225 259 235 236 237
Exceto China 73 94 102 105 109 112
Países em desenvolvimento 693 837 920 966 1040 1086
Exceto China e Índia 426 536 594 666 740 789
Países industriais 388 401 388 388 275 364
Países em transição 291 277 247 247 234 223
Mundo 1375 1521 1562 1602 1648 1673
Fonte: Alexandratos e Bruinsma (2012).
O avanço das novas tecnologias de produção se dá no sentido de melhor controlarem as adversidades intrínsecas à produção: pragas, falta ou excesso de chuva e mudanças climáticas. As pesquisas na área de biotecnologia têm resultado em uma melhora em termos de produtividade em uma série de culturas tradicionais (DE MEIRA; DA SILVA; MEDEIROS, 2017). O melhoramento das sementes é um recurso amplamente utilizado para buscar o controle dessas adversidades, dessa forma, a “engenharia genética, por exemplo, é uma ferramenta da biotecnologia que possibilita o desenvolvimento de novas cultivares adaptadas às condições climáticas locais e resistentes a pragas, doenças e produtos químicos, independentemente da compatibilidade sexual entre espécies”
(WAQUIL, 2010, p. 62).
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Capítulo 2
A biotecnologia tem se mostrado um importante demarcador das novas fronteiras de possibilidade das tecnologias no campo. Estima-se que os cientistas ainda estejam longe de explorar a totalidade das possibilidades que a biotecnologia oferece, porque é um ramo que atinge todas as indústrias que se valem de insumos biológicos para a produção: indústria de bebidas e alimentos, indústria química, indústria farmacêutica etc. Esse processo, então, pode ser chamado de bioindustrialização (GOODMAN; WILKINSON, 2008). O processo de bioindustrialização é o avanço das biotecnologias na indústria de modo geral e representa um novo paradigma de produção, alterando a estrutura de escala de produção mundial.
O processo de bioindustrialização
é o avanço das biotecnologias na indústria de modo geral e representa um novo paradigma
de produção, alterando a estrutura
de escala de produção mundial.
Figura 6 – Biotecnologia: quanta tecnologia tem em uma semente