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2. POLÍTICA E MORAL

2.2. CONSTRUÇÃO DAS LIDERANÇAS

2.2.1. Cacique, lideranças-políticas e lideranças-polícias

Com a divisão política a partir da criação da Água Branca, podemos considerar a composição da liderança da Sede em conjunto com as aldeias Barreiro e Serrinha e separadamente a da nova aldeia. No caso das três primeiras é possível identificar uma distinção clara entre o que designarei de lideranças-políticas e lideranças-polícias, de forma a facilitar as descrições.

De forma resumida podemos dizer que as lideranças-políticas são as que tem função representativa, ou seja, são os representantes de uma aldeia ou da TI como um todo e estão articulados entre si em um mesmo grupo. Envolve também pessoas que auxiliam diretamente o cacique nesta função de representação. As lideranças-polícias são um conjunto de lideranças que tem função mais propriamente de controle moral na comunidade. Ainda que a função do cacique comporte as duas coisas, os dois tipos são bastante diferenciáveis até por sua forma de seleção.

Em Apucaraninha o cacique é escolhido através de eleição. Calculando pela fala de um ex-cacique, isso se daria desde a década de 1990 , ainda que possa ter havido variações nas formas de escolha não mencionadas a mim. Anteriormente era indicado pela comunidade, sendo então apresentado ao chefe do posto e por este (sempre) aprovado. Comparando diversas narrativas, teria havido ao menos 18 caciques na área desde a década de 1930. Nas eleições, seguindo a ocorrida em 2011, podem votar homens e mulheres, excluídas as crianças, cuja idade limite não é ponto pacífico, mas tendendo a seguir o modelo de eleição nacional, de 16 anos. As eleições normalmente são acompanhadas por funcionários da FUNAI, que elaboram relatório ao fim do processo.

Dentre os caciques já atuantes em Apucaraninha, há relações de parentesco do tipo pai-filho, irmãos e tio-sobrinho. Com a redução das obrigações sogro-genro, este tipo de relação perde sua unidade social, mas parece se manter como meio de transmissão de status.

A família em torno de uma liderança que passou pelo ou está no poder pode levar ao incentivo e a construção da pessoa para o papel de liderança, incentivando o mesmo a se colocar mais incisivamente na política. Falo em construção da pessoa pois além de, como fala Fernandes (2003, p. 226) ser preciso que um homem construa sua autoridade ao longo do ciclo de desenvolvimento da família e da história política da comunidade, tal autoridade também depende de características como, por exemplo, o saber falar, seja produzindo o discurso para a comunidade ou fazendo a interlocução com brancos22.

Quanto à seleção das lideranças-políticas, sendo apenas o cacique eleito, sua candidatura já compreende apoios nas outras aldeias e mesmo na Sede que são fundamentais à eleição. Existem certas posições hoje que compõem o grupo de chefia junto ao cacique: o vice-cacique (Getúlio), os representantes das aldeias Barreiro (Marcos) e Serrinha (Valdir) e ainda o “secretário” Alex que trabalha mais na articulação com brancos, se aproximando, como disse anteriormente, de uma nova-liderança (LUCIANO, 2006)23. Esta situação deve ser entendida como histórica, cuja articulação se deu por elementos conjunturais específicos.

Tanto é que na Água Branca a distinção liderança-política e liderança-polícia não é

22 O saber falar era bastante destacado na interlocução com brancos, sendo que era notável em vários casos esforços para uma “fala boa” a mim, principalmente por lideranças mais recentemente colocadas no cargo ou jovens não-lideranças. Um jovem, inclusive, perguntou a mim se sua fala estava sendo boa.

23 Seria possível incluir ainda a mãe de Alex, Adélia, neste grupo, já que ela não se configura como liderança-polícia, mas atua em processos como na representação junto ao Comitê relativo às ações da indenização pela UHE Apucaraninha, da qual tratarei no capítulo 3. Não a inclui por não ter tido muito contato com ela, que estava afastada da TI enquanto estive em campo por estar fazendo curso de nível superior. Marcos é também presidente da Associação de Moradores de Apucaraninha. A função de chefe de posto hoje, ainda existente, tem pouca relevância política, não sendo analisada aqui. Segundo o cacique Pedro, o chefe de posto seria índio indicado pela FUNAI, sendo a anuência pelo cacique e a “comunidade” requerida.

demarcada como na Sede, já que não existem as posições de representantes do cacique em outras aldeias e tampouco função similar ao do Secretário. Neste caso são diferenciados apenas os cargos de cacique e vice-cacique. Na Sede ou na Água Branca, a composição destas lideranças compreende alianças que perpassam parentagens distintas, mas estas acabam por se aproximar bastante ao compor este grupo.

Escolhi o termo liderança-polícia em referencia ao termo “polícia‟ ainda usado para denominá-las, por mais que prevaleça o uso do termo lideranças, sem diferenciação das lideranças que aqui chamei de “políticas”. A mudança de denominação, nesse caso, não parece ser casual já que mais do que polícias, enquanto lideranças, segundo o cacique Pedro, também atuariam como “vereadores”, ou seja, aprovariam regras, analisariam projetos a serem implementados para a comunidade, avaliando se seriam bons para ela. Poderiam ainda

“fiscalizar” o trabalho do cacique mais diretamente. Sua função compreende assim a prisão de indivíduos que erraram, mas também, como foi mencionado anteriormente, podem participar do processo de determinação de sua pena, especialmente para os casos mais graves, bem como em ações do cacique que tenham grande importância para a comunidade. Funcionaria de certa forma como um conselho consultivo do cacique, já que este não consulta a comunidade como um todo para tomar suas decisões, no caso da Sede24. Estas lideranças poderão auxiliar o cacique em seu papel de aconselhamento.

As lideranças-polícia não são escolhidas diretamente pelo cacique, mas por um

“chefe das lideranças”, que além de selecioná-las, também centraliza e organiza suas ações sempre que necessário. Segundo Jair, o chefe das lideranças atual, ele escolheria de 15 a 20 dentre os homens que não bebem ou que “sabem beber”, estando então trabalhando com 18.

Tal escolha, porém, é referente a um comportamento “correto” mais geral, sendo pessoas que não “bagunçam”, casados, respeitados, e geralmente as pessoas indicadas como tendo maior conhecimento. Há um evidente recorte moral, portanto, em sua seleção, assim como o estabelecido para o cacique, com o exemplo de conduta. Por isso, estas lideranças ao mudarem para outras TIs podem se tornar lideranças lá e, da mesma forma, podem se manter com a mudança de cacique na mesma TI. Era evidente a questão etária, sendo as lideranças homens com mais de 45 ou 50 anos, mas ficando de fora pessoas mais idosas, com mais de 70 ou 75 anos.

24 Veremos a diferença em relação à tomada de decisão na Água Branca no capítulo 4.

A forma desta escolha leva em conta principalmente a conduta recente da pessoa e apesar de se dizer que é feita pelo chefe das lideranças, há margem para escolha também pelo cacique. Assim, Benedito, um de meus informantes, apesar de ser viúvo, não se casando novamente, disse ter sido convidado pelo cacique a ser liderança. Ele não aceitou a proposta, apesar de estar sempre junto a outras lideranças-polícias, dando apoio a elas e até atuar de forma similar a elas em determinados momentos, ainda que sempre junto com algumas delas.

Na composição do grupo das lideranças-polícia havia representação de diferentes parentagens, havendo pessoas que não eram ligadas muito diretamente à rede política do cacicado. Apesar de haver pleno respeito à posição do cacique por estas lideranças, por vezes elas apresentavam críticas à atuação deste, de forma que não devem ser consideradas com um grupo homogêneo, mas sim a representação de diferentes grupos e interesses em um espaço político. Representam justamente o “outro” incluído, fundamental à sustentação política da chefia.