3. INDENIZAÇÃO PELA USINA HIDRELÉTRICA APUCARANINHA
3.5. PERCEPÇÕES SOBRE A INDENIZAÇÃO
3.5.3. Opiniões sobre projetos
A opinião sobre os projetos, geralmente tomava em conta a experiência do projeto emergencial, que como vimos, teve vários problemas:
Hélio: Cobrou, tirou esse dinheiro que a COPEL pagou eles, quarent... não, quatorze bilhões (sic), tirou, não sei se é advogado, não sei o que é, mandou-lhe atender esse dinheiro, atender esse dinheiro, tempo de fazer roça, tempo de fazer planta, ele ia tirar esse dinheiro dos índios, pra todo mundo! Então ele tirou um pouco, o resto ficou lá. Depois tirou mais um pouco, tirou lá. Depois, esse que estava atendendo o dinheiro dos índios lá, diz, mandou fazer projeto, por 20 anos. Então já fizeram. Já fizeram. Eu acho que já está não sei se três anos, quatro anos, que eles tão trabalhando. Mas projeto não dá nada! não dá nada! Ó, tem um índio que pega só 20 litro de feijão... diz que era pra plantar milho também. Nem milho não foi recebido.
Lucas: não plantaram milho?
Hélio: plantava mas não dava nada.
A preocupação não é apenas com o retorno em termos de produção para consumo mas também retorno financeiro, tendo em vista a necessidade de consumo de produtos industrializados.
Bruno: Esse do projeto, da COPEL? Eu, por mim, eu não acho bom, sabe por que eu não acho bom? Não compensa. Não compensa sabe por quê? Ele não dá lucro, nós
só estamos gastando a toa, que é indenização da usina lá embaixo. Então nós estamos gastando a toa, não está dando lucro. Só que eles plantam, esse... pra nós o feijão, milho, mas só pra comer, não faz o dinheiro. Hoje a gente usa sapato, usa meia, usa roupa, usa roupa boa. E a gente antiga não usava. Usava roupa, mas usava pouco. E hoje nós usamos muito. Aquele do nenê, e a manta, tudo, carrinho do nenê.
Nós não estamos usando o dinheiro nosso não. Eles que, pra mim eles que estão usando. Vai só dinheiro do projeto.
Lucas: você quer dizer que vocês não podem usar o dinheiro com as coisas que precisam.
Bruno: Não pode gastar. E quando a gente pega o dinheiro nós não [vamos] hoje...
Hoje essa gente nova, já tem estudo, já tem estudo, ele já sabe onde é que ele vai sair, onde é que ele vai ver as coisas [boas], e pra ver as coisas [boas] e pra fazer. E a gente antiga não, meu bisavô não era assim não, andava no mato, não precisava carne, não precisava mistura. E hoje nós precisamos. Ontem eu fui pra Tamarana, eu estava sem mistura, sem carne. Daí fui pra Tamarana. Nós usamos gás, usamos fogão, usamos móveis, mas... e nós não podemos esquecer-nos da cultura... do índio, nossa cultura, sou índio, então eu não posso esquecer a cultura.
A necessidade do dinheiro e do lucro, ligada à necessidade das coisas dos brancos, contra um tempo antigo em que isso não era necessário, não significa mudança da cultura, o que é necessário tornar claro ao pesquisador, evidenciando o uso político do termo. Fazer o projeto de acordo com o que seria uma cultura antiga, porém, não é bom, pois são coisas que os novos não usam mais, e afinal, o que dá lucro são as coisas dos brancos. Acaba se recaindo em uma tensão no discurso, entre a cultura do índio, na medida em que esta é baseada em grande medida em cultura material, portanto objetificada, e a necessidade de bens industrializados. Procura amenizar a tensão, que aparece no discurso ao pesquisador, mas não necessariamente na prática, e utilizar como recurso para reafirmar a necessidade da indenização, tanto em um caso como no outro, sendo a impossibilidade de seu uso o verdadeiro conflito demarcado.
Bruno: aqueles tempos eles faziam um chapéu com criciúma, igual desse aqui, estou com chapéu aqui ó, mas estou usando dos brancos também. Hoje tão esquecendo tudo as coisas que fazia a gente antiga, por isso que nós estamos, querendo dinheiro, mas o branco já tranca. Nós temos dinheiro pra gastar, só que eles já trancam. Eles querem dominar o nosso dinheiro. Eles estão querendo fazer um projeto. Só que eles querem fazer projeto que não dá lucro pros índios. Querem fazer projeto do... desse coqueiro, plantação de árvore. E outras coisas que eles tão querendo plantar. Coisas que não usa o novo não.
Lucas: e o que daria lucro, o que seria bom pra dar lucro?
Bruno: Era bom pro lucro? A coisa do branco dá lucro. Sabe por quê? E as coisas nossas aqui que nós usamos não dão lucro, não.
Lucas: e o que são essas coisas?
Bruno: Essas coisas, às vezes eu vou comprar uma caixa dessa coisa... sorvete, vou vender por aqui... eu ganho. Eu estou aqui hoje, mas não estou ganhando nem um real aqui hoje. Se tivesse uma caixinha de sorvete, vendendo por aí, já ganhava uns troquinhos. É a coisa dos brancos que dá lucro, as coisas do índio não dão lucro não.
Lucas: mas não tem como fazer as coisas do índio darem lucro?
Bruno: coisa do índio pra dar lucro? Mas é difícil.
Lucas: mas o que o índio faz que não dá lucro, que vocês produzem, vocês plantam?
Bruno: nós plantamos, mas nós plantamos pra comer, arroz ou feijão, milho. Nós usamos esse que nós plantamos. Aqueles tempos era um matão, aí nós usávamos só
os coró, as gente antiga, usava só os coró. […] Coró da paineira, tem o coró do coqueiro. Aquele que eles usavam. Mas aquele tempo que [tinha] os matos virgens, tinha muita caça. Londrina existia... tempo da minha mãe, não tinha essa estrada feito com as máquinas aí, ó. [Tinha] só picada que chegava pra Londrina. […] Não precisava trabalhar, sabia, só que tinha muita comida pra eles. Tinha pinhão, tinha palmito, tinha coqueiro, tinha toda caça. Quando sai pra lá da casa já achava caça. E hoje não, é difícil pra achar caça. Hoje é difícil. Aqueles tempos, não era proibido matar uma caça. Hoje é, hoje não tem jeito viu. Se não tivesse uns troquinho no bolso, não come nem mistura. Então a gente tem que se virar pra comprar as coisas.
Se os novos estão esquecendo muita coisa e com a necessidade dos bens industrializados implicada nisso, é necessário o trabalho como os brancos, mas então este tipo de trabalho não seria liberado, impedido pelos que “controlam” o recurso. Como vimos, no projeto emergencial, os gastos as vezes superaram os ganhos, e a produção foi pequena ou parcialmente perdida. Além disso, as propostas dos projetos que envolvem, por exemplo, a produção de mudas nativas e seu plantio, é vista como improdutiva, uma vez que isto não trará os lucros imediatos necessários. As condições e necessidades são ligadas a um tempo-espaço presente, contraposto a um passado, assim, se antes não era preciso trabalhar, hoje se precisa, pois não há mais os recursos naturais de antes. Como vimos no primeiro capítulo, há uma idealização deste tempo antigo, e ela soluciona a tensão mencionada acima. Fazer as coisas dos brancos, porém, tem outra conotação, relacionada à fala de liderança da Água Branca citada, ou seja, a lei do índio, a forma de trabalho e organização indígena. Não se trata apenas de fazer um trabalho que dê lucro, mas este trabalho não pode ser deslocado da forma de trabalho já estabelecida, com produções e projetos já concretamente observados. A visita a outras reservas indígenas com projetos similares é marcante:
Marcos: Então hoje eu vejo que, eu vi que não está saindo nenhum projeto. Porque faz tempo que nós estamos atrás. Nós fomos ver alguns projetos fora, fora do Paraná e eu vi que, o que nós fomos ver ali, não saiu nenhum dos projetos que nós estávamos querendo fazer aqui, que nós íamos implantar aqui, e não... não vi nenhum ainda.
Lucas: você foi junto ver esses...
Marcos: aham, nós fomos ver alguns projetos, alguns... reserva em Manaus ainda.
Porque o deles é bem diferente do que nós estávamos querendo fazer ali.
Lucas: que você viu lá?
Marcos: ali, eles estavam, ali nos projetos deles, eles estavam, tinha uma criação de tartarugas e cabritos, criação de cabrito... coelho, e tinha uma plantação tipo de um...
coco, daqueles grandes. Só que ali acho que é só pra aquela... pra aquela aldeia ali, porque aqui eu nunca vi uns projetos de coco aqui. Então acho que ali não era, nenhum que nós subimos ali... não vi nenhuma coisa boa, pra ser realizada aqui. Daí nós fomos aos Xerente ali, eles estavam fazendo criação de peixe e de uns frangos ali também. Então, só que sempre algumas coisas que a gente quer fazer aqui, sempre o pessoal lá de cima... eles falam que não está certo, que não pode ser feito aqui, que essas terras não são pra aquelas coisas que nós estamos querendo fazer aqui. Então eu vejo que nós não temos opinião pra decidir nenhuma coisa que a gente quer aqui. Então eu vejo que... só o pessoal lá de cima que quer fazer o deles.
Eles não escutam a gente. Eles querem, sempre eles querem fazer o deles aqui.
Quando a gente fala: nós queremos fazer aquele ali, aquele lá. Eles falam: não,
aquele lá dá muito caro, não pode ser feito aqui, e a terra não é pra aquele ali. Eles ficam travando a gente. Por isso que eu vejo que... uma coisa que a gente quer, então... não vai ser feito aqui. Então nós estamos dependendo mais deles ali.
Lucas: e...mas não teve um pessoal aí que veio fazer estudo aí?
Marcos: vieram, então, só que eles querem fazer o deles ali. Então eles não estão aceitando o que a gente quer aqui.
Lucas: mas eles escutaram vocês? Ou não?
Marcos: escutaram. Daí nós fizemos as oficina ali. Daí veio esse pessoal de fora, fazer estudo, na Terra Indígena, o que pode ser feito. E já está levando, acho que uns cinco, acho que já está indo pros seis anos já, que eles estão mexendo ali. E é bem demorado. E a gente tem dinheiro ali, guardado ali. E a gente não está conseguindo o que nós queremos ali. Sempre o cara... que está atrás desse daí, sempre ele fica...
parece que travando os índios ali. As vezes faz assim: quer fazer aquele ali, então vamos fazer aquele ali pra eles, porque o dinheiro é da... da comunidade indígena,.
Só que não temos nem, pelo jeito que eu vejo a gente não tem nem nada pra opinar ali. Então a gente está fazendo a maioria das coisas... só dos brancos.
Deve-se considerar que a fala de Bruno e de Marcos não se contradizem, mas tomam pontos de referência distintos, se complementando. Se para Bruno é melhor fazer projetos como o dos brancos, pois são estes que dão lucro, para Marcos, o projeto dos brancos representa o mesmo que os “projetinhos” citados por Getúlio, ou seja, voltados ao ambiente.
São diversos projetos apresentados pelos pesquisadores, visando à recuperação ambiental da área, como Bruno cita a plantação de coqueiro (palmito) e outras árvores, que não seria de interesse dos mais novos. Os projetos que estas lideranças enxergam como mais vantajosos, envolvem as lavouras no modelo convencional, utilizado nas fazendas ao redor da TI, ou outras experiências conhecidas até mesmo com as visitas feitas aos projetos dos Xerente e Waimiri-Atroari. Assim, não será qualquer projeto no modelo dos brancos que será bem visto.
Lucas: e que tipo de projeto você acha que seria melhor pra comunidade?
Marcos: eu achava que... eu acho que o melhor projeto era as lavouras. Eram as lavouras, só que... o pessoal lá de cima não quer que nós trabalhemos na... eles não querem que a gente faça essas lavouras, porque mexe muito com veneno. Então isso ele não quer, o promotor. Aí depois tem a... Porque antigamente o índio mexia mais com lavoura, a gente sabe trabalhar só com lavoura. E eu concordava com esse daí.
Se entrar outros projetos, projetos diferentes, por exemplo, como fazer uma fabricação de tecido ali, de... fraldas52, pras crianças. Eu sei que a gente não ia conseguir tocar pra frente. Porque esse não é... já não faz parte da... da cultura dos índios. Só que me parece que um projeto que foi... que eu ouvi falar que deu certo, foi a fabricação de fraldas, parece que a plantação de... palmito também. E outras coisas ali, que eu não me lembro. Daí eu sou... eu fico pensando, será que esses projetos vão dar certo. Porque antigamente a gente só trabalhava só com as lavourinha da gente ali. Aí eu achava melhor se fizesse os projetos em lavouras. Eu, agora os outros... as outras lideranças tem a opinião diferente da gente.
A realização de projetos de lavoura é o mais destacado pelas principais lideranças, de forma generalizada. Retomando o discurso de Valdir é interessante como o termo
52 A fábrica de fraldas teria surgido como ideia por moradores em uma oficina realizada na aldeia. A ideia teria surgido de reportagem televisiva sobre a implantação de fábrica de pequeno porte em uma comunidade.
“sustentabilidade” presente no TAC e no discurso dos pesquisadores, é apropriado para o direcionamento a tal tipo de projeto:
Lucas: mas o que você entende por sustentabilidade?
Valdir: […] no meu modo de entender, que eu entendo sustentabilidade é assim, ó, se for pra um conjunto, um projeto em conjunto, seria do jeito que eu falei, 60 sacos de feijão, 100 saco de arroz, 200 saco de milho, não sei quantos saco de soja. Pra poder melhorar a qualidade de índio, a qualidade de alimento do índio. O índio não vai viver só na comida típica dele. Hoje pra começar ele não tem mais o mel nativo, ele tem que comprar açúcar lá fora, hoje o índio não tem um palmito nativo. Se ele quiser um palmito ele tem que comprar enlatado. Hoje se ele quer um remédio, não tem mais nativo, remédio acabou, então comprar hoje [o remédio], pra alguma dor de cabeça qualquer, que não tiver no posto de saúde, ele vai ter que comprar na cidade. Então é tudo isso. Como é que se ele não tiver hoje um projeto desenvolvido, que [estiver] gerando renda, como é que ele vai sobreviver? Não está dando pra sustentar... não dá pra sustentar ninguém.
Lucas: mas tem alguns projetos, que o pessoal das universidades pensou que são justamente pra o índio ter de novo o mel, ter de novo o palmito, plantar as coisas...
Valdir: tem, plantar palmito, alguém já falou que eles vão fazer um projeto aí pra plantio de palmito, plantio de mato nativo, mel nativo, criar...[colocar] algum apiário, criar projeto de peixe... mas até quando isso, a gente não está vendo nada!
Era pra estar começando, janeiro já se foi, fevereiro já se foi, março já passou...
Há a mesma questão apontada anteriormente da cultura do índio, focando a comida, e as condições ambientais insuficientes para se viver desta maneira, lembrando a relação espaço-tempo e a forma de vida vista no início deste trabalho. Assim, quando eu induzo a uma ligação entre os projetos de plantio de palmito, “mato”, produção de mel, que seriam o tradicional indígena segundo ele, não se opõe a criação dos mesmos, acabando por resumir sua crítica à demora em seu início. No entanto, no início da citação é clara a visão, próxima aos demais, de que os projetos deveriam ser de grande produção de alimentos ou produtos da lavoura para venda, já que precisam de dinheiro para comprar elementos que inexistem na TI, e que hoje consomem em substituição a tais elementos tradicionais.