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5. A CULTURA KAINGANG

5.1. DESCER AO RIO: CONSANGUINIDADE E RIQUEZAS ESTÉREIS

Após uma primeira semana agitada em campo junto a lideranças da Sede, fiquei ansioso pela proposta de ida ao local onde estavam preparando um Evento Cultural para a semana do índio, junto ao rio Apucarana, a alguns quilômetros da Sede. Ali poderia estabelecer um contato mais próximo com alguns interlocutores fora da liderança. Com a impossibilidade de Alex, que organizava o evento, me acompanhar, ele me indicou um guia, Adriano. Após algum atraso, descemos na terça-feira, 20 de março, eu sempre aproveitando as caminhadas para conversar com o Adriano, que se revelou ótimo interlocutor.

O caminho até o rancho à beira do rio, uma trilha em meio à mata, havia sido limpo recentemente. Alex tratara um acordo como o dono do rancho, Carlos, para realizar o Evento Cultural no local, o que incluía a limpeza do acesso, a construção de um rancho coberto com folha de palmeira, construção de um paris e preparo geral do local para receber os participantes do evento. O dono do local é dono de um dos mais estabelecidos pontos comerciais na aldeia Sede. Ele é da reserva de Ortigueira, considerado mestiço (por sangue), casado com uma branca, que toma conta de seu estabelecimento comercial. Um de seus filhos é genro do atual cacique e também trabalhava na preparação do local. Estes ranchos são

negociados, comprados e vendidos, entre índios. Carlos, por exemplo, citou três donos anteriores de seu paiol.

A região no entorno do rio Apucarana é a de mata mais preservada, reconhecida como tal por pesquisadores que elaboraram o Diagnóstico, sendo o local onde puderam registrar maior variedade de fauna e flora, tanto na mata como no próprio rio, com maior abundância de peixes e melhor qualidade da água. Segundo dois interlocutores esta região foi usada para sítios e plantios de “safristas”, com mão de obra indígena, há certamente mais de 30 anos, tendo eles ou seus pais trabalhado no local. Isso é indicado pela presença de vegetação em altura bastante regular, apesar de densa, com exceção de algumas poucas grandes perobas, que ainda guardam marcas das queimadas feitas em tais sítios. A região a montante do rancho ao largo do rio Apucarana e os topos dos morros por outro lado parecem não terem tido uso agrícola, onde se podem encontrar palmeiras, em locais de difícil acesso, como avistamos ao subir pela margem do mesmo rio.

O acesso ao local pode ser feito por duas maneiras a partir da aldeia, uma pela trilha na mata, com declividade bastante acentuada. Outro meio é a descida até um porto de areia no rio Tibagi, com acesso por uma rua em condições razoáveis para trânsito de automóveis, seguindo de barco pelo rio Tibagi e pelo rio Apucarana até onde se conseguir, e depois a pé pela margem do rio e pela parte plaina da mesma trilha.

Chegamos ao rancho, depois de cerca de duas horas de caminhada com algumas paradas. No local, passa-se por uma roça de milho para chegar aos ranchos. Já estava pronto o novo rancho, ao lado do já existente anteriormente que chamarei aqui de “casa” para facilitar a descrição. O interior desta, como as outras casas similares na aldeia, é dividido em dois espaços. No primeiro cômodo há um fogão a lenha uma mesa para preparo e armazenamento de alimentos, e um banco, além de materiais de caça, pesca e outros utensílios. No outro cômodo há três camas.

Existem várias bananeiras e duas laranjeiras que indicam ocupação do local há vários anos. Dos ranchos, avista-se o rio Apucarana. O paris, geralmente referenciado desta forma, no plural, fica alguns metros a jusante do local dos ranchos. Trata-se de uma armadilha considerada tradicional kaingang, como uma técnica própria, que é utilizada inclusive como referencial de demarcação de uso do território antigo, se constituindo como emblema objetivo do uso do território e da tradição. A armadilha consiste em utilizar a força da correnteza do rio para aprisionamento de peixes. É feito um cerco em forma de “V” com pedras coletadas no próprio rio, em cujo vértice é colocado um cesto, o paris propriamente dito, que é confeccionado de taquara. O cerco, feito apenas pela sobreposição das pedras deixa passar

boa parte da água, mas direciona os peixes que descem o rio para o cesto, no qual caem, mas permanecem parcialmente em água corrente, de forma que se mantêm frescos por mais tempo.

A armação do cerco segue algumas pré-condições da margem do rio, bem como de sua vazão no período em que se pretende construí-lo. Costuma-se utilizar locais mais estreitos, com correnteza, já que é a força desta que fará com que os peixes caiam no cesto ao invés de nadarem na direção contrária. É também notável a análise dos peixes e seu comportamento no local pelos indígenas. O ideal para se ter muitos peixes é o período após a desova dos peixes a montante, principalmente nos meses de inverno, de abril a julho, e após uma chuva grande na cabeceira do rio, sujando a água e aumentando a vazão.

Tommasino (2004) descreve o uso histórico dos paris, como atividade que implica uma organização social baseada em grupos de reciprocidade, já que a construção do cerco envolve cerca de quatro ou cinco homens por alguns dias e o resultado da pesca, nas condições ideais e quando havia fartura de peixes nos rios da região, podia ser distribuído entre as famílias envolvidas e seguindo suas redes de parentes e afins aldeia acima, no que a autora caracteriza como reciprocidade generalizada, havendo grande satisfação na expansão da distribuição. A autora menciona como eram analisados e adaptados os locais a forma e a distribuição dos paris de maneira a se ter um aproveitamento máximo de cada rio.

Os paris têm seus donos, sendo geralmente referenciados pelos nomes dos mesmos.

Ainda hoje os locais são identificados pelos mais velhos desta forma (“lá onde tinha paris do fulano”). Em alguns casos é possível identificar paris antigos sem uso, a depender do tempo sem manutenção, já que com uma chuva maior o paris transborda e arrebenta, sendo parcialmente descaracterizado na medida em que as pedras vão rolando e sendo levadas.

Segundo Tommasino (2004) a propriedade dos paris é vitalícia, passando de pai para filho, sendo seu uso por terceiros necessitando de autorização e implicando geralmente em doação de parcela do pescado ao dono. Usualmente, no entanto, o trabalho no paris segue redes de parentesco e alianças, como mencionado ao caracterizar o termo parentagem, sendo perpetuada no passar dos anos.

Quem trabalhava no local nesta minha primeira visita era um irmão, um filho e um sobrinho de Carlos. Eles trabalhavam na preparação ao redor dos ranchos para o Evento Cultural. O paris já estava pronto e era visitado ao amanhecer e ao anoitecer em busca dos peixes. Por ser ainda março e o tempo estar seco, não estavam “caindo” muitos peixes. Eu havia combinado com o irmão do dono, Emílio, minha estadia ali por alguns dias. Fui bem recebido e a comida que leváramos foi adicionada ao almoço que já estava sendo preparado.

À tarde fiquei conversando com Adriano enquanto os demais trabalhavam no corte de uma porção de mata que fora pedido por Alex.

Ao escurecer, acenderam uma fogueira em frente ao rancho ao redor da qual sentamos, após a janta. Ali começaram a contar causos de encontros com onças. Elas, presentes na literatura antropológica referente aos Kaingang de forma bastante marcada (TOMMASINO, 1995, 2004; ROSA, P. C., 2011; ROSA, R., 2005), foram descritas a mim como detentoras de vários atributos que podem ser atribuídos à humanidade, como a capacidade de andar em pé sobre duas patas, a capacidade de produzir ruídos muito diversificados, imitando qualquer bicho da mata, com assobios, gritos, bufos e ainda produzir sons de machado. Ela é sobretudo um animal temido por poder caçar homens. Poucos já a viram realmente, mas muitos já ouviram ou viram sinais delas. Atualmente um encontro com ela é bastante difícil, sendo que no passado já haveriam até caçado algumas e vendido suas peles. Também contam causos de tesouros e outros perigos da mata, dos quais tratarei no próximo capítulo.

Enquanto contavam algumas destas histórias eles ouvem um barulho vindo da mata nas proximidades. Dizem que seria uma onça. Não sei se diziam isso para tentar me assustar ou se acreditavam realmente nisso. Outros barulhos, que estes sim ouvi, vindos das margens do rio são identificados como sendo de capivaras. Eles dizem que iriam caçar mas acabam não indo e vamos dormir na casa.

A manhã seguinte segue rotina similar, os homens continuam o roçado enquanto eu e Adriano somos levados pelo sobrinho de Carlos à ceva de caça morro acima. Ela é distante do rancho e em local de mata mais adensada, que eles caracterizam como sendo “na boca da onça”. Há certa preocupação citada de a espreita colocada estar muito baixa e de fácil acesso à onça, com o perigo de o caçador acabar virando caça. A ceva feita com milho é direcionada principalmente à paca. A própria roça de milho também serve para atração de animais para caça, no entanto, tinham ali problemas com javalis, animal introduzido na região e que pode tornar-se agressivo, além de ser mais difícil de caçar, e que ao andar em bandos pode rapidamente destruir uma roça. O trabalho dos homens no roçado acaba rendendo um tatu, encontrado no local, morto e assado à tarde em uma fogueira próximo à casa. Uma cascavel também é encontrada e morta, mas não se utiliza qualquer cobra para consumo. Eles avistam uma cobra caninana próximo ao rancho que é afugentada de volta para a mata, pois não é representada como perigo, não é venenosa e se alimenta de outras cobras. O perigo desta cobra é ela sair rodando e dando “corridão” em alguém, que inevitavelmente sairá apavorado, dando ótima oportunidade para ser caçoado pelos demais.

À tarde chega Carlos e depois Alex a cavalo, com outro rapaz. Orientados por Alex e Carlos, os outros homens fazem bancos dentro e ao lado do rancho construído, preparando o local para o Evento. Alex tem uma relação bastante próxima com os dois jovens ali, havendo diversas gozações e brincadeiras, como roubo de carne trazida pelo primeiro. O clima geral é de descontração e jocosidade, sendo bastante presentes piadas relativas à sexualidade e a acusações de práticas homossexuais. O fato de haver ali apenas homens contribui a isso, e apesar de dizerem que por vezes mulheres também vão ao local, ele parece ser um espaço bastante masculino. Alex quer levar peixe para sua família e pede para os outros irem pescar a noite no Tibagi, fornecendo em troca duas garrafas de pinga.

Eu aceito o convite ao fim da tarde de pescar com vara na ceva à outra margem do rio Apucarana, próximo ao rancho. Cerca de um quarto do tatu assado é reservado a mim, que o aprecio enquanto pesco com Adriano e Emílio.

Depois, conversando com Carlos, ele diz que prefere permanecer ali a ficar na aldeia, pois é mais sossegado e quieto, sem o som das motos e o movimento na aldeia. Ele conta um pouco de seus trabalhos para brancos no Mato Grosso, sempre vistos como sofridos. À noite os demais vão pescar no Tibagi, ficando apenas Alex, Carlos e eu, conversando perto da fogueira. Eles começam falando sobre o mesmo tema, de onças e tesouros, reforçando a relevância destes temas no imaginário neste contexto de beira de rio e no mato, tendo sido mencionado também durante aquela tarde. Falam depois de ruínas e monumentos indígenas ali e no município de Ortigueira, onde haveria pirâmides de cerca de um metro de altura, cobertas por pedras, alinhadas. No dia seguinte subo para a aldeia acompanhando Alex e o rapaz que com ele descera.

Além desta visita também fui a um rancho similar de outro interlocutor, já ao fim de meu trabalho de campo, desta vez convidado por ele próprio. As experiências foram bastante similares em termos gerais, tirando o fato dos trabalhos para o Evento e a existência do paris, ausente neste segundo rancho. Estes dias no rio me chamam a atenção para o rancho à beira do rio como espaço essencialmente diferenciado da aldeia, regulado por outra temporalidade e outras preocupações e pensamentos. Uma vez o local estabelecido com casa, pequena roça e paris, ele representa poucos esforços, centrados nas atividades de caça e pesca, que não são separáveis da diversão. No caso descrito, o roçado de mato era feito com motivação exclusiva do Evento Cultural, bem como o novo rancho, já que a casa existente era suficiente para a atividade normal no local.

Se por um lado ele é um espaço de perigo, especialmente pela espreita da onça e presença de outros animais perigosos como cobras, ele representa uma proximidade com

grandes riquezas como ouro e diamantes escondidos, bem como mistérios antigos, também com um caráter ambíguo de riqueza associada a algum tipo de perigo. Em geral espaços de mata possuem esta característica, inclusive em alguns casos nas proximidades da aldeia, havendo histórias diversas de visões e outros acontecimentos sobrenaturais também neles.

Além disso, vale ressaltar que se na aldeia se está em meio a uma rede complexa de parentesco, facção, afins e opositores políticos, no rancho se está em meio à parentagem (todos ali, inclusive a liderança, tinham alguma relação de parentesco, sendo consanguíneos ou afins efetivos), reforçando estas mesmas relações em um ambiente mais descontraído, sendo este um espaço e situação privilegiada para a construção e reforço destas relações, na consubstancialização e consanguinização, como mencionado no segundo capítulo.

É interessante notar que este privilégio neste espaço se dá em uma maior evidência da oposição humanidade e não-humanidade. Se na aldeia a ameaça é humana pela presença da facção (afinidade potencial, portanto, humana e indígena), na mata ela é eminentemente não-humana, os parentes contra o não-humano. Esta categorização é colocada por Gow (1997) ao estudar os Piro, vinculando intrinsecamente a humanidade e o parentesco. Como sublinha Coelho de Souza (2004), esta identidade tem a consequência da esterilidade, ao passo que a diferença significa perigo, mas fertilidade. Se no rio e na mata temos a identidade dos parentes contra a não-humanidade (não-reciprocidade), na aldeia se teria a fecundidade, por haver a diferença (dos afins) introjetada. Neste caso, a esterilidade é colocada como brincadeira, não no incesto, mas na homossexualidade.

Apenas para complementar esta questão, tendo Áureo mencionado sua vontade de morar em um rancho como o descrito, destacando suas vantagens, especialmente em relação ao trabalho, pergunto por que ele, já aposentado, não construía um rancho para si em algum local. Ele diz que para tanto era preciso ter dinheiro. Apesar de minha insistência em dizer que em tal situação seria necessário menos dinheiro que na aldeia, havendo caça, pesca e a possibilidade de fazer uma pequena roça, bem como utilizar outros alimentos do mato, que ele se vangloriava de conhecer, ele insiste que seria necessário ter dinheiro, não relacionando esta necessidade à compra de local, mas sim a manutenção no mesmo, pela compra e transporte de mantimentos. Efetivamente, a comida no local, para além do caçado e pescado, constitui-se em grande medida de alimentos comprados ou conseguidos na aldeia e na cidade. Neste sentido, a mata, apesar de ser vista como rica, não é vista como suficiente para a manutenção humana.

É importante notar que, tendo dinheiro ou não, os donos destes ranchos, geralmente donos de comércios ou pessoas com salários por trabalho na aldeia ou fora dela, não residem

nos mesmos. Foram mencionados apenas dois casos de residência efetiva em locais similares.

Um índio, que moraria em localidade próxima ao Toldo Velho, isolado, sendo raro aparecer na aldeia e tendo vivido desde muito tempo nesta situação; e um homem cuja origem não pude precisar, que morava ao lado do antigo porto de areia também sozinho. Não tive oportunidade de conversar com eles. São situações limite, portanto, em que se assume a negação da sociabilidade e mesmo da socialidade. São projetos focados no indivíduo.

Lembrando a ligação entre riqueza e a ambição individual, não seria por isso a necessidade de muito dinheiro para viver num local deste?

No caso do rancho descrito aqui, Carlos mantinha um índio guarani que trabalhava ali durante a semana subindo à aldeia nos fins de semana, além de seu irmão que eventualmente também trabalhava ali. Não conheci o guarani nesta minha primeira visita, mas durante o Evento Cultural. Ele tem uma história bastante peculiar, tendo sido criado por brancos e após inúmeros percalços (que envolviam enriquecimento e alguma fama como cantor sertanejo) acabara ali. No entanto, tendo problema de saúde, pensava em voltar para a cidade, onde tinha uma namorada. Assim, com exceção destes casos específicos, todos caracterizados por uma opção de “marginalidade” em relação ao mundo social ou uma situação temporária, a residência afastada da aldeia não é tida como alternativa real, e quando se efetiva é caracterizada pela ausência de relações sociais, ou seja, a solidão, ao contrário de quando é temporária, espaço da parentagem (homens).

Durante esta minha presença no rancho a beira do rio, eu não toquei no tema da tradicionalidade deste tipo de espaço e atividade, da pesca e do paris, e ela não foi enfatizada pelos demais a mim. Para eles, apesar de haver uma clara diferença cotidiana entre o estar no rancho e o estar na aldeia, ela é vivida como um contínuo, não sendo adequado separá-la radicalmente, apesar das distinções feitas aqui.