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3. INDENIZAÇÃO PELA USINA HIDRELÉTRICA APUCARANINHA

3.6. NEGOCIAÇÕES, MERCADORIAS E CHEFIA

3.6.2. Generosidade do chefe

Apesar de ser bem demarcada durante a festa, como detalharei no capítulo 5, a generosidade do chefe também abrange a garantia o sustento das famílias na reserva, em corresponsabilidade com os chefes dos grupos domésticos. Isto pode se dar pela criação de oportunidades de geração de renda e complementarmente ou em decorrência desta, da distribuição de produtos. As demandas ao cacique antes de serem em maior grau de ferramentas ou de produtos, são de condições de trabalho e de renda para as famílias. Ao invés de distribuir bens industrializados como no caso dos Xikrin, há distribuição de alimentos básicos ou das condições para sua produção ou obtenção.

O modelo de produção agrícola coletivo é um dos meios que possibilita uma coisa e outra conjuntamente. No entanto, o modelo de plantio coletivo orgânico adotado no projeto emergencial, apesar de teoricamente levar maior renda para a comunidade, pela criação de

maior quantidade de diárias, não era bem visto pelas lideranças, por ser visto como caro demais em termos absolutos. O modelo convencional seria melhor por trazer maiores lucros.

Este modelo tem a vantagem à liderança por centralizar nela os recursos conseguidos. Um projeto familiar poderia produzir alimentação e renda, com a venda de excedentes. No entanto, este modelo de projeto possui a característica de dispersar a renda inteiramente entre as famílias que possuem terra e condições para trabalho. O modelo coletivo orgânico, mais democrático no sentido da possibilidade de participação no trabalho, centraliza o possível rendimento na chefia política. Mas esta defendia o modelo convencional, a que se opunham outros membros do Comitê, que preferiam o modelo orgânico ou familiar.

Por outro lado, a chefia buscava sempre nos projetos o estabelecimento de assalariados, em trabalhos como fiscalização e brigada de incêndio, funções de fácil destinação a pessoas relacionadas ao grupo político ou a sua sustentação. Um caso interessante para indicar como tal distribuição de cargos se dá era de um fiscal, que integrava uma parentagem relacionada a um dos “velhos” da reserva. Esta parentagem não tinha ligação direta com o grupo atual de poder na aldeia Sede. Com a criação da aldeia Água Branca, o velho se mudou para lá, e tal fiscal, que também era simpático à moralidade desta aldeia, mesmo tendo a família extensa a qual pertence se mudado para lá, permaneceu na aldeia Sede de forma a manter sua função. Ele dizia que evitava qualquer manifestação de oposição ao cacique da Sede, mesmo não concordando com algumas atitudes, por temer a perda de seu cargo. É interessante complementar o que foi exposto por Fernandes (2003), no sentido de que mesmo a atribuição de cargos a pessoas não diretamente relacionadas à liderança são importantes para sustentação do grupo de chefia no poder. Neste caso, se dava de maneira mais direta do que a própria relação entre as lideranças-polícias, ainda que com um peso mais periférico, na medida em que estes cargos não implicam na possibilidade de questionamento político mais aberto, gerando, em verdade, certa dependência em relação ao grupo político.

Estes cargos são interessantes justamente para o cacique poder fornecer alternativa direta de renda a grupos domésticos importantes que eventualmente venham a ele fazer demandas, sendo muito mais relevantes ao serem cargos permanentes. O trabalho na roça coletiva, através de diária, apesar de também ter importância no sentido da distribuição de renda, foge aos parâmetros de distribuição de cargos, uma vez que há uma grande demanda de trabalho mas por um curto período de tempo. Desta forma, há maior dispersão do benefício.

Isto não é ruim à liderança-política, tanto que ao invés de um inflacionamento dos produtos industrializados de forma acentuada, como no caso Xikrin, aqui o que se observa é um inflacionamento da quantidade de diárias aos projetos. Isto era sempre ponto de conflito entre

funcionários da empresa e os índios. Acabavam sendo dadas maiores quantidades de diárias pela liderança, que tinha que defender seu aumento nas reuniões do Comitê. A própria limitação de sua concessão é vista como uma impossibilidade de gerência da liderança sobre o recurso.

Vemos que apesar das diferenças em relação ao caso Xikrin, existem semelhanças no que tange a forma de apropriação do recurso pela comunidade através das lideranças, seguindo um modelo de organização interno. Ao invés de seguir turmas de trabalho ou as casas, segue as parentagens em relação com o cacique, sendo um recurso importante inclusive para criar vínculos entre a chefia e as parentagens que potencialmente podem se opor a esta.

As dificuldades para isso são marcantes, como vimos, tanto pela estrutura gerencial criada pelo TAC e seu funcionamento, bem como às restrições aos projetos. Estas características são inclusive fundamentais no sentido de impedir o uso do recurso de forma “descontrolada”, ou seja, delineando projetos com objetivos específicos e estabelecidos, com dimensionamento de mão de obra e recursos empregados, bem como do acesso a eles por diferentes famílias.

Fazendo isso, porém, está intervindo diretamente na função da chefia na atribuição de cargos e oportunidades de renda, que passa a ter que ser negociada dentro de uma esfera mais complexa de decisão, o Comitê Gestor. Este modelo, de forma geral, impossibilita gastos que não sejam previamente previstos, em especial no âmbito dos projetos, assim, tem-se a visão, como colocada pelo cacique, de que o recurso da indenização não é realmente da comunidade.

Por outro lado, este esquema de negociações a partir do TAC e a realização de trabalhos coletivos com centralização de controle pela chefia reforçam o papel da chefia, interna e externamente, como instituição de poder sobre a comunidade. De um lado, o papel de negociação dos chefes perante os brancos é constantemente atualizado, e a partir dele se fornece recursos para realização da distribuição pelo chefe, reforçando a situação política existente. Ao mesmo tempo que o cacique está entre as parentagens, ele reforça seu papel diferencial e seu status entre elas. No entanto, podemos dizer que quanto mais correria o chefe faz, mais ele tem que mostrar resultados distribuindo na comunidade e se sua diferenciação enquanto chefe neste sentido não trouxer tais frutos, novamente temos a reprovação de sua posição. Voltando à questão das formas de chefia, se a chefia neste caso passa a privilegiar a dimensão da correria, que enfatiza a relação com o branco e o papel de negociação e representação frente a este, ela terá menor presença nas demais funções, ou seja, não será tão presente na casa, para fazer aconselhamentos, na praça central, para vigiar e mostrar-se presente, ou em direção à cadeia, para punir. Isso é possível desde que a correria resulte em fartura, ou se houver outras formas de equilíbrio, no entanto, pode sempre dar margem a

questionamentos morais seja na aldeia ou na própria ética do cacique, como veremos no próximo capítulo.