As Formas Míticas da Civilização Arcaica
Subestágio 3. Calcolítico Antigo: a partir de c 5500 a C O terceiro e final
estágio, portanto, o do Neolítico Básico, da forma trazida à luz nos montículos
25 Ibid., pp. 106-7. 26 Ibid., Prancha 27. 27 Ibid., Prancha 28.
fúnebres da planície de Anatólia, é denominado (no que interessa a essa área), de
Calcolítico Antigo, uma vez que neles foram encontrados, entre os restos, alguns
artefatos de metal. Os primórdios da metalurgia, principalmente a fundição e o afeiçoamento do cobre e chumbo em forma de contas, tubos e outras quinquilharias, eram evidentes em Çatal Hüyük desde o Nível IX, c. 6300 a.C.29 (que é a idade mais antiga de conhecimento do uso de metais pelo homem já registrada em qualquer lugar na Terra). Não obstante, só quase um milênio depois, em c. 5500 a.C, é que ferramentas de metal tornaram-se suficientemente numerosas (embora ainda relativamente sem importância) para justificar o reconhecimento de uma fase de "idade do cobre" (calcolítica) nesse período neolítico básico. O Dr. Mellaart conseguiu marcar com detalhes uma progressão gradual do Neolítico Cerâmico para o Calcolítico Antigo, especialmente, com grande precisão, em Hacilar, onde, declara, "aparecem os primeiros implementos de cobre e, com eles, grande quantidade de cerâmica pintada". "A cerâmica realmente soberba desse período desenvolveu-se", continua ele, "a partir do Neolítico moderno, com algumas peças ainda monocrômicas, porém a maioria pintada alegremente de vermelho ou de cor creme. Os motivos geométricos, muitos deles
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derivados de têxteis ou de esteiras, prevaleceram nas fases mais antigas do período. Mais tarde (c. 5200-5000 a.C.) os padrões passam a apresentar ousadas curvas, o chamado estilo fantástico."30
Uma observação algo surpreendente, relativa aos estilos de arte das estatuetas femininas do neolítico, pode ser feita também a esta altura. Isto porque, ao passo que as do velho período Neolítico Cerâmico haviam sido naturalísticas e fiéis ao original, dando-nos, como declara Mellaart, "pela primeira vez na pré-história do Oriente Próximo, uma imagem confiável de como era a mulher no Neolítico Superior",31 as desse período calcolítico antigo (c. 5500-4500 a.C.) são "símbolos convencionais de fertilidade". E com a passagem do tempo, as estatuetas tornam-se cada vez mais estilizadas e menos naturais.
29 Ibid., pp. 217-18.
30 Mellaat, "Hacilar: A Neolithic Village Site", pp. 94-95. 31 Ibid., p. 46.
(c ) O Neolítico Superior: c. 4500-3500 a.C. (Calcolítico Médio e Superior)
E assim somos levados ao grande estágio seguinte na evolução da civilização, que, no The Masks of God, denominei de Neolítico Superior: c.
4500-3500 a.C., o da cerâmica pintada, bela, geometricamente concebida, de
Halaf, Samarra e Obeid, do período também designado como Médio e Alto
Calcolítico. Explica a Dra. Kenyon:
A dificuldade em chegar a uma conclusão sobre onde situar a transição entre o Neolítico e o Calcolítico reflete-se na confusão existente na nomenclatura. Às vezes, um ou outro nome é dado a grupos correlatos. A transição, na verdade, foi gradual. O despontar de uma nova era não é marcado pelo aparecimento súbito de implementos de cobre em um sítio arqueológico, mas pela quebra gradual do isolamento e a resultante disseminação de idéias e culturas por uma vasta área. Na Palestina, na verdade, tanto quanto chega a prova de que dispomos, o metal parece ter desempenhado, até uma data muito posterior, mais ou menos em fins do terceiro milênio, um papel relativamente modesto entre os materiais empregados. A despeito desse fato, porém, a mudança em ponto de vista reflete-se no crescimento gradual de culturas de ampla disseminação e no amálgama final de grupos isolados em um todo cultural. [pág. 167]
Na parte norte do Crescente Fértil, esse estágio foi assinalado pelo aparecimento de uma cultura amplamente distribuída, denominada de halafiana, nome tirado de Tell Halaf, no norte do Iraque, onde foi inicialmente identificada. Sítio arqueológico após sítio, da Mesopotâmia até a costa do Mediterrâneo, demonstram que, após o estágio das aldeias neolíticas, com todos os seus diferentes estilos de vida, surgiu uma economia notavelmente semelhante, tendo, como aspecto característico, um tipo de cerâmica com decoração geométrica contra um fundo claro. Essa cerâmica é geralmente datada como pertencente a fins do quinto milênio.32
As artes de carpintaria e construção de residências, de tecelagem, ofícios cerâmicos e mesmo metalurgia haviam sido acrescentadas ao cabedal das perícias humanas. Uma mitologia imponente — que seria repetida em todas as grandes tradições subsequentes e até o presente — foi montada em uma constelação bem desenvolvida de artes iconográficas que, na execução de certos temas, já estava perdendo o imediatismo e transformando-se em abstrações. A
vida permanente em aldeias, baseada em uma economia agrícola, era nesse momento, em todo o Oriente Próximo seminal, um modelo firmemente estabelecido. Os cereais eram principalmente a aveia e a cevada e, os animais, o porco, as cabras, ovelhas e bois (tendo o cão já se juntado à família humana numa era tão remota, talvez, quanto o ano 15000 a.C, como auxiliar e companheiro dos caçadores de fins do Paleolítico). Aparentemente, a sociedade já se tornara diferenciada, com artesãos especializados que produziam artigos de luxo, uma ordem sacerdotal de algum tipo e, possivelmente também, autoridades governantes. Como a Dra. Kenyon já havia observado no tocante ao nível
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Pré-cerâmico Jerico A, "a prova de que havia uma organização comunal eficiente é vista no grande sistema de defesa",33 a grande muralha e a torre de pedra.
Em seguida, subitamente — de maneira realmente súbita —, nas peças de cerâmica pintadas altamente estilizadas das pequenas cidades do alto neolítico (calcolítico médio e superior), c. 4500 a.C, tornou-se visível um conceito inteiramente novo de arte, na disposição circular muito bela, rigorosamente equilibrada, de formas estéticas abstratas aplicadas à decoração de vasos de todos os tipos.
Na arte paleolítica mais antiga das grandes cavernas do sul da França e norte da Espanha, que são hoje datadas como de c. 30000-c. 9000 a.C.,34 não encontramos prova de um conceito de disposição geométrica. O professor André Leroi-Gourhan demonstrou recentemente que o posicionamento das figuras gravadas e pintadas nas paredes das cavernas não foi em absoluto aleatório, mas seguiu rigorosamente a ordem de uma mitologia da qual participou a própria forma da caverna. "A caverna", declara ele, "é, na verdade, por assim dizer, um mundo organizado."35 E compara a organização à de uma catedral. Que imagens vemos habitualmente na entrada? O quê, a meio caminho na nave? O quê, na abside, a Capela da Mulher? O que é e onde está o altar-mor? etc. A organização, queremos dizer, é mitológica e tridimensional — arquitetônica,
33 Ibid., p. 46.
34 André Leroi-Gourhan, Les Religions de la préhistoire (Paris-. Presses Universitalres de France, 1964), pp. 84-
90.
diríamos; e as figuras são, na maior parte, belamente vivas. Não encontramos em parte alguma nessa arte de caverna sinais e abstrações esteticamente concebidos, arranjados simetricamente em um campo estético fechado, geometricamente organizado, bidimensional — nada de mandalas ou alguma coisa que com eles se pareçam (Figuras 2 e 10). Na verdade, as superfícies pintadas ou entalhadas das paredes da caverna eram consideradas como campos tão pequenos de interesse estético que os animais, com freqüência, se superpõem em grandes emaranhados.36 Tampouco encontramos alguma coisa parecida com uma organização estética do campo nas obras que remanesceram dos estágios posteriores, terminais, do Paleolítico, onde muitos dos petroglifos perderam
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a beleza impressionista e a precisão anterior e onde alguns deterioraram-se mesmo e se transformaram em meros rabiscos ou abstrações geométricos. Em seixos lisos, pintados, que foram encontrados no que eram aparentemente santuários religiosos, aparecem símbolos geométricos: a cruz, o círculo com um ponto no centro, uma linha com um ponto em cada extremidade, listras, meandros e alguma coisa que lembra a letra E.37 Ainda assim, não encontramos, mesmo nesta fase tardia do período de caça, coisa alguma que poderíamos descrever como organização geométrica — coisa alguma que sugira o conceito de um campo definitivamente circunscrito, no qual certo número de elementos díspares são unidos e fundidos em um todo estético por um ritmo de beleza. O que surge inesperadamente, no período das cidadezinhas do alto neolítico, em certo número de assentamentos, é uma elegante exibição dos mandalas mais graciosos e elaborados com o mais requintado gosto — na louça de cerâmica pintada dos chamados estilos Halaf e Samarra.38
E agora — voltando ao argumento da primeira parte deste capítulo — temos que perguntar a nós mesmos se podemos razoavelmente afirmar que essas
36 Cf. Abbé H. Breuil, Four Hundred Centuries of Cave Art (Montignac, Dordogne: Centre d'Etudes et de
Documentation Préhistoriques, n.d.), pp. 66, 154-57, 160-165, 168-75, 300-301, 320, 324-25, 389.
37 Henry Fairfield Osborn, Men of the Old Stone Age (Nova York: Charles Scribner's Sons, 3a ed., 1925), p. 464. 38 Para exemplos da louça de Halaf, ver a bela série extraída do "the potter's shop", publicada por M. E. L.
Mallowan e J. Cruikshank Rose, Excavations at Tali Arpachiyah, "Iraq" (British School of Archaeology in Iraq), Vol. II, Part I (1935); e para um estudo sumário dos temas de Samarra, Robert J. e Linda S. Braidwood, Edna Tulane e Ann L. Perkins, "New Chalcolithic Material of Samarran Type and Its Implications", Journal of
formas geométricas, que se tornaram os lugares-comuns da discussão psicológica moderna dos símbolos arquetípicos, representam, de fato, estruturas básicas da psique humana ou não são, talvez, apenas funções de um certo tipo ou fase de desenvolvimento social, incidental à história de limitada parte da raça.
A questão reveste-se de grande interesse, uma vez que dela depende toda nossa interpretação das denominadas referências "espirituais", "divinas", "esotéricas", "místicas", paroksa, de nosso vocabulário psicológico. Ainda assim, tanto quanto sei, ela não foi sistematicamente estudada. O que eu gostaria de sugerir, por conseguinte, é uma hipótese preliminar: uma idéia que me ocorreu há alguns anos, durante o curso de um estudo comparativo dos mitos e da arte de certas raças de caçadores dos dias atuais com as do Oriente Próximo arcaico.
Figura 10. Desenhos Decorativos em Cerâmica Policrômica, louça de Halaf, Iraque, c. 4000 a.C.