1. A CANÇÃO DE CÂMARA BRASILEIRA
1.4. Camargo Guarnieri: um compositor original
Em 1928, o então jovem compositor de Tietê, Mozart Camargo Guarnieri, teve seu primeiro contato com Mário de Andrade. Como visto anteriormente, o musicólogo exerceu grande influência tanto no que diz respeito à estética, literatura, filosofia e em especial, o percurso composicional. Mestre de inúmeros compositores brasileiros, Guarnieri criou uma escola de composição, embora nunca tenha sido formalizada como tal. Entre os que foram seus alunos destacam-se Osvaldo Lacerda84
84 Pianista e compositor brasileiro, foi professor da Escola Municipal de Música de São Paulo e da
Universidade de São Paulo. Autor de diversos livros de teoria musical. É considerado um compositor nacionalista.
(1927-2011), Lina Pires de Campos85 (1918-2003), Nilson Lombardi86 (1926-2008), Almeida Prado87 (1943-2010), Edmundo Villani-Côrtes88 (1930), Achille Picchi (1952) entre outros. Considerado um dos mais importantes nomes da música erudita brasileira e reconhecido internacionalmente, Guarnieri foi um defensor dos ideais nacionalistas. Produziu pouco mais de 200 canções para canto e piano, mostrando total domínio no desenvolvimento deste gênero e na escrita para voz, num período de 61 anos, entre 1928 e 1989.
As canções, de maneira geral, são consideradas um forte exemplo de música nacional. Escritas de maneira concisa “num plano elevado de brasilidade depurada, íntima e antiexibicionista [...]” (MARIZ apud SILVA, 2001, p. 381), em língua portuguesa e ameríndio, receberam do compositor especial atenção à prosódia e à métrica. Como bem observa Mário de Andrade em 1940, a formação na Europa serviu para amadurecer o jovem compositor e “nada lhe roubaram daquela sua musicalidade tão intimamente brasileira e da sua originalidade livre” (ANDRADE, 1963, p. 324).
Se em 1928 – ano em que Guarnieri começou a escrever mais seriamente89 – suas primeiras canções podem vir a apresentar alguns problemas de prosódia, segundo seu mentor intelectual Mário de Andrade, com o passar do tempo, o amadurecimento na arte de compor mostrou um domínio total na relação texto- música. Se considerarmos as peças para voz e piano, observamos que a canção de câmara acompanhou todo período da sua vida produtiva.
Uma das características do compositor era utilizar palavras em língua portuguesa para apontar andamentos, dinâmicas, caráter, etc. Muito raramente há termos em italiano e menos ainda em latim, como é o caso da canção II dos Poemas
85 Pianista e compositora brasileira. Foi assistente de Magda Tagliaferro fundando, em 1964, sua
própria escola de piano.
86 Pianista e compositor brasileiro. Foi professor de composição, análise musical, teoria elementar,
solfejo e orquestração. Lecionou na Faculdade Santa Marcelina e na Escola Municipal de Música em São Paulo por quase 30 anos. Autor de quatro importantes livros de Teoria musical e Solfejo, foi também fundador do Centro de Música Brasileira.
87 Pianista e compositor brasileiro. Como pianista, foi aluno de Dinorah de Carvalho e em harmonia
estudou com Oswaldo Lacerda. Em Paris estudou com Nadia Boulanger e Olivier Messiaen. Foi professor da UNICAMP por 25 anos, se aposentando no ano 2000.
88 Pianista, compositor, arranjador e maestro. Foi professor de contraponto e composição na UNESP,
aposentando-se em 1999. Além de CG, estudou com Hans-Joachim Koellreutter.
89 De acordo com Silva (2001, p. 504), Guarnieri cataloga sua obra por sugestão de Mário de Andrade
e cunha o seguinte texto: “As obras que escrevi de 1920 a 1928 não representam para mim valor rigorosamente artístico e, por isso, deixo de mencionar (sic) neste catálogo (...) Tudo quanto escrevi de 1920 a 1928 não deve, em hipótese alguma e sob nenhum pretexto, ser impresso e publicado, devendo apenas servir para estudo crítico e comparativo”.
da Negra, no c. 43, em que Guarnieri usa o termo ad libitum (canção II; c. 43). Sá
Pereira (apud SILVA, 2001) em 1929 escreveu uma crítica sobre a Sonatina (nº 1) e fez referência à estas escolhas:
Como se comportaria, porém, um autor de tão marcada tendência nacionalista ao abordar uma forma europeia de tradição secular? [...] Substituiu Guarnieri o ‘Andante’ da sonata por uma ‘Modinha’ [...] Em lugar de um convencional Andatino ou Allegretto ma non troppo, marcou ele: ‘Bem dengoso’, expressão que nos diz muito mais do que aquelas porque nos dá a mais, também, o sentimento da peça. (PEREIRA apud SILVA, 2001, p. 22)
No entanto, embora Guarnieri tenha se destacado por usar expressões em nossa língua em quase em toda sua obra, outros compositores do período nacionalista valiam-se do vernáculo para melhor exprimir a indicação expressiva de suas canções, a exemplo de Lorenzo Fernandez (1897-1948) em Canção ao luar e Canção do
violeiro, que indica Com profunda expressão e Com nostalgia, respectivamente. Como
exemplo, apresento na tabela a seguir as expressões utilizadas por Camargo Guarnieri nos 12 Poemas da Negra, objeto de estudo deste trabalho:
Canção Título Indicação expressiva
I Não sei porque espírito antigo Sem pressa
II Não sei se estou vivo Dengoso
III Você é tão suave... Com profunda doçura
IV Estou com medo... Calmo, diáfano
V Lá longe no sul... Dengoso
VI Quando... Com ternura
VII Não sei porque os tetéus... Com alegria
VIII Nega em teu ser primário... Recitativo/Calmo
IX Na zona da mata Repinicado
X Há o mutismo exaltado dos astros... Sombrio
XI Ai momentos de físico amor... Improvisando
XII Lembrança boa... Ritmado
Quadro 2 – Indicação expressiva das canções do ciclo 12 Poemas da Negra
Por volta de 1932 em decorrência dos acontecimentos políticos que ocorreram no Brasil e mais especificamente no estado de São Paulo90, Guarnieri
90 9 de julho de 1932 data a Revolução Constitucionalista, importante acontecimento histórico onde a
luta pela independência e contra a ditadura do Estado Novo tem início oficialmente. Com o levante popular armado contra as tropas de Getúlio Vargas, a cidade sofreu o impacto em seu cotidiano, com escolas sendo fechadas e restrição no comércio, deixando então os cidadãos em estado de alerta.
passou a despender mais tempo com estudos. Mário de Andrade então emprestava partituras de Arnold Schoenberg (1874-1951), Alban Berg (1985-1935) e Paul Hindemith (1895-1963) para que o pupilo pudesse aprofundar seus conhecimentos. Esta nova linguagem musical influenciou algumas composições desta época que, nas palavras dele mesmo, foi um “período de namoro com o atonalismo”. Entre os anos de 1932 e 1934 nasceram as seguintes obras:
1932
- Pedro Malazarte (ópera em 1 ato)
- A morte do aviador (orquestra); À glória de São Paulo (orquestra) - Quarteto para cordas nº 1
- Prenda Minha (coro misto)
- Carícia, Den-bau, Lembrança de um sonho, Mofidalofê (voz e piano) - Cavalinho da perna quebrada, Lundu, Piratininga (piano solo)
1933
- Sonata nº 2 para Violino e piano91 - Choro para quinteto de sopros
- Você é tão suave92; Solidão; É uma pena; É uma pena, doce amiga; Gosto de estar
a teu lado; Plumas (voz e piano)
- Nas ondas da praia (coro infantil)
1934
- Não sei porque espírito antigo93; Quando94; Acuti-paru; Modinha triste; No fundo dos
teus olhos (voz e piano)
- Valsa nº1 e a Sonatina nº2 (1934) (piano solo)
Com a desaceleração na rotina de aulas e trabalho, o compositor pode dedicar-se com mais afinco aos estudos (Verhalenn, 2001, p. 28).
91 Oficialmente o ano desta Sonata para violino e piano é 1933, porém há controvérsias de acordo com
a pesquisa de Flávio Silva (2001, p. 557). Para mais detalhes acerca deste assunto consultar na bibliografia.
92 Canção III do ciclo Poemas da Negra 93 Canção I do ciclo Poemas da Negra 94 Canção VI do ciclo Poemas da Negra
Deste período, a Sonatina nº2 é a que mais se aproxima da atonalidade. Segundo Ribas (2017), embora a dissonância tenha sido muito criticada à época em que foi escrita, o “caráter modal” está presente especialmente nos dois primeiros movimentos:
A quantidade de alterações de notas tanto na linha melódica quanto em outras vozes secundárias revela que o tratamento modal dado a essa sonatina é distorcido pelas dissonâncias provocadas por essas alterações de notas que, auditivamente, pode nos dar uma falsa ideia de ser uma obra atonal (RIBAS, 2017, p. 25 e 26).
No contexto dos 12 Poemas da Negra, como veremos no terceiro capítulo, nenhuma das canções é atonal e a harmonia revela-se em centricidades. Contudo, pela utilização de acordes de quartas e sétimas, polirritmia, polifonia, contracanto, constantes saltos de sétimas e nonas na linha melódica do canto e, em quase todas as canções, voz e piano soarem independentes, o conjunto cria uma textura que pode soar para o ouvinte uma sonoridade próxima ao atonalismo. De acordo com o próprio Guarnieri,
“por volta de 1934 senti que minha sensibilidade não era compatível com o atonalismo. Comecei, então, a escrever obras que eram livres de um sentido tonal, não tonais em vez de atonais. Possuíam tonalidade indeterminada, não eram maiores nem menores, não eram em Dó nem em Ré...” (GUARNIERI, apud VERHAALEN, 2001, p. 28).
De fato, as canções dos 12 Poemas são construídas em cima de centricidades, não revelando-se em nenhum tom específico, mesmo aquelas que possam sugerir um centro tonal. É o caso da canção XI, Ai momentos de físico amor, que verificaremos na análise do capítulo 3.
A canção Não sei se estou vivo é a única do ciclo composta em 1968. Veremos na análise musical (item 3.2.2) que o compositor mantém as mesmas características das canções já compostas anteriormente (as canções I, III e IV). São deste ano:
- Não sei se estou vivo95; Música e letra de modinha; Três epigramas: Pêndulo, Terra
natal e Suspeita (canto e piano)
- Quatro cantigas: A cantiga da matuta, Cantiga, Não sei... e Vamos dar a despedida (canto e orquestra de cordas)
- Interlúdio (piano solo)
- Concerto nº4 para piano e orquestra
Verhaalen (2001) destaca que, nas composições deste período, é possível identificar diferenças marcantes em relação ao ano anterior e cita como exemplo o Concerto nº 4 para Piano e Orquestra, dedicado a Roberto Szidon96 (1941-2011), que se aproxima do serialismo, possui um caráter linear e utiliza-se da bitonalidade em sua estrutura (Ibidem, p. 224).
Foi então em 1975 que o compositor finalizaria o ciclo, lembrando que Guarnieri já havia composto suas principais e maiores obras: quatro das 7 Sinfonias, os 50 Ponteios e sete das 8 Sonatinas para piano (a oitava Sonatina seria composta em 1982) além de inúmeras peças para as mais variadas combinações instrumentais:
1974
- Estou com medo...97; Lá longe no sul98; Não sei porque os tetéus99; Deslumbramento
(canto e piano)
- Improviso nº 6 (orquestra de câmara)
- Cantilena (violoncelo e piano)
- Sonatina para violino e piano (dedicado à sua filha Tânia Guarnieri100) - Ave Maria (duas vozes, órgão e/ou quarteto de cordas)
1975
- Choro para viola e orquestra
96 Pianista natural de Porto Alegre, ganhou inúmeros prêmios, realizou diversas gravações e tocou com
inúmeras orquestras como solista.
97 Canção IV do ciclo Poemas da Negra 98 Canção V do ciclo Poemas da Negra 99 Canção VII do ciclo Poemas da Negra
100 Violinista com sólida carreira, ainda muito jovem, aos 16 anos recebeu o prêmio APCA (Associação
Paulista de Críticos de Arte). Realizou gravações de obras de seu pai, ao lado da pianista Laís de Souza. Mora na Itália desde 1996 onde atua como solista e camerista.
- És na minha vida; Nega em teu ser primário101; Na zona da mata102; Há o mutismo exaltado dos astros103; Ai, momentos de físico amor104; Lembrança boa105 (canto e piano)
Na vida profissional do compositor, em maio deste ano (1975) a Universidade de São Paulo (USP) criou a Orquestra Sinfônica da USP e nomeou Camargo Guarnieri como diretor artístico e regente titular.
101 Canção VIII do ciclo Poemas da Negra. 102 Canção IX do ciclo Poemas da Negra. 103 Canção X do ciclo Poemas da Negra. 104 Canção XI do ciclo Poemas da Negra. 105 Canção XII do ciclo Poemas da Negra.