Nunca chegamos a esquentar um lugar. Eu pensava que a nossa andança terminasse aqui, mas minha mãe já está falando em sair novamente. Ela não está gostando de coisas que estão acontecendo por aqui ultimamente.Um dia desse ouvi ela dizer que aqui não é mais o lugar que ela pensava que seria.
[Jaqueline – Canudos]
No campo ou na cidade, no Maranhão ou alhures, os assentamentos resultam do deslocamento de grupos humanos que deixam as regiões de origem, ou de migração anterior, e se estabelecem nas áreas de sua implantação. Constituem processos que reconfiguram os espaços geográficos, bem como as relações entre pessoas, grupos, movimentos, classes sociais e ordenamentos institucionais. Com efeito, os deslocamentos espaciais sempre comportam deslocamentos sociais. Redefinem as antigas formas de sociabilidade e proporcionam aos grupos e setores populares mobilizados a posibilidade de reconstruir sua identidade – ressocialização - em novos contextos físicos e sociais.
Deste modo, as migrações não são apenas deslocamentos geográficos, mas também mudanças socioculturais com evidentes desdobramentos psicosociais.
Vista pela ótica da teoria evolucionista, a história progride em direção a uma unidade e homogeneidade final. Portanto, as diferentes forças sociais devem se organizar e operar em consonância com os fins e, dessa forma, contribuir para a sua realização.4 Conseqüentemente, para essa visão os conflitos não podem ganhar centralidade analítica. Relegados a um lugar secundário, são usualmente concebidos como anomalias, desvios, desajustes. Decorre, então, que uma das funções das instituições públicas consiste em manter e reproduzir a ordem instituída. Por causa disso, lhes é conferido o poder legal de reconduzir os grupos e as classes sociais às suas funções centrais toda vez que a ordem instituída for ameaçada.5
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Uma vez que as ações humanas são direcionadas, reguladas e justificadas pelos fins últimos, as interpretações, sociais e políticas, assumirão necessariamente um caráter moral.
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É no bojo desta interpretação que é possível compreender a razão pela qual, ao longo do processo de formação social, setores populares e movimentos sociais, portadores de formas renovadas e ampliadas de sociabilidade, são reiteradamente considerados pela ótica da desordem, do caos, da instabilidade e da potencial convulsão social. E, por causa disso, criminalizados, domesticados ou reprimidos.
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Nesta perspectiva, as migrações assumem a função de operar ajustes sociais, econômicos, políticos e culturais.6 Direcionadas aos fins, redefinem as configurações físicas e sociais e contribuem para o progresso, o desenvolvimento, a modernização, a ordem e a harmonia social. Destarte, o lugar de destino dos deslocamentos é construído, no imaginário, como o locus de superação dos impedimentos sociais, econômicos e políticos que faziam do lugar de origem e das etapas intermediárias campos de desigualdades, desajustes e conflitos. As etapas interpostas entre o lugar de origem e o de destino configuram situações, arranjos e ordenamentos provisórios e transitórios. Prevalece a visão linear e seqüencial do processo histórico. A fixação, estabilidade, integração, vida digna, harmonia familiar e social estão associadas ao lugar de chegada.7 Seriam atribuições do novo espaço físico e não relações e construções dos processos sociais. Em decorrência disso, deslocamento espacial e mobilidade social parecem operar conjugados. Traçam, no imaginário dos migrantes, os contornos da sociedade, que pode ganhar um novo caráter humanitário, uma vez que a anterior sociabilidade foi desarticulada pelos processos migratórios que provocaram a expulsão do lugar de origem8 e pelos sucessivos deslocamentos em busca de um novo lugar social.9
Como salientado, no imaginário dos sem-teto e dos sem-terra, os assentamentos eram concebidos como espaços ou unidades sociais que teriam propiciado a reprodução de suas condições de vida e, ao mesmo tempo, sua inclusão nos novos ordenamentos sociais em configuração. Entretanto, o estudo dos assentamentos mostrou que estes constituem processos sociais que não se resolvem em conformidade com aqueles postulados. Pelo contrário, operam integrando áreas geográficas e grupos sociais ao movimento de expansão do capital em escala ampliada, gerando diferenciações, divisões e desigualdades e recolocando parcelas significativas de membros dos grupos mobilizados em novas condições migratórias. Deste modo, os assentamentos não equacionam de forma estrutural o problema das migrações, desarticulam e impedem a operacionalidade das antigas formas de sociabilidade e não integram, com base em critérios de equidade, os assentados à nova
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Pela concepção funcionalista, as migrações visariam a conformação de grupos sociais a uma totalidade orgânica estabelecida. Na realidade, sendo que os deslocamentos redefinem todas as dimensões da vida dos grupos sociais mobilizados, produzem transformações societárias. A contradição teórica reside no princípio de que não haveria reciprocidade constitutiva nas relações entre “parte e todo”, “particular e universal”. Com isso a história não poderia ser modificada, transformada ou redirecionada pelas ações de grupos e classes sociais. Naturalizados, os processos sociais são vistos como inexoráveis.
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Como os deslocamentos são vistos em função de seus objetivos finais, não entram em discussão as causas das expulsões e das migrações. As mobilizações espaciais assumem o caráter de configurações provisórias, de passagem de situações de precariedade e privações para condições de abundância e equidade.
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O lugar de origem é aqui entendido em sentido físico-espacial e social, ou seja, de sociabilidade.
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“A idéia, perspectiva, previsão, sonho de um futuro de abundância (construir o bolo para depois reparti-lo) contribuiu para justificar o alto nível de desigualdade que caracteriza tradicionalmente a distribuição social no Brasil. REIS, Elisa Pereira. “Modernização, cidadania e estratificação”; in BETHELL, Leslie (org.). Brasil: fardo do passado, promessa do
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ordem social. Redefinidas, então, as carências e desigualdades que caracterizavam as relações e configurações sociais que constituíam os espaços de origem e de transição são reproduzidas nos espaços de destino. Conseqüentemente, os deslocamentos e as migrações não têm um caráter conjuntural e sim estrutural e são funcionais à ordem instituída. Seu estudo, portanto, permite decifrar melhor o movimento de configuração e redefinição do social. Em outras palavras: as migrações inserem-se no processo de configuração e redefinição do espaço territorial e social, isto é, da nação, e a análise dos processos migratórios contribui para caracterizar a questão nacional e social tanto do ponto de vista demográfico, como político, econômico, social e cultural.
Nova Conquista e Canudos constituem realidades sociais compostas por indivíduos, famílias, grupos e movimentos de origem rural e urbana. Como destacado, em teoria seria possível imaginar membros de uma mesma família configurando, a um só tempo, os dois assentamentos. Por isso, os núcleos fundadores dos projetos investigados não são exclusiva ou separadamente o rural para o campo e o urbano para a cidade e sim a articulação criadora entre as duas dimensões constitutivas de um único processo social.10
Nova Conquista. Somente 4,27% dos chefes de família assentados em Nova Conquista eram oriundos do município de sua localização, Açailândia. Os outros, ou seja, mais de 95% do total, tinham nascido em outros municípios, ainda que tivessem chegado à região em épocas anteriores ao assentamento. Do total de assentados, 25,64% procediam de outros estados da Federação, todos do Nordeste.11
Embora 93,2% dos assentados fossem originários de famílias que, no passado, viviam de atividades agrícolas,12 49,5% deste total exerceram algum tipo de atividade ou tiveram alguma
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O urbano e o rural, em que pesem suas especificidades, não podem ser pensados como dois universos separados e autônomos.
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A análise das migrações interestaduais ajuda a traçar o perfil e caracterizar o estado do Maranhão, base dos processos estudados. De acordo com os dados do Censo do IBGE realizado no ano de 2000, a população do Maranhão era de 5.657.552. Deste total, 461.084 tinham nascido em outras Unidades da Federação ou em países estrangeiros e, portanto, não eram maranhenses. Deste modo, a população de origem maranhense residindo no estado era de 5.196.468. Por outro lado, o número de pessoas que tinham nascido no Maranhão e estavam residindo em outros Estados da Federação era de 1.244.407. Com isso, no ano de 2000, a população de origem maranhense era de 6.440.875. Destes, 19,32% viviam em outros estados da Federação e 80,68% viviam no Maranhão. Do total da população residente, apenas 8,12% tinham nascido em outras Unidades da Federação. Isto permite concluir que a mobilidade espacial da população do Maranhão é elevada e que as migrações rumo a outros estados da Federação são muito superiores à direção inversa.
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As relações e as condições de trabalho das famílias eram de posseiros (34,7%), de trabalhadores em fazenda (7,8%) e de pequenos agricultores (57,5%). Estes dados, contudo, devem ser interpretados levando em consideração o fato de que a categoria “posseiro” é derivada e não inerente aos sujeitos investigados. Com isso, os agricultores, mesmo aqueles que
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experiência urbana.13 Antes do assentamento, 64,3% das famílias moravam em pequenas cidades ou povoados.14 Apesar da pluralidade de atividades exercidas ao longo dos sucessivos deslocamentos, a terra continuou operando como principal fator de identificação para 79,2% dos assentados, mesmo tendo acumulado algum tipo de experiência urbana.
Admitida a hipótese de que o grau de escolaridade estaria relacionado às condições econômicas, sociais e políticas das famílias investigadas e determinaria as formas e os níveis de integração à ordem social dominante,15 em Nova Conquista 62,4% dos chefes de família assentados tinham algum grau de escolaridade, ao passo que 37,6% não possuíam escolaridade alguma, infere-se que todas as esferas estão marcadas pelas desigualdades.
Canudos. Em relação aos responsáveis pelos domicílios assentados em Canudos, somente 32,4% do total eram originários de São Lus, ao passo que o restante, ou seja, 67,6%´, tinha nascido em outros municípios do estado. Apenas 8,2% procediam de outros estados da Federação.
Tendo como referência os assentados oriundos de outros municípios, o quadro migratório era assim composto: 28,7% do total foram do campo diretamente para São Luís e o restante, 71,3%, mesmo se identificando com a terra, teve como último local de morada alguma cidade ou povoado do interior do estado.16 Estes dados, contudo, não caracterizam um tempo ou uma época peculiar de migração para a capital do estado. Com efeito, eram díspares os tempos de chegada e estada em São Luís dos sem-teto acampados e depois assentados em Canudos. No período das mobilizações que resultaram no acampamento e no assentamento, havia inclusive pessoas e famílias que chegavam do interior e logo se agregavam ao movimento dos sem-teto acampados.
viviam em terras consideradas “livres”, não se autodefiniam de posseiros. Com efeito, apenas 5,9% dos assentados afirmaram terem sido proprietários de terra antes da criação do assentamento.
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Por experiências urbanas entenda-se aqui o exercício de atividades direta ou indiretamente ligadas à produção agrícola realizadas a partir das pequenas cidades ou povoados do interior do estado ou outros serviços.
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Enquanto alguém, geralmente o homem, ficava no acampamento, o restante da família aguardava o desfecho das mobilizações nas cidades, povoados ou fazendas circunvizinhas.
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As desigualdades em termos de escolaridade são consideradas um fator determinante da assimetria da estrutura social brasileira. A esse respeito ver: LANGONI, Carlos Geraldo. Distribuição da renda e desenvolvimento econômico do
Brasil. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1973. BARROS, Ricardo Paes e MENDONÇA, Rosane Silva Pinto. “Os
determinantes da desigualdade no Brasil”; in IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Rio de Janeiro, junho de 2001. Texto para Discussão n° 377. RAMOS, Lauro e VIEIRA, Maria Lucia. “Desigualdade de rendimentos no Brasil nas décadas de 80 e 90: evolução e principais determinantes”; in IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Rio de Janeiro, junho de 2001. Texto para Discussão n° 803.
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Os dados referem-se ao último local de morada antes da migração para São Luís e não permitem caracterizar os migrantes, uma vez que sua identidade foi construída ao longo de sucessivos deslocamentos. Deste modo, parcelas daqueles que provisoriamente moravam em pequenas cidades e povoados do interior se autodenominavam de “camponeses” ou “caboclos”.
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Mais de 90% dos responsáveis pelos domicílios assentados em Canudos tinham algum grau de escolaridade.17
Com base nestes dados, é possível dizer que se, de um lado, há uma urbanização do rural, do outro, há também uma ruralização do urbano. Por isso, o problema que se põe não é saber se prevalece um aspecto em contraposição a outro ou se determinado movimento emperra e atrasa o desenvolvimento de outro,18 e nem pensar as dimensões constitutivas do processo social de forma autônoma, como se tivessem vida própria e existissem em suas formas puras. O desafio consiste em desvendar a natureza e o caráter deste peculiar encontro no bojo do movimento de articulação, configuração e redefinição da unidade social no contexto do atual processo histórico.
De acordo com Singer, os fatores que provocam as migrações são essencialmente de duas ordens: a) fatores de mudança, que resultam da introdução de relações de produção capitalista no campo e que ocasionam a expropriação e expulsão de camponeses, agregados, parceiros e outros; b)
fatores de estagnação, que resultam da relação desigual entre a pressão popular e as restrições de
áreas disponíveis para a agricultura ou monopolizadas por grandes proprietários.19 Constituem processos distintos: enquanto os fatores de mudanças provocam um aumento da produtividade do trabalho, os de estagnação resultam da incapacidade dos produtores em economia de subsistência de elevarem a produtividade da terra.
Se existem fatores de expulsão, a rigor devem existir também fatores de atração que orientam os fluxos migratórios. O desenvolvimento industrial e, portanto, a demanda por força de trabalho associada às oportunidades econômicas exerceram, por muito tempo, essas funções. No entanto,
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Se comparados com os dados de Nova Conquista, infere-se que as oportunidades de estudo entre campo e cidade continuam desiguais tanto em termos quantitativos como qualitativos. Ressalte-se também que a escolaridade básica não é garantia de maior integração social, uma vez que a mobilidade social depende sempre mais da especialização. Associada ao trabalho, a ascensão social decorre da capacitação para o exercício de funções específicas constantemente redefinidas. Os grupos sociais examinados estão fora desta batalha – há nos relatos uma espécie de rendição – e sonham com a integração dos filhos mediante o estudo.
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Algumas interpretações relativas à formação histórica da sociedade brasileira – sobretudo as de caráter evolucionista e de base dualista – deixam supor que o Brasil não teria ou estaria avançando lentamente em direção à modernidade por causa das resistências de setores tradicionais da população às mudanças necessárias. Na realidade, banidos das instâncias de decisão dos rumos políticos, os setores populares nunca ou pouco interferiram na configuração dos arranjos
institucionais das diferentes épocas ou fases históricas do país. Portanto, não seriam suas resistências a emperrar agora os movimentos de modernização. Efetivamente, como abordado no capítulo relativo ao assentamento, a questão reside na estrutura e nos ordenamentos sociais e políticos instituídos e reiteradamente reproduzidos no Brasil que regulam e controlam os processos de socialização ao longo do tempo.
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parecem ter se esgotado. A redefinição das relações de trabalho20 e as limitações estruturais da sociedade de mercado, acopladas aos baixos níveis de escolaridade e à falta de qualificação para o exercício de novas funções de parcelas de migrantes, tornam problemática sua integração nos espaços dos assentamentos. Se, de um lado, é possível afirmar que estes resultam das relações que os assentados estabelecem entre si e com o processo de produção do social, do outro, são configurados e regulados também pela expansão da proposta de sociabilidade dominante que se move incorporando espaços físicos e sociais à ordem instituída. A integração de espaços físicos e a criação de novas condições de migração são expressões da redefinição e, ao mesmo tempo, da reprodução da estrutura social no Brasil.
Conclui-se, então, que as causas imediatas das migrações apontadas inscrevem-se no campo da produção21, o que torna difícil entender os fluxos migratórios na perspectiva de alívio de tensões sociais. Deste modo, coloca-se, de um ponto de vista teórico, o imperativo de interpretar as migrações também como processos históricos que contribuem para a reprodução da ordem social.
Os deslocamentos e as migrações devem ser considerados como fenômenos espaciais e, ao mesmo tempo, sociais. Constituem rituais de passagem que conjugam espaços, tempos e ordenamentos sociais diferentes.22 Deste modo, passado e presente, campo e cidade, arcaico e moderno tornam-se dificilmente separáveis. Contudo, não constituem movimentos ou processos lineares. Se há um deslocamento – êxodo - forçado de determinadas regiões para outras, também há um desenraizamento das concepções que conferiam sentido ao universo de origem e tentativas de enraizamento no universo de destino. Para os grupos sociais em movimento, os deslocamentos comportam a tradução de linguagens, de regras, de sistemas de referência. Aquilo que valia num determinado âmbito não pode ser transferido automaticamente para outro. Regras, linguagens e sistemas de referência que antes funcionavam não são mais aplicáveis às situações mudadas. De forma paradoxal, aquele que, de um certo ponto de vista, pode ser interpretado como um processo de
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Estes fenômenos são ideologicamente construídos como se atingissem e redefinissem indistintamente e de forma igualitária áreas geográficas, povos, grupos e classes sociais. Na realidade, constituem processos fundados em
desigualdades decorrentes da expropriação e alienação e que se movem de forma desigual, ou sejam, recriam em outros níveis e em outras esferas desigualdades geográficas e sociais. Os setores das classes subalternas ficam mais expostos às desigualdades. Deste modo, em nome de processos aparente e ideologicamente igualitários são reproduzidas as condições de submissão das classes subalternas.
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As duas ordens de fatores apontadas por Singer inserem-se no que pode ser definido como a concepção
desenvolvimentista da sociedade nacional. Seria possível pensar nos mesmos fatores numa fase de esgotamento do projeto desenvolvimentista? Ou haveria um desenvolvimentismo redefinido? Se não for o processo de modernização – relação capital-trabalho – a produzir os deslocamentos, a que eles seriam devidos? Trata-se de simples indagações destinadas a ficar sem respostas, uma vez que nos levariam para outro campo de investigação.
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fragmentação das tradicionais unidades sociais, numa outra perspectiva, articulada com a primeira, pode ser concebido como um movimento de configuração, em outro nível, da unidade social. Com efeito, os espaços e os grupos sociais são integrados ao mesmo processo de socialização, à mesma unidade social. É a partir desta unidade que os espaços e grupos humanos são redefinidos, (re)conformados.
Os processos migratórios articulam tempo e situações diferentes, mas não reproduzem os tempos e as situações com o mesmo caráter do passado. Passado e presente, tradicional e moderno se constituem e, portanto, se redefinem reciprocamente. Neste sentido, imaginar que o moderno poderia liquidar com o tradicional ou que formas tradicionais de vida poderiam ser reproduzidas no presente da mesma forma e com o mesmo conteúdo do passado, como se o moderno não operasse nas novas configurações, constitui um equívoco metodológico e interpretativo. Seria como se tradicional e moderno existissem enquanto produtos acabados e autônomos. Na mutua relação há tensão e também cumplicidade. Nos assentamentos, por exemplo, são reinventadas e mobilizadas formas tradicionais de unidades sociais para viabilizar e dinamizar a modernização da produção agrícola.23
Partindo do pressuposto de que os processos migratórios objetivam e, por conseguinte, obedecem a reordenamentos espaciais, sociais, econômicos e políticos, ainda que as necessidades econômicas apareçam como determinantes primários, infere-se que não são fenômenos que resultem da livre e soberana vontade de quem, na realidade, é posto em movimento. Com isso, os migrantes não são despojados de sua vontade política e não deixam de ser sujeitos. Com efeito, conforme ressaltado, seus deslocamentos adquirem uma dupla direção e, por conseguinte, assumem um caráter ambíguo. Objetivam, simultaneamente, o passado e o futuro. Os migrantes procuram recompor formas de sociabilidade tradicionais e, a um só tempo, buscam se integrar aos novos ordenamentos sociais. Mesmo na ambigüidade, portanto, são sujeitos que redefinem as configurações sociais das áreas de origem e favorecem o desenvolvimento das regiões de destino24. Salientar o caráter de atores