Todos deveriam colocar a família como o valor maior da sua vida. A família é fundamental para que a pessoa tenha êxito na vida.
[Ricardo - Canudos]
A questão das transformações sociais constitui o objeto de investigação de muitos que, a partir de diferentes lugares e de várias maneiras, enfrentam o desafio de desvendar sua natureza, bem como interpretar e conceituar a complexidade das configurações que delas emergem. Importa salientar que as transformações são simultaneamente materiais e imateriais, ou seja, envolvem os meios de produção da vida e a própria vida em sociedade. Por conseguinte, têm um caráter societário, mesmo quando a indagação focaliza apenas algumas de suas dimensões constitutivas.
As relações familiares devem ser entendidas e explicadas tendo como referência fundamental o processo ininterrupto de construção e redefinição do social. Constituem, como a própria expressão enuncia, relações sociais.
A família, assim como a casa, é considerada o bem mais precioso por todos os moradores do bairro, inclusive aqueles cujas unidades se fragmentaram ao longo dos reiterados deslocamentos. Em Canudos, os dados relativos ao estado civil dos responsáveis pelos domicílios contribuem para decifrar o caráter das transformações que redefinem a estrutura e o sentido da família. O quadro encontrado foi o seguinte: do universo dos responsáveis pelos domicílios, 17,84 % eram casados; 37,43 % solteiros55 e 35,08 % amasiados.
Os dados apontam ainda para situações e condições familiares distantes da mistificada unidade familiar tradicional, bem como do padrão médio de evolução da família brasileira registrado pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em suas periódicas indagações. A referência à família tradicional funda-se no fato de que 59,36% dos chefes de família procediam diretamente de pequenos povoados e bairros rurais do interior do Maranhão, embora pudessem ter permanecido um período mais ou menos longo em São Luís, em casa de parentes, conhecidos ou morando de aluguel; 8,19 % do total dos chefes de família procediam de outros estados da Federação,
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Por meio de entrevistas e observações recolhidas no bairro foi constatado que algumas mulheres responsáveis pelos domicílios, com filhos e sem companheiro se incluíram na categoria “solteiro” na pesquisa de múltipla escolha.
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e o restante, ou seja, 32,45%, era originário de São Luís. Mesmo sem dados precisos que permitam a quantificação, com base na reconstituição das histórias de vida de alguns foi possível constatar que vários daqueles que podiam ser considerados de origem urbana eram, na realidade, descendentes diretos ou de segunda geração de famílias que tinham migrado para a cidade em épocas anteriores. Estes dados permitem trabalhar com a hipótese de que o universo rural continua presente e contribui, em diferentes níveis e graus, na configuração do processo social que caracteriza o bairro e a própria cidade.
Os dados apontavam ainda para a seguinte configuração de Canudos: as mulheres representavam 55,5% do total dos proprietários dos terrenos e 36% do total dos chefes de família. Foi registrada a presença de um número significativo de mulheres chefes de família, com filhos e sem companheiros.56 Mesmo sem poder ser quantificado, este dado contribui não apenas na caracterização da estrutura familiar, mas também na organização econômica, social e política do bairro. As mulheres com filhos necessitam arrumar um emprego para poder sustentar a família. No entanto, para se ausentar de casa devem encontrar alguém que tome conta dos filhos e deve ser um serviço gratuito, pois não há dinheiro disponível. No bairro, porém, não existem creches nem escolas, a não ser aquela criada pela cooperativa com o intuito de atender as crianças cujas mães precisassem trabalhar. No entanto, aquela escola sofre as mesmas carências que pretende suprir. Trata-se de uma espécie de círculo vicioso cujas ações seqüenciais visam romper o círculo da pobreza e acabam reproduzindo a miséria, o que mostra que a vontade política e as ações filantrópicas não conseguem romper o movimento de reprodução da excludência se não forem transformadas as bases sociais e políticas sobre as quais a lógica daquele movimento está instituída.
Nas investigações e interpretações relativas ao caráter da sociedade tradicional, a família sempre ocupou um lugar relevante. É difícil entender o universo rural e decifrar o mundo tradicional sem que a análise leve necessariamente em consideração a família. Constitui o referencial, o núcleo central e estrutural daquele universo. Deste modo, a comunidade passa a ser representada como uma família ampliada, um conjunto de famílias articuladas pelos mesmos laços que as unem. Nesta perspectiva, no mundo tradicional agrário a família é vista ou apreendida também como unidade
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Aqui a maioria dos chefes de família são mulheres. Também existem muitas mulheres com filhos que largaram o marido [Andréia - Canudos].
No bairro existe muita mãe solteira. Tem muita mãe solteira que sai para trabalhar e, às vezes, tem delas que nem trabalham. Hoje o marido abandona os filhos e aí fica naquela dificuldade. Às vezes a mãe tem que deixar os filhos com alguém, pagar alguém para tomar conta para ela poder trabalhar fora [Dalva - Canudos].
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produtiva. A emergência e consolidação da sociedade moderna colocaram os pressupostos de sua instituição na emancipação daquelas formas de gestão e de regulação de unidade social. Isto, como os próprios relatos dos moradores de Canudos focalizam, desarticulou a estrutura da unidade familiar tradicional no sentido de que retirou dos pais não apenas o poder de interferir na conformação da sociedade, mas também de reproduzir a unidade familiar mobilizando valores e funções tradicionais. Este processo se expressará como “dificuldade de educar os filhos”. No caso, as dificuldades não devem ser entendidas apenas em sua dimensão econômica, ou seja, de escassez de recursos materiais, mas também em seus aspectos sociais e culturais.
Contudo, importa ressaltar que o processo de modernização não liquidou de vez com as tradicionais formas de conceber e articular as famílias, as comunidades e a própria sociedade. As formas de organização e dominação social que foram denominadas de patriarcalismo e redefinidas ainda estão presentes e operantes.
A unidade familiar é sistematicamente evocada pelos próprios setores tidos como os mais modernos para defender princípios morais, geralmente associados à unidade social, ou implementar reformas que favoreceriam simultaneamente a sociedade e as famílias. Ou seja, a comunicação e o diálogo com os cidadãos ainda mobilizam tradicionais mecanismos de coesão social como a família, independentemente de suas condições reais. Por parte de muitos, é considerada a base e o objetivo de toda a sociedade. Todas as vezes que a unidade da sociedade é ameaçada pelas desigualdades que o processo de desenvolvimento gera, apela-se para os valores da família a fim de recompor as fissuras.
É necessário, portanto, superar a visão abstrata de família e trabalhar com o conceito de relações sociais. Este é o caminho para superar inclusive a ambigüidade dos moradores de Canudos que concebem a família como algo imutável57 e, simultaneamente, apontam para transformações profundas, estruturais e culturais.58 Enquanto realidade social, a família não se explica por si, não tem sentido em si.59 A perpetuação do nome contribui para esconder uma realidade social em permanente mutação.
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Eu acredito que a família não muda, continua a mesma. O que mudam são as outras coisas. O que muda mais hoje é o
comportamento, até mesmo porque a gente não pode se comportar como se comportava antigamente, senão você vai ser antiquado [José Antonio – Canudos].
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Eu acho que hoje em dia a família não é mais aquilo que era antes. Antes tudo era diferente. Eu não sei explicar
direito, mais sei que aquelas coisas de antigamente mudaram. Hoje tudo é moderno e a diferença é muita. Antes era tudo rígido. Hoje não; a criançada tem muita liberdade e faz tudo. Antigamente tinha que chegar e tomar bênção e hoje não tem esse negócio; é tudo liberado [Antonia - Canudos].
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A realidade social não se dá a conhecer imediatamente e, em geral, está carregada de significações que lhe são
atribuídas. Neste sentido, o nome de uma pessoa ou de uma coisa não revela nada a respeito daquela pessoa ou coisa a não ser o nome, algo abstrato e extrínseco às suas propriedades. Marx define com precisão o método de investigação quando afirma que os elementos que constituem determinada realidade social devem ser apreendidos como relações sociais. MARX, Karl. O Capital. Livro 1, vol. I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. Referência p. 60.
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Reconstituindo o processo que produziu o acampamento e resultou no assentamento, os atores envolvidos se identificam como representantes de unidades familiares. Mesmo quando é apenas um membro da família a permanecer no acampamento ou na frente das mobilizações, é em nome da família, real ou hipotética, que afirma agir. Este aspecto ganha força quando se constata que a maioria das pessoas que compunham o acampamento – assim como o assentamento - eram mulheres.
Desta maneira, a luta pela casa dos sem-teto presentes no acampamento tem, em sua raiz, uma base familiar, ainda que várias pessoas solteiras tenham se associado ao movimento.
Partindo, então, do pressuposto de que a luta pela casa representa também uma forma de manutenção e reprodução da unidade familiar, poder-se-ia inferir que, com a chegada em Canudos, a conquista de um terreno e a construção da casa, as bases materiais estariam dadas, ou seja, que o assentamento teria propiciado, em contextos e tempos diferentes, a manutenção da preliminar unidade familiar. A investigação das experiências e das formas de produção da sociabilidade no espaço e no tempo do bairro mostra que não é mais suficiente as pessoas estarem agregadas no mesmo “espaço”, no caso o espaço do assentamento, para que os princípios que fundavam e regulavam a sociabilidade anterior continuem operando e produzindo os mesmos resultados. Como destacado, o deslocamento espacial muda as bases sociais e exige a construção de uma nova identidade. Assim, as novas relações que, conforme imaginavam os acampados, deviam recriar as formas de solidariedade que existiam outrora, na realidade produzem a emergência de novos sujeitos. O espaço, o tempo, as relações, as instituições, tudo parece ter força e vontade própria. Desta maneira, os moradores falam da importância da unidade e se descobrem divididos, em tensão, em conflito. Quando convidados a discorrer sobre a família, a ambigüidade aparece nas interpretações. De um lado, a unidade familiar fundada no imaginário parece não ter sofrido abalos com as mudanças ocorridas e, do outro, a família das relações do cotidiano não é mais a mesma.
De um modo geral, as mudanças em relação à família tradicional são percebidas essencialmente como perda da autoridade dos pais sobre os filhos:
As famílias mudaram muito porque hoje em dia os pequenos começam já de pequenos a serem salientes, caçar confusão, brigar na rua. Isso que é diferente. Eu fui criada respeitando os mais velhos. Hoje em dia não sabem respeitar os mais velhos, não sabem dobrar a língua.
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Eu vejo que hoje a família é totalmente diferente de antigamente. Antigamente os filhos respeitavam os pais, os avós e hoje em dia não, os filhos não obedecem mais. Tem muita coisa diferente. Em termos de união, antigamente a família era mais unida do que hoje em dia.
[Raimunda - Canudos]
A integração é um processo que reconstrói as identidades individuais e coletivas em novas bases sociais. Para as pessoas e os grupos que vivem em condições de pobreza, é concebida como possibilidade de ascensão social. Suas mobilizações, com efeito, têm em vista “melhorar as condições de vida”, ou conseguir “uma vida mais digna”. A reprodução das anteriores condições de pobreza em novos contextos, portanto, acaba gerando frustração de expectativas. Desta maneira, os setores populares geralmente submetidos à condição de excludência transferem a perspectiva da ascensão social da esfera da família para a dos filhos. É uma espécie de rendição dos pais que, todavia, continuam a acreditar na possibilidade de integração dos filhos. Vista nesta ótica, a integração imaginada não se completou. Resta-lhes batalhar para que se complete para os filhos. Não se trata mais da antiga integração na família, na comunidade local / bairro, mas na cidade, na sociedade.
De forma contraditória, a nova integração desestrutura a antiga. Não é mais preciso estar integrado às unidades locais, como antigamente, para estar integrado à sociedade. Aliás, tudo aquilo que contribui para a integração – escola, trabalho, serviços públicos – está longe do bairro. Se a integração do bairro não se completa, também não pode integrar seus moradores. Por isso, é nesse outro mundo que precisa estar integrado e não mais no mundo local. Nesta perspectiva, o abandono do bairro e o deslocamento para outros locais em alguns casos podem ser interpretados como buscas de novas integrações – trabalho, acesso aos serviços públicos. A ampliação das relações que deslocam os fatores de integração para outras esferas e para outros espaços físicos e sociais não se dá mais em termos de unidades familiares e sim de indivíduos. Dentro da própria unidade, há desigualdades – homens desempregados, mulheres trabalhando, crianças fora da escola. A unidade integradora é outra. Portanto, as unidades familiares não se mobilizam com o intuito de sua reprodução, mas em vista da integração de seus membros em outras unidades.
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Como a integração dos filhos exige a mobilização de recursos materiais e humanos e as condições são de pobreza, há uma redução drástica do número de filhos por unidade familiar.60
Antigamente as famílias tinham mais filhos. Nós mesmos somos nove irmãos e hoje eu só tenho duas filhas. Eu acredito que a gente não vai ter mais filhos pela dificuldade que a gente tem de dar educação. Porque tem que dar uma boa educação e também uma boa formação.
[José Antônio - Canudos]
A família mudou muito também porque hoje um casal tem dois ou três filhos no máximo e antigamente tinha até dez, doze. Eu tenho dois filhos e não pretendo ter mais porque o custo de vida é muito grande e hoje precisa pagar até para as crianças estudar. A educação também depende do dinheiro, por isso está muito mais difícil.
[Antônia - Canudos]
A situação expressa nos depoimentos mostra que a luta dos sem-teto não se encerra com a conquista de um terreno no bairro nem com a construção da casa. Casa, trabalho, bairro, família, movimento: tudo se transforma e ganha outra dinâmica, novo sentido. As transformações redefinem as pessoas, as coisas e as próprias instituições. Por isso, as mudanças familiares expressam aspectos da nova socialização, do processo que está reconfigurando a sociedade. Quer dizer, são movimentos societários e não apenas familiares.
Portanto, existe um descompasso muito grande entre o conceito ideal, romântico e abstrato de família e as experiências concretas vivenciadas pelos moradores de Canudos. As tensões e os conflitos que não estão presentes nas definições e concepções do que é e representa a família, constituem e formatam o cotidiano de muitas mulheres e homens que vivem no bairro. A sensação é a de que as experiências concretas e as dificuldades enfrentadas não conseguem abalar ou modificar aquela visão idealista e romântica. Desta forma, a separação entre a concepção ideal e a vida real desvirtua a compreensão dos processos sociais e faz com que as tensões e rupturas das antigas unidades familiares sejam interpretadas, quase que exclusivamente, como um produto das mudanças
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É impressionante a redução do número de filhos registrada em Canudos no espaço de uma geração. Como as informações foram obtidas através das entrevistas – pesquisa qualitativa – não foi possível quantificar os dados. De qualquer maneira fica o registro. Várias das unidades familiares presentes no bairro possuem um ou dois filho e vêm de famílias que tinham oito, dez ou até mais.
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nas relações interpessoais. É neste mesmo nível que as relações para com os filhos são apreendidas e interpretadas. Constituem o divisor entre o passado e o presente, entre a antiga e a nova geração.
Os moradores de Canudos focalizam as mudanças nas relações interpessoais, especialmente entre as gerações, para explicar as transformações ocorridas no interior da velha unidade familiar e na sociedade. A ruptura dos laços que preservavam aquela unidade graças ao exercício da autoridade dos pais que mantinham um controle rígido quanto às atitudes e aos comportamentos dos filhos, abriu o caminho para a constituição de um novo espaço social em que tudo parece possível e onde, aparentemente, ninguém consegue assumir o controle da situação. Nesta dinâmica rompe-se inclusive a visão paternalista que setores das classes subalternas tinham historicamente construído em relação ao Estado. Há, subjacente a este processo, uma crítica à ordem democrática e jurídica que permite e defende a existência de uma pluralidade de comportamentos, descaracterizando e deslegitimando a velha figura paterna61 sem que, em contrapartida, seja instituída outra autoridade capaz de regular e controlar as vontades individuais. Com efeito, à desagregação familiar é associada a desorganização social e à perda de autoridade dos pais, a incapacidade das autoridades públicas de colocar ordem na desordem que existe fora de casa, isto é, na rua, no bairro e na sociedade.62
Os deslocamentos físicos que, conforme ressaltado, têm um caráter familiar, estão inicialmente assentados no sonho da ascensão social. Todo deslocamento, porém, acarreta o rompimento de laços sociais e gera instabilidade e sofrimento emocional, físico e psicológico. O deslocamento reiterado produz no deslocado um desajuste social e acaba dificultando sua adaptação e integração a qualquer meio social.63 A precariedade em termos de permanência em determinados espaços físicos se traduz na dificuldade, senão na impossibilidade, da ascensão e integração social. As trajetórias de vários moradores apontam para isso. Após ter deixado o interior foram para a cidade, onde executaram vários serviços e moraram em diversos locais. Em momentos de maiores dificuldades, alguns experimentaram inclusive voltar para o lugar de origem, mas não agüentaram e retornaram para a cidade. Ao chegar em Canudos, a viagem parecia ter chegado ao fim. Lá eles se fixariam definitivamente e a partir de lá construiriam suas vidas. Entretanto, logo depararam com a
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Os filhos não obedecem mais como nós obedecíamos antigamente. Desde pequenos eles são salientes. E hoje nem pode
tocar neles porque se alguém denunciar você é que leva a pior. Então eu não sei como fazer para botar os meninos para obedecer [Josefa – Canudos]. A referência é ao Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº 8.069, de 13 de julho de
1990.
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Sempre peço aos meus filhos para ficar dentro de casa e não sair para a rua. Se saírem para a rua os pequenos vão
pela cabeça dos outros. E na rua tem muita confusão, muita briga [Isaura – Canudos].
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Eu vejo que para os pobres que nem nós não tem uma solução dos nossos problemas. A gente entra nas lutas que
aparecem por aí para encontrar um jeito de melhorar as nossas condições, mas no fim nunca as coisas dão certo. No fim a gente é sempre chutado. Tem dia que me pergunto se neste mundo tem lugar onde a gente possa viver tranqüilo. Eu começo a ficar cansado de carregar a família por tudo que é lado e nunca encontro um lugar para ficar [Sebastião -
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exigência de ter que construir a casa associada à falta de recursos e à necessidade de encontrar um emprego sem possuir preparo e qualificação. A isso se acrescia a distância dos locais de trabalho, dos colégios, dos hospitais, dos postos de saúde e das repartições públicas e a total falta de infra- estruturas do bairro. Todos estes problemas, conjugados com a desarticulação das antigas unidades sociais que ofereciam amparo e proteção nas adversidades, produzem sim mudanças de hábitos, mas também geram problemas psicológicos e sociais que geram desajustes e afetam, de maneira principal, as próprias famílias.64
Além da questão do deslocamento que contém o desenraizamento, outra dimensão relevante do problema é a rapidez das mudanças às quais determinados grupos sociais, sobretudo setores das classes subalternas, são submetidos.65 Imagine-se uma família oriunda do interior do Maranhão repentinamente jogada na periferia da cidade de São Luís. A única experiência acumulada foi o trabalho na roça e, subitamente, se vê obrigada a disputar uma vaga para exercer funções que, na realidade, nunca desenvolveu. Para os desqualificados, a luta é por serviços que não exijam capacitação. Ainda assim a situação não é favorável porque a procura é muito maior que a oferta. Numa espécie de círculo vicioso, isto concorre para descaracterizar ainda mais os serviços. Em Canudos encontramos homens que, envergonhados, não saíam pela cidade à procura de qualquer serviço.66 Com base em conversas informais, ficou a sensação de que a vergonha estava fundada na