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A Nova Perspectiva sobre Paulo*

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sinal não da fé de Abraão, mas do gloriar-se de Israel.45 Sanders vis-

lumbra tal ponto com muita clareza em mais de uma ocasião,46 mas sua falha de distinguir entre "obras da Lei" e "cumprir a Lei" o impedira de desenvolver esse insight adequadamente.47

A falha cometida por Sanders teve sérias consequências para a

sua tese mais ampla. Se ele tivesse delimitado com maior precisão o sentido da investida negativa de Paulo contra obras da Lei, poderia ter oferecido um relato mais adequado da atitude mais positiva de Paulo em relação à Lei em outras ocasiões. Particularmente, não teria que forçar tanto a distinção entre "entrar em " (não por cumprir a Lei) e "fi- car em " (por observar a Lei), uma distinção que parece muito estranha justamente em G1 2.16, onde o problema em Antioquia era a conduta no dia-a-dia daquelas pessoas que já tinham crido (G1 2.14) e onde a preocupação de Paulo em relação aos gálatas se refere antes ao fim de-

45 O mesmo aplica-se à distinção entre a lei ritual e a lei moral, frequentemente atribuída a Paulo. O fato é que Paulo não pressupõe ou desenvolve essa distin- ção em si. Sua atitude m ais negativa acerca das prescrições rituais da Lei surge do fato de que é exatamente em e por esses rituais como tais que seus parentes judaicos se destacavam com maior clareza como o povo de Deus, os judeus - e eram identificados por outros como "aquele povo peculiar" (cf. acima, nota 30). 46 Cf., por exemplo, Paul, the Law and the Jew ish People, p. 33 - "Gloriar-se" em Rm

3.27 refere-se "à suposição de um status especial da parte dos judeus" (também p. 35); seu reconhecimento da im portância da circuncisão, do sábado e das leis alimentícias (p. 101-102) - "o denom inador com um mais óbvio dessas leis é o fato de que distinguem judeus de gentios" (p. 114); e sua citação de Gaston ("Israel como um todo interpretava a justiça de Deus como aquilo que estabelecia o status de justiça unicamente para Israel, excluindo os gentios") em suas notas (p. 61, nota 107). O artigo mais antigo de J. B. Tyson, "'W orks of Law' in Galatians", in

JBL 92 (1973): 423-431, compartilha forças e fraquezas semelhantes.

47 Por exemplo: "Portanto, a explicação 'não por fé, mas por obras' é 'eles não acreditavam em Cristo' [...] a falha de Israel não é que não obedecem à Lei de m aneira correta, mas que não têm fé em Cristo" (p. 37) - onde eu diria antes: "eles confiavam em seu status de aliança, como atestado pelas obras da Lei, em vez de em Cristo"; "Sua crítica a sua vida anterior não é que ele era culpado do pecado adicional da justiça própria, mas de ter colocado sua confiança em algo diferente da confiança em Cristo" (p. 44s) - Tertium datur!, [...] culpado de pôr sua confiança em seu ser judeu e seu zelo como judeu devoto; "A única coisa que está errada com a antiga justiça parece ser que ela não é a nova" (p. 140) - Não! que ela era de m odo dem asiado estreita e nacionalistamente judaica; "Na teoria paulina, judeus que entram no m ovimento cristão perdem nada" (p. 176) - exceto sua reivindicação de um monopólio judaico à justiça divina.

les do que ao seu início (G1 3.3).48 Em consequência, Sanders também

não teria necessidade de argumentar em favor de uma descontinuida- de tão arbitrária e abrupta entre o evangelho de Paulo e o seu passado judaico, de acordo com a qual o Paulo de Sandersdificilmente parece

se referir ao judaísmo de Sanders. Contudo, se Paulo realmente estiver argumentando contra uma compreensão demasiadamente estreita da promessa divina da aliança e da Lei em termos nacionalistas e raciais, como argumentei antes, torna-se possível uma reconstrução muito mais coerente e consistente das continuidades e descontinuidades en- tre Paulo e o judaísmo palestinense.

c) Tudo isto confirma a tese importante anterior de Stendahl, de que a doutrina paulina da justificação pela fé não deveria ser entendi- da primeiramente como uma exposição da relação do indivíduo com Deus, mas primeiramente no contexto de Paulo, o judeu, que estava lutando com a questão de como judeus e gentios estão relacionados entre si dentro do propósito da aliança, a qual alcançou agora seu ápice em Jesus Cristo.49 O problema residia exatamente no grau em que Israel tinha chegado a considerar a aliança e a Lei como equiva- lentes de Israel, como a prerrogativa especial de Israel. A solução de Paulo não exige que ele negue a aliança ou a Lei como a Lei de Deus, mas somente a aliança e a Lei como "usurpadas" por Israel. Os mo- delos do homem de fé são para Paulo os pais fundantes, Abraão, Isa- ac e Jacó, numa época em que o pertencimento à aliança não estava determinado nem pela descendência física (consanguinidade racial) nem dependia de obras de Lei (Rm 4; 9.6-13). Tal envolvia certamen- te algo relacionado a um procedimento hermenêutico arbitrário, no qual particularmente o exemplo de Abraão era tratado não só como

48 Sanders tenta enfrentar esse ponto em sua prim eira secção principal de The Law and the Jew ish People (p. 52, nota 20), e efetivamente reconhece que a questão é "estar dentro" (no que diz respeito à pertença à aliança) em vez de um a distin- ção entre conseguir entrar e ficar dentro como tal. Os cristãos judaicos e os ju- daizantes não queriam sim plesmente um a ação de "um a vez por todas" da par- te dos crentes gentios, mas um estilo de vida contínuo de acordo com a Torá. 49 Cf. Stendahl, Paul among Jew s and Gentiles, passim - por exemplo, "[...] um a dou-

trina de fé era cunhada por Paulo para o propósito m uito específico e limitado de defender os direitos dos convertidos gentios de serem herdeiros plenos e ' ־genuínos das prom essas do Deus de Israel" (p. 2).

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Capítulo 2

típico e normativo, mas também como a relativização das escrituras subsequentes que enfatizavam o lugar especial de Israel nas afeições de Deus. Contudo, Paulo está cada vez mais disposto a defender esse procedimento e a argumentar em favor dele do que simplesmente constatá-lo de uma maneira de "ou pega ou deixa", uma maneira "preto-no-branco".

Mais urna vez, porém, estamos começando a ultrapassar muito os limites deste presente ensaio, e preciso parar por aqui. Mas tenho a esperança de ter dito o suficiente para mostrar quão preciosa pode ser a nova perspectiva sobre Paulo quando se trata de receber os insights e as apreciações mais claras de Paulo e sua teologia.

Obras da Lei e a maldição da Lei