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A Nova Perspectiva sobre Paulo*

157 Capítulo

dizer que recentemente se abriu um travessão e não um hífen para uma nova subdivisão da crítica literária das cartas - a crítica retórica.8 Como último exemplo, eu gostaria de expressar a esperança - e peço des- culpas pela pretensão - de que um ou dois comentários úteis sobre a experiência religiosa, eclesiologia e cristologia de Paulo tenham saído da minha própria pena.9

No entanto, em nenhum desses casos eu poderia dizer confiantemen- te que eu pessoalmente tivesse percebido algo que chegaria a contribuir com uma nova perspectiva sobre Paulo. Em alguns casos, padrões antigos foram remexidos, e as peças foram colocadas de maneira um pouco dife- rente. Em outros casos, aspectos particulares dos escritos e pensamentos de Paulo receberam uma iluminação mais plena, ou conclusões anteriores ganharam um ponto de interrogação. Em outros, eu tenho a forte suspeita de que se desviou a atenção de coisas importantes em detrimento de per- seguirem-se questões sem solução. Mas ninguém conseguiu - para usar uma expressão contemporânea - "quebrar paradigmas", ninguém con- seguiu apresentar algo revolucionário para os estudos paulinos, ou mes- mo sair dos padrões nos quais as descrições da obra e do pensamento de Paulo têm sido enquadrados regularmente por muitas décadas. Segundo a minha avaliação, durante os últimos dez ou vinte anos foi escrito somen- te uma única obra que merece esse elogio. Refiro-me ao volume intitula- do Paul and Palestinian Judaism (Paulo e o judaísmo palestinense) de E. P.

Sandersda McMaster University em Canadá.10

8 Cf. especialm ente H. D. Betz, "The Literary C om position and Function of P aul's Letter to the G alatians", in NTS 21 (1974-1975): 353-379; tam bém

G alatians. H erm eneia (Philadelphia, 1979); W. W uellner, "P aul's Rhetoric of A rgum entation in R om ans", in CBQ 38 (1976): 330-351, reim presso em

The Rom ans D ebate {acim a, nota 7), p .152-174; tam bém "G reek Rhetoric and Pauline A rgum entation", in W. R. Schoedel, R. L. W ilken (org.), Early Christian Literature and the C lassical Intellectu al Tradition: in honorem R. M. Grant (Paris, 1979), p. 177-188; R. Jew ett, "Rom ans as an A m bassadorial Setter", in Inter- pretation 36 (1982): 5-20.

9 Refiro-me particularm ente a Jesus and the Spirit (Londres, 1975) e Christology in the M aking (Londres, 1980).

10 E. P. Sanders, Paul and Palestinian Judaism: a Comparison o f Patterns of Religion

(Londres, 1977). Cf. o reconhecimento de W. D. Davies no prefácio à 4a edição de seu Paul and Rabbinic Judaism (Philadelphia, 1981): "um a obra de imenso es- tudo e penetração, um a pedra miliária principal na pesquisa de Paulo [...] de imenso significado potencial para a interpretação de Paulo" (p. xxix-xxx).

A afirmação básica de Sandersé menos que Paulo foi entendido

errado e mais que a imagem do judaísmo construída a partir dos es- critos de Paulo é historicamente falsa, não simplesmente equivocada em suas partes, mas fundamentalmente errada. O que é usualmente considerado a alternativa judaica ao evangelho de Paulo dificilmente teria sido reconhecido como uma expressão do judaísmo pelos paren- tes de Paulo segundo a carne. Sandersobserva que estudiosos judaicos

e expertos em judaísmo primitivo protestaram já há muito tempo se- riamente contra esse problema e contrastaram o judaísmo rabínico, as- sim como eles o entenderam, com uma paródia ao judaísmo que Paulo parece ter rejeitado. Assim diz, por exemplo, Solomon Schechter:

O u a teologia dos rabis tem de estar errad a, com u m a conceituação a d u lte ra d a d a im agem de D eus, com os p rincipais m otivos m aterialistas e v ulgares, com m estres sem entusiasm o e esp iritu alid ad e, o u o A pósto- lo aos G entios é totalm ente incom preensível;

ou, poucas linhas depois, James Parkes:

[...] se Paulo estava realm ente atacando o "judaísm o rabínico", então m u ito d e su a argum entação é irrelevante, suas injúrias não são m erecidas e sua conceituação d aquilo que ele estava atacando n ão era ac u rad a .11

No entanto, parece que protestos desse tipo encontraram, na maioria dos casos, ouvidos surdos. Como observa Sanders, já faz cem anos que a maioria dos estudiosos do Novo Testamento têm defendido uma antítese fundamental entre Paulo e o judaísmo, especialmente o judaísmo rabínico, e têm considerado essa antítese um fator central, geralmente um fator central na compreensão de Paulo, o judeu-que- -se-tornou-cristão.12

11 Sanders, Paul, p. 6. Cf. o levantamento mais completo "Paul and Judaism in New Testament scholarship", p. 1-12.

12 Sanders rastreia a predominância dessa avaliação m uito negativa do judaísm o na época de Paul até F. Weber, System der altsynagogalen palastinischen Theologie aus Targum, M idrasch und Talmud (1880), revisado como Jüdische Theologie au f Grund des Talmud und verwandter Schriften (Leipzig, 1897). Para o parágrafo que segue, cf. tam bém Sanders, "The persistence of the view of Rabbinic religion as ^one of legalistic w orks-righteousness (Paul, p. 33-59).

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Capítulo 2

O cen tro d o p rob lem a é o ca rá te r d o ju d aism o co m o religião de salv ação . P a ra esp ecialistas rab ín icos, a ênfase que o ju d aism o rabínico con fere à b o n d ad e e g en ero sid ad e de D eus, seu en corajam en to d o ar- rep en d im en to e d a o ferta d e p e rd ã o é totalm en te ób via, en q u an to P a u - lo p are ce re tra ta r o ju d aism o co m o fria e calcu lad am en te legalista, u m sistem a de "o b ra s " d e ju stiça, o n d e a salv ação é ganha p elo mérito de b o as obras. O lh an d o d esd e o u tra p ersp ectiv a, o p rob lem a é a m an eira co m o P au lo foi en ten d id o co m o o g ra n d e exp o en te d a d o u trin a cen tral d a R eform a, d a justificação pela fé. C o m o K riste r S te n d a h l alerto u há vin te an os, é d ecep cio n an tem en te fácil 1er P au lo à lu z d a b u sca agon i- z an te de L u te ro que p ro cu ra v a alívio p a ra a su a con sciên cia ato rm en - ta d a .13 Já que o en sin am en to p au lin o sobre a justificação p ela fé p are ce falar de m o d o tão d ireto às lu tas subjetivas d e L u te ro , e ra u m efeito co lateral n a tu ra l v e r os o p on en tes de P au lo em term o s d o catolicism o n ão refo rm ad o que fez o p o sição a L u te ro , e ler o ju d aísm o d o p rim eiro sécu lo a tra v é s d o "filtro " d o sistem a de m érito p resen te n o catolicism o d o séc. XVI. A o lon go d o s sécu los e n u m g ra u n o táv el e efetivam en - te alarm an te, o re tra to p a d rã o d o ju d aísm o rejeitado p o r P au lo tem sid o u m reflexo d a h erm en éu tica de L u te ro . V em o s a e x tre m a g rav i- d ad e disso p a ra a p esq u isa d o N o v o T estam en to q u an d o lem b ram os que os d ois estu d iosos m ais influentes d o N o v o T estam en to n as d u as g e raçõ es p a ssa d a s, R u d o lf B u ltm an n e E r n s t Kãsem ann, am b os leram P au lo a tra v é s d e lentes lu teran as e am b os fizeram d essa co m p reen são d a justificação p ela fé seu prin cip io teológico ce n tra l.14 E a m ais recen te ab o rd a g e m co m p leta d essa área d a teologia p au lin a, sobre P au lo e a L ei, ain d a con tin u a a trab alh ar co m a im ag em de P au lo co m o algu ém

13 K. Stendahl, "The Apostle Paul and the Introspective Conscience of the West", in H TR 56 (1963): 199-215, reimpresso em Paul A m ong Jews and Gentile (Londres, 1977), p. 78-96. Cf. também as várias contribuições recentes nessa área por W. D. Davies: "Paul and the People of Israel", in NTS 24 (1977-78): 4-39; também

Paul and Rabbinic Judaism, p. xxvii-xxiii; tam bém "Paul and the Law: Reflection on Pitfalls in Interpretation", in Paul and Paulinism (acima, nota 7), p. 4-16. 14 Por exemplo, R. Bultmann, Jesus Christ and M ythology (Londres, 1960), "Desmi-

tologizar é a aplicação radical da doutrina da justificação pela fé à esfera do co- nhecimento e pensam ento" (p. 84); E. Kãsemann, Das Neue Testament ais Kanon

(Gottingen, 1970): "Die Rechtfertigung des Gottlosen [...] muss ais Kanon im Kanon betrachtet werden [...]" [A justificação do ímpio (...) deve ser considerada o cânon dentro do cânon (...), p. 405.

que rejeitava a tentativa pervertida de usar a Lei como um meio de ganhar a justiça por boas obras.15

Sanders, porém, construiu uma apresentação diferente do judaís- mo palestinense no tempo de Paulo. A partir de um estudo abrangente da maior parte da literatura judaica relevante daquele período, surge uma imagem bastante diferente. Ele mostrou particularmente com um grande conjunto de evidências que, para o judeu do primeiro século, a relação de aliança que Israel tinha com Deus era básica para o sen- timento de identidade nacional do judeu e para sua compreensão da religião. A medida que podemos discernir hoje o judaísmo do primeiro século, tudo consistia de uma elaboração do axioma fundamental de que o único Deus elegeu a Israel para ser o povo de sua proprieda- de particular, para desfrutar de um relacionamento especial sob o seu governo. A Lei fora dada como uma expressão dessa aliança, para re- guiar e preservar o relacionamento estabelecido pela aliança. Por isso, também a justiça tem de ser vista nos termos desse relacionamento como algo que se refere à conduta apropriada a essa relação, a conduta de acordo com a Lei. Isso significa que, no judaísmo, a obediência à Lei nunca foi pensada como um meio de entrar na aliança, de conseguir

um relacionamento especial com Deus; era antes a questão de manter

o relacionamento da aliança com Deus. A partir disso, Sanderselabora

sua expressão-chave para caracterizar o judaísmo palestinense do pri- meiro século, "nomismo da aliança". Ele a define assim:

O nom ism o d a aliança é a visão d e que o lu g ar d e u m a pessoa no plano d e D eus é estabelecido com base n a aliança e que esta req u er com o resposta a d e q u a d a d o h om em a sua obediência aos seus m andam entos, ao m esm o tem po em que fornece os m eios de expiação d as transgres- sões [...]. A obediência preserva a posição da pessoa na aliança, m as ela não fa z gan har a graça de D eus com o tal [...]. Justiça é, no judaísm o, u m term o que im plica n a preservação do status d en tro do g ru p o dos eleitos.16

15 H übner (acima, nota 5).

16 Sanders, Paul, p. 75.420.544. Digno de nota é o fato de J. N eusner, embora crítico feroz da metodologia de Sanders, aceitar não obstante como válida sua com- preensão do judaísm o em termos de "nomism o da aliança". Para N eusner, a afirmação de que as discussões rabínicas pressupunham a aliança e "estavam am- piam ente voltadas para a questão sobre como cum prir as obrigações da alian- ça" é um a "ideia totalmente adequada e [...] evidente". "À m edida que Sanders

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