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A Nova Perspectiva Sobre Paulo - James D. G. Dunn

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P E R S P E C T I V A

ACADEMIA CRISTÃ

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(3)

Emanuence Digital

A

Nova Perspectiva

sobre Paulo

(4)
(5)

JAMES D. G. DUNN

A

Nova Perspectiva

sobre Paulo

Santo André

2011

C R I S T Ã

PAULUS

(6)

Título original

The New Perspective on Paul

M embros do Conselho Editorial ׳

g&f-Geral: Dr. Ágabo Borges de Sousa

piador: Brian Gordon Lutalo Kibuuka

Conselheiros por área Antigo Testamento:

Dr. Ágabo Borges de Sousa Dra. Monika Ottermann

Novo Testamento:

Brian Gordon Lutalo Kibuuka X>r. José Roberto Correia Cardoso

Teologia:

Marcos António Farias de Azevedo

Tradução

Monika Ottermann

Revisão

Brian Gordon Lutalo Kibuuka

Capa

James Valdana

Editoração

Regino da Silva Nogueira

Assessoria para assuntos relacionados a Biblioteconomia:

Rafael Neves

Dunn, James D. G.

A nova perspectiva sobre Paulo / James D. G. Dunn; [tradução: Monika Ottermann]. - Santo André (SP): Academia Cristã; São Paulo, 2011.

Título original: The new perspective on Paul Bibliografia

16x23, 752 páginas ISBN 978-85-98481-46-3

1. Bíblia ־ Novo Testamento 2. Epístolas paulinas I. Título.

CDD-227.06

índices para catálogo sistemático: 1. Bíblia - Novo Testamento - 225.1 2. Epístolas paulinas - 227.06

Pa u lu s Editora

Rua Francisco Cruz, 229

Cep 04117-091 - São Paulo, SP - Brasil Tel.: (11) 5087-3700 e Fax: (011) 5579-3627 [email protected]

www.paulus.com.br

Editora Aca d em ia Cristã

Rua Vitória Régia, 1301- Santo André Cep"t)9080-320 ־ São Paulo, SP - Brasil Fonefax (11) 4424-1204 e 4421-8170 E-mail: [email protected] www.editoraacademiacrista.com.br

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Sumário

A presentação à Edição B rasileira... 9

P refácio ... 23

C apítulo 1: A N ova Perspectiva sobre Paulo: de onde, o quê, p ara onde?... 27

C apítulo 2: A N ova Perspectiva sobre Paulo ... 155

C apítulo 3: O bras da Lei e a m aldição d a Lei (G álatas 3.1014) ... 187

-C apítulo 4: A N ova Perspectiva sobre Paulo: Paulo e a L e i...215

C apítulo 5: Q ual foi o p roblem a entreP aulo e "os d a circuncisão"? ...231

C apítulo 6: A Teologia d a C arta aos Gálatas: a questão d o nom ism o da alian ça... 261

C apítulo 7: A Justiça de Deus: u m a perspectiva renovada sobre a justificação p ela f é ...289

C apítulo 8: E m ais u m a vez - "A s obras da Lei". U m a re s p o s ta ... 315

C apítulo 9: Ecos d a polêm ica intrajudaica na carta de Paulo aos gálatas... 335

C apítulo 10: O que era novo no evangelho de Paulo? O p ro b lem a d a co n tin u id ad e e d e s c o n tin u id a d e ... 361

C apítulo 11: P aulo era contra a Lei? A Lei em G álatas e Rom anos: u m caso d e teste p a ra u m texto em seu c o n te x to ...387

C apítulo 12: À p ro cu ra do fu n d a m e n to c o m u m ...413

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C apítulo 14: 4QM M T e a C arta aos G á la ta s ... 487

C apítulo 15: A conversão de Paulo: urna lu z p ara as discussões do século X X ...497

C apítulo 16: P aulo e a justificação pela f é ... 525

C apítulo 17: O q u e aconteceu com as "obras d a L e i" ? ... 545

C apítulo 18: Jesus, o juiz: outros p ensam entos sobre a cristo lo g ia e so te rio lo g ia p a u l i n a s ... 565

C apítulo 19: N och einm al - M ais u m a vez "obras d a Lei": o diálogo c o n tin u a ...587

C apítulo 20: Tinha Paulo u m a teologia d a aliança? Reflexões sobre R om anos 9.4 e 11.27 ... 609

C apítulo 21: Paulo e a Torá: o p ap el e a função d a Lei n a teologia do apóstolo P a u lo ...633

C apítulo 22: Filipenses 3.2-14 e a N o v a P erspectiva sobre P a u l o ...663

Bibliografia ... 693

A rtigos o rig in a is ... 709

índice d e A u to re s... 711

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P a ra

Tom Wright

φίλος, συνεργός καί συστρατιώτης έπίσκοπος B ispo am igo, c o o p e ra d o r e c o m p a n h e iro d e co m bate

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Antigas e Novas Perspectivas sobre Paulo*

As pesquisas relacionadas a Paulo no Brasil e nos países de língua portuguesa têm estado à margem das várias publicações que, em vários aspectos, envolvem alguma referência à cham ada "A nova perspectiva sobre Paulo" (NPP). Tal vertente inovadora nos estudos paulinos tem em James D. G. Dunn, autor desta obra, provavelm ente o seu principal, mais influente e mais lúcido autor. Desde novem bro de 1982, quando

Dunnutilizou pela prim eira vez a expressão "A nova perspectiva so-

bre Paulo" no título de sua conferência na "T. W. Manson Memorial

Lecture", realizada na U niversidade de Manchester, os antigos con- sensos a respeito das cartas de Paulo foram redefinidos ou tiveram de responder às novas questões por ele propostas, que m antinham pro- ximidade crítica em relação às concepções de Krister Stendahle E. P.

Sanders. Posteriormente, N. T. Wrightpassou a dar a sua contribuição

ao debate, inicialmente a partir das pressuposições e questões lança- das por Dunn. Desde então, desconhecer a NPP é, de alguma forma, desconsiderar um a parcela considerável de questões que são alvo das mais intensas discussões a respeito de Paulo e suas cartas nos últimos 30 anos.

Sendo assim, urge, para o tratam ento das novas questões, que os aspectos do debate estejam fundam entados na análise dos antigos consensos e na forma como Paulo fora interpretado nas m últiplas re- cepções de seus textos e de suas concepções teológicas. Paulo é um autor cristão cuja importância é tão significativa que se pode dizer ter sido ele o "prim eiro pensador teológico do cristianismo" de que se tem

* Artigo escrito em hom enagem ao Prof. Dr. Ricardo de Souza Nogueira, amigo e mestre exemplar.

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A No v a Pe r s p e c t iv as o b r e Pa u l o

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notícia.1 E o fato do pensamento paulino não constituir uma repetição exata da pregação de Jesus, mas a pregação sobre Jesus segundo cate­ gorias próprias, é muito significativo - e o é a tal ponto que o querig-ma paulino, caracterizado pelas afirquerig-mações de ser Jesus o kyrios que concede a salvação inaugurada na sua morte, ressurreição e elevação, tornou-se um importante e forte testemunho. Ao mesmo tempo, o ju­ daísmo de Paulo, manifestado nas categorias da justificação, eleição, graça etc., permitiu a conformação das suas ideias a respeito de Jesus em um corpo doutrinário coeso, coerente e facilmente transmissível aos contextos helenizados, marcados pela presença de judeus e pagãos. Tais inovações e conformações tornaram o pensamento paulino forte a ponto de se afirmar ser Paulo o verdadeiro fundador do cristianismo.2 A profundidade, a abrangência e divulgação do evangelho paulino, assim como a biografia de Paulo, tiveram grande impacto na igreja, o que redundou na aceitação de 13 cartas vinculadas ao seu nome.3 A recepção das cartas de Paulo se deu mediante diferentes enfoques nos últimos dois mil anos. E para tal recepção que a nossa atenção se volta, no afã de oferecer um sumário da recepção de Paulo, sumá­ rio que explica as bases da mudança do paradigma na pesquisa dos escritos paulinos pela NPP. Fazendo assim nesta apresentação,

esta-1 Kümmel, W. G. Síntese teológica do Novo Testamento: de acordo com as testemunhas principais - Jesus, Paulo, João. São Paulo: Teológica, 2003.

2 Bornkamm, G. Paulo: vida e obra. São Paulo, Ed. Academia Cristã, 2008. p. 146. Há certo exagero em tal concepção, já que a atuação missionária de Paulo não fundou parcela considerável do cristianismo no mundo helenístico. Paulo não foi o fundador de igrejas im portantes para o cristianismo posterior (Antioquia, Alexandria e outras cidades egípcias que tinham um cristianismo vigoroso, Rom a entre outras), nem m esmo consistiu a principal conformação doutrinária do cristianismo antigo. Porém, é certo que as contribuições de Paulo foram in­ dispensáveis para o pensam ento cristão sobre Jesus em muitos contextos. Como afirmam Horsley e Silberman, "cada uma das comunidades paulinas encontrava a realização de suas esperanças mais profundas e seus ideais mais recônditos na im agem específica de Cristo que ela acalentava - e todas essas im agens se afastavam progressivam ente dos fatos históricos com prováveis da vida de Je­ sus... Nesse sentido, nas aldeias, cidades e metrópoles da Galácia e da Macedô- nia surgiu um novo tipo de cristianism o." Horsley, Richard A. & Silberman, Neil Asher. A m ensagem e o Reino: como Jesus e Paulo deram início a um a revolução transformaram o M undo Antigo. São Paulo: Loyola, 2000. p. 172.

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m os indicando as razões pelas quais a publicação da obra "A nova perspectiva sobre Paulo" é tão im portante p ara a pesquisa bíblica em língua portuguesa.

Após Desiderius Erasmus, Martinho Lutero, bispo agostiniano e professor de exegese bíblica na Universidade de W ittenberg, afirm ou a incapacidade hum ana de justificar-se do pecado, seguindo nisso o pen- sarnento de Agostinho. Porém, a leitura de Romanos 1.17 o fez pensar na possibilidade de salvação através da "justiça de Deus". Tal reflexão o fez rejeitar o sistema de perdão e mérito m ediante as indulgências, o que culm inou em sua condenação formal na dieta de Worms, em 26 de maio de 1520.4 Contra Erasmus, porém , Luteroafirmou ser a vontade

hum ana escrava do pecado (na obra De Servo Arbitrio), indicando ser a epístola aos Gálatas a sua "epístola querida".5

O advento da Reforma com Luteroconstitui um im portante mar- co na análise das cartas paulinas. A partir de Lutero, a teologia da Re- forma Protestante contrapôs as doutrinas paulinas da justificação pela fé, graça, eleição, glorificação, pecado, redenção, suficiência do sacri- fício de Cristo e liberdade à leitura medieval da pregação de Paulo.6 Q uanto a Calvino, ainda que ele não adotasse o pensam ento paulino como principium canonitatis, ele assum iu a doutrina da justificação pela fé na divergência contra o catolicismo rom ano.7

A partir de então, a pesquisa neotestam entária se viu prisioneira do que Dunnchama de "influência negativa da conversão de Lutero",

na qual quatro elementos condicionaram as leituras de Paulo: a ideia de que a conversão de Paulo tinha de ser entendida como o ápice de uma longa luta interior, a explicação da justificação pela fé em termos

distintivamente individualistas; a ideia de que a conversão de Paulo se tratava de um a conversão do judaísmo; e a ideia de que o judaísm o do tempo de Paulo era um a religião degenerada.

A análise liberal das epístolas paulinas, mesmo que tenha des- construído vários consensos e posições tradicionais sobre os escritos

4 McGrath, A. Luther's Theology of the Cross: Martin Luther's Theological Breakthrough.

Oxford: Oxford Press, 1985. p. 38.

5 Luther, M. Lectures on Galatians, 1519, Capítulos 1-6. In: Pelikan, J. Luther's Works. Saint Louis: Concordia, 1955-1976; 55 vols; vol. 27, pp. 151-410.

6 Bakker, J. T. Eschatologische Prediking bij Luther. Kampen: Kok, 1964.

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A No v a Pe r s p e c t iv aso b r e Pa u l o

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de P au lo , diferiu m u ito p o u co em relação às q u atro p e rsp ectiv as acim a

descritas. Tal com eço u ainda no see. X IX , co m as pesquisas de Ferdinand

Christian Baur. As ob ras p rin cip ais de Baur sobre a trad ição p au li­ n a são: Paulus der apostei Jesu Christi, de 1845 (trad u zid a p a ra o inglês

co m o título Paul, Apostle of Jesus Christ,em 1876); The Church History of

the First Three Centuries, d e 1878; e Vorlesungen iiber Neutestamentliche Theologie,d e 1864. O a u to r, fu n d ad o r d a ch a m a d a E scola de Tübingen, an alisou os escritos p au lin os sob o viés d o h istoricism o su p ran atu

ralis-ta de influência h egelian a. N a ob ra Paulus der Apostel Jesu Christi,Baur

p a rte d a p re m issa que P au lo d esen v o lv eu su a teologia n a v ia co n trá ­ ria d o cristian ism o p rim itivo , ain d a fortem en te v in cu lad o ao ju d aís­ m o. P a ra Baur, ao se a p ro x im a r h istoricam en te o texto p au lin o co m os asp ecto s con ju n tu rais e co n textu ais d o restan te d o cristian ism o do p rim eiro sécu lo, ficam claras as distin ções en tre am b os. Baur, influen­ ciad o p o r Hengel, p artiu d o princípio de que h avia u m a con trap osição de d u as facções rivais no cristianism o prim itivo: a prim eira facção, re­ presen tad a pelos seguidores de P ed ro (judaizantes); e a segu n d a fac­ ção com p o sta pelos paulinistas (de orien tação gentílica). E ste últim o é o "p a rtid o de C risto ", acu sad o pelos m em b ros d o p artid o de P ed ro de não serem discípulos de Jesus (IC o r 1.12).8 A s con cep ções de Baur reforça­ ra m ainda m ais os quatro p on tos d as "influência negativa de Lutero".

E a m esm a linha d e Baur quanto ao tratam en to da ju d aicidade de Paulo

foi seguida p o r K. H o lste n,9 H . Lüdemann e 10 O. Pfleiderer.11

Porém H . J. Holtzmann, ainda no escopo da contribuição liberal, concedeu uma abertura para a modificação do antigo consenso. Em

8 Baur, F. C. Die Christuspartei in der korinthischen Gemeinde, der Gegensatz des paulinischen und petrinischen Christentum s in der ãltesten Kirche, der Apostel Petrus in Rom. In: Tübinger Zeitschrift filr Theologie 4 ,1831. p. 61-63.

9 Holsten, K. Das Evangelium des Paulus. Vol. I-II. Berlin: Reimer, 1880,1898. A aná­ lise racionalista e psicológica de Holsten foi tam bém aplicada no relacionamento entre os temas da teologia de Paulo e a sua conversão no artigo Das Christusvi- sion des Paulus und die Genesis des paulinischen Evangeliums, publicado em ZW T em 1861 e republicado no livro Zurn Evangelium des Paulus und des Petrus. Rostock: Stiller, 1868.

10 Lüdemann, H. Die Anthropologie des Aposteis Paulus und ihre Stellung innerhalb seiner Heilslehre. Kiel: Universitatsverlag, 1872.

" Çfleiderer, O. Paulinism: The Contribuition to the H istory o f Primitive Christian Theology. London: W illiams and Norgate, 1891.

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sua obra Lehrbuch der neutestamentlichen Theologie, publicada em 1897, ele analisou os temas e motivos de Paulo segundo a antropologia gre- ga. Segundo Holtzmann, apenas a experiência pessoal de Paulo pode- ria tornar as suas opções teológicas mais claras. Tais opções, um a vez assum idas, são expressas mediante categorias gregas que o influen- ciaram fortemente na formação de suas experiências e ideias. Para

Holtzmann, Paulo assume os temas gregos sem abdicar daqueles que

eram próprios à sua formação judaica, sendo o próprio apóstolo um a síntese entre os dois m odos de pensar. Assim, ética e direito, idealismo e realismo, paradoxos aparentem ente irreconciliáveis, fazem parte do pensam ento do mesmo autor, tornando seu evangelho peculiar, único, singular.12 Segundo Holtzmann, em lugar de um abismo entre Jesus e Paulo, o que há na verdade é um a transposição do pensam ento de Jesus para o m undo grego a partir de um vetor fortemente influencia- do pela mensagem cristã.13 A pesquisa liberal de Holtzmann, no afã de desfazer o abismo que separava Jesus e Paulo na pesquisa que o precedia, acabou por estabelecer um a abertura para a afirmação da judaicidade de Paulo, ainda que ele tenha descrito Paulo nos termos de um a religião ético-mística, vinculada à forte experiência interior no caminho para Damasco - e nisto, a influência de Lutero continuava

a ser significativa.14 Por tal razão, a conclusão de Holtzmanné que a

teologia paulina seria um a expressão metafísica com vistas a alcançar os seus interlocutores gregos.15

A crítica W. Wrede na obra Paul, de 1904, acabou por distanciar novamente Paulo de sua judaicidade. Wredeteceu críticas em sua obra

à dicotomia religião/teologia, afirmando a respeito de Paulo que a sua teologia é um a cristologia que tem seu centro na redenção executada por Cristo.16 Tal redenção e a sua consumação são narradas por Pau- lo em termos mitológicos e judaicos, aplicados por Paulo a Jesus sem que ele tivesse consciência de que tais pressuposições modificavam de

12 Holtzm ann, H. J. Lerhbuch der neutestamentlichen Theologie. Freiburg: Leiden, 1897. p. 256-257.

13 Ridderbos, Herman. A teologia do apóstolo Paulo: a obra definitiva sobre o pensamen-to ão apóspensamen-tolo dos gentios. São Paulo: C ultura Cristã, 2004. p. 18.

14 Holtzm ann, H. J., idem, p. 256-257. 15 Idem, ibidem, p. 76-78.

16 Wrede, W. Paulus: Religionsgeschichtliche Volksbücher fü r die deutsche christliche Gegenwart. Halle: Gebauer-Schwetschke,1904 . p. 103-104.

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forma significativa a figura histórica de Jesús.17 Para W rede, a diferença entre Jesús e Paulo é tão significativa que ele afirma: "daquilo que para Paulo é tudo, Jesús nada sabe".18 Daí por diante, W rede abriu o cami­ nho para que a nascente religionsgeschichtliche Schule encontrasse espaço para apontar as verossimilhanças entre os temas paulinos e aqueles que faziam parte das religiões pagãs do seu contexto. Os historiadores e filó­ logos F. Cum ont, 19 A. D ieterich20 e R. Reitzenstein21 fizeram análises com­ parativas dos atos sacramentais das religiões de mistério, do judaísmo e de várias religiões pagãs. Em 1912, W . H eitm üller, em sua investiga­ ção sobre os grupos distintos pertencentes ao cristianismo primitivo a partir da comparação entre religiões, afirmou existir uma terceira ex­ pressão do cristianismo primitivo para além das propostas pela Escola de Tübingen,22 as quais tinham certa aceitação até o início do séc. XX.

H eitm ü ller defendia a existência da comunidade primitiva

palestinen-se, do cristianismo paulino propriamente dito e do chamado "cristia­ nismo helenista".23 O cristianismo helenista, radicado em Antioquia, evidenciaria a transição cultural e teológica que permitiria uma melhor caracterização da transição paulina, representando a migração de um dos grupos (Paulo era fariseu) para o outro pólo ("apóstolo dos gen­ tios"). Entre um e outro, Paulo experienciou o cristianismo helenista de Antioquia da Síria.

17 Idem, ibidem, p. 95. 18 Idem, ibidem, p. 103.94.

19 Cumont, F. Les religions orientales dans le paganisme modern: conférences faites au Collège de France. Paris: Leroux, 1906.

20 Dieterich, A. Eine M ithrasliturgie. Leipzig: Teubner, 1903.

21 Reitzenstein, R. Poimandres: zur griechisch-agyptischen und friihchristlichen Literatur. Leipzig: Teubner, 1904. Ver também: idem, Die hellenistischen M ysterienreligionen: Ihre Grundgedanken und Wirkungen. Leipzig: Teubner, 1910.

22 Para Baur, o conflito entre os grupos divergentes era intenso, de forma que hou­ ve tentativas de mediação entre os partidos. Tais tentativas estão presentes em Tiago, 1 Pedro e 2 Pedro (principalmente 2Pd 3.15), culm inando num a síntese final: a teologia joanina. Ainda assim, o pensam ento paulino perdurou, pois for­ m ulou o conceito de doutrina. Segundo Baur, "o conceito paulino de doutrina é o momento mais significativo no desenvolvimento histórico do cristianismo prim itivo" - Baur, F. C. Vorlesungen über neutestamentliche Theologie. Tübingen: Ludwig Friedrich Fues, 1864. p. 129.

23 Heitmüller, W. Zum Problem Paulus und Jesus. In: Zeitschrift fü r Neutestamentliche Wissenschaft und die Kunde der alteren Kirche, 13,191. p. 320-337.

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Albert Schweitzeré outro im portante teólogo bíblico, cuja pesqui-

sa mais relevante é sobre o Jesus histórico, mas a esta segue um a im- portante contribuição sobre a interpretação de Paulo. Após a conclusão da obra Von Reimarus zu Wrede, em 1906, Schweitzerpassou a escrever

a respeito dos textos paulinos em oposição à pesquisa da religionsge- schichtliche Schule. O início das análises de Schweitzera respeito de Pau-

lo se dá quando o autor começa a lecionar sobre o ensino paulino a res- peito do "estar em Cristo".24 Em 1911, o autor publica a obra Geschichte der Paulinischen Forschung von der Reformation bis auf die Gegenwart.

A obra é um a continuação da história da pesquisa crítica sobre a vida de Jesus exposta na obra de 1906, agora sob o ponto de vista da fé das com unidades prim itivas, que assim ilaram assuntos da teologia gre- ga na m ais antiga proclam ação cristã.25 Schweitzercham a as catego-

rias da cultura grega de "m isticism o", e afirm a que houve adaptação da proclamação apocalíptica jesuânica para o contexto grego, o que tornou possível a sobrevivência do cristianism o em terras pagãs. Na obra Die Mystik des Aposteis Paulus, de 1930, o autor afirma que tal procedim ento feito por Paulo não apenas resguardou o cristianismo, m as m odificou as tradições mais antigas advindas da Palestina, tor- nando-as m ais assimiláveis para a utilização dos prim eiros missioná- rios cristãos.26

As pesquisas sobre as relações de Paulo com Jesus e a formação de um

kêrygma paulino com formas literárias peculiares e temas inovadores teve continuidade com R. Bultmann. Bultmanné o mais importante acadêmico

da teologia bíblica do see. XX. A primeira obra de Bultmannsobre o pen-

sarnento paulinoé Der Stil der paulinischen Predigt und die kynisch-stoiscke Diatribe, publicada em 1910. Nessa, Bultmanndiscute formalmente as dia-

tribes paulinas, iniciando assim as suas incursões na Formgeschichtelische Schule. Para Bultmann, a pregação de Paulo utiliza formas literárias dos filósofos cínico-estóicos, sendo a diatribe uma delas.27 Após a publicação

24 Schweitzer, A. M y Life and Thought: An Autobiogrpahy [from Aus M einem Leben und Denken (Leipzig: Felix Meiner, 1931). London: George Allen & Unwin Ltd., 1933. p. 142.

25 Schweitzer, A. Geschichte der Paulinischen Forschung von der Reformation bis au f die

Gegenwart. Tübingen: Mohr, 1911.p. v.

26 Schweitzer, A. Die M ystik des A posteis Paulus. Tübingen: Mohr, 1930.

27 Bultmann, R. Der Stil der paulinischen Predigt und die kynisch-stoische Diatribe.

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A No v a Pe r s p e c t iv as o b r e Pa u l o

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por Barth de Der Rõmerbriefe,Bultmann recebe bem a teologia dialética,

estabelecendo correspondência com o autor suíço.28

Bultmannpassou a publicar a partir do final da década de 1920,

obras sobre a relação entre o kérygma de Jesus e Paulo. Em 1929, publi­ cou The Significance of the Historical Jesus for the Theology of Paul, artigo em que Bultmann afirma que Paulo reflete indiretamente a tradição

sobre o Jesus histórico, principalmente em sua ética, de forma que o ensino de Jesús, importante na tradição sinótica, é irrelevante e pratica­ mente inexistente em Paulo.29 No artigo, o teólogo de Marburgo ainda afirmou que ambos, Jesús e Paulo, baseiam-se na lei: o primeiro, na lei do amor; o segundo, na situação do homem como pecador diante de Deus. Por sua vez, o artigo Jesus and Paul, publicado em 1936, continua a tratar da relação entre os dois principais personagens do cristianismo na concepção bultmanniana, juntamente com João.

A principal obra de Bultmann é a Teologia do Novo Testamen­

to, publicada entre 1948 e 1953 em dois volumes. Na obra, Bultmann

analisa o kérygma, enfatizando principalmente o pensamento e a teo­ logia de Paulo, o que se vê pelo número de páginas dedicado ao tema.

Bultmannoferece em sua magna opus uma detalhada análise filológica,

uma coerente análise teológica e uma exposição a partir de questões a respeito da existência humana, tendo por base a filosofia existencial de

Heidegger. Bultmann assevera que há um ponto escatológico comum

entre Jesus e Paulo: o apelo à decisão. Porém, a teologia paulina, em sua cristologia e eclesiologia, é condicionada pela gnôsis, assumindo por isso uma visão de mundo pessimista e uma tendência dualista que abrange todo o cosmos.30 Tal visão dualista funde mito e apelo à deci­ são; funde narrativas de caráter mítico e asseverações éticas.31 Sendo assim, o trabalho do intérprete moderno é demitologizar os conteúdos do kérygma paulino, para obter assim acesso ao conteúdo que serve à decisão e permite a vivência segundo a fé. As teses de Bultmannnão 28 Jaspert, B. (ed.) Karl Barth - R udolf Bultmann Letters 1922-1966. Grand Rapids:

Eerdmans, 1981.

29 Bultmann, R. The Significance of the Historical Jesus for the Theology of Paul. In: Faith and Understanding. London: SCM, 1969. p. 220-246.

30 Bultmann, R. Primitive Christianism in Its Contemporary Setting. London: Thames and Hudson, 1956.

31 Bultmann, R. Kerygma and M ith: a Theological Debate. New York: Harper & Row, 1953. p. 19-21.

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apenas lançam Paulo em um nível ainda mais profundo de gentilismo - elas são m uito im portantes para a quase ausência de tratam ento da judaicidade de Paulo na pesquisa em m eados do séc. XX. A pesquisa de Bultmann encontrou apoio em autores im portantes como E.

Haenchen, E. Kàsemann,32 W. Schmithals,33 E. Fuchs,34 G. Bornkamm,35

P. V1ELHAUER36 e E. Bradenburger.37

Mesmo as reações conservadoras a Bultmann não passaram de

tentativas de ordenação cronológica a partir de um esquema evolutivo do pensam ento de Paulo. C. H. Dodd, na obra The Apostolic Preaching and Its Developments, de 1936, aceitou a prem issa de Bultmannde que

a pregação de Paulo é escatológica. Porém Dodd afirm ou ser escato-

logicamente relevante para Paulo a morte e ressurreição de Jesús, de forma que os conteúdos escatológicos form ados a posteriori do even- to crítico constituem um a escatologia realizada. Sabatier,38 Machen,39 Mundle,40 C. H. Dodd,41 Fascher,42 Davies,43 Brunot,44 Schoeps45 e Amiot46

chegaram à conclusão de que o pensamento paulino, longe de ser

mono-32 Kãsemann, E. Kritische analyse von Phil 2.5-11. In: Exegetische Versuche und Besinnungen, 1,1960. p. 69-71.

33 Schmitals, W. Gnosticism in Corinth: An Investigation of the Letters to the Corinthians.

Nashville: Abingdon Press, 1971. p. 87-89.

34 Fuchs, E. DieFreiheit des Glaubens, Rõmer 5-8 ausgelegt. München: Kaiser, 1949. p. 18-21. 35 Bornkamm, G. Das Ende des Gesetzes: Paulusstudien. München: Kaiser Verlag,

1952. p. 139-156.

36 Vielhauer, P. Erlõser im N euen Testament. In: RGG, II. p. 379-381.

37 Bradenburger, E. Adam und Christus: Exegetisch-religionsgeschichtliche Untersuchung zu Romer 5.12-21 (IK or 15) 1962. Neukirchen:Vluyn,1962. p. 12-14, 68-71.

38 Sabatier, A. L'apotre Paul. Esquisse d'une histoire de as penseé. Strasbourg: Treuttel et W urtz, 1870.

39 Machen, J. G. The Origin o f Paul Religion. New York: Macmillan, 1921. 40 M undle, W. Das religiose Leben des Aposteis Paulus. Leipzig: 1923.

41 Dodd, C. H. The M ind of Paul: (1) Psychological Approach; (2) Change and Development. In: Bulletin o f the John Rayland Library, 17,1933. p. 91-105; 18,1934. p. 69-110.

42 Fascher, E. Paulus. In: Pauly-W issowa Supll., 8,1956. p. 431-466.

43 Davies, A. P. The First Christian: A Study o f St. Paul and Christians Origins. New York: Farrar, Straus and Cudahy, 1957.

44 Brunot, A. Saint Paul et son message. Paris: Artheme Fayard, 1958.

45 Schoeps, H.-J. Paulus. Die Theologie des Aposteis im Lichte der jüdischen Religionsge-schichtliche. Tübingen: Mohr, 1959.

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A No v a Pe r s p e c t iv as o b r e Pa u l o

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lítico, apresenta variação significativa, podendo ser dividido em: eta­ pa das Epístolas aos Tessalonicenses, em que o pensamento paulino estava concentrado nas ênfases da tradição mais antiga, a tradição escatológica; etapa das grandes epístolas, oportunidade na qual o encontro com o helenismo exigiu a adaptação por parte de Paulo, que procurou tratar dos temas da libertação da Lei e dos princípios éticos pelas listas e lições morais; e, por fim, a etapa das Epístolas do Cativeiro, em que Paulo se concentra no tema da revelação do mistério de Cristo.47

A Nova Perspectiva Sobre Paulo (NPP)48 é uma proposta de mudan­ ça na leitura dos textos paulinos segundo os critérios tradicionais dos autores protestantes, particularmente Luteroe Calvino, que analisam a teologia paulina como expressão de uma soteriologia de natureza fo­ rense. Tal leitura também privilegia os textos paulinos em detrimento aos demais textos canônicos.49 E. P. Sandersfoi o primeiro, na década

de 1970, a chamar a atenção para o pensamento judaico de Paulo, na obra Paul and the Palestinian Judaism.50

A NPP se tornou viável a partir da ruptura de certos consensos na descrição do judaismo palestinense, particularmente aqueles que faziam parte da visão protestante tradicional, que de certa forma foi perpetuada ñas pesquisas posteriores.

A soteriologia protestante tem ligações muito estreitas com a "teolo­ gia paulina", lida como pensamento oposto ao judaísmo. Tal fissura explica a divisão, no protestantismo tradicional entre fé e obras, lei e evangelho, judeus e gentios. Porém, tais dicotomias remontam à categorização do judaísmo feita no período medieval tardio. Os Re­ formadores aceitaram acriticamente tais categorizações e vincularam os conceitos negativos atribuídos aos judeus também aos

católico-47 As três etapas podem ser encontradas em: Cerfaux, L. O cristão na teologia de Paulo. São Paulo: Teológica, 2003. p. 20-22.

48 A expressão "N ova Perspectiva Sobre Paulo" (New Perspective on Paul) foi cria­ da por J. Dunn. Ver: Dunn, J. D. G. The New Perspective on Paul. In: Bulletin of the John Ryland's Library, 65,1983. p. 95 -122.

49 W esterholm, S. Perspectives Old and New on Paul. Grand Rapids: Eerdmans, 2004. p. 3.

50 Sanders, E. P. Paul and the Palestinian Judaism: A Comparison o f Patterns o f Religion. ־'London: SCM Press, 1977.

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-romanos.51 Em seguida, as pesquisas dos sees. XVIII, XIX e XX até

Bultmann, seus discípulos e seus opositores concordaram, em maior ou menor grau, com os quatro aspectos da "influência negativa da conversão de Lutero" . A descrição artificial a respeito do judaísmo começou a ser criticada com as contribuições de G. F. Moore e C.

G. Montefiore. G. F. Moore demonstrou que as fontes citadas pelos

autores do séc. XX eram, em grande parte, textos cristãos com teor antijudaico, e que a religião de legalismo geralmente descrita pelos biblistas não corresponde ao judaísmo do primeiro século.52 Seu texto clássico, intitulado Judaism in the First Centuries of the Christian Era: The A ge of Tannaim, de 1927, representa uma importante crítica ao consenso formado em torno de Weber. Quanto a Montefiore, o autor publicou a obra Rabbinic Literature and Gospel Teachings em 1930, em que questionava a abrangência das fontes citadas por Webere a leitu­

ra que o mesmo fazia de tais fontes.53

A crítica a tais equívocos na leitura de Paulo continua a ser feita por E. P. Sandersna obra Paul and Palestinian Judaism, de 1977. Na obra,

Sanders identifica a exposição equivocada do judaismo ñas obras que

foram consultadas por expositores do pensamento paulino. E em sua reconstituição do judaismo palestinense, o autor afirma que este não era, no primeiro século, uma religião de obras, feitas para a obtenção da aprovação por Deus e entrada no pacto. Para comprovar tal ideia,

51 Stendahl, K. The Apostle Paul and the Introspective Conscience of the W est. In: Meeks, W. A. (ed.). The Writings of St. Paul. New York: W. W. Norton & Company, 1972, p. 426.

52 A descrição artificial a respeito do judaísm o perdurou praticam ente intocada durante três séculos, encontrando, porém , um a sistem atização no texto de F. W eber, intitulado System der altsynagogalen palãstinensischen Theologie, de 1880. O texto de W eber tornou-se a base de consulta de biblistas influentes como E. Schürer, na obra Geschichte des jüdischen Volkes im Zeitalter Jesu Christi, de 1901; e W. Boisset na obra, de 1906. A reconstituição do kérygm a prim itivo foi em preendida por R. Bultm ann. Porém , na reconstituição do judaism o do p ri­ m eiro século, Bultm ann consultou as obras de Bossuet, Schürer que, entre ou­ tros, retom avam as conclusões de W eber. O resultado final foi a m anutenção do esquem a artificial que, desde a Reform a, pauta a investigação protestante, lim itando-a a descrever Paulo com o propagador de um antijudaísm o progra­ mático.

53 M ontefiore, C. G. Rabbinic Literature and Gospel Teachings. London: M acmillan, 1930.

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A No v a Pe r s p e c t iv aso b r e Pa u l o

2 0

recorre à literatura Tanaítica, aos Manuscritos do Mar Morto e aos Apócrifos e Pseudepígrafos. Em suas conclusões, Sanders afirma que

o judaismo da época de Paulo compreendia a salvação como eleição e pacto, resultado da escolha de Deus por Israel. A lei observada pelos judeus era praticada para a manutenção da relação pactuai com Deus, e não para a entrada no pacto. Sendo assim, o tema da paulino da jus­ tificação é um tema extraído da leitura judaica da Torá, e não oposto ao judaísmo da época.54 O nome dado por Sanderspara a relação entre

a eleição e a obediência à lei é "nomismo da aliança", pois o centro de toda a vida judaica consistia no pacto gracioso de Deus com o povo, sendo a lei o caminho de Deus com o mesmo, a manifestação da rela­ ção pactuai entre ambos.55

E. P. Sandersdestaca que a ideia de justificação é própria da teolo­

gia judaica, não sendo, porém, mero ato judicial. Com tais comentários,

Sanders tece críticas ao Theologisches Worterbuch zum Neuen Testament

editado por Gerhard Kittel, afirmando que os conceitos de 'obras' e 'justificação' da obra não encontram respaldo no pensamento de Paulo ou no judaísmo com que Paulo dialoga.56 Fazendo assim, Sanders ob­

jeta a interpretação tradicional das obras da lei em Gálatas e Romanos, afirmando que tais foram mal compreendidas.

E neste contexto que surge James D. G. Dunn, que contribui à pes­ quisa afirmando que Paulo compreendia a si mesmo como cham ado/ vocacionado (e não como convertido), de forma que ele se diferenciava dos gentios que aderiram às comunidades paulinas (lTs 1.9-10). Quan­ to às obras da lei, Dunn cita os textos de Qumran para afirmar que tal

temática é própria do judaísmo da época, sendo uma referência à cir­ cuncisão (G12.3,7-9,12; 5.2), ao calendário religioso (G14.10) e à obser­ vância das leis alimentares (G1 2.12-14). Assim, são demarcadores de fronteiras entre judeus e pagãos.57 Dunndestaca que o contexto social

e histórico são insígnias do judaísmo, mas não percursos soteriológicos fechados. Sendo assim, Paulo entenderia que tais podem ser abdicadas

54 Sanders, E. P. Paul and Palestinian Judaism: A Comparison o f Patterns o f Religion. Minneapolis: Fortress Press, 1977. p. 422. Na obra, o autor enumera sete aspectos 55 Idem. Judaism: Practice and belief 63 BCE-66 CE. London: SCM , 1992. p. 262. 56 Sanders, E. P. Paul, the Law and the Jewish People. Philadelphia: Fortress, 1983. 57 Dunn, J. D. G., Jesus, Paul and the Law: Studies in M ark and Galatians. London: ^ SCM, 1990. p. 27.

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devido ao fato de que a tradição bíblica veterotestam entária já prevê a redenção dos gentios.58

A obra de James D. G. Dunnaqui apresentada, "A nova perspec- tiva sobre Paulo", é um a coletânea de artigos publicados entre 1983 e 2004, reunidos por Dunn e adicionados a dois artigos inéditos, feitos

especialmente para esta edição. N esta obra, Dunnperm ite ao leitor que

ele participe de sua própria jornada na exploração de questões relacio- nadas com a teologia de Paulo, dando um panoram a do surgim ento de novas perspectivas dentro de sua própria perspectiva. Ele também es- clarece confusões e equívocos de sua própria abordagem ao entrar em discussão crítica com alguns de seus críticos, bem como com alguns de seus amigos.

Este volume é um excelente testem unho das contribuições de

Dunn p ara a discussão contem porânea sobre Paulo. E o lançamento

desta obra certamente vai estim ular novas pesquisas e posicionamen- tos críticos dos leitores em língua portuguesa. O que se espera, porém , com a publicação, é que os apelos de Dunn para a leitura de Paulo a

partir do próprio texto paulino seja levada a sério por nós. E, de mais a mais, o que se pode dizer da obra está dito nela mesma. Então, mãos à obra: boa leitura!

Brian Gordon Lutalo Kibuuka

M em bro d o C entro d e E studos Clássicos e H um anísticos d a U niversidade de C oim bra M em bro d o G ru p o de P esquisa "Im agens, R epresentações e C erâm ica A ntiga - N ER EID A "/U F F M em bro do G ru p o de P esquisa "D iscurso na A n tig u id ad e Grega: Texto, C ontexto e M em ória"/U F R J

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Prefácio

Escolher um título para um livro é sempre um a tarefa arriscada. Deve ser um título informativo, mas que chame também a atenção, em vez de ser insípido ou m eram ente descritivo. No entanto, quanto mais atrai a atenção, tanto mais pode causar algum m al-entendido ou al- gum as ideias distorcidas. Assim escolhi este título, A Nova Perspectiva sobre Paulo, com algum as apreensões.

Faço isto em prim eiro lugar porque m eu artigo homônimo (re- produzido abaixo como Cap. 2) é geralmente considerado o sinal de um a nova fase nos estudos paulinos ou um a nova m aneira de olhar para a teologia e o evangelho de Paulo (ou particularm ente para seu ensinamento sobre a justificação pela fé). Já que este livro consis- te, em sua maior parte, de um a coletânea form ada deste artigo e de mais 21 outros ensaios que se referem, de um a m aneira ou de outra, à "nova perspectiva" ou procuram promovê-la, o título poderia ter sido

‘‘A Nova Perspectiva sobre Paulo e outros ensaios". Mas isto não deixaria suficientemente claro que o prim eiro e m aior ensaio (Cap. 1) é total- m ente novo e foi escrito para este volume, e que desejo atrair a aten- ção do leitor particularm ente para o novo ensaio "A Nova Perspectiva sobre Paulo: de onde, o quê, para onde?". O último ensaio, sobre F1 3.2-14, foi igualm ente escrito para este volume, para m ostrar um a nova apreciação da grande efetividade que este sum ário bem acabado da teologia paulina tem para assuntos controversos.

Concretamente, para m uitas pessoas, o título "A Nova Perspecti- va" parece tanger um aspecto im portante e parece ter-se estabelecido como a referência mais clara a essa m aneira diferente ou nova de olhar para Paulo, especialmente entre pessoas que são críticas em relação à "nova perspectiva" (como m ostra a bibliografia). Portanto, a referên- cia é altamente reconhecível: as pessoas para as quais este volum e foi composto saberão quase que imediatam ente qual será o seu conteúdo.

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Diante da controvérsia gerada pela "nova perspectiva sobre Paulo" poderá se perceber facilmente que este volume é destinado a ser mi­ nha tentativa de responder ao debate sobre a "nova perspectiva" e de oferecer um recurso para qualquer pessoa que possa achar útil ter um acesso direto ao leque completo de meus pensamentos e insights em desenvolvimento, que giram em torno desse assunto.

Sendo assim, eu preciso acrescentar que o título não deveria ser lido como “a nova perspectiva sobre Paulo", como se esta fosse a única

"nova perspectiva" possível ou acessível a estudiosos de Paulo. Dada a breve história do título, teria sido mais enganador intitular o volu­ me inteiro "U m a nova perspectiva sobre Paulo". Tampouco deve ser lido como "a nova perspectiva sobre Paulo", como se quisesse indicar que qualquer antiga perspectiva estaria agora obsoleta ou condenada à lixeira: muito pelo contrário, como deve mostrar o ensaio de aber­ tura. E também não deve ser lido como a pretensão de fornecer uma afirmação definitiva acerca da "N ova Perspectiva sobre Paulo". Nas paginas a seguir, eu falo somente por mim e não como o representante de alguma espécie de "escola". Tampouco, devo acrescentar, é "a nova perspectiva" algum tipo de "dogm a" que obriga de alguma maneira seus "adeptos"; não é assim que uma exegese crítica (inclusive autocrí­ tica) e ciência histórica assumem adequadamente suas tarefas.

O título indica simplesmente minha contínua convicção de que "a nova perspectiva" forneceu novos e valiosos insights sobre a teologia de Paulo e continua a contribuir com uma apreciação mais coerente da missão e teologia do fariseu Saulo que se tornou o apóstolo cristão Paulo. Como o ensaio de abertura deve deixar claro, a discussão gera­ da pela "nova perspectiva" e em torno dela foi para mim geralmente estimulante e informativa, ocasionalmente corretiva, mas sempre es­ clarecedora e aguçadora de minha própria apreciação de Paulo. Por­ tanto, este volume não é uma defesa apaixonada da "nova perspecti­ va", como se a "nova perspectiva" fosse um assunto de fé pelo qual se deveria morrer, ou como se qualquer crítica a algo que eu escrevera anteriormente precisasse ser refutada enfaticamente, como se tal fosse uma questão de honra. Em tudo o que eu escrevo, o meu objetivo é sempre o de contribuir com uma apreciação colegial e processual da­ quilo que é certamente uma teologia muito mais rica e plena do que uma só pessoa poderia formular, ou do que um só ensaio ou volu­ me poderiam encapsular. Por esta razão, no presente caso, o ensaio de

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2 5 Pr e f á c io

abertura procura explicar como cheguei à "nova perspectiva", esclare­ cer o que entendo por ela e levar a discussão adiante. E o ensaio final procura mostrar a riqueza e a plenitude da compreensão paulina da justiça salvífica de Deus, conforme ilustra uma passagem singular, a saber, F13.2-14.

E stou g ra to a Jõrg Frey, o ed ito r d a série WUNT, pela su gestão

original de que eu d ev eria reu n ir m eu s en saios sobre a "n o v a p e rsp e c­ tiv a " e p o r m e en corajar a escre v e r o ensaio d e ab ertu ra. T am b ém estou g ra to aos o rg an izad o res e ed ito res dos artigo s origin ais, pela p erm issão d a reim p ressão , e a Henning Ziebritzki d a ed itora M oh r Siebeck que se e n ca rre g o u d e reim p rim ir artigo s d a fase p ré -co m p u ta d o r d as m in h as p esq u isas sob re o assu n to. E sto u con sid erav elm en te en d iv id ad o co m Friedrich Avemarie, John Barclay, Kevin Bywater, Don Garlington, Michael Gorman, Terry Halewood, Peter O 'Brien e Michael Thompson

p ela ajuda co m a bibliografia, e co m Henning Ziebritzki que m e p e r­ m itiu v e r u m a an tig a p ro v a d o seg u n d o v o lu m e de Carson, O 'Brien e Seifrid, Justification and Variegated Nomism. A p ágin a websobre P au lo de Mark Mattison (w w w .th e p a u lp a g e .co m ) é u m excelen te re cu rso p a ra p esso as in teressad as no d eb ate que está em cu rso.

Contudo, meus agradecimentos principais são dirigidos àqueles colegas com os quais pude discutir uma parte ou o conjunto do tema do primeiro capítulo, ou que leram esboços anteriores de suas partes, ou mesmo o seu conjunto, e que contribuíram muitas vezes com valio­ sos comentários e conselhos - Friedrich Avemarie, John Barclay, Phillip

Esler, Don Garlington, Simon Gathercole, Bruce Longenecker, Stephen

Taylor, Mark Seifrid, Peter Stuhlmacher, Francis Watsone Tom Wright.

Nem sempre segui o conselho recebido, mas aproveitei muito do inter­ câmbio e introduzi muitas mudanças no texto, na esperança de que as respectivas reformulações produzissem um impacto mais irênico e po­ sitivo do conjunto. Como procuro deixar claro no primeiro capítulo, não considero "a nova perspectiva" algo que refuta ou substitui alguma ou qualquer "antiga perspectiva", mas a considero um complemento a ou­ tras perspectivas e uma contribuição na direção de uma compreensão mais plena e rica do evangelho e da teologia do primeiro e maior teólogo cristão. Se este volume promover esse objetivo, sua publicação valeu.

James D. G. Dunn

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A Nova Perspectiva sobre Paulo:

de onde, o qué, para onde?

1. Um relato pessoal

Como indiquei no prefácio de m eu livro Theology of Paul the Apostle1

(A teologia do apóstolo Paulo), m eu interesse em Paulo rem onta aos dias da m inha últim a série do ensino médio, quando organizei para estudantes mais novos no intervalo do almoço um cursinho sobre as viagens missionárias de Paulo. Tal interesse aprofundou-se notável- m ente ao longo dos m eus anos de estudos universitários e se tornou um a fascinação durante minha pesquisa em Cambridge, em meados dos anos 60. Dessa maneira, não fiquei constrangido quando me con- frontei, no m eu prim eiro cargo como professor universitário em 1970, em N ottingham , com a expectativa de oferecer um curso sobre a Carta de Paulo aos Romanos. E um ano depois, quando pud e program ar um curso mais ambicioso sobre "Os Inícios do Cristianismo", a teologia de Paulo teve naturalm ente, desde o início, um lugar de destaque.

Muito cedo me surgiu um questionam ento que se tornou um que- bra-cabeça perturbador durante os últimos anos da década de setenta. E claro que sempre abordei o ensinamento de Paulo sobre a justifica- ção pela fé, ou através da fé, como comecei logo a corrigir a m im mes- mo. Isto era fundam ental para o evangelho e central no âmbito das

1 The Theology o f Paul the A postle (Grand Rapids: Eerdm ans/Edim burgo: T. & T. Clark, 1998). Em Port. A Teologia do Apóstolo Paulo, São Paulo, Paulus Editora, 2008,2a edição.

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tradições reformadas e evangelicals dentro das quais se tinha dado o meu próprio despertamento teológico e o meu desenvolvimento ini­ ciai. No entanto, qualquer estudo de trechos-chave paulinos deixava claro para mim que Paulo, em seu ensinamento sobre a justificação através da fé, estava reagindo contra algum outro ensinamento - "por fé, separado das obras da Lei" (Rm 3.28), "da fé em Cristo e não das obras da Lei" (G12.16). Paulo estava reagindo contra o quê? O que eram essas "obras da Lei"? Os manuais e comentaristas forneciam simplesmente uma resposta padrão: Paulo estava reagindo contra o ensinamento ju­ daico típico de que a justificação aconteceria pela realização das obras - isto é, ele estava reagindo contra a afirmação judaica característica de que a aceitação por Deus tinha de ser conquistada mediante o esforço pessoal de obter o mérito pelo bom comportamento.2

Algo bastante típico para minhas leituras iniciais foi o comentário sobre Rm 4.6ss por Franz Leenhardt, que nota "que a mentalidade jurí­ dica dos rabis (e nisso, eles se assemelharam a todos os homens de todos os tempos) entendeu as relações que seus crentes tinham com Deus como uma conta que mostrava débito e crédito. O aspecto mais importante era que no lado do crédito deveriam constar mais boas obras do que más obras no lado do débito".3 Numa nota de rodapé, ele cita a observação de J. Bonsirven(Jud. Palest. Π, pp. 58-59) de que foi essa espécie de atitude que fez com que os fariseus ganhassem o apelido de "calculadores". Também W. Bousset: "Assim, a vida tomou-se um jogo de cálculos, uma constante inspeção das contas que o homem piedoso possuía no banco divino" (Rei. Jud. 3a ed. 1926, p. 393). De grande influência foi a caracterização que Emil

Schürerofereceu do judaísmo no tempo de Jesus, como de "formalismo

externo [...] extremamente afastado da verdadeira piedade".4 Um efeito

2 Como documenta H. B. P. M ijoga, The Pauline Notion of Deeds o f the Law (São Francisco: International Scholars Publications, 1999), a tradição dom inante con­ siderava “obras da L ei" como indicação de "um a justiça de obras legalista" (p. 5­ 21). Um exemplo recente é R. N. Longenecker, Galatians. WBC 41 (Dallas: Word, 1990): "um a expressão im portante para sinalizar todo o complexo legalista de ideias que têm a ver com ganhar o favor de Deus por meio de uma observância da Torá que acumula m éritos" (p. 86).

3 F. J. Leenhardt, The Epistle to the Romans (1957; ET Londres: Lutterworth, 1961), p. 115-116.

4 E. Schürer, The History o f the Jewish People in the Time o f Jesus Christ (ET Edimburgo: T. & T. Clark, 5 volumes, 1886-1890): "Q uando até a própria oração, aquele

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cen-semelhante teve a descrição do farisaísmo por Matthew Black, como "o antepassado imediato da [...] religião amplamente árida dos judeus após a queda de Jerusalém", "uma religião estéril de tradição codificada que regulava cada parte da vida por uma halacá [...]".5 Minha reação era com- preensível: se sua religião era assim, é claro que Paulo experimentou sua conversão como um a libertação (Rm 8.2; G15.1)!

Tudo isso parecia ser aceito como evidente e passou quase intei- ramente sem questionamentos em minhas primeiras leituras acerca de Paulo e seu evangelho. Mas o quebra-cabeça, que rapidamente come- çou a perturbar, surgiu a partir de minhas sondagens iniciais acerca de uma expressão-chave no ensinamento paulino sobre a justificação - a expressão "a justiça de Deus". Como alguém poderia deixar de tentar

decifrar essa expressão quando se confrontava com a afirmativa temá- tica de Rm 1.16-17? É aquele texto que diz: "O evangelho é o poder de Deus para a salvação de todas as pessoas que creem, primeiro o judeu, e também o grego, porque nele está revelado a justiça de Deus de fé para fé, como está escrito: 'o justo pela fé viverá' (Hab 2.4)". Considerei os respectivos verbetes de Elizabethe Paul Achtemeier no Interpreter's Dictionary of the Bible altamente elucidadores - mas igualmente provo-

cadores de um quebra-cabeça.6 Afinal, os Achtemeiers mostraram-me que a expressão central de Paulo foi tirada diretamente do Antigo Tes- tamento e estava totalmente em sintonia com típicas ênfases judaicas. "Justiça" era um conceito relacional e devia ser entendida "como sa- tisfazer as exigências de um relacionamento". O mesmo aplicava-se à "justiça de Deus": pressupunha a relação de aliança, construída com a humanidade segundo a iniciativa de Deus; Deus agia com justiça

tro da vida religiosa, estava am arrada às correntes de um mecanismo rígido, di- ficilmente podem os falar de piedade vital" (2/2.115). Característico foi também RUDOLF Bultmann, Primitive Christianity in its Contemporary Setting (Londres: Thames and H udson, 1956), onde a descrição principal de "judaísmo" tem o tí- tulo: "Legalismo judaico" (p. 59-71). F. Watson, Paul and the Hermeneutics o f Faith

(Londres: T. & Τ. Clark International, 2004) é provavelm ente justo quando obser- va: "Torna-se inequivocamente claro que Bultmann pessoalmente não gosta do fenômeno histórico sobre o qual está escrevendo e que pretende comunicar esse desgosto aos seus leitores" (p. 7).

5 M. Black, Verbete "Pharisees", in IDB 3 (1962), p. 774-781, aqui: p. 781.

6 E. R. Achtemeier, Verbete "Righteousness in the Old Testament" e P. J. Achtemeier, Verbete "Righteousness in the New Testament", in IDB 4 (1962), p. 80-85; 91-99.

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A No v a Pe r s p e c t iv as o b r e Pa u l o

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quando satisfazia as exigências desse relacionamento de aliança.7 Daí o discurso (para mim) surpreendente (particularmente no Deuteroisaías e nos Salmos) da justiça de Deus como algõ־־que caracteriza sua ação salvadora em relação a seu povo, sua redenção e vindicação até mesmo de um povo que errava.8 Daí também o insight de que a justiça de Deus podia incluir o pensamento da fidelidade de Deus às promessas de sua aliança (Rm 3.3-5).9

O quebra-cabeça é óbvio, mas, naquela altura (nos anos 70), ele estava apenas me perturbando. Se "a justiça de Deus" se refere à ação justificadora de Deus, então como ela se correlaciona com a visão tra­ dicional de que Paulo estava reagindo contra uma visão que ensinava que a justificação precisava ser merecida? Se "a justiça de Deus" pres­ supunha a eleição divina de um povo sem fé e expressava a fidelidade e preservação divinas desse povo, então onde entrava nesse quadro o pensamento da justificação que precisava ser alcançada por obras? Se Paulo podia recorrer à ênfase característica veterotestamentária no ca­ ráter gratuito da justiça de Deus como uma afirmativa de seu próprio evangelho, como ele podia ao mesmo tempo pressupor que o judeu tí­ pico entendia a justificação como um status que tinha de ser merecido? Alguma coisa saíra errada, em algum ponto, mas onde?

7 Naquele tempo não apreciei a im portância do trabalho anterior de H. Cremer, Die paulinische Rechtfertigungslehre im Zusammenhange ikrer geschichtlichen Voraus-setzungen (Gütersloh: Bertelsmann, 1899, 2a ed. 1900), p. 34-38, mas encontrei 0 insight confirm ado pelas teologías do Antigo Testamento predom inantes na­ quele tempo, de W. Eichrodt, Theology of the Old Testament, Vol. 1 (6a ed. 1959; Londres: SCM , 1961), p. 239-249, e de G. von Rad, Old Testament Theology, Vol. 1 (1957; Edimburgo: Oliver & Boyd, 1962), p. 370-376. Assim agora, por exem­ plo, F. Hahn, Theologie des Neuen Testaments, 1 (Tübingen: M ohr Siebeck, 2002), p. 247-248; J. Roloff, "D ie lutherische Rechtfertigungslehre und ihre biblische Grundlage", in W. Kraus, K.-W. Niebuhr (org.), Frühjudentum und Neues Testament im Horizont Biblischer Theologie. W UNT 162 (Tübingen: M ohr Siebeck, 2003), p. 275-300: "A justiça de Deus não veio novamente ao m undo só com Cristo; ela já estava antes ativa em Israel" (p. 290).

8 Portanto, pude simpatizar com a experiência de Lutero tal como a encontrei pela primeira vez em R. Bainton, Here I Stand (Londres: Hodder & Stoughton, 1951), p. 65, e como citada em "The Justice of God: A Renewed Perspective on Justification by F aith ", in JTS 43 (1992): 1-22, aqui: 1, reproduzida abaixo, Cap. 7.

9 Estes são os insights cruciais no meu comentário à Carta aos Romanos. W BC 38 (Dallas: W ord, 1988), p. 41-42,132-134.

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O quebra-cabeça apenas aum entou quando percebi pela primei- ra vez o hino - agora famoso - no fim da Regra da Com unidade de Q um ran (IQS 11.11-15):10

Q u an to a m im , (12) se eu tropeçar, as m isericórdias de D eus serão m in h a salvação eterna. Se eu cam balear p o r causa do pecado d a carne, m in h a justificação (m shpti) será p ela justiça de D eus que d u ra p a ra sem - pre. (13) [...] Ele m e atrairá p a ra sua graça, e p o r su a m isericórdia trará m inha (14) justificação {mshpti). Ele m e julgará n a justiça de sua v erd ad e, e n a g ra n d eza d e su a b o n d ad e, ele m e p e rd o a rá (y kpr) todos os m eus pecados. A través de su a justiça, ele m e purificará d a im p u rez a d os ho- m ens (15) e d o pecado das crianças dos hom ens (segundo a trad u ção de V erm es).11

Aqui estava um texto que falava claramente da graça, misericór- dia e justiça de Deus como o fundam ento da esperança, da asserção dos pecados perdoados.12 Esse texto era tão paulino em seu caráter e em sua ênfase!13 Mas, não obstante, esse próprio docum ento (1QS) estava

10 K. Kertelge, "Rechtfertigung" bei Paulus: Studien zur Struktur und zum Bedeutungsgéhalt des paulinischen Rechtfertigungsbegriffs (Münster: Aschendorff, 1967), p. 29-33, foi o prim eiro a cham ar m inha atenção para este texto. Semelhantemente 1QH 12(= 4).29-37; 13(= 5).5-6; 15(= 7).16-19; 1QM 11.3-4; sem m encionar SI 103.10 e Dn 9.16-18 e sobretudo 4Esd 8.34-36.

11 Dos pergam inhos publicados mais recentemente, cf. em especial 4Q507 e 4Q511, fragmentos 28 e 29. Cf. tam bém H. Lichtenberger, Studien zum M enschenbild in Texten der Qumrangemeinde (Gõttingen: Vandenhoeck und Ruprecht, 1980), p. 73-93.

12 Nota*se que 1QH 12(= 4).29-31 e 17(= 9).14-15 fazem eco a SI 143.2, sobre o qual tam bém Paulo constrói sua doutrina da justificação (Rm 3.20; G12.16).

13 O paralelo foi notado cedo por David Flusser, "The Dead Sea Sect and Pre- -Pauline Christianity" (1958), Judaism and the Origins o f Christianity (Jerusalém: Hebrew University, 1988), p. 23-74, aqui: p. 33-35. Como observou N. Dahl, "The Doctrine of Justification: Its Social Function and Implications" (1964),

Studies in Paul (Minneapolis: Augsburg, 1977), p. 95-120: "Alguns dos rolos de Q um ran falam do pecado hum ano e da justiça de Deus de urna forma que pare- ce surpreendentem ente paulina, para não dizer luterana. [...] as crenças expres- sadas pelos membros da com unidade de Q um ran correspondem a um a série de formulações da doutrina da justificação. [...] a terminologia de justificação [...] tem um a conexão positiva com um a linguagem religiosa ainda existente no judaísmo. [...] A semelhança corn a-dtrútrina paulina da justificação pela justiça salvífica de Deus é realm ente notável" (p. 97,99-100).

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A No v a Per spec tiv asobre Pa u l o

3 2

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sendo usado também como um exemplo daquele legalismo estreito e sectário que, como se presum ia de m odo geral, devia ter caracterizado o "judaism o" do tem po de Paulo (G11.13-14), ou pelo menos devia ter sido m uito semelhante do farisaísmo, tão familiar a Paulo.14 Como era possível conciliar a visão tradicional do legalismo judaico, que enfati- zava o mérito e a recompensa, com o ensinamento veterotestamentário a respeito da justiça de Deus e da confiança total na graça de Deus, os quais garantiriam um julgam ento favorável, que parecia estar expres- so no hiño de Qumran? Contra o que Paulo estava reagindo em seu próprio ensinam ento sobre a justificação pela graça através da fé, um ensinamento tão veterotestamentário, tão qumrânico(!)?

No m eu trabalho inicial em preparação de um comentário sobre a Carta aos Romanos, eu identificara o incidente em Antioquia (G12.11- 14) como a chave que poderia destrancar algo desses quebra-cabeças. E nos dois prim eiros anos da década de 80, m inha verificação daquele episódio e das relações entre Paulo e Jerusalém ajudou a esclarecer as tensões no trabalho missionário de Paulo que surgiram particularmen- te devido a sua vocação e seu compromisso com a missão aos gentios.15 C ontudo, ainda não estava claro como esses insights poderiam se en- caixar em alguma solução do quebra-cabeça, embora esse período me tivesse oferecido também a oportunidade de estudar de perto a obra recém-publicada por E. P. Sanders, Paul and Palestinian Judaism (Paulo e o judaísmo palestinense).16 E foi ali que o quebra-cabeça se tornou um a questão que eu já não podia ignorar. Ela tinha de ser respondida: contra o que Paulo estava reagindo?

14 O estudo influente de J. Jeremias, Jerusalem at the Time of Jesus (3a ed. 1967; Londres: SCM, 1969), em Port.: Jerusalém no tempo de Jesus, São Paulo, Ed. Academia Cristã, Paulus, 2010, baseou-se no Documento de Damasco para completar sua compreensão de "padrões da vida comunitária como aqueles das regras farisaicas" (p. 259-260). 15 J. D. G. Dunn, "The Incident at Antioch (G1 2.11-18)״, in JSN T 18 (1983): 3-57

(preleção m inistrada pela prim eira vez em 1980); tam bém "The Relationship between Paul and Jerusalem according to Galatians 1 and 2", in NTS 28 (1982): 461-478; ambos republicados no m eu livro Jesus, Paul and the Law: Studies in M ark and Galatians (Londres: SPCK, 1990), p. 129-174.108-126 (ambos com no- tas adicionais). O prim eiro tam bém foi reimpresso em M. D. Nanos (org.), The Galatians Debate (Peabody: Hendrickson, 2002), p. 199-234.0 últim o foi acolhido bem por R. Schãfer, Paulus bis zum Apostelkonzil. WUNT 2.179 (Tübingen: Mohr Siebeck, 2004), p. 123-149,175-180,201-221.

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Sandersforneceu ao estudo do NT efetivamente um a nova perspec- tiva sobre 0 judaísmo do Segundo Templo. Afirmou sem quaisquer rodeios e de um a m aneira bem polêmica que a perspectiva tradicional m antida pela academia cristã acerca do judaísmo estava simplesmente errada. Destacou que estudiosos judaicos estavam há m uito tem po embaraça- dos diante de um a visão que parecia ser um a caricatura do judaísmo que lhes era familiar; como é que Paulo, o fariseu, podia caracterizar o judaísm o de seu tempo de um a forma que dava um a impressão tão errada (devemos lem brar aqui que eles estavam lendo Paulo nos ter- mos tradicionais da academia cristã)?17 Sanderspercebeu também que

estudiosos do lado cristão, como, por exemplo, George Foot Mooree

James Parkes,18 já tinham protestado há m uito tempo contra a caracteri-

zação tradicional do judaísm o de Paulo como estreito e friamente lega- lista. Infelizmente, porém , seus protestos não tinham sido ouvidos,19 e

Sandersestava decidido a fazer de tudo para que seu protesto não fos-

se ignorado.20

17 "Ao ler Schechter e Montefiore, perguntamo-nos o que Paulo encontrou no judaís- mo para ser atacado" (Sanders, Paul and Palestinian Judaism, p. 12), referindo-se a sua citação (p. 6) de S. Schechter, Aspects o f Rabbinic Theology (Nova Iorque, 1961 = 1909): "Ou a teologia dos rabinos tem de estar errada, os seus conceitos de Deus têm de ser aviltantes, seus principais motivos, materialistas e grosseiros, e seus mestres precisar estar carentes de entusiasmo e espiritualidade, ou o apóstolo dos gentios é completamente ininteligível" (p. 18). Além disso, cf. S. Westerholm,

Perspectives Old and New in Paul: The "Lutheran" Paul and His Critics (Grand Rapids: Eerdmans, 2004) sobre C. G. Montefiore e H. J. Schoeps (p. 118-128).

18 Sanders, Paul and Palestinian Judaism, p. 6, cita J. Parkes, Jesus, Paul and the Jews

(Londres: 1936): "[...] Se Paulo realmente estava atacando o ,judaísm o rabínico', então grande parte de sua argumentação é irrelevante, seu apelo é imerecido e seu conceito daquilo que estava atacando é inexato" (p. 120).

19 Cf., além disso, Sanders, Paul and Palestinian Judaism, p. 33-59. Cf. a crítica a F. Weber por P. S. Alexander, "Torah and Salvation in Tannaitic Literature", in D. A. Carson et al. (org.), Justification and Variegated Nomism. Vol. 1: The Complexities o f Second Temple Judaism. WUNT 2.140 (Tübingen: Mohr Siebeck, 2001), p. 261- 301: "Seu relato está perm eado por um a anim osidade antijudaica determ inada a descrever o judaísm o como nada mais que um a justiça de obras seca e legalista" (p. 271).

20 N um a conversa privada comigo, Sanders observou que o protesto de Moore tinha sido escondido em sua grande obra Judaism in the First Centuries o f the Christian Era: The A ge o f the Tannaim (Cambridge, 1927-1930) e ficou explícito apenas em seu artigo "Christian W riters on Judaism ", in: HTR 15 (1922): 41-61

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