Helen Martindale afastou o cabelo, que começava a ficar grisalho, do rosto redondo e o prendeu para trás com um grampo. Sorriu pacientemente para a jovem diante dela, que ainda não havia levantado a cabeça e desgrudado os olhos do contrato de uma única página que Helen lhe entregara havia mais de seis minutos, lendo e relendo todas as linhas do texto como se ali estivesse a resposta para o sentido da vida.
— É só o nosso contrato padrão de representação — explicou Helen. — Não tem nenhuma pegadinha aí.
A jovem continuou lendo.
— Vamos conseguir um valor justo pelo lugar — continuou Helen, para tranquilizá-la.
Estava radiante pelo fato de a neta de Mimi Praeger ter escolhido anunciar o valioso rancho Paradise Valley com a Martindale &
Jessop, em vez de alguma imobiliária extravagante da cidade, que ofereceria “tours virtuais” e “presença nas redes sociais” e prometeria obter ofertas do nível dos valores antes da crise, valores esses que corretores locais, como Helen Martindale, sabiam que não podiam mais ser alcançados.
— Tem alguma coisa incomodando você, meu bem? — perguntou Helen, quando dez minutos inteiros tinham se passado.
— Hein? — Ella ergueu a cabeça, confusa, como se de repente estivesse vendo Helen, uma mulher mais velha, pela primeira vez.
— Ah, não. Obrigada. Está tudo bem. Precisa que eu assine alguma coisa?
Helen Martindale apontou para a linha pontilhada no pé da página e entregou uma caneta a Ella. A pobre garota parecia estar no mundo da lua. Ela sempre foi esquisita, é claro, com uns parafusos a menos, como dizia o pai de Helen. Natural, considerando a vida isolada que havia sido obrigada a levar naquele rancho. Fora da escola, Ella mal brincava com as outras crianças e não aprendia como interações sociais deveriam funcionar. Mas, naquela manhã, ela parecia pior que o normal. Talvez se desligar do rancho e dar adeus à casa onde havia crescido estivesse sendo mais angustiante do que imaginava.
— Vai ficar na propriedade durante sua estada aqui? — perguntou Helen, simpática.
— Não — respondeu Ella, curta e grossa. Não pretendia ser rude, mas era incapaz de jogar conversa fora.
— Bom, isso facilita as coisas do nosso ponto de vista. — Helen sorriu. — Imagino que, para você, não seja fácil voltar aqui para o vale, agora que sua avó se foi.
Sem saber como responder ao comentário, Ella se levantou, apertou a mão de Helen com formalidade e foi embora, fechando a porta do escritório ao sair.
Helen Martindale ficou observando pela janela a garota parada na calçada, balançando como um choupo ao vento, sem saber para onde ir até de repente escolher virar à esquerda e pegar a Main Street.
Tadinha, pensou a corretora imobiliária outra vez. Em seguida, se perguntou se o dinheiro da venda do Rancho Praeger tornaria a vida da cliente melhor ou pior e ficou com a sensação deprimente de que, provavelmente, pioraria. Os problemas de Ella, de acordo com as suspeitas acertadas de Helen Martindale, não eram do tipo que podiam ser resolvidos com um cheque.
De fato, a sensação de voltar ao vale foi ruim, mas não porque Mimi havia partido. Ella ainda estava furiosa demais com a avó para se permitir ter quaisquer outros sentimentos. Não, o ruim era o fato de que ela continuava no limbo, sem ter a menor ideia de como seria o
próximo capítulo de sua vida. Numa atitude estúpida, havia parado de procurar emprego até receber novas notícias do “homem”, que prometera contatá-la em poucos dias. Já fazia nove dias da visita inesperada do sujeito ao apartamento, e desde então Ella não tinha notícia alguma dele.
Não que tivesse a mais remota intenção de se unir ao “grupo”
dele ou de fazer qualquer “treinamento” besta. Mas estava ansiosa para dar essa notícia desafiadora pessoalmente e, sendo honesta, para vê-lo outra vez. Embora não gostasse de admitir, as aparições aleatórias daquele homem em sua vida causavam um frisson que só em parte tinha a ver com as pistas tentadoras que ele oferecia sobre seus pais.
Entretanto, ele havia sumido completamente, por isso Ella voltou a Paradise Valley ainda mais desesperançosa e desanimada que no dia do velório. Por sorte, até agora, não havia esbarrado em nenhum dos colegas/algozes da época da escola. Isso, sim, seria a cereja do...
— Não acredito! É a Srta. Ella! Ella Praeger, que surpresa ver você por aqui!
Se tivesse acontecido com outra pessoa, teria sido engraçado.
Danny Bleeker, loiro, de olhos azuis, craque do time de beisebol da escola no ensino médio e o diabo na vida de Ella do fim do ensino fundamental até o último ano da escola, estava saltitando pela rua para cumprimentá-la como se fosse um cachorrinho animado.
— Caramba, como vai, Ella Praeger?
Ella não era a pessoa mais competente do mundo para interpretar essas interações sociais, mas o estranho era que ele parecia de fato satisfeito em revê-la, com um sorriso largo no rosto e colocando as mãos nos ombros de Ella, como se estivesse diante de uma prima que não via fazia bastante tempo ou uma velha amiga muito querida. Danny parecia o mesmo, embora talvez o macacão azul-escuro de mecânico lhe desse uma aparência mais madura do que a que tinha no ensino médio.
— Achei que você nunca mais ia dar as caras por aqui pela cidade. As coisas não deram certo em São Francisco?
— Minha avó morreu — respondeu Ella, com seu jeito direto de sempre.
— Sinto muito.
— Estou vendendo o rancho dela.
Danny Bleeker assobiou.
— Deve valer uma nota. Então agora você é rica, né? Ou vai ficar. Que ótimo! Bom pra você.
Neste exato instante, um murmúrio ensurdecedor, como cem linhas cruzadas, explodiu na cabeça de Ella como um alto-falante estourado. Então tapou os ouvidos e se encolheu, gemendo de dor.
— O que foi? — perguntou Danny, instintivamente envolvendo-a com um dos braços. — O que aconteceu?
Ella ficou paralisada, esperando as vozes estridentes perderem força — em geral, isso acontecia em questão de segundos —, então se contorceu para se afastar do braço dele. Por fim, respondeu:
— Nada. Só uma dor de cabeça.
— Você ainda tem isso? — perguntou ele, parecendo preocupado. — Sabe, é melhor procurar um médico. Essa merda já acontece há anos. Lembra aquela vez na aula da Srta. Haelstrom, quando você...
— Danny... — interrompeu Ella.
— Que foi?
— Por que você está agindo como se fosse uma boa pessoa?
Ele gargalhou.
— Não estou agindo! Eu sou.
— Não — retrucou Ella com sinceridade. — Não é. Você é uma pessoa cruel e maldosa.
Danny franziu a testa, parecendo espantado de verdade.
— Ei, olha, eu sei que fui meio babaca na escola.
— Você era horrível.
— Admito que era meio convencido na época. Mas, sabe, eu era adolescente. Tinha 17 anos!
— Todo mundo no segundo ano tem 17 anos — salientou Ella, sem saber ao certo por que ele mencionou esse fato irrelevante.
— Só quis dizer que...
— Você disse para as pessoas que a gente teve relações sexuais.
Danny corou.
— Eu disse? Não me lembro disso.
— Disse que eu implorei para você ter relações sexuais comigo.
“Implorar”. Essa foi a palavra que você usou.
Danny ergueu as mãos num gesto de mea culpa.
— Nossa, ok. Caramba. Bom, não sei o que dizer. Eu fui um babaca e sinto muito. Mas isso é passado, não é? Hoje em dia estou casado — continuou, animado. — Você se lembra de Beth Harvey?
Ella não lembrava, mas Danny tirou uma foto do bolso da frente do macacão e a colocou na mão de Ella. Era de uma mulher de cabelo preto e aparência normal que Ella poderia ou não já ter visto antes, junto com dois bebês gordos e carecas, cada um num lado do colo.
— Esses são os nossos gêmeos — disse Danny, orgulhoso. — Nate e Charlie. Você tem filhos?
— Não! — Desconcertada, Ella olhou ao redor à procura de um jeito de escapar sem precisar empurrar Danny ou dar as costas e sair correndo.
— Casada?
Ela balançou a cabeça com veemência. Não importava o que fizesse ou dissesse, Danny continuava com aquele sorriso de lunático. Por que ele estava fazendo aquelas perguntas? Por que estava puxando papo? Ella gostava mais dele quando era um valentão implicante. Pelo menos sabia onde estava metida. O que dizer para um Danny Bleeker “legal”?
— Entendi. — Ele assentiu, os olhos ardendo com a expressão bem-intencionada, mas completamente vazia, de quem não estava entendendo nada. — Foco total na carreira, certo? Bom, acho que, apesar de maluca, você sempre foi muito inteligente — acrescentou, num tom simpático. — Você foi para São Francisco, não foi? E aí, acabou fazendo o que por lá? Medicina? Direito? Não? Não me fale:
física quântica! — Ele deu risada. — Você está trabalhando num acelerador de partículas ou coisa do tipo?
— Não. Eu trabalhei com estatística, mas fui demitida.
Oficialmente, foi porque eu passava muito tempo fora da empresa, mas na verdade foi porque me recusei a ter relações sexuais com meu chefe. Eu não sentia a menor atração por ele — acrescentou, para explicar. — Preciso ir para o meu hotel agora. Tchau.
Danny Bleeker coçou a cabeça enquanto observava sua velha colega de turma se afastar rapidamente, seguindo para o precário Double Tree, o único hotel da cidade. Ver Ella Praeger se afastar sempre foi agradável. Ela ainda tinha uma bunda maravilhosa. Mas os anos que se passaram desde o fim do ensino médio a deixaram ainda mais esquisita. Na época, Danny era doido para transar com ela. Todas as provocações e crueldades não passavam de uma tentativa desastrada de flerte, um esforço para chamar a atenção de Ella. Mas, olhando em retrospecto, ele se deu conta de que escapou por um triz.
De volta ao simples quarto de hotel, Ella se deitou na cama marrom feia e fechou os olhos. Estava se preparando mentalmente para sofrer uma emboscada de mais vozes. Até então, na viagem ela havia passado por dois “episódios” debilitantes na Main Street, além de vários outros menos intensos ali no hotel, como se um houvesse um rádio escondido no quarto emitindo som de estática conforme o sinal variava entre duas estações.
Desde que aquele homem saiu de seu apartamento, aparentemente para nunca mais voltar, Ella teve tempo suficiente para refletir sobre a teoria bizarra que ele havia lhe contado para explicar esses sintomas.
“As vozes e as mensagens que você ouve não são alucinações auditivas. São reais. São sinais eletrônicos. Antes de nascer, você foi geneticamente modificada para ser capaz de receber e, pelo menos em tese, detectar essas mensagens.”
A ânsia por encontrar uma resposta para a condição debilitante a instigava a acreditar no sujeito, mas, quando colocava o pé no chão, era difícil levar a sério. Geneticamente modificada antes de nascer?
Sem essa. Isso sequer era possível? Uma breve pesquisa no
Google sugeriu a Ella que não, assim como exposição à radiação gama não transforma ninguém num brutamontes verde e uma picada de aranha não dá a ninguém a capacidade de formar teias com as próprias mãos. Claramente aquele sujeito, quem quer que fosse, estava tentando se aproveitar de suas fraquezas, dizendo algo que ela queria ouvir só para ganhar sua confiança, para atraí-la para as garras do “Grupo”. E o fato é que ele havia tocado nos dois calcanhares de aquiles de Ella — sua sede de conhecimento sobre os pais e sua busca desesperada por uma cura para as dores de cabeça insuportáveis; um jeito de acabar com as vozes que balbuciavam dia e noite —, usando ambos com crueldade para tentar manipulá-la. Ella se perguntou se o sumiço dele era só mais uma das táticas de manipulação. Se sim, estava funcionando.
Mas por quê? Essa era a questão. O que ele queria dela? O que esperava ganhar?
Essas eram as perguntas que a assombravam noite após noite, além de querer descobrir como ele sabia tanta coisa sobre ela.
Como ele sabia tanto de seus sintomas? Ela nunca havia falado com ninguém das vozes que a atormentavam, nenhuma alma viva sabia disso. Se seus pais tinham sofrido lavagem cerebral dessa tal seita, e se realmente eram geneticistas, então, mesmo que fosse bizarra, a explicação para o ruído branco parecia fazer sentido.
Geneticamente modificada. Apesar de não ser reconfortante, pelo menos era uma resposta. Um ponto de partida, mesmo que resolvesse alguns problemas e apresentasse outros.
Já deitada na cama do hotel, Ella enfiou a mão no bolso e segurou o pen-drive. Ainda não havia olhado o conteúdo. A combinação de medo e insubordinação era um pouco mais forte que a curiosidade e continha seu ímpeto.
Ele quer que eu veja o que tem aqui, pensou Ella, e esse é o exato motivo por que não devo fazer isso. Fazer o que ele quer, deixá-lo no comando. Isso seria dar o controle da situação a ele de mão beijada.
O homem claramente a considerava ingênua. Uma pessoa suscetível, uma ovelha a ser guiada. Ella pretendia mostrar que estava redondamente enganado. Mas como fazer isso, se ele havia
sumido? E se nunca mais voltasse e o pen-drive fosse a única pista para Ella descobrir a verdade sobre a própria condição?
Os dedos percorreram as ranhuras da superfície metálica, que já estava morna por causa do calor de sua mão e um pouquinho molhada por causa do suor. Por fim, Ella tirou o pen-drive do bolso, se levantou e o colocou na mesa, perto do computador. As vozes não tinham voltado — ainda. O silêncio era total, tanto no quarto quanto na cabeça. Por fim, trancou a porta.
Se eu conectar o pen-drive agora, ninguém vai saber que olhei o que tem nele. Ninguém além de mim.
Ele só vai me manipular se eu permitir.
Ella plugou o dispositivo no laptop e esperou algo aparecer na tela.
Nada aconteceu.
Ella clicou em “arquivo” e procurou em “conteúdo”. Não havia nada. O pen-drive estava totalmente vazio.
— Desgraçado! — exclamou. Para ele isso era uma piada? A raiva começou a crescer. Ela queria bater em alguma coisa, quebrar alguma coisa, machucar alguma coisa, de preferência, aquele homem.
Mas então algo estranho começou a acontecer na tela do laptop.
Primeiro, ficou preta. Depois, piscou de volta, e neste momento a área de trabalho de Ella reapareceu, junto com seus arquivos e aplicativos bem organizados, que oscilavam na tela. Então, para assombro e depois horror de Ella, os aplicativos começaram a sumir de repente, um a um, diante de seus olhos.
O que está...?
Na parte de baixo do monitor surgiu um contador mostrando o espaço em disco “utilizado” diminuindo, no começo aos poucos:
225GB... 200GB... 160GB... Depois, muito rapidamente: 8GB...
1GB... 470MB.
O pen-drive estava formatando seu computador! O homem não estava lhe dando informações — estava roubando informações! Ella arrancou o pen-drive da porta USB, mas já era tarde demais. A tela ainda deu uma última piscada, como a derradeira respiração ofegante de um idoso, e por fim ficou preta.
Tremendo, furiosa consigo mesma diante da própria estupidez, Ella se sentou calada, olhando para o nada à sua frente. Mas foi então que, após alguns segundos, o computador emitiu um leve estalo, o mesmo ruído branco que ela ouvia dentro da cabeça, só que desta vez externo, real. Em seguida, um rosto apareceu. Era o rosto de um homem meio nas sombras; no começo, imóvel, um frame congelado de um vídeo antigo. Em seguida, outro estalo, então o rosto começou a se mexer saindo das sombras e a olhar para a câmera.
Ella se segurou na lateral da mesa. Não, não pode ser.
— Minha querida Ella. — William Praeger pigarreou e começou a falar. — Se você está assistindo a esse vídeo, então já sabe que deixei esse mundo. Não posso mais estar com você, e lamento muito por isso, minha querida.
— Pai!
Ella arfou, com dificuldade para respirar. Aquela voz! Ela não a ouvia fazia 22 anos. Na verdade, tinha se esquecido completamente dela — ou pelo menos era isso que pensava, até que voltou com tudo, como uma velha amiga, encantadora e inebriante, trazendo à tona um amor perdido, como um feitiço cruel, porém lindo.
Instintivamente, Ella tocou a tela, como se, de alguma forma, os dedos pudessem conectá-la a ele, transportá-la para o passado.
Mas é claro que não podiam.
— Você vai ser contatada por alguém do Grupo. E tenho certeza de que vai ficar confusa, talvez até com medo. Por favor, não fique.
Ele parecia tão jovem, no máximo trinta e poucos anos. Vestia uma camisa branca e usava um terço no pescoço. Tinha cabelo longo, estilo hippie ou surfista, e um bronzeado intenso. Nenhuma dessas características batia com as poucas lembranças que tinha do pai. Mas os trejeitos, os movimentos, o sorriso... tudo isso continuava igual. Ela assistia ao vídeo paralisada, prestando atenção total em cada palavra.
— Seu destino, assim como o de sua mãe e o meu, sempre esteve entrelaçado com o Grupo e o trabalho que ele realiza. O nosso trabalho. Sei que nesse momento talvez você não enxergue assim. Mas o fato é que esse destino é ao mesmo tempo um
privilégio, talvez o maior privilégio que uma pessoa pode ter. Você nasceu para fazer o bem, Ella. Para fazer o bem de maneiras que outras pessoas talvez não compreendam. Não é um caminho fácil de seguir. O mal está espalhado por esse mundo, Ella, e esse mal tem um alcance e uma intensidade que a maioria das pessoas nem sequer imagina. Infelizmente, as poucas pessoas que podem vê-lo escolhem não agir. Elas fecham os olhos. Simplesmente torcem para o mal ir embora. Muitas vezes isso inclui nosso próprio governo.
Ella sentiu o estômago revirar. Amava o pai, e ao longo dos muitos anos de ausência passou a idolatrá-lo, como também idolatrava a mãe. Mas ali, naquela gravação, William Praeger parecia ter sofrido lavagem cerebral de uma seita, tal qual as pessoas que tinha visto na TV, falando sobre teorias da conspiração, governos corruptos e afirmando que só o “Grupo”
compreendia a verdade.
— Ella, você é abençoada com dons únicos. Você é produto do amor, mas também da ciência. Seu cérebro pode funcionar de formas que nenhum outro pode. O Grupo vai lhe explicar tudo na hora certa. Nesse momento, não sabemos exatamente até onde esses dons vão levá-la ou qual o potencial deles. Mas sua mãe e eu sabemos que você vai usá-los para o bem. Acreditamos em você, Ella. Nós te amamos.
Lágrimas silenciosas escorreram pelo rosto de Ella. Tinha vontade de entrar na tela e abraçá-lo, beijá-lo... e depois gritar com ele, sacudi-lo até a cabeça dele doer tanto quanto a sua. Como pôde fazer isso com ela? Seu próprio pai! Aquilo que ele chamava de “dons” tinha condenado Ella a uma existência de infelicidade diária! A dores de cabeça, paranoia e uma solidão tão profunda que ele jamais conseguiria compreender. Como ele e sua mãe foram capazes de brincar de Deus com sua vida, tentar fazer aquela palhaçada genética experimental com a própria filha? Ou com qualquer outro ser humano inocente que fosse.
— Aja de acordo com seus princípios, minha querida — continuou William. — Acredite no Grupo e tente ser paciente.
Acredite: você vai entender no futuro o que não entende agora. —
Os olhos dele se encheram de lágrimas, e Ella percebeu o esforço que seu pai estava fazendo para conter a emoção. — Ella, acima de tudo, por favor, nunca esqueça que sua mãe e eu amamos você. Dê um beijo na sua avó por mim. Adeus, minha preciosa Ella Mae.
Ainda foi possível ouvir um chiado breve, até que, por fim, a tela ficou preta de vez.
— Não — sussurrou Ella. — Não, não, não, não, não! — O vídeo não podia ser só isso. Ele não havia falado nada da sua mãe. Onde ela estava? Por que não apareceu no vídeo?
Desesperada, colocou o pen-drive outra vez no laptop e tentou de tudo para reproduzir o vídeo novamente, para voltar do começo.
Mas o arquivo não estava em lugar algum. Tinha sumido, desaparecido, como o homem tinha lhe dito que iria acontecer.
Nããão! Ella se levantou e começou a puxar os cabelos numa
Nããão! Ella se levantou e começou a puxar os cabelos numa