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Ella acordou na manhã seguinte com um tipo diferente de dor de cabeça. Do tipo que a pessoa tem ao beber meia garrafa de bourbon sozinha — assim que convidados, garçons e pastores vão embora — e depois desmaiar sem trocar de roupa na cama em que dormia quando criança.

A primeira coisa que ela percebeu foi a luz, entrando por todas as janelas como se fosse uma invasão. A avó de Ella não gostava de cortinas ou venezianas. “Uma pessoa saudável se levanta junto com o sol”, era uma de suas frases favoritas. Muitas das pílulas de sabedoria de Mimi Praeger começavam com as palavras “Uma pessoa saudável...” A maioria eram variações do mesmo tema e falavam sobre trabalho duro, devoção e autossuficiência.

“Uma pessoa saudável nunca deixa os outros fazerem por ela o que ela mesma pode fazer.”

“Uma pessoa saudável mantém arma limpa, sapatos limpos e mente limpa.”

Ella aprendeu cedo que não era uma “pessoa saudável”. Pelo menos, não por natureza. Precisava se esforçar para isso, e até que se esforçava para agradar a avó, mas também porque, em resumo, não havia mais nada para fazer. Caçar animais — fosse com armas de fogo ou armadilhas —, entalhar objetos e fazer trabalhos manuais se tornaram as “brincadeiras” de Ella, atividades que aprendeu a apreciar, porque, no fundo, qual era a alternativa?

Depois de anos de prática, ela se tornou excelente em tudo, um feito do qual tanto ela quanto Mimi se orgulhavam.

— Olha só você! — disse a avó certa vez, abrindo um raro e breve sorriso ao ver a menina de 8 anos acertar um coelho a duzentos metros de distância. — No condado de San Joaquin não tem uma criança sequer que atire melhor que você, minha querida.

Certa vez, quando Ella estava escalando rochas perto de uma de suas piscinas naturais de pesca favoritas, Mimi disse que a menina era “ágil como uma cabrita”. Foi um dos momentos mais felizes da vida de Ella, um grande elogio. Os elogios da avó eram raros e difíceis de conquistar, mas significavam tudo para a garotinha. Isso porque, claro, Mimi era tudo na sua vida. E vice-versa.

Naquela época as duas se amavam muito.

O que aconteceu?

Ella se arrastou para fora da cama, cambaleou até o único banheiro da casa (que só fora instalado quando tinha 12 anos — água corrente foi outra concessão de Mimi após a visita da assistente social) e jogou água gelada no rosto com raiva, como se isso pudesse levar embora o arrependimento. Muita coisa não fora dita entra Ella Praeger e a avó, mas agora era tarde demais.

Pensamentos, sentimentos e emoções desperdiçadas desceram pelo ralo, como água de uma torneira esquecida aberta.

“Uma pessoa saudável nunca desperdiça a água de Deus...”

Depois de tirar o vestido amarrotado que usou no velório e as roupas íntimas pretas, Ella desfez a trança desgrenhada, soltou o cabelo e entrou no chuveiro com água fria. Suspirou assim que os jatos de água acertaram sua pele nua como balas. Seu corpo era bonito, torneado e atlético, com seios empinados e redondos que contrastavam com os quadris estreitos de menino. Seu cabelo era loiro sujo e longo, com um corte fora de moda que estranhamente ela relutava em mudar. Mas era o rosto de Ella que realmente chamava a atenção. Tinha uma beleza exótica, do tipo ame ou odeie. Os olhos verdes e espaçados davam ao rosto um ar de indiferença quando sua expressão era neutra, e as maçãs do rosto altas e o queixo pontudo acrescentavam um ar felino. Quando criança, certa vez Ella caiu de uma macieira, o que deixou o alto do nariz levemente torto, evitando que os traços do rosto fossem perfeitamente simétricos e lhe dessem uma beleza irreal. Em vez

disso, Ella Praeger era o que se podia chamar de “marcante”. “Sexy”

era outro adjetivo muito comum entre os homens que gostavam de mulheres diretas, na mesma medida em que tantos outros detestavam essa característica.

Após colocar sua única muda de roupa — um lembrete para si mesma de que não ficaria muito tempo ali —, Ella preparou o café da manhã: feijão e bacon curado que pegou das sobras de comida na despensa. Fez café no fogão e tomou duas xícaras misturadas com leite em pó. Por fim, encontrou uma área com sombra na varanda, engoliu o último comprimido de ibuprofeno, o que foi como tentar apagar um incêndio florestal com uma pistola de água, e ficou sentada imóvel durante uma hora, até que a dor de cabeça diminuísse e chegasse perto do suportável.

Mentalmente, Ella começou a percorrer a lista de afazeres.

Concluiu que, se trabalhasse duro — “uma pessoa saudável...” —, provavelmente terminaria de organizar as coisas e voltaria para a cidade no dia seguinte, ou, na pior das hipóteses, dois dias depois.

Mas Bob a lembrara de que, antes de tudo, ainda precisava acertar o pagamento do crematório. Depois, sua tarefa principal seria esvaziar a casa, separando todos os objetos pessoais ou de valor para levar para a cidade, encaixotando o restante e limpando o lugar de cima a baixo para poder trancá-lo e partir até decidir o que fazer.

O homem estranho de terno do dia anterior não tinha sequer chegado perto de tentar convencê-la a vender a propriedade.

Provavelmente nem era corretor de imóveis! De qualquer modo, Ella sabia que não demoraria muito para organizar as coisas da avó.

Sobrevivencialista de raiz, Mimi Praeger só tinha três vestidos (dois para ir à igreja, um para o dia a dia), dois pares de calças (um para o calor, outro para o frio), um par de suéteres remendados e o sobretudo no qual tinha sido cremada. O único livro na casa era a Bíblia, e, fora as armas, o equipamento de pesca, um tabuleiro de xadrez e algumas peças de porcelana de “família”, não havia nenhum objeto para Ella recuperar. A única e preciosa foto de seus pais, William e Rachel, tirada no dia do casamento — foto essa que Mimi mantinha ao lado da cama —, Ella havia levado para o próprio apartamento em São Francisco fazia muito tempo.

Aquela foto tinha motivado uma das piores brigas com a avó. Ella apareceu na casa do Rancho Praeger na manhã seguinte à formatura da faculdade para tentar se resolver com Mimi, mas a velha estava magoada e reagiu com raiva, de forma irracional. Não queria conversa, não queria escutar. Quando Ella pediu a foto, Mimi se recusou a entregá-la.

— Essa foto não é sua! — exclamou Mimi num tom ameaçador, o rosto encarquilhado se retorcendo e se transformando numa máscara feia de raiva. — Você não pode simplesmente chegar aqui e pegar as coisas, Ella.

— Mas eles eram meus pais! — retrucou Ella aos gritos. — É a única imagem que tenho deles. O único elo. Você destruiu todo o resto.

Mimi revirou os olhos.

— Não é possível que você ainda esteja falando daquelas roupas!

Ella cravou as unhas na palma das mãos com tanta força que tirou sangue. Conforme foi crescendo, essa se tornou a única atitude pela qual percebeu que jamais perdoaria a avó. A mala que a mãe havia feito quando levou a filha, então com 4 anos, para a casa da avó, com algumas roupas, brinquedos e um cobertor que, pelo menos nas lembranças de Ella, ainda tinham o cheiro da mãe, sumiu de seu quarto certo dia enquanto estava na escola. Quando perguntou a Mimi onde a mala estava, a avó respondeu com indiferença que havia “se livrado dela” — tempos depois, Ella ficou sabendo que Mimi tinha colocado fogo em tudo —, porque era “hora de olhar para a frente, Ella, não para trás. Que utilidade suas roupas de criança teriam para você agora?”. Aquelas roupas, aqueles poucos itens organizados com amor por uma mãe que acreditava que ficaria longe da filha só por algumas semanas, eram o último elo físico com os pais. E Mimi havia queimado tudo por impulso. Sem permissão e, ao que parecia, sem pensar nos sentimentos de Ella.

Era quase como se tivesse agido por raiva, embora Ella não fizesse ideia do que poderia ter causado essa raiva, nem na época nem agora.

— Eu vou levar a foto. — Ella encarou a avó. — Vou levar, e não tem nada que você possa fazer!

Como uma guerreira amazona, Ella marchou decidida até o quarto de Mimi e pegou a foto emoldurada de cima da cômoda. Mimi a seguiu agitando inutilmente os braços franzinos, gritando com Ella como um animal engaiolado enquanto tentava pegar o precioso objeto das mãos da neta. Num momento que lhe causava vergonha, Ella simplesmente empurrou a avó para o lado. Eram anos de raiva contida explodindo enquanto andava decidida até o carro e dirigia de volta para Berkeley sem olhar uma vez sequer para trás.

Elas jamais conversaram sobre essa discussão. E nenhuma das duas se desculpou. Quanto ao fato de Mimi ter queimado as roupas da mala, o incidente foi varrido para baixo do tapete. Enterrado.

Mas, no coração de Ella, tudo isso continuava vivo.

Pessoas saudáveis trabalham de forma metódica, começando pelo começo e terminando no fim. Ella organizou, limpou e desinfetou a casa de cima a baixo, começando pela cozinha, depois indo para a sala de estar, para o banheiro minúsculo e terminando em seu quartinho, pouco mais que uma cama de solteiro embutida, uma cadeira de madeira e uma tábua serrada que servia de mesa. Ficou surpresa ao perceber que seu humor foi melhorando conforme trabalhava; era como se o esforço lhe proporcionasse uma espécie de paz que afastava as lembranças insistentes de solidão e dor. Ao levantar o tapete listrado para bater o pó, Ella empurrou levemente uma das tábuas, seu compartimento secreto onde, quando adolescente, escondia coisas ilegais, como um rádio portátil (Mimi proibia terminantemente todas as “tecnologias”, não importava se tivessem sido criadas na década de 1920), romances água com açúcar emprestados da biblioteca da escola (em geral, livros de Jackie Collins; Ella fazia orelha nas páginas mais picantes), além de um estojinho e um espelhinho de maquiagem. Mais tarde, passou a esconder ali as cartelas do anticoncepcional e minigarrafinhas de Malibu, rum com sabor de coco que Jacob Lister, filho dos donos da loja de conveniência na Prospect Road, lhe oferecia em troca de

poder tocar seus seios nus, o que, para Ella, era um negócio excelente: todo mundo saía ganhando. A tábua levantou com facilidade, e, embora não houvesse nada guardado ali havia muito tempo, Ella sentiu uma empolgação nostálgica ao perceber que aquele pequeno ato de desafio não tinha sido descoberto.

Às quatro da tarde, todo o primeiro andar já estava arrumado e brilhando. Um ronco do estômago a fez lembrar que não comia nada desde o café da manhã. Não havia nada além de enlatados na despensa, então optou por comer um prato de carne de porco enlatada seguido por uma lata de peras em conserva com leite condensado. E tudo pareceu estranhamente delicioso. Revigorada e feliz por estar progredindo rápido — pelo ritmo, com certeza conseguiria trancar a casa e voltar para São Francisco no dia seguinte —, Ella subiu a escadinha para o sótão que também servia de quarto para a avó.

Pela primeira vez no dia fez uma pausa. Ali, onde ainda havia o cheiro da pele de Mimi na fronha e o xale dela estava pendurado nas costas da poltrona, Ella se deu conta da magnitude do que estava fazendo. Estou limpando e apagando minha infância.

Encaixotando a vida de Mimi e uma grande parte da minha própria vida. Para sempre. Esperou a tristeza bater, a sensação de luto sobre a qual tinha lido, sobre a qual haviam lhe falado e pela qual vinha esperando. Mas, em vez disso, sentiu outra coisa, algo terrível. Uma espécie de alegria. Uma alegria raivosa, desafiadora, exuberante. A alegria de uma sobrevivente. E essa alegria percorreu seu corpo como uma onda, levantando-a, enchendo seus pulmões de risadas e seus membros com um desejo de chutar, socar e bater em tudo com um alívio absurdo. Antes mesmo de perceber o que estava fazendo, Ella havia arremessado o frasco de produto de limpeza com toda a força na parede, fazendo o plástico quebrar e o líquido com essência de lavanda espirrar em tudo num raio de dois metros.

Rindo ainda mais, Ella pegou a bengala de carvalho de Mimi e começou a sacudi-la de um lado para o outro como se fosse uma ninja descontrolada, batendo no chão e nas paredes e, por fim, pulando na cama da avó e batendo a ponta da bengala no teto com

toda a força. A maioria das tábuas era sólida e nem se mexia com as pancadas de Ella. Mas logo acima da cabeceira da cama havia uma pequena parte de gesso que parecia implorar para ser destruída. Com um grito estridente de prazer e girando o braço com toda a força, Ella acertou a bengala no gesso como se fosse um taco numa bola de beisebol. Poeira branca e pedaços de gesso choveram por toda parte, na colcha e em todo o seu cabelo. Ella se jogou no colchão e ainda estava gargalhando quando o restante do gesso cedeu e uma caixa de ferro pesada o bastante para matá-la caiu do buraco que havia acabado de abrir e não acertou sua cabeça por milímetros.

— Meu Deus!

Por um minuto inteiro, Ella encarou a caixa a seu lado na cama.

A experiência de quase morte a fez voltar a si imediatamente. Se eu tivesse morrido, quanto tempo demoraria até alguém me achar?, perguntou-se, imaginando. Semanas? Talvez um mês?

Envergonhada pelo acesso de histeria, parou de pensar em si mesma e se concentrou na caixa. Claramente, Mimi a havia escondido. E não só escondido, mas construído um pedaço de teto falso para ocultar a caixa, mantê-la em segurança. Isso provavelmente significava que ali dentro havia algo valioso, secreto ou as duas coisas. Ella não conseguia imaginar a avó escondendo algo ilegal. Por outro lado, não conseguia imaginar a avó escondendo qualquer coisa que fosse. “Pessoas saudáveis são honestas e abertas. É impossível esconder segredos de Nosso Senhor.” Estranho que era preciso uma pessoa morrer para descobrir coisas inimagináveis a respeito dela.

Hesitante, Ella passou um dedo no fecho da caixa. Talvez ali dentro houvesse cartas de amor de Bill, marido de Mimi morto havia muito tempo. Ou talvez de outra pessoa — um amante secreto! Ella sorriu só de pensar na possibilidade. Seria um alívio descobrir que a avó nem sempre fora uma puritana quando o assunto se referia a sexo, mas isso era algo difícil de imaginar. O que quer que houvesse ali dentro, Ella sabia que, assim que abrisse a caixa, o

“segredo” de Mimi seria descoberto. Seria tarde demais para voltar

atrás. Assim, respirou fundo, saboreando a santidade daquele momento, e, por fim, levantou a tampa.

Cartas.

Eu tinha razão!

Algumas estavam soltas e dobradas; outras, guardadas dentro de envelopes abertos, todas amarradas juntas por um laço de algodão xadrez. No fundo da caixa parecia que também havia cartões — dava para ver partes coloridas e com glitter por baixo das folhas de papel amareladas e desbotadas.

Com cuidado, Ella tirou a pilha de dentro da caixa e a colocou na cama. Desfez o laço com um puxão suave, pegou a primeira carta e, com os longos dedos, desdobrou a folha com toda delicadeza.

“Querida mãe”, começava a carta.

O coração de Ella foi parar na boca. Era uma carta de seu pai!

“Não quero mais discutir com a senhora. Sei que não aprova o trabalho que eu e Rachel fazemos. Mas nem todos enxergam o mundo como a senhora. O que estamos fazendo é importante, não só para nós mesmos, mas para o mundo. A senhora acha que está protegendo Ella com essa mentira, mas não está. O que está fazendo é cruel e errado. Por favor, mãe, conte a verdade a minha filha — se não por mim, pela própria Ella. Entregue nossas cartas à sua neta. Agora ela não entende, mas um dia entenderá. Com amor, seu filho, William.”

As mãos de Ella tremiam. Leu as palavras do pai uma segunda e uma terceira vez, tentando decifrar qualquer gota de significado que pudesse extrair daquelas poucas linhas. O que ele queria dizer quando escreveu que Mimi “não aprovava seu trabalho”? Os pais de Ella eram médicos. Como alguém poderia ser contra isso? Eles estavam cuidando dos pobres na Índia quando o táxi bateu de frente com um caminhão, matando ambos imediatamente.

E que “mentira” sua avó havia lhe contado?

O mais importante de tudo: o que significavam essas cartas que seu pai havia mencionado? Será que, na verdade, seus pais tinham lhe escrito? Se fosse o caso, certamente Mimi teria guardado essas cartas, certo? Não as teria destruído também, como tinha feito com a mala de roupas, certo?

Frenética, Ella revirou o restante da pilha, abrindo cartas e passando os olhos rapidamente por todas, procurando o próprio nome.

“Querida mãe...”, começou a carta seguinte. E a seguinte, e a seguinte. “Querida mãe”, “Querida mãe”, “Querida mãe”... E, finalmente, ali estava.

“Minha querida Ella...”

Como se fosse o Santo Graal, Ella passou carinhosamente o dedo sobre cada letra escrita na folha de papel, com uma lentidão infinita.

“Espero que esteja bem e ajudando a vovó em tudo o que puder no rancho. Sei que sente a nossa falta, e sentimos a sua, muito, muito mesmo. Queria poder explicar mais, mas não é seguro que você fique com a mamãe e comigo neste momento. Espero que um dia seja. Mas, até lá, por favor, lembre-se de que você está sempre nos nossos corações. Com amor eterno, papai.”

Seus olhos se encheram de lágrimas. Por que Mimi não havia lhe entregado essas cartas? Sua avó certamente sabia o quanto significariam para ela.

Não havia endereço no cabeçalho, mas havia uma data: 2 de setembro de 2000.

Ella prendeu a respiração. Isso deve estar errado. É dois anos após a morte deles.

Olhou para a data novamente, com olhos fixos, quase em estado de transe. Em seguida, pegou um a um os cartões na parte de baixo da pilha. Eram oito no total. Quatro de Natal e quatro de aniversário.

Tremendo de incredulidade, leu todos.

“Feliz aniversário de 6 anos!”

“Agora você já tem SETE anos!”

Uma ilustração de um cachorro usando cartola segurava um balão. “Para a menina de 8 anos mais legal do mundo.”

Todos os cartões estavam assinados. “Com todo o nosso amor, mamãe e papai.”

— Não — disse em voz alta. Não. Ela não teria feito isso. Ela não podia ter feito isso!

Minha avó me disse que eles tinham morrido.

Minha avó me disse que eles tinham morrido quando eu tinha 5 anos.

Sua respiração ficou entrecortada. De repente, sentiu tontura e vontade de vomitar. Arrastou-se até a beira da cama da avó e inclinou o corpo para a frente, com a cabeça entre os joelhos.

Inspira. Expira.

Minha avó me disse que eles estavam mortos.

Inspira. Expira.

Minha avó mentiu para mim!

Ella se levantou, se sentou e depois se levantou de novo — parecia um personagem de desenho animado indeciso. A cabeça começou a doer novamente, a pressão aumentando dentro do crânio como se um espírito maligno estivesse ali inflando um balão gigantesco. Desta vez, não ouviu vozes nem o ruído branco — por mais estranho que fosse, esses sintomas nunca apareciam quando ela estava ali, na casa do rancho, só na cidade —, mesmo assim era uma sensação debilitante. Precisava ler o restante das cartas, mas não conseguia. O quarto estava girando, e imagens começaram a pairar diante de seus olhos.

Preciso de um médico, pensou Ella, enquanto a dor de cabeça a fazia se ajoelhar, sentindo que estava começando a perder a consciência. Mas não havia telefone naquela casa, e o sinal do celular só pegava a quilômetros dali. Se pelo menos tivesse aceitado a oferta e deixado Bob acompanhá-la, ele poderia ter saído para buscar ajuda.

Seu último pensamento foi se perguntar como seria irônico se morresse no dia em que descobriu que os pais não estavam mortos.

E como a avó ousou morrer sem lhe explicar nada disso?