Eles estão tentando me matar. Estão literalmente tentando me matar.
Ella se ajoelhou, incapaz de dar mais um passo sequer. Seus pulmões estavam agonizando. Depois de uma corrida de doze quilômetros debaixo de um castigante sol de meio-dia, a sensação era de ter respirado um saco cheio de lâminas de barbear. A pele ardia, as bolhas nos pés gritavam, e uma náusea terrível subiu do fundo do estômago (vazio) direto pela garganta ressecada.
Fuzileiros navais coisa nenhuma. O treinamento físico “introdutório”
do primeiro dia do Acampamento Esperança claramente havia sido projetado por um torturador experiente, possivelmente escolhido a dedo pelo Grupo e resgatado de uma prisão da Malásia.
— Tudo bem, senhoras. Um minuto de pausa para beber água, e depois vocês vão voltar para a recuperação ativa. Isso significa uma corrida leve de volta para a base. Nada de andar.
O gigante que estava de roupa de ginástica no dia anterior sorriu para Ella e para as outras duas jovens jogadas no chão ao lado dela, como se estivesse lhes fazendo um favor. Aparentemente, ele havia abandonado a equipe de esqueletos do dia anterior para iniciar Ella e as outras novas recrutas nos prazeres do treinamento de operações especiais, experiência que Ella certamente jamais repetiria. E o mais incrível foi que, ao ouvi-lo, as outras duas garotas sorriram, recebendo um olhar fulminante de Ella. Aquelas tietes da seita que sofreram lavagem cerebral eram demais para ela. Ao
perceber que as garotas ficaram intimidadas pelo seu olhar de raiva, Ella não deu a mínima.
Correndo de volta pela floresta, Ella se sentiu cada vez mais frustrada, embora a agonia nos pulmões estivesse começando a diminuir. O homem não havia entrado em contato ao longo do dia para dar as tais informações que deveria receber nem para mais nada. As vozes na sua cabeça estavam em silêncio total. Ela não estava de relógio, mas imaginava que já eram pelo menos três da tarde, a julgar pela posição do sol e pelas longas e exaustivas horas de treinamento. Estava louca para dizer onde o gigante de uniforme da Adidas podia enfiar aquelas ordens que gritava, mas, depois de chegar tão longe, não queria estragar tudo e comprometer o encontro e a explicação que o homem tinha prometido. Agora, porém, começava a achar que ele estava apenas tentando enrolá-la outra vez, colocando cenouras na frente dela sem a menor intenção de lhe entregar.
De volta ao acampamento, Ella parou por um instante para recuperar o fôlego antes de seguir pelo caminho que Christine havia indicado que levava à sede administrativa.
— Praeger! — gritou o gigante. — Aonde pensa que vai? Os chuveiros ficam do outro lado.
A única resposta de Ella foi um sucinto dedo do meio erguido acima da cabeça enquanto andava, fazendo as colegas de treinamento darem um suspiro audível, chocadas. Poucos minutos depois, Ella abriu a porta da sede com tanta violência que quase a arrancou das dobradiças, chegou à recepção como um touro furioso, suando e ofegando, olhou para o jovem do outro lado da mesa e soltou:
— Exijo ver quem quer que esteja no comando dessa espelunca.
Imediatamente.
O jovem nem sequer pestanejou.
— Claro, Srta. Praeger. — Ele sorriu. — A Sra. MacAvoy estava à sua espera. Aceita um copo de água ou prefere ir direto até lá?
Desconcertada pela reação educada do rapaz, Ella hesitou.
Antes de conseguir responder, a porta de vidro atrás da recepção se
abriu, e uma mulher bonita e bem-vestida de cinquenta e poucos anos surgiu de dentro da sala.
— Ah, Ella. Imaginei que fosse você mesma. Meu nome é Katherine MacAvoy. Sou supervisora do Acampamento Esperança.
— A mulher esticou o braço e apertou a mão de Ella com entusiasmo. — Entre, por favor.
O interior do escritório era claro e limpo, com muito branco, móveis modernos e detalhes em cromo. Uma enorme janela panorâmica dava vista para sequoias e campos mais distantes.
Também havia quadros com fotos de cascatas e paisagens outonais pendurados nas paredes. A mesa de Katherine MacAvoy tinha poucos objetos além de um MacBook Air aberto, um iPhone carregando e uma pasta bege com o nome de Ella digitado na frente.
— Por gentileza. — Katherine se sentou à mesa e, com um gesto, pediu a Ella que ocupasse a cadeira à sua frente. — Você deve estar exausta. Eu me lembro do meu primeiro dia de treinamento. Não é moleza, né?
Katherine sorriu, mas Ella não retribuiu. Sem chance de cair no charme daquela gente.
— Não estou interessada no treinamento de vocês. Não sou membro do seu Grupo idiota, certo? Eu vim aqui para descobrir mais informações sobre meus pais, William e Rachel Praeger, e sobre o que eles podem ou não ter feito com o meu cérebro. Essa é, literalmente, a única razão para eu estar sentada aqui agora. Porque me prometeram respostas. Não porque estou caindo na conversa de vocês, nem na sua.
Katherine MacAvoy assentiu calmamente.
— Entendo.
— Não entende, não! — soltou Ella, de repente. — Como poderia entender?
— Você está agitada — disse a mulher mais velha, com gentileza. — Por que não...
— O homem que entrou em contato comigo, que foi ao velório da minha avó e me falou desse lugar... ele disse que minha mãe e meu pai faziam parte da sua organização. Me mostrou um arquivo de
vídeo do meu pai, e esse vídeo parecia confirmar a história.
Também me disse que meus pais eram cientistas e que tinham... — Ela procurou a palavra correta. — ... editado partes do meu cérebro.
— Isso mesmo. — A mulher mais velha assentiu.
— Eu cresci acreditando que minha mãe e meu pai morreram num acidente de carro em 1998. Isso está correto?
Katherine MacAvoy retribuiu o olhar hostil de Ella com uma expressão firme.
— Não está correto. Mas imagino que o homem com quem conversou já tenha lhe explicado isso, certo?
— Ele disse que meus pais foram assassinados.
Katherine pigarreou e disse:
— Infelizmente é verdade, Ella.
— Bem, vai me desculpar se eu não acreditar na sua palavra — sibilou Ella, com uma fúria impotente feito uma cobra presa numa armadilha. — Eu quero provas.
— Entendo. Bem...
— Também quero provas de que foram meus pais mesmo, e não vocês, que mexeram no meu cérebro para eu ouvir essas malditas...
coisas. O tempo todo! — Ella bateu os punhos nas têmporas. Era como se anos de raiva, medo e frustração reprimidos estivessem prestes a irromper. Como se seu crânio estivesse prestes a literalmente explodir, feito uma granada. — Porque ele também disse isso, aquele homem. E disse que, se eu viesse para cá, me ajudaria, mas não me ajudou, e ele prometeu outra vez ontem à noite, mandando malditas mensagens de áudio direto para o meu cérebro como se tivesse direito a acessar a minha cabeça, o que ele não tem, e estou achando que tudo não passa de papo furado!
Ela deu um soco na mesa, fazendo a pasta bege deslizar pela superfície de madeira polida. Ao ver o próprio nome na capa, Ella pegou a pasta.
— Então isso aqui é para mim, certo? — perguntou ela em tom de exigência, ainda furiosa.
— É — respondeu Katherine MacAvoy, com uma calma que não titubeava em momento algum.
— E aqui tem provas?
— Não. A “prova” que está procurando não existe, Ella. Mas o que Gabriel lhe disse é a verdade.
Gabriel? De alguma forma, Ella não imaginava que esse fosse o nome do sujeito.
— Essa pasta — Katherine deu um tapinha na pasta bege — contém um documento sobre nós e sobre nosso trabalho, além de algumas informações preliminares sobre sua primeira missão.
Espero que responda a algumas das suas perguntas iniciais. Mas talvez você deva ler primeiro para podermos continuar, não acha?
— Não. — Ella se levantou, balançando a cabeça. — Chega. Isso acaba aqui. Esse sujeito... Gabriel... me disse ontem à noite que, se eu não ficasse satisfeita depois da minha reunião hoje, poderia ir embora, e ele me ajudaria a voltar para São Francisco. Então, estou indo embora. Agora mesmo.
Katherine MacAvoy observou o rosto de Ella. Não havia arrependimento ali, nem hesitação. Apenas uma combinação muito perigosa de repulsa e determinação. Se ela for embora agora, nós vamos perdê-la. Ela não vai voltar.
— Como Gabriel entrou em contato com você ontem à noite?
Ella tinha dado meia-volta para ir embora. A pergunta foi como uma flechada nas costas.
— Ele fez uma transmissão diretamente para o seu cérebro, não foi? — continuou Katherine.
Ella fez que sim com a cabeça, de má vontade.
— Eu já falei. Ele faz isso de vez em quando. É como se atravessasse todos os outros sons.
— Como? Certamente, a única forma de fazer isso é se ele entendesse as mudanças que seus pais fizeram na química do seu cérebro, não? Pense nisso, Ella. Nós sabemos quem você é. Nós entendemos por que você é diferente. Ninguém mais entende.
— Então me diga! — vociferou Ella, virando-se para encará-la. — Me diga agora mesmo, hoje, senão eu vou embora daqui e não volto mais. Quero ver esse Gabriel. Quero ele aqui, em pessoa. — Ela bateu o dedo na mesa de Katherine. — Quero que ele me conte tudo o que sabe a meu respeito e sobre o que aconteceu com meus
pais. Se ele não fizer isso, eu vou embora e vou... eu vou à polícia falar desse lugar.
A expressão de Katherine ficou séria.
— Não faça isso, Ella.
O tom de calma continuava lá, mas agora havia uma inconfundível nota de ameaça.
— Por que não? — O corpo inteiro de Ella parecia vibrar, desafiador.
— Porque não. — Por um instante, um silêncio pesado tomou conta da sala. — Vou pedir a Gabriel que compareça ao acampamento durante sua estada aqui — prosseguiu. — Também vou me comprometer a lhe fornecer evidências escritas mais detalhadas sobre o tempo que seus pais passaram conosco, mais especificamente sobre a última missão que fizeram e as circunstâncias da morte de ambos.
— Quando?
— Vou precisar de alguns dias. Talvez uma semana.
— Uma semana? Não. Não vou ficar aqui uma semana inteira.
Não posso.
— Claro que pode — disse Katherine, animada, sorrindo novamente. — Jovens da sua idade pagam milhares de dólares para entrar num spa fitness.
— Eu não. E isso aqui não é um spa fitness.
— Tem razão. É muito mais — concordou Katherine. — A questão física é só parte do seu treinamento.
Ella bufou, irritada.
— Qual é a lógica de me treinar para uma “missão” que já disse que não vou fazer?
Katherine encarou Ella com atenção.
— Porque acredito que você é uma boa pessoa, Ella. Uma pessoa com princípios morais. Acredito que você é parecida com seus pais. E, por isso, assim que entender o trabalho que fazemos e como ele é fundamental — Katherine devolveu a pasta a Ella —, tenho certeza de que vai escolher se juntar a nós. Em algum momento.
Ella pegou a pasta sem dizer uma só palavra.
— Mas — acrescentou Katherine, se recostando na cadeira —, se eu estiver enganada e você decidir não se juntar a nós, então tente enxergar esse tempo aqui como uma oportunidade; uma oportunidade de entrar em forma, de aprender mais sobre suas habilidades, de alcançar novos limites. Uma oportunidade de descobrir sua verdadeira força, Ella. Eu começaria enviando você para o professor Michael Dixon. Ele deve ser capaz de ajudá-la imediatamente com as dores de cabeça.
— Ajudar como? — perguntou Ella com cautela, percebendo que mais uma vez estava sendo enrolada para que continuasse ali sem nenhuma garantia. — Ele é médico?
Katherine abriu um sorriso radiante.
— De certa forma, sim.
— Não dá para ser médico “de certa forma”. Ou é ou não é.
— Tenho certeza de que você vai gostar dele — comentou Katherine, alegre. — Gordon, o recepcionista, vai lhe mostrar o caminho. Fique à vontade para ir agora.
— Quer que eu me encontre com essa pessoa agora mesmo?
Katherine pareceu se divertir.
— É melhor se decidir, minha querida. Não era você quem estava com pressa?
***
O professor Michael Dixon, também conhecido como Dix, mais parecia um gnomo, com pouco mais de um metro e meio, cabelo grisalho e desgrenhado, uma corcunda acentuada e um rosto tão encarquilhado que lembrou Ella das nozes em conserva que sua avó Mimi guardava em jarros. Seus minúsculos olhos de um preto muito intenso pareciam enterrados nas órbitas, como duas uvas-passas empurradas com força demais na massa de um biscoito de gengibre. Ele vestia uma camisa grossa de algodão, um colete de tricô que fez Ella suar só de olhar, calça baggy de cotelê e um par de brogues perfeitamente polidos. Quando falou, foi com sotaque inglês da classe alta vindo direto de Downton Abbey.
— Ella Praeger! Só pode ser miragem! — Dix a olhou de cima a baixo assim que ela entrou no laboratório, que por fora era um prédio comum de blocos de cimento com uma fileira de janelas quadradas e altas, mas por dentro era o retrato perfeito do ápice da inovação tecnológica. — Todos nós achávamos que você não passava de um mito, minha querida. Uma lenda urbana. Mas não!
Aqui está você, em carne e osso, vindo falar logo comigo. Bom, eu me sinto honrado, minha querida. Honrado. — O professor Dixon se virou para um grupo de técnicos amontoados perto de uma tela de computador num canto da sala, fez uma careta reprovadora e disse:
— Pelo amor de Deus! Será que um de vocês, moleques, pode pegar uma cadeira para a Srta. Praeger?
Dois jovens se levantaram imediatamente. Um deles correu para pegar uma cadeira de plástico, colocou-a no chão sem fazer contato visual e voltou depressa para a segurança do grupo.
— Aceita uma xícara de chá? — perguntou o professor Dixon, solícito.
— Obrigada. — Ella sorriu. — Adoraria.
Era impossível não gostar daquele senhor doce e com jeito de tio, especialmente vendo que ele parecia tão encantado por ela.
— Desculpe. — Ella corou quando seu estômago roncou alto. — Não como desde o café da manhã.
O professor Dixon bateu palmas na direção de seus colegas de laboratório mais jovens e, num tom autoritário, exigiu:
— Chá, biscoitos e bolo, agora mesmo! Sinceramente, não sei o que há de errado como esses bobalhões do setor de operações — disse o professor, num tom simpático. — Claro que o treinamento físico é ótimo, mas eu já disse milhares de vezes: um exército não pode marchar de estômago vazio. Agora, Srta. Ella Praeger, por onde começo? O que posso fazer pela senhorita?
Pela primeira vez, Ella sentiu seu cinismo com relação ao Acampamento Esperança começar a perder força. Se aquele homem tinha escolhido devotar a vida e os talentos ao Grupo, então simplesmente era impossível que todos fossem maus.
— O senhor obviamente sabe quem eu sou, professor Dixon — começou Ella, hesitante. — Quer dizer, meu nome era familiar para
o senhor, certo?
— Claro que era. E é. — O homem assentiu com seriedade. — O nome Praeger significa algo para todos nós aqui, Ella. Posso chamá-la de Ella?
— Claro.
— Obrigado. — Ele abriu um sorriso largo. — E você deve me chamar de Dix. É como todos me chamam.
— Está bem — concordou Ella, assentindo.
— Todos nós do Grupo estávamos esperando por você havia muito tempo, Ella. Cientificamente falando você é... bem, você é única.
Ella respirou fundo.
— Professor...
— Dix — corrigiu ele, interrompendo.
— Dix. Desculpe. O quanto você sabe sobre os procedimentos que foram feitos no meu cérebro antes de eu nascer?
— Bom, vejamos. — Dix abriu um sorriso encorajador e esfregou as mãos como se Ella fosse um projeto caseiro que ele estivesse louco para pegar. — Acho que sei tanto quanto todos que não estavam de fato aqui na época. Li as suas anotações médicas e as anotações sobre a gravidez da sua mãe. Também tive a sorte de acabar herdando os artigos sobre neurologia genética em que seus pais vinham trabalhando durante o tempo em que estiveram aqui.
Então, eu diria que tenho uma ideia razoável do que seus pais estavam tentando alcançar. Quanto ao sucesso que obtiveram, ou seja, o escopo e os limites dos seus poderes hoje em dia, bom, nenhum de nós vai saber ao certo até começarmos a trabalhar juntos. Por isso é tão empolgante saber que você está...
— Você pode me ajudar a me livrar das dores de cabeça? — interrompeu Ella.
Dix a encarou, pensativo. Estava na cara que essa era a primeira questão dela. A pobre garota provavelmente havia sofrido mais do que ele imaginava.
— Espero que sim — respondeu ele, sério.
— E quanto a... outras coisas? — Ella mordeu o lábio com ansiedade. Dix esperou que explicasse melhor. — Nem sempre eu
sou muito boa com outras pessoas. — Ella corou. — Tenho dificuldade para perceber os sentimentos delas, ou para saber o que dizer. Eu cometo erros.
— Todos nós cometemos erros — disse Dix num tom simpático.
— Tenho certeza de que, juntos, podemos reduzir algumas das suas... incertezas... em situações sociais — continuou Dix, escolhendo as palavras com cuidado. — Não deve ser fácil tentar interpretar os outros quando existe um tumulto acontecendo dentro da sua cabeça.
— Não é — concordou Ella, profundamente grata diante da simples compreensão do professor.
— Claro que mudar hábitos de uma vida inteira não é algo que vai acontecer da noite para o dia, assim como não vai conseguir dominar seus dons tão rápido assim. Você precisa estar preparada para colocar a mão na massa.
— Ah, eu estou. Acredite. Vou fazer de tudo.
— Ótimo. — Dix sorriu. — E peço desculpas por ter aborrecido você agora há pouco. Eu me deixei levar pela empolgação. Vamos descobrir muita coisa juntos ao longo dos próximos dias e semanas, Ella. Mas há outras perguntas suas que eu possa responder agora?
Ella parou para pensar. Havia tantas perguntas que era difícil saber exatamente por onde começar.
— Gabriel, o homem que me recrutou — disse, por fim. — Ele disse que as vozes que tenho ouvido na minha cabeça são sinais eletrônicos. Isso é verdade?
— Bem, essa é uma descrição bem genérica — murmurou Dix, num tom de reprovação. — Mas, sim, em termos leigos, é por aí mesmo.
— E disse também que eu sou uma espécie de “receptor”. É isso mesmo? Disse que as dores de cabeça aparecem porque não aprendi a decodificar todos os dados que entram.
Dix torceu o nariz com desdém.
— Eu adoraria que os agentes deixassem as explicações científicas para os cientistas. Pelo que estou vendo, “Gabriel” lhe deu uma explicação meia-boca, na melhor das hipóteses.
— Mas e quanto às dores de cabeça?
— Quanto às dores de cabeça, sim, ele tem razão. Quando você dominar o lado auditivo das suas capacidades, quando aprender a sintonizar certos sinais e dessintonizar outros, suas dores de cabeça devem parar. Ou, pelo menos, vão diminuir bastante.
Ella suspirou. Se mais nada de bom surgisse desse capítulo bizarro de sua vida, pelo menos acabar com as enxaquecas debilitantes já valeria a pena.
— Você disse “lado auditivo” — comentou Ella. — Existe outro lado do meu... das mudanças que meus pais fizeram?
— Ah, sim! — Dix arregalou os olhos. O entusiasmo incontido estava de volta. — Com certeza. Nós acreditamos... ou melhor, nós esperamos... que você tenha a capacidade de desenvolver todo tipo de habilidade de interpretação de dados visuais.
— Hein? — Ella ficou perplexa.
— Você já escuta coisas — explicou Dix. — Mas também deve ser capaz de enxergar coisas que outras pessoas não veem. E deve ser capaz de armazenar e interpretar essas informações de maneiras únicas. Por exemplo, minha esperança é de poder ensinar você a usar os olhos como se fossem câmeras, para tirar fotos e gravar vídeos “mentais” de tudo o que enxergar.
— Como se fosse memória fotográfica? — perguntou Ella, lembrando-se da facilidade que tinha ao estudar para as provas da escola, gravando informações só de passar os olhos por elas.
— Sim, mas uma versão muito, muito mais detalhada disso. Só que no seu caso, pelo menos em tese, talvez nós possamos ser capazes de baixar as imagens diretamente do seu cérebro! — O homenzinho estava tão empolgado que praticamente dava pulinhos.
— Imagine só! Ainda não chegamos lá, claro, mas, quando começarmos a trabalhar juntos, quem sabe? O céu é o limite! E por falar em céu...
Ella se pegou querendo que ele parasse para respirar.
— A tecnologia de satélites progrediu consideravelmente desde que seus pais editaram seus genes. Minha esperança é de que,
— A tecnologia de satélites progrediu consideravelmente desde que seus pais editaram seus genes. Minha esperança é de que,