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O assassino se agachou na escuridão, escondido nos arbustos suspensos que cercavam a propriedade. As pernas doíam e os dedos da mão estavam dormentes de frio. A sensação é de que estava esperando ali havia uma eternidade. Mas essas coisas não devem ser feitas na pressa. O monsieur e a madame Jamet, caseiros da propriedade de Andreas Kouvlaki, tinham ido para a cama havia apenas meia hora. Ele precisava esperar os dois caírem num sono profundo para agir.

A villa de Andreas Kouvlaki no sul da França era um imóvel de surpreendente bom gosto. Estava longe de ser uma daquelas mansões chamativas, modernas, toda de vidro e com vista para a praia de Pampelonne, ou uma das grandes propriedades cercadas na cidade. Em vez disso, o abastado contrabandista de pessoas tinha escolhido uma fazenda do século XVII nas colinas acima de Ramatuelle convertida, o terreno isolado circundado por um bosque e totalmente protegido dos olhares intrometidos dos moradores da região. Talvez Kouvlaki achasse que o isolamento daquele refúgio lhe proporcionasse segurança suficiente. Será que era por isso que havia contratado apenas monsieur e madame Jamet, o casal de idosos que cuidava da casa, e um único vigia noturno entediado, além de colocar dois dobermanns para proteger a propriedade? Ou, quem sabe, Kouvlaki era apenas arrogante demais para acreditar que seus inimigos ousariam atacá-lo.

Seu irmão, Perry Kouvlaki, tinha sido bem mais cuidadoso, instalando sistemas de alarmes elaborados e armadilhas ao redor

de sua propriedade e rodeando-se de um pequeno exército de guarda-costas. Não que essas medidas tenham adiantado, no fim das contas. O assassino havia eliminado Perry no mês passado, em Paris, espancando-o até a morte com um martelo numa sala nos fundos de uma boate abandonada, antes de gravar a ferro em brasa a letra A no corpo dilacerado de Perry. Assim que descobriu a tara do irmão Kouvlaki mais velho por jovens árabes — quanto mais jovem, melhor —, foi fácil instigar aquele pedófilo nojento a se desfazer de suas várias camadas de proteção e atraí-lo para a própria morte. O assassino chegou a pensar em gravar a letra A enquanto Perry ainda estava vivo. Deus sabia que aquele desgraçado merecia. Mas, quando segurou o martelo, foi como se uma cortina vermelha tivesse descido e um ódio justiceiro e assassino tivesse tomado conta de seu corpo. Perry morreu em questão de segundos. No fim, o assassino teve dificuldade para encontrar um pedaço de pele intacto para fazer a marca. Acabou optando pelo que havia sido a escápula de Perry Kouvlaki.

Da próxima vez ele tinha que tentar ir com mais calma.

Andreas soube do destino do irmão, mas presumiu que o terrível assassinato havia sido cometido por um cafetão ou por “amigos” de um dos brinquedinhos de Perry. Como não compartilhava das perversões do irmão, Andreas achou que não corria risco.

Charmoso e bonito, de corpo esbelto e grande apreciador de roupas feitas sob medida, o mais jovem dos irmãos Kouvlaki era popular e querido, representando com perfeição o papel de empresário respeitável. Mulheres se aglomeravam à sua volta e os homens competiam pela sua amizade, sem terem a menor noção da miséria humana sob a qual seu império empresarial tinha se construído.

Mas Andreas havia se tornado complacente e desleixado.

Ninguém era infalível, como bem sabia o assassino. E ele estava ali para realizar o trabalho. O dia do acerto de contas tinha chegado.

Ele saiu lentamente do esconderijo, contraindo-se ao sentir o sangue voltar a fluir pelas pernas esticadas, e foi em direção ao chalé do caseiro. Se seus cálculos estivessem corretos, os cachorros sentiriam seu cheiro em aproximadamente quinze

segundos, começando uma cacofonia de latidos que ele deveria eliminar assim que possível.

Quinze, catorze... dez...

O assassino colocou a mão na bolsa pendurada no peito e pegou dois bifes pingando, encharcados com uma generosa quantidade de tranquilizante inodoro de cavalo e os segurou à frente do corpo, como um talismã.

Dois... um...

No instante exato, os dobermanns surgiram da escuridão como um par de cães gêmeos do inferno, latindo alto, mas os bifes os fizeram parar na hora. O assassino se afastou enquanto os animais farejavam e depois comiam a carne, sem fazer ideia de que um sedativo estava percorrendo suas correntes sanguíneas. Ambos apagaram em menos de um minuto.

O assassino atarraxou o silenciador na arma, se ajoelhou e fez um carinho no pelo lustroso de cada animal. Queria não ter que fazer isso, mas não tinha jeito. De coração na mão, deu um tiro na cabeça de cada um.

Eles são vítimas de Kouvlaki, não minhas, disse a si mesmo ao se aproximar da porta do chalé e arrombar a fechadura sem dificuldade. Subiu rapidamente a escadaria, parou por um instante diante do quarto dos Jamets, olhou para o casal de idosos dormindo lado a lado, os rostos marcados pelo sol visíveis mesmo na escuridão, do lado de fora do edredom, parecendo duas nozes em conserva. Ele se aproximou da cama e pressionou um pano embebido em clorofórmio sobre as narinas de ambos antes de qualquer um deles sequer ter a chance de se mexer. Menos de um minuto depois, com ambos desmaiados e algemados a um pé da cama, o assassino saiu do chalé e foi em direção à casa principal.

O último obstáculo era Laurent, vigia noturno preguiçoso e inútil de Andreas Kouvlaki. A maioria dos casarões na Cote d’Azur empregava um vigia, supostamente para deter ladrões de carro ou hipotéticos ladrões de casas, embora, das pessoas que aceitavam esses trabalhos extremamente entediantes, a maioria era algum jovem desempregado da região, totalmente destreinado, muito menos útil que cães de guarda. Mesmo assim, as pessoas se

sentiam melhor sabendo que, enquanto dormiam, havia alguém patrulhando suas casas com uma lanterna. E Kouvlaki ao menos se deu ao trabalho de dar uma arma a Laurent, colocando-o um patamar acima do restante.

Laurent, entretanto, tinha um metro e setenta e era franzino, portanto não foi páreo para o assassino, que se aproximou e enfiou um terceiro pano sobre o nariz e a boca de Laurent, assim como havia feito com os caseiros, e em pouco tempo colocou a última linha de defesa de Kouvlaki amarrado, amordaçado e trancado num galpão de ferramentas.

Um vento frio soprou quando ele usou um pé de cabra para abrir uma janela do térreo e entrou com facilidade no casarão escuro. A partir de então, parou de sentir frio. Em vez disso, um calor satisfatório começou a tomar conta dele lentamente enquanto refletia sobre o que fazer e por quê.

Eu sou um anjo da vingança.

Um servo da justiça.

Um destruidor do mal.

Com um sorriso no rosto, o assassino começou a subir os degraus.

O oficial Anjou esfregou os olhos com a mão calejada.

— La vache! — exclamou entre os dentes.

A cena diante de seus olhos era diferente de tudo o que ele havia visto ao longo de mais de vinte anos na polícia. O que começou como uma noite no quarto de um casal agora parecia um abatedouro, como um daqueles vídeos apavorantes postados na internet por ativistas dos direitos dos animais ou por militantes veganos. A diferença era que o corpo mutilado no centro da carnificina não pertencia a um bezerro ou a uma leitoa, mas a um jovem no auge da vida.

— A namorada está falando? — perguntou o oficial Anjou a um dos comandados, os olhos ainda fixos na coisa estraçalhada e ensanguentada que havia sido Andreas Kouvlaki.

— Não senhor — respondeu o policial. — Só grita. Ainda em estado de choque.

— Ela viu acontecer?

— Não. Estava sedada e amarrada à cama. O invasor arrastou Kouvlaki para o lado de fora. Ao que parece, foi a última vez que ela o viu com vida. Quando acordou, ele estava... — O jovem indicou com a cabeça o corpo, mas desviou os olhos. Parecia prestes a vomitar. O oficial Anjou não o culpava.

— Mas ela ligou para nós, certo?

O jovem policial assentiu.

— O assassino colocou o telefone ao lado dela na cama.

Provavelmente queria que ela ligasse para pedir ajuda.

O oficial Anjou resmungou.

— Ah, sim. Esse assassino era um grande sujeito, com certeza.

— Claro que não, senhor. Mas chama a atenção que ele não tenha ferido mais ninguém na propriedade — comentou o jovem policial. — Além dos cães de guarda. Quer dizer, está claro que o assassino estava atrás do Sr. Kouvlaki.

E, rapaz, ele deu um jeito em Kouvlaki mesmo.

Anjou se ajoelhou ao lado do cadáver. Teve o cuidado de não tocar em nada, mas se aproximou dos ferimentos no corpo de Andreas Kouvlaki e observou todos os detalhes, examinando com nojo a obra do assassino. O rosto tinha sido estraçalhado de tal forma que se tornara uma massa disforme, provavelmente com os próprios punhos ou com o cabo de uma arma de fogo. A maioria dos outros ferimentos tinha sido feita com uma faca, embora o assassino claramente também estivesse portando uma arma. Havia balas nos pés e nas canelas — talvez usadas para derrubar a vítima quando ela tentou fugir. O pescoço tinha sido cortado diversas vezes. Mas os detalhes mais marcantes do cadáver eram as duas mutilações que o oficial Anjou torcia para terem sido feitas após a morte.

Uma era uma letra P gravada a ferro em brasa no peito, como se tivesse marcado gado.

E a outra era a mão direita. Ainda estava com os anéis de ouro e diamante da vítima. Quem quer que tivesse feito aquilo não estava interessado no dinheiro. Mas o dedo indicador tinha sido cortado.

Ele mata cachorros, pensou o oficial Anjou. É extremamente violento. Deixa “sinais” nas vítimas e leva partes do corpo como troféus.

Mas... ele deixa um telefone para a namorada ligar e pedir ajuda.

E deixa os funcionários vivos.

Que tipo de psicopata era esse?

De volta à segurança do quarto que havia alugado, o assassino tomou um banho, vestiu uma calça de moletom e uma camisa limpa e se deitou na cama. Estava exausto, fisicamente falando, mas sabia que não conseguiria dormir. Nada seria capaz de acalmar sua mente frenética a mil.

O pico de adrenalina não era por causa do assassinato. Matar não lhe deu prazer algum. Afinal, ele não era um monstro. Na verdade, a adrenalina era consequência da sensação de completar algo, de fazer justiça, de uma missão que ainda não havia sido finalizada, mas estava em andamento. Estava fazendo seu trabalho, não para si mesmo, mas para os outros.

Andreas Kouvlaki era um homem inteligente. Assim como Perry, havia implorado por sua vida corrupta e inútil. Mas, ao contrário do irmão, tinha uma estratégia — ele se ofereceu para levar o assassino ao alvo mais importante de todos.

— Posso dar para você acesso à casa em Atenas — balbuciou ele. — É onde ele está agora. Acredite, eu o odeio tanto quanto você. Tudo o que fiz foi porque ele me obrigou.

O assassino não acreditou em Kouvlaki. Nem por um segundo.

Mas a promessa de acesso era interessante. Interessante o bastante para retardar sua morte.

— Como? Como pode me dar acesso?

— Os códigos para os portões do perímetro externo e para a porta da frente estão salvos no pen-drive dentro do meu cofre. Eu entrego o pen-drive agora. O cofre está dentro de um dos quartos de hóspedes. Mas só com os códigos você não vai muito longe. À noite, ele dorme no quarto principal, que tem alarme a laser. Você

precisa de acesso biométrico para entrar, e eu sou uma das únicas quatro pessoas que têm acesso. Você vai precisar da minha ajuda.

O assassino olhou pensativo para o homem rastejando aos seus pés. Lembrou-se da primeira vez que viu Andreas Kouvlaki, longe, muito longe dali. Naquele dia o sol brilhava, assim como Andreas, irradiando autoridade e confiança, seu poder e sua riqueza contrastando com a pobreza, a miséria e o desespero ao redor.

Parecia um golfinho prateado nadando num mar de imundície.

Mas agora o jogo virou.

— Por favor! — implorou Andreas. — Nós podemos fazer isso juntos. Você precisa de mim. Me deixe ajudar.

— Obrigado — agradeceu o assassino em voz baixa. — Vou deixar.

E havia deixado. Enfiou a mão na bolsa ao lado da cama, pegou os dois tesouros daquela noite e os segurou com carinho.

O primeiro era um pen-drive contendo os códigos de acesso à residência da próxima vítima.

E o segundo era o dedo indicador direito de Andreas Kouvlaki, a

“chave” biométrica para a suíte máster, bem embrulhado num saco de gelo.

No documento OBRAS DO AUTOR PUBLICADAS PELA EDITORA RECORD (páginas 159-166)