Gabriel se recostou no banco de couro macio de seu Maserati e pisou fundo no acelerador. Sorriu enquanto o carro ganhava velocidade, avançando como uma pantera pela estrada vazia mas familiar. Meu Deus, como era bom estar de volta à Califórnia. E melhor ainda estar ali para ver a encantadora e obstinada Ella Praeger. Gabriel não parava de pensar nela desde a última vez em que se encontraram. Em grande parte, pensamentos obscenos, algo que ele sabiamente havia escolhido não contar ao chefe.
— Essa provavelmente é a missão mais importante do Grupo em uma década — comentou Mark Redmayne, sem necessidade, durante a teleconferência da noite anterior. — Precisamos dessa garota a bordo. Mas ela continua arredia.
— Sim senhor. Eu entendo.
— Ela quer mais informações — acrescentou Katherine MacAvoy. — Não só sobre as próprias habilidades mas também sobre os pais. Quer saber a verdade sobre o que aconteceu com eles.
— Estou me lixando para o que ela quer, Katherine — vociferou Redmayne. — Só apronte a garota. Esse é o seu trabalho.
A supervisora do Acampamento Esperança engoliu em seco.
Mark Redmayne havia conduzido o Grupo a alguns de seus maiores sucessos. Mas, ao mesmo tempo, ele era grosseiro e agressivo.
Assim como a maior parte da equipe sênior de Redmayne, Katherine MacAvoy o temia.
— Eu sei, senhor, e estou tentando cumprir minha tarefa. Só não acredito que ela vá se comprometer conosco se não perceber que estamos comprometidos com ela.
— Então faça com que ela perceba.
— Como?
— Sei lá! Não falando dos pais dela, com certeza. Se precisar, pode até forçá-la, mas precisamos de Ella Praeger naquele avião.
— Forçá-la é uma ideia idiota — disse Gabriel, que parecia não ter o gene de autopreservação e medo que era acionado em Katherine e todos os outros quando tinham que lidar com Redmayne. — Se ela não estiver comprometida, a missão vai ser um fracasso.
— Hum — resmungou Redmayne. Como sempre, embora odiasse admitir, Gabriel estava certo. — Então, o que sugere?
— Me deixe falar com ela. Ela me conhece. Temos certo grau de... afinidade.
Mark Redmayne hesitou. Era capaz de imaginar o tipo de
“afinidade” que Gabriel podia ter com Ella. O homem já havia levado inúmeras mulheres para a cama. Por mais bizarro que fosse, a última coisa que Redmayne podia se dar ao luxo era permitir que Gabriel — um sujeito claramente do espectro autista e sem o menor tato para nada — se aproximasse da mulher que poderia se tornar o bem mais valioso do Grupo.
— De fato, Ella pediu para ver Gabriel pessoalmente, senhor — acrescentou Katherine MacAvoy, nervosa. — Diversas vezes.
A supervisora decidiu não mencionar que, de acordo com o professor Dixon, Gabriel já havia entrado em contato com Ella dentro do Acampamento Esperança, transmitindo diretamente para os neurorreceptores dela, algo que só poderia ter sido feito hackeando os sistemas do laboratório. O fato de Gabriel ter visto Ella tentando ir embora do acampamento significava que provavelmente também havia acessado ilegalmente o circuito interno de câmeras. Ambas as ações depunham contra a segurança do lugar. Redmayne já estava de mau humor. A última coisa de que ela e Gabriel precisavam era vê-lo soltar os cachorros. Katherine
falaria com Gabriel sobre as quebras de protocolo sozinha, quando ele chegasse ao acampamento.
E era por isso que Gabriel estava acelerando a toda por entre as sequoias da Califórnia, com a missão de fazer Ella Praeger mudar de ideia. Na verdade, ele estava desfrutando dessa perspectiva — sempre adorou um desafio.
Deliciado com o ronco do motor, Gabriel acelerou ainda mais o Maserati. O chefe não gostava do fato de Gabriel dirigir um automóvel caro. Mark Redmayne podia ser podre de rico, mas preferia que seus funcionários levassem vidas mais modestas. Para
“se misturar”, como dizia. “Se passar por alguém comum no meio da multidão.” Essa ideia nunca agradou a Gabriel.
Antes de ele se tornar Gabriel — quando ainda era criança, com seu nome antigo, sua vida antiga —, seu pai, um vendedor de carpetes de Rockford, Illinois, era um homem comum. O pai de Gabriel tinha levado uma vida comum numa casa comum cheia de sonhos comuns, e morreu da doença mais comum, câncer de pulmão, com a patética idade de apenas 47 anos. Esses eram passos que Gabriel não pretendia seguir de modo algum.
A moral de seu pai também tinha sido a de uma pessoa comum.
Um mulherengo incorrigível, mas infeliz, por mais estranho que pareça, havia partido o coração e destruiu a alma de sua mulher, transformando-a num fantasma da pessoa que era antes. Diziam a Gabriel que a depressão de sua mãe era uma doença que a acompanhara a vida inteira, bem antes de ela conhecer o pai dele.
Mas o garotinho não engolia essa. Não no velório da mãe, quando ele tinha 8 anos. Nem ali, agora. Seu pai havia deixado sua mãe arrasada. Essa era a verdade.
Gabriel havia jurado que jamais deixaria uma mulher arrasada.
Mas, tendo herdado a libido elevada do pai, a abstinência nunca foi uma opção realista. Em vez disso, surgiu uma solução mais simples e eficaz: nunca se casar. Nunca se comprometer. Solitário por natureza, a solidão lhe fazia bem. Gabriel passou a última década
“casado” com o Grupo, devoto à causa com tanta paixão quanto o amante mais ardente à sua mulher e tão viciado na adrenalina quanto qualquer drogado inveterado. Ele havia mudado de nome,
em parte por causa da vida nova mas também para deixar para trás uma infância que queria esquecer a qualquer custo, para arrancar como um membro podre essa parte de sua vida.
Sua vida nova não era perfeita. Verdade, ele não gostava de Mark Redmayne, mas quem gostava? Ele não havia se unido ao Grupo para fazer amigos ou receber a aprovação de ninguém.
Quanto à vida amorosa, embora fosse verdade que inúmeras mulheres lindas já tivessem passado por sua vida, nenhuma delas teve o coração partido. Gabriel não se interessava pelos “corações”
e jamais fazia promessas que não pudesse cumprir. No fim das contas, era uma forma extremamente satisfatória de se viver a vida.
Depois de estacionar no lugar de sempre, pegou a mochila no carro e começou a caminhada final de três quilômetros morro acima até o Acampamento Esperança. Ele se lembrava bem de lá, da época de seu próprio treinamento, e sempre sentia um frisson quando voltava ao lugar onde tudo começara. Mas naquele dia era diferente. Naquele dia o “frisson” havia se transformado num fogo que ardia no peito. A ânsia por ver a garota estava beirando o preocupante.
Você está aqui para cumprir uma tarefa, pensou Gabriel, fazendo questão de se lembrar. Uma tarefa vital. Ele se forçou a pensar na criança afogada na beira da praia, na insígnia maligna gravada a ferro em brasa no pezinho dela.
Foco.
— Parece que você tem visita. — Christine deu um cutucão nas costelas de Ella e, tensa, apontou para o sujeito bonito vindo na direção delas. — Ele está acenando para você! — exclamou Christine, empolgada. — Ai, meu Deus, foi esse o cara que te recrutou? Você nunca me disse que ele parecia o Ryan Gosling!
— Não parece — discordou Ella, irritada, já tirando os fones de ouvido e fazendo cara feia para Gabriel.
Vestido de forma mais casual que nas duas outras vezes em que a encontrou, de calça de corrida, tênis e regata preta, tudo da Nike, além de estar com os ombros musculosos cobertos por uma leve
camada reluzente de suor, Ella precisava admitir que Gabriel estava tão bonito naquela tarde que o visual dele a desarmou. Ela, por outro lado, estava com um visual simples, pois tinha acabado de sair do chuveiro depois do treinamento, o rosto cheio de arranhões e sem maquiagem, o cabelo ainda molhado e as pernas magras cheias de hematomas. Estava longe de parecer atraente.
— Você demorou muito — sibilou ela, enquanto Gabriel ainda se aproximava.
— E você teve sorte de eu sequer ter vindo — retrucou ele, falando arrastado. — Acredite ou não, Ella, eu tenho mais o que fazer em vez de ficar pegando você pela mão. Mas, quando a supervisora do acampamento disse que você implorou para me ver...
— Pegar pela mão? — soltou Ella, tão irritada que teve dificuldade para falar. — Implorei?
Ignorando-a, Gabriel se virou para Christine, os olhos dele vagando, admirando sem o menor pudor suas curvas amplas valorizadas pelo shortinho jeans e pelo top do biquíni cor-de-rosa.
— Acho que não nos conhecemos — disse ele a Christine.
— Acho que não mesmo — concordou Christine, ofegante, encarando com a mesma falta de pudor o peitoral definido de Gabriel. — Eu certamente me lembraria de você.
— Digo o mesmo.
— Vou deixar vocês dois à vontade, está bem? — interrompeu Ella com malícia, recolhendo suas coisas furiosa e enfiando tudo na mochila aos seus pés. “Implorou” para vê-lo... Que palhaçada! Se ela implorou por alguma coisa, foi para ter as informações que ele havia prometido e depois guardado para si de propósito. Se não fosse por Dix e o progresso que ela própria estava fazendo para controlar as vozes em sua cabeça, teria ido embora dali uma semana antes, com ou sem a ajuda de Gabriel.
— Não seja boba — retrucou ele, condescendente, os olhos ainda fixos nos de Christine. — Eu vim aqui falar com você. Vamos dar uma volta.
— Ah, não vamos, não — disse Ella, cruzando os braços numa postura desafiadora. — Qualquer coisa que tenha a me dizer pode
dizer aqui mesmo.
Sentada no banco do carona do Maserati, Ella ficou olhando pela janela de mau humor enquanto as últimas árvores ficavam para trás e davam lugar a campos abertos e alguns ranchos.
— Você é sempre rabugenta desse jeito? — perguntou Gabriel com um sorriso de canto de boca. — Ou o problema sou eu?
— É você.
O silêncio voltou a reinar.
— Eles me disseram que seu nome era Gabriel — disse Ella depois de um tempo, num tom que parecia que o nome a ofendia. — Para mim, você não tem cara de Gabriel.
— Ah, não?
Ninguém jamais havia feito qualquer comentário sobre o nome que ele havia adotado. Foi um pouco desconcertante.
— Não. O anjo Gabriel? Definitivamente não é você.
Ele abriu um sorriso largo.
— Nem todo Gabriel é anjo. O que está achando do treinamento?
— perguntou, mudando de assunto antes de ela fazer mais perguntas sobre seu nome. Essa era uma conversa que podia levá-los de volta ao seu passado, e ele não estava com a menor vontade de fazer isso. Sobretudo com Ella.
— Horrível — respondeu Ella, com amargura. — Totalmente desumano.
— Você está ciente de que a missão para a qual está sendo treinada vai começar muito em breve?
— Você está ciente de que eu não vou participar de missão nenhuma?
Gabriel abriu um sorriso no melhor estilo “isso é o que você acha”
que o deixou ainda mais bonito e a deixou ainda mais furiosa.
— Aliás, como vão as aulas de grego?
— Ante gamisou — respondeu Ella, sem paciência.
— Impressionante. — Ele sorriu novamente. A tradução do que Ella havia acabado de falar era algo claramente impróprio para crianças. — Vamos comer.
Fazendo uma curva abrupta e violenta, ele entrou numa estradinha de pista única não sinalizada que rapidamente os levou ao que parecia ser uma antiga casa de fazenda, a construção toda de argila.
Cautelosamente, Ella saiu do carro e perguntou:
— Isso aqui é um restaurante?
— Quando necessário, sim. O lugar pertence ao Grupo. O casal que vive aqui está aposentado, mas disponibiliza a casa quando é preciso. Estamos sendo esperados.
A última frase claramente era verdade. Ella seguiu Gabriel e entrou numa sala de jantar bonita de paredes caiadas, onde uma mesa de fazenda tinha sido posta para duas pessoas, com um banquete de pratos quentes e frios, flores recém-colhidas, uma jarra de água gelada e uma garrafa resfriada de chablis de uma boa safra.
— Sirva-se à vontade — anunciou Gabriel, seguindo o próprio conselho e colocando uma montanha de ensopado de cordeiro, arroz de açafrão e salada verde no prato antes de se sentar. — Podemos falar à vontade aqui.
Ella deu uma risada cética.
— Falar à vontade? Isso significa que você vai responder às minhas perguntas?
— Algumas delas — respondeu ele, admirando como o cabelo ainda molhado de Ella cacheava na altura dos ombros e descia até os seios. Ela havia trocado de roupa, colocando um vestido de verão amarelo simples para o passeio, um vestido que teria ficado discreto em qualquer outra mulher, talvez até antiquado, mas que, de alguma forma, grudava no corpo de Ella como uma segunda pele. Era provocante. — Se responder às minhas. Vinho?
— Não, obrigada.
Relutante, Ella pegou um pouco de comida e um copo de água e se sentou de frente para ele. Gabriel encheu uma taça grande de chablis e tomou um longo gole antes de fazer a bola rolar.
— Vamos um de cada vez? — perguntou ele.
— Está bem. Quem vai primeiro?
— Eu — anunciou Gabriel, em tom autoritário. — Se você não vai participar da missão, por que ainda está no Acampamento Esperança?
Por um instante, Ella ficou em silêncio. Era uma boa pergunta para começar.
— Eu disse que ajudaria você a voltar para a cidade se escolhesse partir — continuou Gabriel. — Mas você não foi embora.
Por quê?
— Eu não tinha como entrar em contato com você — balbuciou Ella, sem jeito.
— Sem essa. — Gabriel tomou outro gole de vinho. — Katherine poderia ter entrado em contato comigo sem a menor dificuldade.
Você nem tentou.
— Tudo bem — disse Ella, já com o sangue fervendo. — Também fiquei por causa de Dix. Ele tem me ajudado a controlar os barulhos na minha cabeça, a entender o que são, de onde vêm e a sintonizar e dessintonizar certos sinais. Também me ajudou com outras coisas, como, por exemplo, a interpretar melhor as pessoas e a lidar com situações sociais, coisas que nunca tive a chance de aprender quando criança. E estou melhorando. De verdade! Dix parece saber de verdade o que tem de errado comigo, coisa que até hoje nenhum médico tinha sequer chegado.
— Não tem nada de errado com você. Você tem um...
— Não diga “dom” — interrompeu Ella, erguendo um dedo para alertá-lo. — Não ouse dizer “dom”. Você não faz ideia de como é isso. Nenhum de vocês faz ideia. Enfim, minha vez. Como você sabia que eu estava tentando ir embora do acampamento aquele dia? Você devia estar me espiando.
— Não seja paranoica — disse ele, despreocupado.
— Eu quero saber — insistiu Ella. — Tem câmeras escondidas?
Ou tem pessoas lá dentro me seguindo e reportando os meus passos a você?
— Talvez. — Gabriel se inclinou lentamente para perto dela. — Eu consigo ler seus pensamentos. Eu vejo o que tem dentro de seu cérebro lindo e confuso. Já parou para pensar nisso?
Ella sentiu o estômago embrulhar e a respiração ficar entrecortada. Isso não podia ser verdade. Podia?
— Não — disse ela com uma confiança que não tinha. — Nunca pensei nisso porque é papo furado. Dix já me disse que eu só posso receber informações, não transmitir.
— E se o bom e velho Dix estiver errado? — provocou Gabriel. — Ele não é Deus, sabia? Ele também erra.
Gabriel se aproximou ainda mais e colocou a mão quente e seca sobre a de Ella. O enjoo ficou ainda mais forte, mas junto com ele havia outra sensação, algo que Ella sabia o que era, mas se recusava a aceitar. Agora não. Com ele, não.
— E se eu dissesse que sei exatamente no que você está pensando nesse exato momento? Isso a deixaria assustada?
Ella engoliu em seco.
— Não.
— Acho que não acredito em você. — Gabriel sorriu, sem fazer nenhum esforço para esconder o prazer que sentia em constrangê-la. — O que você está tentando esconder de mim, Ella?
— Pare. — Ela afastou a mão de repente. — Você não pode acessar meus pensamentos.
Ele se recostou de volta na cadeira e soltou uma gargalhada.
— Tudo bem, você tem razão. Não posso. Tem câmeras lá, está bem? Na guarita e em vários outros pontos do terreno. E sim, talvez eu tenha xeretado um pouco mesmo. Só para ver se você estava bem. E, aliás, naquela noite em particular, você não estava bem. Por isso eu me meti para ajudar. De nada — acrescentou, em resposta ao olhar duro de Ella. Em seguida, Gabriel deu uma garfada no cordeiro e gesticulou para que Ella também comesse. — Você está magra demais.
— Ah, é mesmo? E a culpa é de quem? Estou ralando todos os dias — resmungou Ella, mas obedeceu a ele e comeu uma colherada de arroz.
— Minha vez de perguntar — continuou Gabriel enquanto ela comia. — Como estão as coisas com Dix?
— Está tudo bem.
— O que significa “bem”? Quanto tempo ainda vai demorar até você poder usar plenamente seus... essa coisa que você chama como quiser? Até conseguir sintonizar no que quer e dessintonizar todo o resto?
— Não faço ideia — respondeu Ella, sendo sincera. — Eu nunca fiz isso antes, nem Dix. Talvez alguns meses. Ele me deu mais exercícios. É um tipo de mindfulness, quase uma auto-hipnose. Eu tenho que...
— Consegue em dez dias?
— O quê? Não! Claro que não. Não é tão fácil quanto ligar um interruptor, sabia?
— Mas e se você precisasse fazer isso?
— Eu não preciso. E, antes que você diga mais uma palavra sobre essa tal “missão”, vou falar o que falei para Katherine MacAvoy. Eu não vou a lugar algum nem vou fazer nada antes de vocês me contarem alguma coisa sobre os meus malditos pais!
Gabriel hesitou. Mark Redmayne tinha deixado claro que ele não deveria entrar nesse território sob hipótese alguma.
Que se dane. Ele daria um jeito.
— Sua mãe e seu pai entraram para o Grupo juntos em 1990. Na época em que você nasceu, eles já eram membros engajados, mas chegaram ao ápice tempos depois, mais ou menos na época em que confiaram você aos cuidados da sua avó.
Ella se inclinou para a frente, prestando atenção a cada palavra.
— O trabalho deles envolvia conhecimentos científicos. Como eu já disse antes, sua mãe era neurologista e seu pai era pioneiro na teoria de substituição genética. Em geral, eles trabalhavam juntos, mas depois de um tempo sua mãe alcançou um posto mais alto dentro das operações e às vezes trabalhava com outras pessoas.
— Sério? — disse Ella, intrigada com esse detalhe humanizador.
Seus pais tinham se tornado figuras sombrias, mas agora a mãe parecia ainda mais obscura que o pai. Pelo menos, ele havia escrito as cartas e os cartões-postais, deixando algo palpável para Ella agora que tinha colocado a mão nesse material. O lugar que a mãe deveria ocupar na memória, porém, era um espaço vazio, ocupado apenas por algumas palavras, alguns toques e alguns cheiros dos
quais Ella se lembrava, e mesmo esse pouco estava desaparecendo a cada ano que passava.
— As missões deles eram secretas — continuou Gabriel —, por isso não posso falar sobre elas.
— Só o governo pode classificar algo como secreto — retrucou Ella, irritada. — Você percebe como soa arrogante?
— Eles morreram em 2001 — continuou Gabriel, ignorando o ataque de Ella.
— Você quer dizer que eles foram assassinados em 2001. Foi o que você mesmo me disse antes.
— Isso.
— Você também disse que me contaria como eles foram assassinados assim que eu começasse o treinamento — lembrou-o Ella.
— Acho que eu disse que contaria na hora certa, quando estivesse pronta.
— E quando vai ser isso, na sua arrogante opinião? — perguntou Ella furiosa, erguendo a voz.
— Quando você partir para sua missão — respondeu Gabriel, bebendo o que restava do vinho na taça, dobrando seu guardanapo de volta e colocando-o cuidadosamente sobre a mesa.
— Chega! — disse Ella, cansada demais para ter essa discussão com Gabriel outra vez. — Quero que me leve de volta para casa agora, por favor. Como prometeu. Para São Francisco.
— Tudo bem — concordou Gabriel, calmamente —, se é isso que você quer.
— É, sim.
Gabriel assentiu.
— Então vamos agora.
Eles voltaram até o carro em silêncio. Numa demonstração atípica de cavalheirismo, Gabriel abriu a porta para Ella e esperou que colocasse o cinto de segurança antes de se sentar ao volante e ligar o motor.
— Dix vai ficar triste por você não ter se despedido — comentou Gabriel enquanto voltavam pela pista rumo à estrada principal.
— Vou sentir falta dele. É um homem bom. Por favor, diga a ele
— Vou sentir falta dele. É um homem bom. Por favor, diga a ele