3. Súmula teórica conclusiva
4.3.2. Capacidade para o trabalho – ICT: Índice de Capacidade para o Trabalho
A capacidade para o trabalho é uma medida de aptidão individual para o trabalho. Para a medir, utilizámos o Índice de Capacidade para o Trabalho (ICT) (Silva, 2001, no prelo,a; Silva et al., 2010a), que é a versão portuguesa do Work Ability Index (WAI) (Ilmarinen, 2007; Ilmarinen, Tuomi, Klockards, 1997).
O ICT é um instrumento de saúde ocupacional, usado tanto para fins de investigação científica como para exames de saúde no trabalho (Ilmarinen, 2007). O índice de capacidade para o trabalho é determinado com base nas respostas dos trabalhadores a questões relacio- nadas com as exigências do trabalho, o estatuto de saúde e os seus recursos psicológicos (Ilmarinen, 2007). O ICT indica o grau de aptidão do trabalhador para realizar o seu trabalho e permite ao técnico de saúde ocupacional identificar trabalhadores e locais de trabalho que necessitam de medidas de correção e de apoio (Silva, no prelo,a). O valor do índice resultante do questionário situa-se entre o 7 e o 49 e classifica o trabalhador numa de quatro categorias:
pobre capacidade para o trabalho (entre 7 e 27), capacidade para o trabalho moderada (28-
36), boa capacidade para o trabalho (37-43) e excelente capacidade para o trabalho (44-49). Os autores do WAI situaram os pontos de corte a partir da mediana para as categorias intermé- dias (moderada e boa) e a partir do percentil 15 para as categorias extremas (pobre e excelen- te), aquando do estudo original, em 1981, com trabalhadores finlandeses (Ilmarinen et al., 1997; Silva, no prelo,a). O ICT indica (1) o conceito do trabalhador relativamente à sua capaci- dade para o trabalho, (2) o nível dessa aptidão, (3) os objetivos das medidas a desenvolver, e (4) informa do risco previsível de incapacidade para o trabalho num futuro próximo (Silva, no prelo,a). A Tabela 4.1 sintetiza os quatro perfis de capacidade para o trabalho, bem como a natureza das medidas de intervenção correspondentes.
Tabela 4.1. Categorias de capacidade para o trabalho e natureza de medidas de apoio
Capacidade para o trabalho Pontuação no ICT Objetivos das medidas
Medidas de apoio e seguimento
Pobre 7-27 Restituir Reabilitação médica do trabalhador e correção dos fatores relativos à organização do trabalho Moderada 28-36 Melhorar Promoção da capacidade funcional do traba-
lhador (saúde, formação, reabilitação) e corre- ção de fatores laborais
Boa 37-43 Sustentar Avaliação das caraterísticas do estilo de vida promotoras e ameaçadoras
Excelente 44-49 Manter Identificação dos fatores do estilo de vida e do ambiente de trabalho que reforçam ou amea- çam a capacidade para o trabalho
Adaptado de Silva (no prelo,a)
O ICT é um questionário de lápis e papel e é composto por um total de 60 itens, se excluirmos a primeira questão, que serve para classificar a natureza do trabalho: físico, mental ou misto, consoante as principais exigências do mesmo sejam físicas, mentais ou ambas. Nove itens são de escolha múltipla seguindo escalas de Likert de 3, 5, 6 ou 10 pontos/respostas. Os
restantes 51 itens, referentes a problemas de saúde, são de escolha forçada. O ICT compreen- de sete fatores: (1) capacidade atual para o trabalho, comparada com o seu melhor; (2) capa- cidade de trabalho em relação às exigências da ocupação; (3) doenças presentes; (4) estimati- va do grau de incapacidade para o trabalho devido a doenças; (5) absentismo nos últimos 12 meses; (6) prognóstico da capacidade de trabalho para dois anos; e (7) recursos psicológicos. A Tabela 4.2 indica com mais pormenor as dimensões teóricas deste questionário e a sua estru- tura.
Tabela 4.2. Índice de Capacidade para o Trabalho: dimensões e avaliação
Fator concetual N.º de itens Escala de medida Pontuação
ICT1 Capacidade de trabalho atual com- parada com o seu melhor
1 Likert [0-10] 0-10
ICT2 Capacidade de trabalho relativa- mente às exigências da ocupação
2 Ponderação com Likert [1-5]
2-10
ICT3 Número atual de doenças 51 Escolha forçada 1-7
ICT4 Estimativa do grau de incapacidade motivada por doenças
1 Likert [1-6] 1-6
ICT5 Absentismo por doença no ano transato
1 Likert [1-5] 1-5
ICT6 Prognóstico da capacidade de tra- balho a dois anos
1 Escolha forçada (3 opções)
1,4 ou 7
ICT7 Recursos psicológicos 3 Likert [0-4] 1-4
A dimensão dos recursos psicológicos compreende três itens e refere-se a apreciar as atividades habituais do dia-a-dia, sentir-se ativo e sentir-se otimista em relação ao futuro. Este fator não se circunscreve à experiência laboral, antes referindo-se à vida do trabalhador no seu todo.
A escala relativa às doenças presentes solicita duas respostas, uma acerca das doenças que o trabalhador acha que tem, e outra identificando as doenças diagnosticadas por um médico. Ou seja, os sujeitos tanto assinalam as suas queixas como as doenças de que pade- cem. Para o cálculo do índice final só contam as doenças diagnosticadas.A identificação das queixas relativas à saúde serve para o médico do trabalho poder observar os sintomas relata- dos e despistar possíveis quadros clínicos.
O ICT é um instrumento essencialmente prático e com grande poder operacional. Foi criado para ser aplicado pelos serviços de medicina do trabalho e de saúde ocupacional, com o objetivo de dotar os técnicos de um perfil de capacidade funcional do trabalhador e de uma correspondente orientação para o tipo de intervenções a realizar. Este questionário tanto pode ser utilizado pelo médico de trabalho, na sua atividade clínica regular, como pela organi- zação no seu todo ou em departamentos específicos, com vista à definição de medidas de gestão de promoção da capacidade de trabalho. O ICT é preenchido pelo trabalhador antes da entrevista com um profissional de saúde ocupacional, que cota as respostas seguindo as ins- truções de cálculo do índice. Na prática da saúde ocupacional, o questionário é acompanhado
de outros quatro formulários, preenchidos pelo profissional de saúde, relativos (1) ao segui- mento do trabalhador (onde se registam, em tabela e em gráfico, as sucessivas avaliações do índice de capacidade para o trabalho ao longo do tempo), (2) à informação para o trabalhador, que contempla as recomendações para promover a sua capacidade para o trabalho, (3) ao registo e programação das recomendações de melhoria da capacidade para o trabalho e do seu resultado, e (4) ao seguimento do grupo de trabalhadores considerado (onde se registam as percentagens de trabalhador por categoria de capacidade para o trabalho, em tabela e em gráfico). O índice de capacidade para o trabalho, assim, possibilita a identificação, programa- ção, seguimento e avaliação das medidas corretivas que dele decorrem. O formulário do ICT para uso pelos serviços de saúde ocupacional inclui ainda uma vasta lista ilustrativa de medi- das de melhoria da capacidade para o trabalho, quer dirigidas à organização e layout do posto de trabalho, quer às competências e estilo de vida do trabalhador. Concluindo, este instru- mento não só fornece um perfil de capacidade para o trabalho, como permite estruturar toda a subsequente intervenção, o que lhe confere pertinente utilidade para os serviços de saúde ocupacional.
O ICT não só é vantajoso do ponto de vista individual, na medida em que possibilita melhorar a capacidade para o trabalho dos trabalhadores, como organizacional, porque permi- te aumentar a produtividade das organizações, e ainda social. Com efeito, a manutenção da saúde no trabalho promoverá a qualidade de vida após a reforma, acabando a sociedade por beneficiar de menores despesas com a saúde dos reformados (Silva, no prelo,a).
O ICT foi desenvolvido pelo Instituto Finlandês de Saúde Ocupacional a partir de 1981 num contexto de multidisciplinaridade para o qual concorreram a fisiologia ocupacional, a psicologia, a medicina, a epidemiologia e a bioestatística (Ilmarinen, 2007). O seu desenvolvi- mento foi fortemente influenciado pela constatação do envelhecimento geral da população ativa, e pela preocupação decorrente de desenvolver medidas que assegurassem o seu estatu- to de saúde (Cotrim, 2011). Trata-se de um instrumento largamente utilizado a nível mundial. O WAI encontra-se traduzido em 25 línguas (Martus, Jakob, Rose, Seibt, & Freude, 2010). O amplo uso da escala tem permitido estabelecer valores de referência, a que nos referiremos na secção de discussão dos resultados do presente estudo.
A literatura indica que o WAI é um instrumento válido, fiável, preditivo e universal (Radkiewicz & Widerszal-Bazyl, 2005). Do ponto de vista da validade de critério, Eskelinen, Kohvakka, Merisalo, Hurri e Wagar (1991) constataram existir concordância entre as respostas subjetivas no WAI sobre a capacidade para o trabalho e a saúde, e a avaliação clínica das mesmas. O ICT encontra-se correlacionado (p<.001) com todas as oito dimensões do estatuto de saúde avaliados pelo SF-36, ou seja, quanto melhor a saúde de uma pessoa, maior a sua capacidade para o trabalho (Martinez, Latorre & Fischer, 2009). No estudo de Martinez et al., 2009) as dimensões de saúde física (capacidade funcional, aspeto físico, dor e estado geral) correlacionaram-se mais fortemente com o índice de capacidade para o trabalho do que as de saúde mental (vitalidade, aspeto social, aspeto emocional, saúde mental). A validade do ins- trumento foi ainda demonstrada pelos índices de correlação entre o WAI e outros indicadores relacionados, como o índice geral de saúde medido pelo General Health Index (r=.62), o bur-
nout emocional medido pelo Copenhagen Burnout Inventory (r=-.54) e o índice de incapacida-
lidade da escala, avaliada pela consistência interna, é genericamente boa, com Alfas de Cron- bach reportados na ordem dos .72 (Martinez et al., 2009) e .78 (Gould, Koskinen, Seitsamo, Tuomi, Polvinen, & Sainio, 2008). Radkiewicz & Widerszal-Bazyl, reportando-se a um estudo com cerca de 38.000 enfermeiros europeus, realizado em 10 países, verificaram que o WAI revelou valores de consistência satisfatórios, com Alfas de Cronbach variando entre .54 e .79 em amostras nacionais, e de .72 para a amostra total considerada (composta, para a análise realizada, por nove países). A WAI manteve a sua consistência interna com a análise do poder discriminante dos itens, com exceção do item 5 (relativo ao absentismo), que os autores cons- tataram possuir reduzida relação com o índice total, aconselhando a sua exclusão do instru- mento. Contudo, esta sugestão não encontrou apoio empírico subsequente. Martus et al. (2010) argumentam que a exclusão do item 5 seria razoável apenas se o instrumento fosse unifatorial, o que é um facto não suportado pelo seu estudo, de que adiante daremos conta. Radkiewicz & Widerszal-Bazyl (2005) concluem que o WAI é um instrumento adequado para medir a capacidade para o trabalho (pelo menos na população de enfermeiros), pois revela possuir coerência interna, elevado poder preditivo e elevados níveis de estabilidade em dife- rentes países (ou seja, mostra-se independente das diferenças culturais). A fiabilidade do WAI foi também demonstrada através do método de teste-reteste. Com efeito, tanto o índice médio da capacidade para o trabalho (40.4 versus 39.9) como as quatro categorias de capaci- dade para o trabalho revelaram-se estáveis num intervalo de quatro semanas numa amostra de 97 operários da construção holandeses com 40 anos ou mais (de Zwart, Frings-Dresen e van Duivenbooden, 2002). A percentagem de concordância observada neste estudo foi de 66%, registando-se ainda uma concordância exata em 25% da amostra. Estes resultados revelam uma aceitável fiabilidade teste-reteste do instrumento.
Do ponto de vista concetual, espera-se que o ICT seja unidimensional e homogéneo. A literatura, porém, tem revelado diferentes organizações fatoriais deste instrumento. Nos nove países estudados por Radkiewicz & Widerszal-Bazyl (2005), apenas em dois se verificou uma solução unidimensional, sendo que nos restantes sete o WAI se comportou de modo muito semelhante, apresentando uma estrutura heterogénea composta por dois fatores. Aqueles autores propuseram interpretar o primeiro fator como a componente subjetiva da capacidade para o trabalho (constituída pela avaliação subjetiva da mesma e pelos recursos psicológicos) e o segundo como a sua contraparte objetiva” composta por informação mais fatual relacionada com a saúde e o absentismo. Radkiewicz & Widerszal-Bazyl realizaram a análise fatorial explo- ratória pelo método dos componentes principais com rotação varimax. A mesma metodologia foi usada num estudo brasileiro com 475 sujeitos predominantemente com trabalhos combi- nando exigências físicas e mentais. Neste caso, a análise fatorial fez extrair três fatores que explicam 57.9% da variância: o primeiro fator (responsável por 20.6% da variância) representa os recursos mentais; o segundo fator (18.9% da variância) traduz a capacidade para o trabalho percecionada pelo trabalhador; e o terceiro fator (18.4%) refere-se às doenças e limitações decorrentes do estado de saúde (Martinez et al., 2009). Por seu lado, Martus et al. (2010) estudaram a estrutura fatorial da WAI recorrendo à análise fatorial confirmatória pelo método da máxima verosimilhança, avaliando posteriormente os modelos encontrados pelo Qui- quadrado, graus de liberdade e o índice de ajustamento comparativo (CFI, Comparative Fit
Index), numa amostra de 324 professores, empregados de escritório e docentes de enferma-
constituem um fator que os autores designam por “capacidade para o trabalho e recursos subjetivamente estimados” (p.522) e as subescalas WAI3 e WAI5 constituem o fator relaciona- do com a saúde. As subescalas WAI4 e WAI6 – que já anteriormente, numa análise fatorial exploratória, não se haviam relacionado de modo claro com nenhum dos dois fatores, tendo os seus valores de saturação variado substancialmente em diferentes subpopulações – assu- mem um “papel especial” (p.522): a inclusão das duas em ambos os fatores melhora substan- cialmente o ajustamento do modelo de dois fatores proposto pelos autores (Martus et al., 2010).
Este instrumento apresenta robusto poder preditivo. O índice prevê com fiabilidade o estatuto de saúde, burnout, incapacidade, reforma e mortalidade (Ilmarinen, 2007; Radkiewicz & Widerszal-Bazyl, 2005). Em muitos estudos do Instituto Finlandês de Saúde Ocupacional, o ICT conseguiu prever com precisão mudanças na aptidão para o trabalho em diferentes grupos ocupacionais.
A escolha do ICT como instrumento para avaliar a saúde no trabalho, em síntese, resul- tou da sua natureza prática e operacional em contexto de trabalho, bem como das proprieda- des psicométricas que asseguram a sua validade, fiabilidade, poder preditivo e universalidade. No que respeita a esta última característica, tanto a disponibilidade de dados relativos à popu- lação trabalhadora nacional, como o acesso facilitado ao grupo de investigação responsável pelo desenvolvimento da versão portuguesa e levantamento dos dados relativos ao nosso país foram razões adicionais para a escolha do instrumento. Por fim, a eleição do ICT dependeu de uma razão teórica fundamental, que se prende com a inclusão de três dimensões da saúde no trabalho importantes para o presente estudo, tendo em conta os modelos de saúde no traba- lho anteriormente referidos: o ICT fornece indicadores relativos à saúde (doenças, absentismo, incapacidade), ao bem-estar (recursos psicológicos) e à estimação do próprio trabalhador quanto à sua capacidade de trabalho (atual e futura). A auto-avaliação da capacidade para o trabalho assume especial relevância; com efeito, à luz do modelo cognitivo do stresse e coping de Lazarus (1991; Lazarus & Folkman, 1984), é a perceção da pessoa – mais do que qualquer outro indicador objetivo – que determina se a pessoa está ou não em stresse. Em última análi- se, o stresse e a saúde individuais são determinados por este processo; ora, o ICT, justamente, inclui-o na mediação e cálculo da saúde no trabalho.