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5. A ANÁLISE E A INTERPRETAÇÃO DOS DADOS

5.1. Capas

5.1.2. Capas do dia 31 de maio de 2010 (segunda-feira)

Observando as capas desse dia, percebemos que o jornal Agora cede um pouco o espaço da cor vermelha para a cor azul (usada na capa para destacar notícias relacionadas ao esporte). Fica, assim, em evidência, entre as manchetes principais do dia, o tema futebol, em função do espaço e destaque dado no jornal à “rodada” do dia anterior (domingo).

A foto principal, que está no lado esquerdo, na metade da parte superior, traz a manchete: Timão fisga o Peixe, cujo termo “fisga” (sobre uma tarja azul), da linguagem coloquial, produz o efeito de oralidade no título. A frase dialoga com a foto, que mostra os dois jogadores do time campeão simulando uma pescaria (com o placar de 4 x 2 no canto superior). Complementa-se, assim, a informação apresentada pelo enunciador, criando humor e produzindo o efeito de proximidade com seu enunciatário, proximidade esta própria dos debates e brincadeiras entre amigos que ocorrem durante ou depois de uma partida de futebol. Além disso, o segmento “fisga o Peixe” é um recurso metafórico dentro do qual se manifesta a metonímia “Peixe”. “Fisgar o Peixe” significa prendê-lo com o anzol, portanto, dominá-lo, subordiná-lo, o que efetivamente se realiza com a vitória do Corinthians sobre o Santos. Já a denominação de “Peixe” para o time do Santos é de natureza metonímica, pois se dá o nome ao clube por uma relação de contiguidade, isto é, pelo fato de esse clube ser da cidade de Santos, situada sobre o mar, onde vivem os peixes.

A utilização dos termos populares “timão” e “peixe” é de uso muito corrente no jornal, uma vez que, sendo um jornal popular, escolhe utilizar os termos pelos quais os times são conhecidos pelos torcedores e apreciadores do futebol. Esse aspecto comprova a relação de informalidade e de cumplicidade do enunciador em relação a seu enunciatário. Na capa em questão, aparece, ainda, outro destaque com o recurso similar: Tricolor trava e só empata com o Bugre. Realça-se, aqui, novamente a oralidade no texto, tanto pelos nomes populares atribuídos aos dois times (São Paulo e Guarani) que se confrontaram quanto pela escolha da palavra “trava” – uma metáfora que, por similaridade, remete à ideia de não avançar ou avançar pouco na classificação do campeonato – para designar o mau desempenho do primeiro deles. O uso de “Tricolor” é uma denominação metonímica, uma vez que o time São Paulo é denominado pelas cores do uniforme que o identificam (branco, vermelho e preto). Já “Bugre”, finalmente, termo pejorativo usado pelos europeus em referência aos índios por serem considerados selvagens e incultos, remete-se ao Guarani pelo time receber o nome do grupo indígena (tendo como mascote a figura de um indiozinho, e o torcedor deste ser chamado de bugrino).

Aliás, em ambas as manchetes chama a atenção o predomínio dos recursos figurativos da linguagem. Na primeira, “Timão” (referência ao Corinthians) tem caráter hiperbólico que acompanha muitas outras criações populares como “Verdão” (uma referência ao Palmeiras),

“Paulistão” (o campeonato paulista de futebol), “Brasileirão” (referência ao Campenato Brasileiro). Trata-se de um procedimento linguístico que atribui identidade única, superioridade e certa altivez às entidades denominadas. Nas interações cotidianas, ele também ocorre com função similar, em expressões do tipo “Aí, amigão!”, “e daí, garotão!”.

Em resumo, nas duas manchetes, o enunciador, para se aproximar do enunciatário e com ele abordar informalmente o noticiário sobre o futebol do fim de semana, recorre a estratégias idênticas ou ao menos muito próximas às usadas pelo leitor, quando fala, no dia a dia, sobre futebol. A linguagem figurativa faz parte dessas estratégias, na medida em que reflete todo o colorido dos comentários jocosos que os torcedores fazem entre si. Em todos os casos – e é isso que se tem de destacar – trata-se de recursos da linguagem popular das interações conversacionais do cotidiano. Trazem, portanto, para o texto escrito a marca da oralidade.

Na Folha, a opção é utilizar o nome oficial dos times na chamada da capa referente à jornada esportiva do fim de semana (Corinthians vence Santos por 4 a 2 e se mantém na liderança). Marca-se, dessa forma, o texto por formalidade e distanciamento, mesmo tendo sido utilizada uma foto chamativa, envolvendo forte emoção, com a presença de uma criança em meio à torcida com o uniforme do Corinthians (foto no lado esquerdo superior da capa). Esse é um único destaque dado ao esporte na capa nesta edição da Folha. Ao contrário do que acontece no Agora, as grandes manchetes da capa do dia envolvem outras temáticas.

Em relação à logomarca, observa-se que, no jornal Agora São Paulo, ela aparece, nesta edição, no lado direito, na parte superior. Em outras edições essa posição pode mudar (ela sofre alteração de posição em diferentes capas, como já mostramos no capítulo 1). Essa estrutura não fixa da logomarca lembra o caráter instável das conversas informais. Logo abaixo da logomarca, destacam-se duas chamadas: Leve caderno especial sobre vestibular de meio de ano (em letras vermelhas, com fundo salmão e tarja vermelha acima) e Saiba como investir a grana no Tesouro Direto (escrito em preto, com tarja vermelha acima). Nos dois enunciados, os verbos no imperativo (Leve/Saiba) instalam o eu no texto, o qual se comunica com um tu (leitor-enunciatário), estabelecendo o simulacro do um diálogo face a face, aproximando jornal e leitor. Constitui-se assim um texto enunciativo, que, com essas

características, produz um efeito de oralidade, enfatizando certa cumplicidade entre enunciador e enunciatário. Esse fato vem referendado pelo emprego da palavra “grana”, que mais uma vez ressalta o uso coloquial da linguagem, produzindo o efeito de informalidade e espontaneidade da comunicação do jornal com o leitor.

A manchete principal da Folha está situada do lado direito da página, na parte superior: Quase metade dos médicos receita o que indústria quer. O resumo da matéria é, a seguir, apresentado em três colunas. Quem se manifesta no enunciado-manchete é um narrador em 3ª pessoa, o que produz um efeito de sentido de distanciamento e objetividade em relação ao fato noticiado, característica própria dos textos enuncivos em geral, mas particularmente dos escritos. Essa enuncividade também pode ser notada em outras chamadas da capa: Petroleira não dá prazo para deter vazamento/Aliado de Uribe vence 1º turno na Colômbia/SNI espionou críticos do governo após a ditadura.

Essa mesma manchete principal da Folha vai aparecer no jornal Agora, na parte inferior, do lado esquerdo, nos seguintes termos: Médico receita remédio que indústria quer. Na comparação, fica evidente que, para este último jornal, o tema em pauta é de segunda importância, não pelo tema em si, mas pelo perfil de seus leitores. Para estes, pessoas simples, mais focadas nos fatos e preocupações que envolvem as relações próximas, o futebol do fim de semana desperta mais atenção do que temas cuja compreensão e interpretação exigem leitores mais habituados à leitura e à análise de assuntos complexos, de interesse mais abrangente e universal.

Uma manchete que ainda se destaca no jornal Agora é a seguinte: Devolução dos atrasados do IR fica mais rápida (com a palavra “atrasados” sobre tarja vermelha). Como já se observou na análise das capas da edição de 23 de março, a informação e a orientação sobre formas de ganhar dinheiro é uma constante desse jornal, a qual evidencia o perfil de seus leitores. Trata-se de pessoas que, em princípio, ganham pouco e que, por isso, estão sempre atentos a seus direitos e a possibilidades em geral de complementarem os seus ganhos. É por isso também que os jornais populares costumam dar destaque às extrações lotéricas, especialmente quando está em jogo um prêmio excepcionalmente alto ou quando um prêmio desses é destinado a um único ganhador. Tal fato renova a esperança, especialmente daqueles

que levam uma vida apertada com pouco dinheiro, de um dia serem eles os contemplados com a sorte grande.

Para finalizar, cabe destacar o fato de ocorrer certa inversão no tratamento lexical na chamada de uma matéria em comum aos dois jornais. A Folha apresenta a notícia com o título

Rapa no Acarajé, enquanto que o jornal Agora assim se expressa: Acarajé fica proibido nas

ruas da capital. Com base no padrão geral dos dois jornais, parece que houve troca de manchetes. Pela utilização da palavra “rapa” pela Folha há a quebra do estereótipo, o que pode provocar um estranhamento por parte do leitor da Folha.