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5. A ANÁLISE E A INTERPRETAÇÃO DOS DADOS

5.2. Editoriais

5.2.1. Editoriais do dia 18 de julho de 2010 (domingo)

Agora São Paulo

Cuidado com o petróleo

O mundo acompanhou, por quase três meses, as várias tentativas da empresa britânica BP de tampar o buraco por onde jorrava petróleo no golfo do México.

Há quem estime em quase 700 milhões de litros o total de óleo espalhado no mar desde o acidente que provocou o vazamento, em abril. Seria o pior desastre ecológico da história.

Na semana passada, finalmente a empresa britânica conseguiu tampar o buraco por onde jorrava petróleo.

Ninguém sabe se o mecanismo instalado a milhares de metros no fundo do mar vai resolver o problema de vez. Mas um passo foi dado.

Ao mesmo tempo, também na semana passada, a Petrobras começou a retirar petróleo da camada pré- sal.

A descoberta desses campos foi uma vitória da empresa brasileira. Pode trazer riqueza para o país e gerar recursos para o governo.

Mas, como ficou claro com o desastre nos EUA, explorar petróleo em alto-mar é uma atividade arriscada, e podem acontecer falhas.

Já tem gente dizendo que falta ao governo federal um plano de emergência caso uma coisa dessas aconteça no Brasil. Qual seria a estratégia para conter vazamentos?

O governo e a Petrobras não dão respostas satisfatórias. O presidente Lula não quer nem falar no assunto.

Muita gente, nos Estados Unidos e na Europa, pede mais fiscalização nesse tipo de exploração. Lula disse que fazem isso porque o petróleo deles está acabando, o que não é verdade.

Há autoridades nesses países de fato preocupadas. As nossas também deveriam estar.

Problemas e falhas acontecem. Mas seus efeitos são muito piores quando não se está preparado para lidar com eles.

Folha de S. Paulo

Segurança no pré-sal

Quase três meses após a explosão da plataforma da BP no golfo do México, a empresa britânica conseguiu estancar, de forma provisória, o jorro de petróleo no oceano. Estimativas ainda imprecisas para o total de óleo derramado oscilam entre 350 milhões e 700 milhões de litros.

O desastre derrubou o valor das ações da BP e ajudou a diminuir os índices de aprovação do presidente Barack Obama.

O acidente ocorreu no momento em que o governo brasileiro alimenta a euforia com o pré-sal. O anúncio da contenção do vazamento no golfo do México veio no mesmo dia em que o presidente Lula comemorava o início da extração regular da nova riqueza.

Extrair óleo do pré-sal, a grandes profundidades, é tarefa complexa. É natural que o caso da BP provoque apreensões quanto à segurança do empreendimento brasileiro. O país precisa saber quais são os planos de emergência e as salvaguardas ambientais providenciadas pela Petrobras e pelas instâncias responsáveis.

As respostas a essas dúvidas ainda não são satisfatórias. E o presidente Lula parece considerar inaceitável qualquer questionamento sobre o tema. Nas solenidades de que participou, atacou o jornal “O Globo”, que havia destacado em manchete a decisão europeia de evitar exploração em grandes profundidades. “É preciso saber qual país da Europa tem petróleo no fundo do mar”, disse. “O pouco que tem no mar Morto está acabando, no mar do Norte está acabando”, prosseguiu.

Pode-se entender que o presidente erre feio em geografia e esqueça que Reino Unido e Noruega exploram petróleo no mar. Mas é dever do Estado brasileiro, que ele chefia, exigir e tornar públicos planos para evitar que tragédias ambientais ocorram no pré-sal.

O editorial do jornal Agora, com o título Cuidado com o petróleo, simula uma advertência, como se o enunciador estivesse chamando a atenção do enunciatário para prestar atenção ao que vai ser enunciado. O apelo Cuidado com o petróleo instaura nesse discurso um eu que interpela um tu, definindo um texto enunciativo, em que as marcas da enunciação se revelam no texto. Esse dado característico pode ser observado também no uso de “nossas”, que implica aqui a incorporação do leitor (um “nós inclusivo”6) na relação comunicativa que

6

O “nós inclusivo” produz o efeito de identificação entre enunciador e enunciatário, anulando a distância, produzindo o efeito de sentido de aproximação da enunciação.

se estabelece pelo texto, como se o narrador tivesse trazendo o leitor para dentro do texto. O caráter enunciativo desse editorial também é revelado pela observação do enunciador (o que não é verdade), expressando a sua opinião em relação ao assunto tratado.

Outro aspecto a destacar é o uso da pergunta retórica: Qual seria a estratégia para conter vazamentos?, que produz efeito de diálogo com o leitor, a relação de uma comunicação aqui-agora, com o propósito de simular o diálogo face a face, como se o leitor pudesse responder imediatamente, colocando-o, assim, na cena da enunciação.

No editorial da Folha, o título Segurança no pré-sal traz uma informação objetiva de caráter enuncivo, sem imprimir no texto a marcação enunciativa. O narrador do texto se manifesta em 3ª pessoa do singular (Pode-se...). Com esse recurso, a Folha apresenta ao seu leitor um texto enuncivo, pois o enunciador não projetou no enunciado a marca do eu da enunciação (debreagem enunciva), dando a impressão de que o enunciador é imparcial em relação ao que escreve, pois não deixa transparecer, por meio de suas escolhas, a sua opinião no texto. Em razão disso, a Folha assegura ao texto a formalidade, o distanciamento e a objetividade próprios do gênero editorial.

Em síntese, do ponto de vista da enunciação, o Agora apresenta, embora não muitas, marcas enunciativas explícitas, e a Folha mantém-se distante, apagando as marcas enunciativas, produzindo um texto enuncivo.

Embora os dois editoriais tenham, aparentemente, quase o mesmo número de palavras (Folha: 277 palavras/1.693 caracteres; Agora: 268 palavras/1.589 caracteres), os parágrafos são bem diferentes. O editorial da Folha é estruturado em seis parágrafos articulados em períodos, na maioria, compostos por coordenação e subordinação. Destacam-se, nos períodos compostos por coordenação, as orações aditiva e adversativa (O desastre derrubou o valor das ações da BP e ajudou a diminuir os índices de aprovação/Mas é dever do estado exigir...). Quanto ao período composto por subordinação, destacam-se as orações adjetivas (no momento em que o governo brasileiro alimenta a euforia.../no mesmo dia em que o presidente Lula comemorava o início da extração...) e as orações substantivas subjetivas (É natural que

o caso da BP provoque apreensões/Pode-se entender que o presidente erre feio em geografia). Já o editorial do Agora é organizado em doze parágrafos (o dobro da Folha), a maioria com períodos simples (Seria o maior desastre ecológico da história./Mas um passo foi dado./A descoberta desses campos foi uma vitória da empresa brasileira./O governo e a Petrobras não dão respostas satisfatórias./As nossas também deveriam estar.), o que facilita o entendimento para um leitor que esteja tão familiarizado com a leitura. Observe-se que o número de parágrafos do editorial do Agora não corresponde a um texto mais longo. O que acontece é que, no Agora, cada parágrafo não passa de dois períodos na maioria simples, períodos curtos, próprios das interações faladas.

O tratamento lexical nos dois editoriais é bem diferente. A Folha, em função de seu leitor, prima por um vocabulário culto, característica dos textos escritos; já o jornal Agora, em razão do perfil específico de seu leitor, acaba por fazer escolhas lexicais mais simples, usadas nas interações coloquiais, vindo, assim, o texto marcado pela oralidade. Apresentamos, a seguir, um quadro para comparar as escolhas feitas em cada um dos textos, no qual verificaremos que os recursos lexicais usados para apresentar as mesmas ideias são diferentes:

Agora Folha

... as várias tentativas de tampar o

buraco, por onde jorrava petróleo no

golfo do México. (parágrafo 1º)

... a empresa britânica conseguiu

estancar, de forma provisória, o jorro do

petróleo no oceano. (parágrafo 1º)

... conseguiu tampar o buraco, por onde jorrava o petróleo. (parágrafo 3º)

O anúncio da contenção do vazamento no golfo... (parágrafo 3º)

... é uma atividade arriscada, e podem oferecer falhas. (parágrafo 7º)

... provoquem apreensões quanto à

segurança do empreendimento...

(parágrafo 4º)

... caso uma coisa dessas aconteça no Brasil. (parágrafo 8º)

O país precisa saber quais os planos de

emergência e as salvaguardas ambientais... (parágrafo 4º)

Lula não quer nem falar no assunto. (parágrafo 9º)

Lula parece considerar inaceitável

qualquer questionamento sobre o tema.

(parágrafo 5º)

Embora não seja traço marcante da oralidade, outro aspecto que se manifestou no texto do jornal Agora foram os termos que demonstram imprecisão (Há quem estime.../Ninguém sabe.../Já tem gente dizendo.../Muita gente.../Há autoridades...). Se compararmos com a Folha, essas imprecisões não serão encontradas, uma vez que esse jornal precisa a todo o momento comprovar e convencer seu leitor, que aparentemente parece saber sempre o que está acontecendo no País e não se contenta com explicações vagas. Já no jornal Agora parece, por meio dos termos utilizados, não ter necessidade de dar tantas explicações ou explanações sobre o assunto, levando a crer que o seu leitor talvez nem perceba tais imprecisões ou não esteja interessado nelas.