5. A ANÁLISE E A INTERPRETAÇÃO DOS DADOS
5.2. Editoriais
5.2.3. Editoriais do dia 10 de janeiro de 2010 (domingo)
Agora São Paulo
Perdão, só depois do julgamento
O governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, é acusado de comandar um esquema de pagamento de propinas e compra de apoio de parlamentares na Câmara local. Contra ele pesam os vídeos divulgados no final do ano passado em que políticos, empresários e assessores aparecem embolsando boladas de dinheiro – guardadas também em meias, cuecas e pastas.
A farra foi toda gravada por um ex-secretário do governador, que se tornou informante da Polícia Federal.
Depois de sumir por um tempo, Arruda vem aos poucos reaparecendo em cerimônias públicas. Nesta semana, durante discurso, resolveu tratar do assunto. “Quero dizer a vocês, de coração mesmo, que eu já perdoei a todos os que me agrediram”, disse ele. “E sabe por que eu perdoei? Porque só assim eu posso também pedir perdão dos meus pecados.”
O governador parece não perceber que não basta pedir perdão ou dizer que perdoa. Ele é acusado de desviar dinheiro público. O que os cidadãos de Brasília e do resto do Brasil desejam é que os crimes a ele atribuídos sejam investigados – e que recursos de impostos de pessoas honestas não voltem a ser desviados.
Neste momento, Arruda instrui sua base aliada para bloquear o andamento dos processos de impeachment contra ele na Câmara Distrital. Em vez de pedir perdão, o melhor que poderia fazer era se licenciar do cargo – e permitir que seu julgamento fosse adiante.
Folha de S. Paulo
Haja perdão
Uma boa dose de paciência, e até de bom humor, é necessária ao cidadão que acompanha alguns episódios do noticiário político. Graves irregularidades acabam por assumir um aspecto folclórico, e a caricatura toma conta da realidade.
Abandonada a famosa justificativa dos panetones para a população carente – teria sido para comprá-los que o governador do DF, José Roberto Arruda, embolsou dinheiro vivo num vídeo de repercussão nacional –, o personagem volta à cena.
Declara, num evento público, que “perdoa” aqueles “que o agrediram”. Só assim, continuou, “eu posso também pedir perdão dos meus pecados”.
Não é a primeira vez, como se sabe, que Arruda apela à generosidade da população. Em 2001, da tribuna do Senado, depois de alguns dias jurando inocência no caso da violação do painel eletrônico, admitiu a participação no escândalo e, emocionado, pediu perdão pelo que fez.
Seria o caso de dizer que agora a história se repete como farsa; mas de farsa já se tratava no primeiro episódio – e as novas desculpas de Arruda mais parecem assemelhar-se a alguns sambas e boleros do passado, em que maridos incorrigíveis e boêmios contumazes prometem à mulher, com muita ginga e humildade, emendar-se da próxima vez.
A vontade é de desligar a velha radiovitrola – mas a política de Brasília não dá sossego. Veja-se o caso das passagens aéreas.
No auge do escândalo, a mesa do Senado determinou que não mais se acumulassem de um ano para outro as cotas dos senadores. A medida foi revogada em dezembro. Como se não bastasse, Senado e Câmara registram aumento nos gastos com horas extras de funcionários em 2009. Haja perdão para tudo isso.
O editorial do jornal Agora é construído em 3ª pessoa (característica dos editoriais segundo os manuais de redação), o que dá o efeito de certo distanciamento, porém a categoria enunciativa de tempo está bem marcada no texto com o uso dos adjuntos adverbiais “Nesta semana” e “Neste momento”, o que aproxima o enunciatário da cena enunciativa, produzindo o efeito de presentificação. Além disso, podemos perceber que a fala do interlocutor no 3º parágrafo, delimitada no texto pelas aspas (Quero dizer a vocês...), é enunciativa, constituindo um interlocutor em 1ª pessoa. Na Folha, o editorial é um texto enuncivo, com o narrador em 3ª pessoa, sem marcas de tempo e lugar, o que assegura o distanciamento, a objetividade e a formalidade desse tipo de texto. Há, ainda, nos dois editoriais, ancoragens de tempo, citando acontecimentos ocorridos em datas anteriores ao momento da enunciação (Agora: no final do ano passado – 1º parágrafo; Folha: Em 2001 – 4º parágrafo, em 2009 – 7º parágrafo). Esse tipo de ancoragem temporal reforça o caráter enuncivo dos textos.
Em relação à sintaxe, no editorial do jornal Agora, os parágrafos são constituídos de períodos compostos, com a predominância de orações subordinadas adjetivas (em que políticos, empresários e assessores aparecem... – 1º parágrafo/que se tornou informante da Polícia Federal – 2º parágrafo) e substantivas objetivas (O governador parece não perceber que não basta pedir perdãoou dizer que perdoa– 4º parágrafo).
Na Folha, há a presença de parágrafos bem articulados, com períodos compostos por coordenação (mas de farsa já se tratava no primeiro episódio – 5º parágrafo/mas a política de Brasília não dá sossego – 6º parágrafo) e por subordinação, formados por orações substantivas (o caso de dizer que agora a história se repete como farsa – 5º parágrafo/a mesa do Senado determinou que não mais se acumulassem de um ano para outro as cotas dos senadores – 7º parágrafo), adjetivas (que acompanha alguns episódios do noticiário político – 1º parágrafo/em que maridos incorrigíveis e boêmios costumazes prometem à mulher – 5º parágrafo) e adverbial (Como se não bastasse – 7º parágrafo).
Em relação ao tamanho dos editoriais, não há muita diferença entre os jornais: o editorial do Agora é constituído de 6 parágrafos (com 233 palavras/1.167 caracteres), já o da Folha é formado por 7 parágrafos (com 271 palavras/1.372 caracteres). Embora os jornais apresentem a mesma temática, o jornal Agora apenas informa seu leitor sobre o que aconteceu, sem maiores desdobramentos e questionamentos, já a Folha cita outras situações não abordadas no Agora. A Folha, logo no 1º parágrafo, faz menção à suposta informação que seu leitor tem da realidade política brasileira (ao cidadão que acompanha alguns episódios do noticiário político), assegurando, dessa forma, a complexidade que seu texto deve ter se comparado ao texto do jornal Agora. Além disso, cita, no 2º parágrafo, o episódio dos panetones e, no 4º parágrafo, faz uma retrospectiva de outro caso envolvendo o então governador José Roberto Arruda – episódios não abordados no editorial do Agora. Em síntese, não notamos muitas diferenças no que concerne à estruturação dos parágrafos entre os dois jornais.
Quanto ao título, os dois meios de comunicação são irônicos: a Folha, com “Haja Perdão”, enfatizando e ridicularizando a fala de José Roberto Arruda; e o Agora, com “Perdão, só depois do julgamento”, que, além de criticar, acaba por dar maior efeito de dramaticidade à situação abordada.
No que diz respeito ao léxico, o jornal Agora utiliza expressões bem populares, como: “boladas de dinheiro”, “farra”, “sumir por um tempo”, “esquema de pagamento”, “não basta pedir perdão” e “fosse adiante”, confirmando a informalidade do jornal, caracterizando um texto marcado pela oralidade. A Folha usa o termo coloquial “embolsou dinheiro”, porém no
texto predominam os recursos lexicais próprios da escrita, o que assegura ao texto da Folha a marca de escrituralidade.
As aspas, no jornal Agora, foram empregadas apenas para marcar a fala de outro interlocutor no texto – a citação de José Roberto Arruda. Na Folha, as aspas foram utilizadas para destacar os termos (“perdoa”/“que o agrediram”/“eu posso também pedir perdão dos meus pecados”) que fazem parte do discurso de Arruda, que não foi reproduzido na íntegra nesse jornal. Esse recurso de citar em um discurso indireto fragmento do enunciador citante é uma forma híbrida de citação. Trata-se, segundo Maingueneau (2005, p. 151), de uma ilha textual ou ilha enunciativa. A ilha enunciativa é um recurso muito utilizado na imprensa escrita, estando integrada à sintaxe do texto, sendo percebida apenas pelo recurso gráfico, no caso do texto, pelas aspas.
Podemos resumir a análise comparativa dos editoriais dos jornais no seguinte quadro:
Agora Folha
Aspectos enunciativos Texto com marcas
enunciativas, buscando a interação com o leitor, apresentando nisso traços de oralidade. No entanto, do ponto de vista da enunciação, mantém-se o editorial do Agora predominantemente enuncivo.
Texto enuncivo, em que o ato da enunciação não é projetado no enunciado por nenhuma marca, sendo produzido, assim, um texto com efeito de sentido de distanciamento,
objetividade e formalidade,
característica da
escrituralidade.
Estruturação sintática Períodos curtos e simples,
em geral. Quando
compostos, são
estruturados por
Períodos compostos, bem articulados e organizados sintaticamente. Destacam- se os períodos compostos
coordenação ou subordinação. No último caso, só ocorrem relações subordinadas adjetivas e substantivas. Portanto, são as estruturas sintáticas das interações cotidianas.
por coordenação e por
subordinação. Na
subordinação, há a
prevalência das orações adjetivas e substantivas, ocorrendo, em raras vezes, orações adverbiais.
Escolha lexical Maior incidência de termos
coloquiais e populares.
São as raras as ocorrências de termos da linguagem coloquial. O léxico dos textos está em sintonia com
um público leitor
familiarizado com textos escritos.
Outros recursos É pouco usado o recurso das aspas. Quando é usado ele se restringe às citações. Recurso das aspas utilizado em menor proporção que a Folha. Quando usado, para indicar citação de outro interlocutor no texto.
Além de usar as aspas para as citações, há ocorrências em que a sua função é atribuir um sentido irônico ou mostrar que determinado termo usado pertence a um outro enunciado que não ao jornal.
Em síntese, o editorial é um texto caracterizado pela enuncividade, ou seja, pela escrituralidade, que produz no enunciado o efeito de objetividade e distanciamento. Jornais como a Folha mantêm esse padrão de distanciamento, formalidade e objetividade com o seu leitor. Por outro lado, jornais como o Agora nem sempre conseguem apresentar em seu editorial esse distanciamento, pois, às vezes, em função das escolhas lexicais, o texto pode conter efeito de sentido de aproximação e informalidade. Assim, em razão da imagem de cada
leitor a ser conquistado, esses jornais acabam por apresentar características distintas, mesmo ao apresentarem o mesmo gênero.