• Nenhum resultado encontrado

2 CONCEITOS BALISADORES

5.1 CAPITALISMO E SUJEITO

Para tecer considerações sobre a relação entre o capitalismo e o sujeito conformado em suas entranhas, pergunta-se com Zizek: “Então, em que pé estamos hoje?” (2008, p.391). E a resposta, a princípio, é acessível: na contramão dos sistemas “totalitários”, a exemplo do fascismo e do stalinismo, “que pregavam a mobilização sacrificatória do organismo social inteiro, uma espécie de estado de exceção permanente, nosso capitalismo tardio se caracteriza por uma permissividade sem precedentes” (ZIZEK, 2008, p.391). É certo. Contudo, o grande problema da permissividade contraria o senso comum. A interpretação generalizada afirma que a falta de limites frustra a todos porque conduz de um excesso ao outro. Para romper com esse ciclo vicioso, tão somente a imposição de limites e proibições seria capaz de manter a estabilidade e promover a satisfação; satisfação esta obtida via transgressão do limite, da proibição. Zizek, então, esclarece:

o que esse topos deixa de lado é o verdadeiro paradoxo em ação aqui: longe de nos frustrar porque simplesmente não impõe limites, a ausência de limitações explícitas nos faz confrontar o Limite como tal, o obstáculo inerente à satisfação; a verdadeira função da limitação explícita, portanto, é manter a ilusão de que, ao transgredi-la, conseguiremos atingir o ilimitado (2008, 391).

A limitação explícita, quando deixa de existir, promove o encontro com o Real, com a impossibilidade de reencontro do objeto perdido, com a falta estrutural. E cai-se no ressentimento. Quando a limitação explícita deixa de existir, para preencher o vazio do sem- sentido passa a existir uma provocação constante para que se faça, já que se pode fazer. Nas palavras de Zizek, “o imperativo de gozo superegóico serve de inversão do “Du kannst, dennn Du sollst!”[Podes, porque tens de!]de Kant – baseia-se num “Tens de, porque podes!”(2008, p.409). Se não há repressão, o permitido transforma-se em obrigatório.

E, novamente, questiona-se: “a injunção capitalista ao gozo visa de fato incitar a jouissanceem seu caráter excessivo ou, antes, em última análise estamos lidando com uma espécie de princípio do prazer universalizado, com uma vida dedicada aos prazeres?” (ZIZEK, 2008, p.410). Ou seja, é preciso refletir sobre a intenção do imperativo de gozo

superegóico que impõe a diversão e a auto-realização. Para Zizek, tais injunções estão postas para “evitar a jouissance excessiva” (2008, p.410), por meio do estabelecimento de um equilíbrio homeostático. Todavia, surge um problema explicitado pelo autor: “embora a injunção imediata e explícita exija o domínio de um princípio do prazer que mantenha a homeostase, o funcionamento real da injunção faz explodir essas restrições num esforço rumo ao gozo excessivo” (2008, p. 410). O capitalismo adota o excesso como força propulsora; ainda que pretenda exercer o controle, não altera sua natureza.

A jouissance fundamenta-se, pois, no capitalismo. Além da propulsão pelo excesso, o capitalismo global e a injunção superegóica do gozo compartilham o caráter “sem mundo” (ZIZEK, 2008, p. 417). Este ponto merece atenção especial:

Talvez seja aí que devamos localizar o “perigo” do capitalismo: apesar de global, de englobar todos os mundos, ele sustenta uma constelação ideológica “sem-mundo” stricto sensu, privando a grande maioriado povo de todo e qualquer “mapeamento cognitivo” que tem sentido. A universalidade do capitalismo reside no fato de que o capitalismo não é o nome de uma “civilização”, de um mundo simbólico-cultural particular, mas o nome de uma máquina simbólico-econômica neutra que opera tanto com valores asiáticos quanto com outros [...] fato universal, matriz neutra de relações sociais. Há uma Verdade “universal” genuína que atravessa a miríade de mundos (ZIZEK, 2008, p.418).

Claro está que, diante destas relações perigosas, o modo de interpelação ideológica transformou-se. Durante a Idade Média, a Igreja, na função de aparelhos ideológicos do estado (AIE), coordenava a dominação ideológica. Na modernidade, o capitalismo assumiu este papel através da ordem legal e da educação; o cidadão vive sob o domínio da ordem legal e os indivíduos são educados nesta mesma ordem. Desta forma, inaugura-se uma clivagem essencial: de um lado, o sujeito, que se relaciona com o Estado – o cidadão; do outro, o indivíduo, formado para viver sob a lei, mas tendo os limites de seu modo de ser particular respeitados. O indivíduo está livre para ser egoísta e buscar a realização do autointeresse. Inicia-se o processo de dessimbolização. Pela compreensão espontânea, a ideologia reina na esfera do Estado, do ordenamento jurídico, da cidadania; a esfera privada está numa posição “pré-ideológica”. Ao assumir esta diferenciação entre o que é ideologia e o que ainda não é ideologia – a existência de um espaço livre de qualquer domínio invisível –, como se observou no subitem 3.2 deste trabalho, estamos no campo da ideologia.

No capitalismo contemporâneo o que se evidencia é que “a própria economia (a lógica do mercado e da concorrência) se impõe cada vez mais como ideologia hegemônica” (ZIZEK, 2011, p.10). Assim, as atividades humanas, nas palavras de Sen, deixam de lado

motivações relacionadas à ética e passam a ser orientadas por finalidades econômicas mais próximas à “engenharia”. Pode-se mencionar como exemplo a educação e a saúde, o processo de automercadorização das relações “amorosas” e mesmo as eleições. A "razão instrumental", portanto, deixou de ser uma ideia observável no campo da crítica da ideologia, como mecanismo de dominação social, e tornou-se a base da dominação.

Então, se os interesses privados estão na esfera pré-ideológica, este “admirável mundo novo de mercadorização global se considera pós-ideológico” (ZIZEK, 2011, p.12). É a percepção – ideológica – da ausência de ideologia na esfera econômica. Zizek explica:

Isso não significa que a ideologia apenas reflita diretamente a economia como sua base real; continuamos totalmente dentro da esfera do aparelho ideológico de Estado, a economia funciona aqui como modelo ideológico, de modo que temos toda razão em dizer que a economia funciona aqui como aparelho ideológico de Estado – ao contrário da vida econômica “real”, que definitivamente não segue o modelo idealizado do mercado liberal (2011, p.12).

Exemplo estonteante da economia como aparelho ideológico de Estado reside no fato da apresentação de decisões políticas como questões de necessidades econômicas. Mais uma vez, a despolitização dos fenômenos sociais, lançando-os para a esfera puramente administrativa.

O sujeito do capitalismo pós-moderno, assim, possui uma subjetividade marcada pela demanda, que difere do desejo. A demanda ainda vincula-se a necessidade. O desejo, por sua vez, surge da falta, quando os objetos de satisfação tornam-se monótonos; torna-se urgente buscar outros objetos parciais para dar conta, sempre momentaneamente, do instinto pulsional. Essa busca forma a particularidade do sujeito. O desejo surge nos interstícios da demanda (na demanda por alimento, por exemplo, estrutura-se o desejo por amor); por isso, focar somente na satisfação das demandas sufoca o aparecimento do desejo. Se quer (demanda), se tem, não se sabe o que se quer (deseja). Vale lembrar: não basta impor limites ao ter; a grande questão é o encontro com o limite fundamental: não se pode ter tudo – a satisfação será sempre parcial e não há remédio para a morte. Acontece que o imperativo superegóico para o gozo, que não barra a jouissance, na sua frenética busca de felicidade, na sua fuga do real do sem-sentido, impele à satisfação imediata, confundindo demandas e desejo. O sujeito pós-moderno é, pois, desbussolado quanto ao seu desejo.