2 CONCEITOS BALISADORES
4.1 O ESTADO ATRAVESSOU O OCEANO
No Brasil, a conformação desta base material de mediação ocorre de maneira tortuosa. Historicamente o nosso Estado não foi organizado através da emancipação burguesa seguida
aliança contratual firmada entre o poder central e a chamada sociedade civil, sendo cada uma dessas esferas dotada de certa autonomia e possibilidade de controle do poder uma da outra. Aqui devemos adotar uma linha interpretativa menos funcional e mais estruturalista, reconhecendo o Estado como uma instituição dotada de características e movimentos próprios, herdeiro da constituição patrimonialista. Isto significa que o poder central é forte e não representa necessariamente grupos ou setores organizados da sociedade; ao contrário, seu poder se exerce a partir de negociações permanente sobre os benefícios e privilégios que controla. A sociedade civil, por seu turno, é fraca e desarticulada.
Em 1927, a partir de sua ligeira pretensão de “apenas esboçar uma visão panorâmica do povoamento e evolução da terra brasileira” (2012, p.35), Prado admite que o Brasil “foi descoberto ao acaso, e ao acaso o deixaram durante longos anos” (2012, p.65); foi a cobiça, a força da ambição pelo ouro, pelas especiarias e pelas riquezas minerais e vegetais que impulsionou o dinamismo da exploração do território nacional. O autor, como vimos, adota o transoceanismo de Cipriano de Abreu – “o desejo de ganhar fortuna o mais depressa possível para desfrutar no além-mar” (PRADO, 2012, p. 62) –, que pode ser reconhecido como a elaboração conceitual da primeira manifestação daquela que seria a marca fundante da formação social brasileira: a exploração a serviço de interesses particulares. A formação social brasileira não se realizou de forma planejada; foi fruto da invasão e da apropriação continuada – se importaram “menos em construir, planejar ou plantar alicerces, do que em feitorizar uma riqueza fácil e quase ao alcance da mão” (HOLANDA, 1995, p. 95). No entanto, Prado destaca a importância das características da administração pública metropolitana sobre a formação social brasileira:
O atraso, os próprios vícios e defeitos da burocracia central portuguesa foram os fatores preponderantes nesse processo de unificação [...]. A tradição histórica forjara, durante séculos, um formidável instrumento de influência e governo na organização centralizadora da Metrópole [...] Em todos os ramos da atividade social da Colônia, se sentia a ação contínua e minuciosa da pesada máquina administrativa de Lisboa (2012, p.134,135). Sobre a herança portuguesa, Lamounier (2014), ao comentar a obra Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, lembra que o agrarismo português é caracterizado pela predominância do indivíduo e do círculo familiar. Cita Holanda:
Em realidade, não é pela maior temperança no gosto das riquezas que se separam espanhóis ou portugueses de outros povos, entre os quais viria a florescer essa criação tipicamente burguesa que é a chamada mentalidade capitalista. Não é sequer por sua menor parvificência, pecado que os moralistas medievais apresentavam como uma das modalidades mais
funestas da avareza. O que principalmente os distingue é, isto sim, certa incapacidade, que se diria congênita, de fazer prevalecer qualquer forma de ordenação impessoal e mecânica sobre as relações de caráter orgânico e comunal, como os são as que se fundam no parentesco, na vizinhança e na amizade (apud LAMOUNIER, 2014, p. 212).
Tais características foram reproduzidas no processo de colonização, pela conformação de sua base material e cultural. Sob a óptica material, através da adoção de certos instrumentos de organização da produção, como as sesmarias, engenhos e latifúndios, o agrarismo lusitano foi reforçado. A escravidão, pilar da produção agrícola, ao tempo em que distinguia o empreendimento colonial com traços mercantis, cuja produção destinava-se ao exterior, “garantia a perpetuação da velha aversão pelo trabalho manual e até pelo trabalho regular, de modo geral” (LAMOUNIER, 2014, p.213). Como consequência direta, nas comunidades isoladas e dispersas, as relações fundadas “no parentesco, na vizinhança e na amizade” foram cristalizadas. O campo dominava a cidade, que era vista tão somente como palco para os festejos religiosos. Novamente, mister se faz afirmar que este processo de socialização e internalização de instituições não foi planejado; a tendência ao improviso, segundo Manuel bandeira, e ao desleixo, no termo de Sérgio Buarque de Holanda, faz-se presente na conformação do Brasil colônia. A colonização por estas bandas não aspirava à construção do que quer que fosse, era movida pelo “enriquecimento aventureiro e predatório” (LAMOUNIER, 2014, p.214).
A reprodução dos padrões de sociabilidade da metrópole portuguesa, com centro no indivíduo e nas relações familiares, consubstanciou-se, na colônia, numa dificuldade relevante para se construir a ordem pública. No modelo de estruturação social introjetado no Brasil, o círculo familiar se expande e abarca as demais relações sociais, submetendo-as, o que inviabiliza – ou contribui sobremaneira para inviabilizar – o surgimento de uma esfera impessoal que transcenda os laços de dependência, fidelidade e dívida parental. Fica, assim, caracterizado o surgimento do Estado brasileiro, como extensão do “recinto doméstico”. Nem será preciso explicitar o patrimonialismo.
Como a motivação desta pesquisa nasce do reconhecimento da precariedade da cidadania usufruída pela massa da população brasileira, e diante desta narrativa sobre a origem do Estado, cabe refletir com Holanda, comentado por Lamounier:
Sinteticamente, o argumento de Sérgio Buarque de Holanda é que não pode haver democracia e cidadania onde não existe um verdadeiro Estado. No modelo político republicano-liberal, tomado em abstrato, Estado, democracia e cidadania devem interpenetrar-se e se reforçar mutuamente, catalisados
pela efetiva vigência da lei e por outras normas impessoais de conduta. Onde não existe um Estado verdadeiramente legal e impessoal, não pode haver democracia em cidadania. Mas como poderá tal Estado surgir num país com características opostas, no qual o poder público não consegue se desprender realmente do poder privado, e cuja cultura traz ainda bem nítidas as imagens do indivíduo e da família, com a peculiar dilatação que lhes imprimiu o agrarismo português? (2014, p.209).
A nossa formação social, portanto, individualista e familiar, carente da “moral do trabalho” (HOLANDA, 1995), dificultou o surgimento da ordem pública necessária à democracia e à cidadania e contrapôs-se a capacidade de organização social. De acordo com Holanda, “o esforço humilde, anônimo e desinteressado é agente poderoso da solidariedade dos interesses” (1995, p.39); dito de outra forma, a moral do trabalho estimula a organização e a coesão social, através da associação mediada pela convergência de interesses. No caso dos portugueses e espanhóis, na ausência da moral do trabalho, a solidariedade
existe somente onde há vinculação de sentimentos mais do que relações de interesse – no recinto doméstico ou entre amigos. Círculos forçosamente restritos, particularistas e antes inimigos que favorecedores das associações estabelecidas sobre plano mais vasto, gremial ou nacional (1995, p.39) As práticas associativas, seguindo a tendência de predomínio das relações de parentesco e de amizade, assumem o viés clientelista. A sociedade civil gramsciana surge fragilizada, sem condições de fazer frente ao Estado e aos interesses econômicos em geral. É o homem cordial em ação. Uma formação social onde tanto o Estado quanto a sociedade civil têm sua gênese nas relações afetivas familiares – o que Lamounier denomina de “indiferenciação da ordem “pública” e a atrofia da arte de associação” (2014, p.211), testemunha a sobreposição do privado sobre o público, do particular sobre o geral, dos interesses individuais sobre os coletivos.