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O cinema privilegia também o imaginário humano, tentando demonstrar como a imaginação é desenvolvida e interferida pelo filme e como se estabelece a relação

entre o autor, o texto e o espectador. O filme revela o que não é visível, como aspectos que ultrapassam as imagens e expressam a ideologia da sociedade ou ainda que ajam como forma de conscientização dessa sociedade. Pode-se dizer, portanto, que as imagens cinematográficas são “uma reflexão em torno do mundo que as cerca, ao mesmo tempo em que recriam uma possível porém imaginária visão de alguns aspectos da sociedade, que é apenas uma entre as várias visões possíveis” (Kornis, 1992, p. 249). A importância do papel do filme interpõe uma série de variáveis, dentre as quais a legenda é uma delas e pode interferir de maneira significativa em como o conteúdo é percebido e construído pelo espectador.

No resultado dessa construção, as legendas podem ser alvos de críticas algumas vezes injustas e superficiais, geralmente focadas na supressão de informações, na “infidelidade” com as falas do filme, no uso de expressões estranhas à língua de chegada. Em sua maioria, essas críticas não consideram as peculiaridades do ambiente audiovisual e do processo de legendagem por não serem de conhecimento dos críticos (estes sendo, em grande parte, o público com certo grau de conhecimento da língua original). Isto ocorre devido ao espectador ainda acreditar que a boa tradução é aquela literal (como veremos mais adiante), no entanto abordagens mais modernas consideram a tradução descritiva a mais adequada. Esses estudos abrangem a tradução em todo seu processo, seu produto e sua função dentro do contexto em que foi desenvolvida para, então, entender na prática como ela é recepcionada e quais efeitos são ocasionados. Dessa forma, não podem os críticos apenas analisar as legendas em contexto único, devem verificar todo o seu ambiente audiovisual (ambientes de produção, distribuição e exibição dos materiais audiovisuais, as características técnicas de elaboração das legendas, a atuação dos profissionais e suas condições de trabalho, o público a que se destina a tradução, etc.) para uma crítica mais precisa.

Por serem meios de comunicação, os produtos audiovisuais acabam por transmitir informações, mensagens, conceitos, opiniões e até mesmo ajudam a formá-las, ou apenas divertem. Entretanto, para conseguir atingir seus objetivos comunicativos, eles devem, acima de tudo, ser aceitos e muito bem assimilados pelos espectadores. Assim, imagine ainda adicionar um elemento a mais em todo esse processo de percepção. Destarte, a tradução de filmes por meio da legenda pode se tornar, para o receptor, a modalidade mais exigente cogntivamente. A transformação de texto oral por texto escrito obriga o receptor a se exigir um pouco mais, isso porque sua atenção será dividida para funções distintas: escutar o som, assistir às imagens e ler as falas dos personagens. Entende-se, então, porque os filmes

legendados exigem tanto dos seus espectadores e muitas vezes tornam-se tarefa quase impossível para alguns.

A primeira dificuldade encontrada aqui vem com a necessidade de contato com dois conteúdos: verbais e não-verbais. Verbais no que tange a língua falada e a escrita, e não-verbais, as imagens. Associa-se a isso a demanda do receptor em ler a legenda quase ao mesmo tempo em que vê as imagens e escuta os sons. Essa troca de asssimilação de códigos não ocorre de forma natural, o que demanda um esforço ainda maior. Porém, o espectador busca por essa naturalidade de forma que ele tenha a impressão de que “está escutando o que realmente está lendo”. Outro aspecto ligado a esse é a utilização da escrita para representar um discurso oral. Não há dúvida de que a perda linguística ocorre nesses processos, devido ao espaço que a legenda ocupa e à velocidade de leitura. Contudo não só a fala fica prejudicada, a imagem também sofre perdas. O filme não é produzido para conter legendas, sendo a imagem invadida por esse elemento adicional. Toda essa comunicação audiovisual (som, imagem e fala) orienta o receptor ao entendimento do filme, mas pode ser um empecilho para a tradução.

Todas essas peculiaridades tornam a legendagem uma forma singular de tradução. Henrik Gottlieb, no seu já referido trabalho, aponta cinco características básicas desse processo tradutório. A legendagem é, primeiramente, de natureza escrita, o que a difere das outras modalidades de tradução audiovisual. Uma segunda característica é pela legenda ser adicionada ao texto original, mantendo assim a língua fonte no discurso. Pode-se dizer também que ela é imediata, já que as traduções são apresentadas ao receptor sem que este possa interferir na sua fluidez, seguindo a necessidade de serem sincronizadas com os diálogos do original. Um último aspecto abordado por Gottlieb trata do uso de pelo menos dois canais paralelos para a total transmissão do original.

O autor Patrick Zabalbeascoa (apud GIMBERT, 2005) defende um modelo ao se produzir traduções – P-R Model. Esse modelo se baseia na idéia de que sempre haverá “prioridades” e “restrições” – chaves para as soluções e técnicas na tradução – a serem respeitadas. Para os tradutores, prioridades são as características formais e funcionais que a tradução terá. Já para os receptores, são as características interpretativas, os aspectos explícitos e implícitos da tradução. As restrições são todas as dificuldades enfrentadas, tanto interna como externamente ao texto, e acabam por hierarquizar as prioridades do tradutor.

Dessa forma, são selecionados os diálogos ou partes dos textos que serão mantidos na tradução.

Para maior detalhamento, utilizaremos as diferenciações de Gottlieb para algumas restrições na legendagem. O autor chama de restrições formais aquelas que englobam aspectos quantitativos como o fator espacial da legenda, ou seja, o limite máximo de caracteres pré-estabelecido pelo tamanho da tela, e o fator tempo – a leitura exige mais tempo. Outras restrições são as textuais que atentam para a qualidade das legendas. Quando introduzidas nas imagens do filme, este pode ficar prejudicado devido ao posicionamento e à duração das legendas que devem coincidir com a dinâmica das cenas. Cabe ao tradutor, muitas vezes como solução, reduzir as legendas. Outra preocupação com qualidade é a de refletir o estilo, a espontaneidade, o tempo das falas, a sintaxe e a ordem dos elementos principais nos diálogos. Nas palavras do autor (GOTTLIEB, 1997, p.74): “A recepção dos espectadores de um programa de televisão legendado está baseada na interação legenda- imagem, com o diálogo fazendo o papel principal” 9 [tradução própria]. As atenções devem estar focadas nos valores estilísticos e semânticos para preservar a qualidade da tradução.

Outra barreira que a legendagem encontra é a não-familiaridade do espectador com o tema abordado no filme, seja por motivos sociais, étnicos, geográficos, históricos, de religião, de sexo, de idade, etc. Muitas vezes, o que determina o conteúdo da legenda é o grau de intimidade que o espectador tem com o assunto abordado. Isso ocorre também de acordo com a bagagem linguística de cada indivíduo, ou seja, seus padrões de linguagem e sua capacidade de identificação com o outro. Cabe ressaltar que o “outro”, manifestado no processo de legendagem, é a cultura do texto original. De acordo com esse grau de familiaridade, o espectador responde positiva ou negativamente ao que foi assistido intermediado pela legenda. Para Gottlieb (1997, p. 74), essa resposta negativa pode ser percebida tanto pelo tradutor quanto pelo espectador quando: “programas satíricos apresentam trocadilhos que se referem a fenômenos verbais, como homônimos específicos da língua-fonte e piadas, que pressupõem um conhecimento detalhado de pessoas e lugares na cultura-fonte” 10 [tradução própria].

9 The viewers’ reception of a subtitled television program is based on the interaction subtitles-picture, with the

dialog playing a pivotal role.

10

Satirical programs present puns referring to verbal phenomena such as source-language specific homonyms, and jokes presupposing a detailed knowledge of people and places in source culture.

Na tentativa de “fidelizar” o texto ao seu original, o espectador depara-se com dificuldades definidoras para o entendimento. Dessa forma, estudiosos buscam novas formas de tradução que abarquem também elementos extralingüísticos, até porque nenhuma tradução é cópia fiel de seu original já que línguas diferentes possuem estruturas lingüísticas diferentes. Gottlieb (1997, p. 88) assegura:

Todas as linguagens humanas expressam nada mais que sua própria cultura: diferentes idiomas possuem diferentes campos semânticos e diferentes regras de coerência e coesão entre elementos. E não apenas os idiomas diferem em termos do que pode ser dito; eles também diferem em termos do que provavelmente será dito em situações específicas 11 [tradução própria].

Ainda para o autor, a “noção de tradução equivalente é um ideal ilusório para diálogos de filmes e TV” (tradução própria). Curioso Gottlieb se referir à tradução equivalente como se esta fosse literal, ou ainda tradução palavra-por-palavra. Barbosa (2004) difere um pouco dessa classificação e levanta alguns modelos de procedimentos de tradução que, de maneira mais objetiva, auxiliam o tradutor em seu trabalho. Apesar de não serem diretamente voltados para tradução audiovisual, vários desses procedimentos são muito utilizados na legendagem. A autora faz uma diferenciação entre tradução palavra-por-palavra, tradução literal e equivalência. Na primeira, conserva-se a mesma ordem sintática da frase e vocábulos com “semântica idêntica” ao original. A tradução literal procura manter fidelidade semântica, ajustando a morfossintaxe às regras gramaticais da língua de chegada. Certos autores condenam esse procedimento por ser o responsável por diversos erros na tradução. A tradução equivalente consiste em substituir um segmento do texto original por outro na língua de chegada que seja funcionalmente equivalente. É um recurso muito utilizado, por exemplo, na tradução de clichês e expressões idiomáticas. Como se pode notar, a tradução equivalente é uma solução muito utilizada na legendagem, até mesmo como forma de adaptação cultural que o tradutor procura realizar para facilitar o entendimento do público receptor.

11All human languages express nothing but their own culture: different languages have different semantic fields and different usage-governed rules for collocation and cohesion between elements. And not only do languages differ in terms of what can be said; they also differ in terms of what is likely to be said in specific situations.

Como dito anteriormente, a legenda não ocorre de maneira única. Por conseguinte, o processo em si também não. Podemos dividir a legendagem seguindo seu objetivo lingüístico e suas versões. Linguisticamente, a legendagem pode ser intralingual, quando feita dentro de uma mesma língua e cultura. A legendagem interlingual é a tradução feita de uma língua para outra. Nesse caso, o tradutor ultrapassa a questão da língua e busca apresentar a cultura do texto original na legenda. Tecnicamente, distinguimos a legenda em aberta ou fechada. A primeira ocorre quando a tradução é apresentada junto com a versão no original, sem opção para o receptor. É o caso da legendagem de filmes que podem ser mostrados com ou sem as legendas. A legenda fechada é adicionada optativamente ao original, conforme preferência do espectador. É o que ocorre em alguns programas de televisão via satélite cuja legenda é transmitida por diferente sinal.

Após de apresentadas todas essas características peculiares, observamos que a legendagem se dá de maneira muito especializada, envolvendo diferentes canais semióticos e sendo definida por certas limitações espaciais e temporais. Para entendermos melhor a complexidade da legendagem, iremos abordar, na seção seguinte, o conceito de tradução diagonal de H. Gottlieb.