PRODUTIVOS VOLTADOS PARA A FABRICAÇÃO DE TRATORES AGRÍCOLAS
No intuito de aproveitar maquinários, conhecimentos e participação no mercado, muitas empresas procuram diversificar suas produções e alocarem boa parte dos recursos disponíveis na fabricação de produtos como tratores de esteiras, colheitadeiras e retroescavadeiras. Como todos esses produtos são agrícolas e fazem parte de um contexto de melhorias na produção e produtividade no campo, a sua inserção se torna mais eficiente no dia-a-dia das empresas. No Brasil, sete empresas passam pela divisão metodológica desenhada para o presente trabalho e podem ser observadas com a Figura 4.
Figura 4: Empresas que atuam no Brasil e produzem máquinas e equipamentos agrícolas automotrizes, 2014.
Fonte: ANFAVEA (2015).
Essas empresas estão presentes em quatro Estados brasileiros, são eles, São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul. Todas as empresas, exceto a Caterpillar e a Komatsu, produzem Tratores de rodas, fazendo com que a produção do referido produto seja alta. O Grupo AGCO opera administrando duas grandes empresas no setor, são elas, Valtra e Massey Ferguson. Recentemente, em 2013, as operações do grupo CNH também agruparam outras duas empresas, Case e New Holland, gerando uma nova frente de desenvolvimento tecnológico e institucional na produção de tratores com o nome CNH Industrial. Esses movimentos institucionais que ocorreram no Brasil concentraram o mercado, porém, ao mesmo tempo, possibilitou a criação de grandes operações no território que podem ser percebidas com o estudo dos arranjos produtivos.
Os Estados que, atualmente, se destacam na fabricação de máquinas agrícolas são Rio Grande do Sul, São Paulo, Paraná e Minas Gerais. Para manter essa produção, algumas grandes empresas, fabricantes de tratores, estão há anos com a sua produção ativa. No Rio Grande Sul estão presentes a AGCO, Agrale, Mahindra e John Deere; No Paraná estão CNH Case e CNH New Holland; Em Minas Gerais, CNH Case e CNH New Holland; Em São Paulo, CNH Case, Caterpillar e Valtra. A distribuição nas unidades federativas a partir de sua importância na produção pode ser visualizada no Gráfico 5.
Gráfico 5: Produção de máquinas agrícolas a partir das unidades federativas, 2015.
Fonte: ANFAVEA (2015)
Como é possível observar, essas empresas mantêm as atividades em mais de um Estado simultaneamente, favorecendo o intercâmbio de ideias, contextos regionais, políticas governamentais e, principalmente, aprendizados distintos em cada macrorregião. Os Estados que mantem alta produção agrícola estão inseridos, há anos, em redes de relacionamento institucional que acabam por favorecer a manutenção produtiva dessas empresas.
A forte aderência dessas unidades nas referidas regiões, podem ser melhor compreendidas pelos relacionamentos que existem nas regiões. O trabalho de Tatsch (2006) sinaliza muito bem esse posicionamento ao analisar o maior Estado produtor de máquinas agrícolas de 2012, Rio Grande do Sul. Na época de sua publicação, a autora deixava evidente a importância da comunicação e interdependência da região sul, propondo que a aderência dessas empresas, bem como os desenvolvimentos tecnológicos faziam parte de um movimento de mercado onde o fortalecimento das grandes empresas estava presente. Hoje, é possível visualizar os efeitos dessa estratégia de mercado, onde o Estado do Rio Grande do Sul possui 46,1% da produção brasileira.
A forte participação na região Sul sinaliza uma estratégia de comercialização. Estratégia essa que privilegia a atuação em centros que
25,90%
4,70% 22,80%
46,60%
Produção por Unidade da Federação
se mantêm próximos do grande contingente de clientes e, sobretudo, proximidade com os centros de pesquisa e desenvolvimento da área. Ao aproximar o Gráfico 5 com a Tabela 6, observa-se que as fábricas estão fortemente instaladas nas principais regiões onde os seus produtos se destinam. Seguindo esse exemplo, a região Sul detém 69,40% da produção nacional e, ainda, 37% do consumo nacional de máquinas e equipamentos agrícolas.
Esse movimento de produção, importação e venda das máquinas e equipamentos agrícolas pode ser melhor compreendido com a destinação desse portfólio em solo brasileiro. Como esperado, o grande destino das máquinas segue a tendência e coincide com o eixo produtivo no Brasil, se alocando, principalmente na região Sul e Sudeste. A Tabela 6 sinaliza essa posição e reitera a estratégia das montadoras em manter o eixo produtivo geograficamente posicionado.
Tabela 7: Vendas internas no atacado por unidade da federação, 2015. Regiões Cultivado res motorizad os Trator es de rodas Trator es de esteira s Colheitadei ras Retroescavadei ras Total Norte 57 2.589 55 149 109 2.959 Amazonas 19 25 3 0 4 51 Pará 3 1.189 35 32 51 1.310 Rondônia 29 511 10 46 25 621 Acre 5 111 2 0 7 125 Amapá 1 18 2 0 15 36 Roraima 0 108 0 1 1 110 Tocantins 0 627 3 70 6 706 Nordeste 22 3.331 43 193 284 3.873 Maranhão 1 605 13 30 24 673 Piauí 0 84 0 17 10 111 Ceará 8 179 7 11 57 262 Rio Grande do Norte 0 77 0 6 5 88 Paraíba 0 126 1 7 19 153 Pernambuco 4 292 9 0 62 367 Alagoas 0 187 0 7 5 199 Sergipe 0 485 2 9 18 514 Bahia 9 1.296 11 106 84 1.506 Sudeste 562 11.891 184 348 1.256 14.24 1 Minas Gerais 157 4.115 54 147 399 4.872 Espírito Santo 285 1.016 13 0 71 1.385 Rio de Janeiro 67 142 5 0 5 219 São Paulo 53 6.618 112 201 781 7.765 Sul 352 13.894 75 1.813 484 16.61 8
Paraná 25 4.870 20 778 292 5.985 Santa Catarina 260 4.562 38 138 36 3.034 Rio Grande do Sul 67 6.462 17 897 156 7.599 Centro-Oeste 66 5.676 23 1.414 125 7.304 Mato Grosso 10 2.668 4 848 28 3.558 Mato Grosso do Sul 2 1.195 0 223 22 1.442 Goiás 12 1.683 18 336 66 2.115 Distrito Federal 42 130 1 7 9 189 TOTAL 1.059 37.381 380 3.917 2.258 44.99 5 Fonte: ANFAVEA (2016).
Dessa forma, a distribuição das vendas no Brasil se destina em 6,93% para a região Norte, 8,91% para a região Nordeste, 31,81% para a região Sudeste, 37,17% para a região Sul e, finalmente, 15,18% para a região Centro-Oeste. O destaque fica para as vendas de Tratores de rodas na região sudoeste que manteve representatividade em 2015. Os dois Estados que mais comercializaram máquinas agrícolas, como esperado, foram São Paulo (6.618 unidades) e Minas Gerais (4.115 unidades), coincidentemente os mesmos territórios que possuem grande representatividade produtiva no âmbito nacional.
Essa concentração de empresas reforça a importância de compreender quais produtos fazem parte do composto das vendas internas no atacado brasileiro. Ao observar o comportamento das vendas, é possível destacar o constante acompanhamento do número de operações totais e o número total de tratores que assume a liderança, em grande destaque, como o principal produto vendido desde 1960. Os dados estão expostos no Gráfico 6.
Gráfico 6: Vendas internas de máquinas nacionais e importadas no atacado, 1960-2014.
Fonte: ANFAVEA (2015).
O Gráfico 6 apresenta as vendas de máquinas agrícolas no Brasil, tanto de produtos internos, quanto importados. Nota-se que a participação das Colheitadeiras, Cultivadores motorizados, Tratores de esteiras e Retroescavadeiras permanecem em relativa baixa nas vendas internas, quando comparados com as vendas de Tratores de rodas. De acordo com Fonseca (1990), as empresas investem em pesquisas e desenvolvimento a
0 20000 40000 60000 80000 1960 1963 1966 1969 1972 1975 1978 1981 1984 1987 1990 1993 1996 1999 2002 2005 2008 2011 2014
Cultivadores Motorizados Tratores de Rodas
Tratores de Esteiras Colheitadeiras
fim de alcançarem patamares de eficiência, produção e qualidade dos produtos. Dessa forma, o crescimento nas vendas de tratores representa um avanço tecnológico no período (1960-1980) em que o produto supria a necessidade imediata dos produtores. E nos anos seguintes, novos elementos foram sendo incorporados no portfólio, agregando outros valores na produção e ocasionando a comercialização de outros produtos, tais como as colheitadeiras e retroescavadeiras no território brasileiro.
Dada todas as vendas, bem como as produções no Brasil, a Tabela 8 apresenta os valores brutos das produções industriais, bem como os custos das operações industriais no Brasil. Os valores são importantes para ressaltar a importância do setor de máquinas e equipamentos agrícolas, mais especificamente, o setor de fabricação de tratores agrícolas. Os valores registrados mostram um crescimento ano após ano desde 2007 até 2012 na casa dos 82% ao considerar toda a série. O mesmo ocorre com os custos auferidos pelas empresas no período analisado.
Tabela 8: Estrutura do valor bruto da produção industrial (VBPI) e custos das operações industriais (COI), segundo as divisões e os grupos de atividades (CNAE 2.0) – em milhões de R$, 2007-2012.
2007 2008 2009 2010 2011 2012 Valor bruto da produção industrial
(VBPI) 13.04 0 17.44 2 13.25 3 18.63 6 20.35 6 23.81 7 Custos das operações industriais
(COI) 8.461 11.27 9 8.332 11.70 0 13.03 8 15.08 8 Fonte: IBGE - Pesquisa Industrial Anual (PIA, 2015*).
Nota: (*) Múltiplas datas.
A partir da caracterização do VBPI e do COI, é possível mensurar o Valor da Transformação Industrial (VTI). O valor dessa transformação corresponde à diferença entre o valor bruto da produção industrial e o custo com as suas operações nas unidades fabris. O Gráfico 7 apresenta a evolução do VTI entre os anos 2007-2012, tornando possível visualizar o crescimento desse índice, o que representa uma maior agregação de valor dos tratores em território brasileiro. Isso significa que no lugar de apenas importar as peças de outros países e monta-los internamente, o Brasil está conseguindo, na medida do possível, agregar mais valor internamente. Isso pode acontecer de várias formas como desenvolver novas tecnologias, empregar mais conhecimento, criar novos processos, gerar novas rotinas, entre outras ações que podem contribuir com o aumento do valor agregado internamente.
Gráfico 7: Valor da transformação industrial (VTI) – MIL REAIS, 2007- 2012.
Fonte: IBGE - Pesquisa Industrial Anual (PIA, 2015)*. Nota: (*) Múltiplas dadas.
Esses valores estão sendo coletados de um setor cuja matriz industrial é configurada por cinco grandes empresas que fabricam tratores no Brasil e trabalham para agregar cada vez mais valor nas máquinas desenvolvidas. A quantidade de empresas fabricantes de tratores com rodas também deixa evidente esse interesse em se posicionar estrategicamente no território brasileiro. As quatro instituições produtoras analisadas nesse trabalho possuem ramificações em três Estados brasileiros, como pode ser observado no Quadro 3.
Quadro 3: Identificação das unidades fabris que produzem tratores de rodas, 2015.
EMPRESAS/GRUPO INDUSTRIAIS UNIDADES PRODUTOS DAS UNIDADES
AGCO Canoas - RS (Massey Ferguson)
Tratores de rodas, retroescavadeiras, pulverizadores e
motores. Valtra Mogi das Cruzes - SP
Tratores de rodas, retroescavadeiras, pulverizadores e motores. R$- R$2.000.000,00 R$4.000.000,00 R$6.000.000,00 R$8.000.000,00 R$10.000.000,00 2007 2008 2009 2010 2011 2012
Agrale Caxias do Sul – RS (Duas fabricas)
Tratores de rodas, motores, componentes
de veículos e tratores. CNH Industrial Curitiba - PR (Case IH, New Holland
AG)
Tratores de rodas, colheitadeiras e
plataformas. John Deere Montenegro – RS Tratores de rodas. Fonte: ANFAVEA (2015).
Apenas uma fábrica, John Deere, possui operação dedicada para a produção de Tratores de rodas. As demais, além de fabricarem os referidos tratores, diversificam sua produção, fabricando retroescavadeiras, pulverizadores, motores, componentes de veículos, colheitadeiras e plataformas. Mesmo com essa pulverização das fábricas, ainda é possível notar uma tendência em concentrar a produção de tratores no Sul do Brasil, principalmente no Rio Grande do Sul.
No que se refere ao porte produtivo, para a linha de tratores com rodas, as empresas se diferenciam em suas escalas. Atualmente, o grupo da AGCO com a linha da Massey Ferguson lidera a produção desde 1963, seguida da CNH Industrial, Valtra, John Deere e Agrale. Vale salientar que algumas empresas se fundiram ao longo da série, mas o importante é notar que as conquistas em termos de aumento da capacidade produtiva são visíveis para todas as instituições. Como pode ser observado no Gráfico 8, em alguns momentos da economia tiveram que minimizar a produção, como foi o caso dos anos 80, mas no longo prazo observa-se um crescimento generalizado.
Gráfico 8: Participação das empresas na composição da produção nacional de tratores, 1960-2014.
Fonte: Adaptado de ANFAVEA (2015).
A capacidade produtiva das empresas se equilibrou, parcialmente, a partir de 1996, quando começaram uma nova tendência de crescimentos. Essa tendência, está fortemente ligada à abertura comercial do Brasil que passou a receber investimentos, bem como empresas multinacionais. O exemplo típico dessa relação foi a entrada da John Deere no ramo de tratores agrícolas de rodas, pois a empresa iniciou suas operações em 1995 e, por mais que tenha tido dificuldades de alavancagem no setor, conseguiu aumentar a sua participação no mercado e se aproximando das concorrentes imediatas, como é o caso da Valtra e New Holland.
A intensificação da produção nos últimos anos está atrelada ao aumento da produtividade média dos funcionários do setor. Se realizarmos uma aproximação entre a quantidade de tratores produzidos e a quantidade de funcionários contratados, criamos um índice de produtividade média no arranjo produtivo de tratores no Brasil, como pode ser visualizado na Tabela 9.
0 5000 10000 15000 20000 25000 30000 35000 1960 1963 1966 1969 1972 1975 1978 1981 1984 1987 1990 1993 1996 1999 2002 2005 2008 2011 2014
AGCO (Massey Ferguson) AGRALE
CNH INDUSTRIAL (Case e New Holland) JOHN DEERE
Tabela 9: Produção, Empregados e Índice de Produtividade no setor de máquinas e equipamentos automotrizes, 1960-2014.
Períodos Produção de tratores Empregados do setor Índic e 1960 - 1969 54.915 18.053 3,04 1970 - 1979 363.727 129.791 2,80 1980 - 1989 372.477 227.118 1,64 1990 - 1999 215.344 129.020 1,67 2000 - 2009 434.997 128.183 3,39 2010 - 2014 330.203 98.245 3,36
Fonte: Adaptado de ANFAVEA (2015).
A média de todo o período produtivo brasileiro passou das 295.000 unidades, simbolizando um forte adensamento produtivo do setor. No entanto, foi possível observar uma fragilidade do setor em momentos de crise econômica e em momentos de intenso resgate da competitividade industrial, deixando-o volátil frente aos movimentos institucionais do mercado. Essa volatilidade é comprovada mediante a análise da produção e número de funcionários nos anos que se estendem de 1960 até os dias atuais. Assim, a produção tem aumentado ao longo dos anos, em contrapartida, o número de funcionários tem diminuído sistematicamente a partir da década de 80.
Dessa forma, os índices de produtividade estão aumentando, pois a quantidade de tratores produzidos por cada funcionário tem aumentado. A maior baixa de produtividade ocorreu nas décadas de 80 e 90, onde os índices baixaram, respectivamente, para 1,64 e 1,67. Em tempos recentes, principalmente depois da abertura comercial do país, os índices se mantiveram estáveis no período 1995-2014, estabilizando o índice em torno de 3,37, o que representa a produção de pouco mais de 3 tratores para cada funcionário contratado pelas indústrias de máquinas e equipamentos agrícolas.
3.4 ESTRUTURA PRODUTIVA UTILIZADA NA FABRICAÇÃO