CAPÍTULO I: O perfil conceitual de adaptação: um modelo da heterogeneidade de
1.2. Constituição das zonas de perfil conceitual de adaptação
1.2.4. Caracterização da zona ―perspectiva variacional‖
Neste modo de pensar, a adaptação é concebida como uma característica resultante de um processo de mudança evolutiva. A mudança evolutiva, por sua vez, resulta de um processo de seleção e fixação de variantes em uma população em um regime seletivo particular (SEPULVEDA, 2010).
Sepulveda (2010) se baseia em Levins e Lewontin (1985) para distinguir as explicações transformacionais e variacionais para a mudança evolutiva. Conforme a discriminação feita por Levins e Lewontin (1985), em uma perspectiva transformacional, a evolução do sistema é resultante das transformações ocorridas em seus componentes individuais. Distintamente, no pensamento variacional, as mudanças em um sistema são explicadas como uma consequência das mudanças nas proporções dos componentes do sistema. Deste ponto de vista, o resultado das mudanças nas proporções de variantes na população é o que define a mudança evolutiva. Grupos de organismos variantes bem sucedidos em uma condição ambiental particular tendem a originar gerações de organismos, por meio da reprodução, com os mesmos traços fenotípicos dos progenitores.
Assim, enquanto a população muda de geração a geração, a herança exerce o papel de preservar a invariância nos traços manifestos nos organismos. Essa tensão entre mudança no nível da população e invariância no nível do organismo apresenta um papel central nas explicações variacionais (SEPULVEDA, 2010, p172). Um dos componentes estruturantes das análises variacionais da adaptação é a comparação entre a eficiência de variantes fenotípicas em uma população, em razão de as variantes populacionais que aumentam as chances de seus portadores terem sucesso na obtenção de recursos nas condições ambientais em que vivem serem as mais importantes no processo seletivo, afinal os recursos são requisitos para a sobrevivência e reprodução diferenciais.
Pensar em termos da diferença é considerar porque certa variante desempenha melhor uma função do que alternativas viáveis, ou sob que regime seletivo uma estrutura ou comportamento pode se apresentar como uma forma melhor que uma alternativa igualmente viável morfológica, fisiológica e filogeneticamente (CAPONI, 2002). A ―presunção de adaptação‖, o pressuposto de que uma estrutura se fixa na população ou desloca outra em decorrência de sua maior eficiência como recurso adaptativo, é para Caponi (2000) o modo darwinista de investigar a forma orgânica. Sepulveda (2010) destaca que de análises como esta derivam inevitavelmente questões como que fatores definem o maior êxito reprodutivo do portador de certa variação. Respostas a questões desta natureza demandam uma ―análise ecológica‖ (CAPONI, 2000) de qual estrutura orgânica opera como fator adaptativo, em que ambiente específico e para qual grupo particular de organismos (SEPULVEDA, 2010).
Sepulveda (2010) elenca, em seu estudo, alguns requisitos para que a forma de falar variacional emirja no discurso da sala de aula. A autora observou que, em sala de aula, o emprego dessa forma de falar se deu quando alguma univocidade já tinha sido negociada na interação discursiva entorno dos seguintes temas: descendência comum; necessidade de uma perspectiva histórica na análise da diversidade orgânica e, sobretudo; princípio de que é preciso analisar a relação entre recursos disponíveis e eficiência diferencial em sua exploração, para compreender a evolução por seleção natural.
A forma variacional de falar se caracteriza por: (1) foco nas relações entre os organismos e o seu entorno ecológico; (2) tendência em considerar fatores internos e externos na análise da origem das formas orgânicas e; (3) comparação da eficiência com que uma variante fenotípica, em determinada população, pode desempenhar um função em condições ambientais particulares. Nas narrativas que estruturam os enunciados típicos dessa forma de falar, os organismos são objetos de forças evolutivas internas e externas a eles (SEPULVEDA, 2010).
Os eventos citados nas explicações variacionais para a forma orgânica são mais frequentemente a produção e/ou existência de variação na população, mudança nas condições ambientais, sobrevivência e reprodução diferenciais, seleção de variantes e mudanças nas frequências fenotípicas e/ou genotípicas na população (SEPULVEDA, 2010). Comparativos de superioridade – usados em referência a eficiência diferencial das variantes – são, de acordo com Sepulveda (2010) características estilísticas da forma de falar variacional. ―Ter maior sucesso‖, ―ter maior capacidade de‖, ―ser
favorecido‖, ―ser selecionado‖ são expressões de uso frequente nessa perspectiva. ―O termo ‗adaptação‘ denomina o resultado de um processo de mudança evolutiva por seleção natural e figura nos enunciados como algo a ser explicado‖ (SEPULVEDA, 2010, p. 338).
Abaixo (QUADRO 6) uma síntese da caracterização enunciativa desta zona do perfil conceitual de adaptação (SEPULVEDA, 2010).
QUADRO 6 - Caracterização enunciativa da zona perspectiva variacional ZONA Perspectiva variacional
Linguagem social •Exame de fatores internos e externos ao organismo
na análise da causalidade da forma orgânica; • Análise de condições particulares em que certas variantes conferem ao seu portador maior eficiência na exploração de recursos.
Formas típicas de enunciados
Estrutura composicional
Narrativas em que os organismos de uma população são objetos de forcas evolutivas.
Tema •Fenômenos populacionais, demográficos e
biogeográficos.
•Luta pela sobrevivência.
• Vínculo entre problemas enfrentados pelas
populações de organismos e sua solução via evolução.
Estilo (termos recorrentes)
•Uso de comparativo de superioridade. ―ter maior capacidade de‖; ―ter maior sucesso‖; ―ser mais vantajoso‖; ―ser mais eficiente‖;
• Organismo ou populações de organismos são objetos de uma ação. Normalmente, figuram como sujeitos de um verbo na voz passiva. ―ser favorecido‖; ―ser selecionado‖;‖sofrer seleção‖
Uso do termo ‗adaptação‘
Denomina o resultado do processo de mudança evolutiva por seleção natural. E objeto de explicação.
Fonte: adaptada de Sepulveda (2010)
Da caracterização das zonas do perfil conceitual de adaptação Sepulveda (2010) conclui que esse processo vai além da categorização, embora fundamentalmente este procedimento faça parte dele. E sumariza a caracterização das zonas como um processo que se deu
a partir dos compromissos ontológicos e epistemológicos que fundamentam formas de pensar sobre a adaptação biológica, os quais não foram dados diretamente por declarações ou proposições escritas ou faladas, mas sim a partir de hipóteses constantemente reformuladas a medida que promovemos um diálogo entre as diferentes fontes de dados (SEPULVEDA, 2010, p.181).
Ainda que a construção, a avaliação empírica e a sofisticação do modelo proposto por Sepulveda (2010, ver também SEPULVEDA; MORTIMER; EL-HANI, 2007, 2013; SEPULVEDA; EL-HANI, 2014) para o conceito de adaptação, tenha tido como foco a significação deste conceito no contexto do ensino de evolução no nível médio de escolaridade, para que o perfil de adaptação também pudesse ser aplicável a análise do discurso em salas de aula de biologia do ensino superior, no mesmo estudo, Sepulveda (2010) propôs a caracterização de duas formas distintas de significar o conceito de adaptação, internas a perspectiva variacional: abordagem adaptacionista da forma orgânica e abordagem pluralista da evolução da forma orgânica. A seguir, apresentaremos a caracterização dessas duas possíveis zonas de um perfil conceitual de adaptação para o ensino superior de evolução.
1.3. Abordagens variacionais: um perfil de adaptação para o ensino superior de