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Caracterizando as compras públicas sustentáveis 98

2   FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 25

2.3   COMPRAS PÚBLICAS SUSTENTÁVEIS 72

2.3.2   A Sustentabilidade nas Compras Públicas 93

2.3.2.1   Caracterizando as compras públicas sustentáveis 98

Entende-se que uma aquisição pode ser considerada sustentável quando uma organização utiliza o seu poder de compra para sinalizar ao mercado sua preferência na escolha de bens e serviços que satisfaçam critérios do desenvolvimento sustentável (UNEP, 2008).

De acordo com Relatório da Força-Tarefa do Reino Unido sobre compras sustentáveis, intitulado “Procuring the Future”, uma compra pública sustentável

É um processo no qual as organizações satisfazem as suas necessidades referentes a bens, serviços, obras e instalações de uma forma econômica considerando a totalidade dos ciclos de vida no que diz respeito à geração de benefícios não apenas para a organização, mas também para a sociedade e para a economia, ao mesmo tempo em que minimiza os danos causados ao meio-ambiente (DEFRA, 2006, p. 10. Tradução livre).

Esta definição foi adotada pela Força-Tarefa de Compras Públicas Sustentáveis no âmbito do Processo de Marrakesh, sendo também empregada nos documentos sobre o assunto editados no âmbito do UNEP. Visando manter o alinhamento conceitual, optou-se por adotá-la também neste trabalho, como definição base para o conceito de compras públicas sustentáveis.

Verifica-se que um equívoco comum é considerar que uma compra sustentável tem como base unicamente as preocupações ambientais (UNEP, 2012b). Nesta esfera de discussão, de acordo com publicação da Divisão para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, não há, ainda, “uma definição universalmente aceita” sobre compras públicas sustentáveis. Entretanto, há uma clara distinção entre Sustainable Public Procurement (SPP) (Compras Públicas Sustentáveis) e Green Public Procurement (GPP) (Compras Públicas Verdes ou Compras Públicas Ecológicas) (UNITED NATIONS, 2008).

Compra "verde" ou ambientalmente responsável é a seleção de produtos e serviços que minimizem os impactos ambientais. Requer uma avaliação dos impactos ambientais do produto em todas as fases do seu ciclo de vida. Isso significa considerar os custos ambientais relacionados à matéria-prima, fabricação, transporte, armazenamento, manipulação, utilização e eliminação do produto.

Além das preocupações ambientais as compras sustentáveis também incorporam considerações sociais. [...] Considerações sociais podem incluir: equidade étnica e de gênero; erradicação da pobreza e respeito pelas normas fundamentais do trabalho (UNITED NATIONS, 2008, p. 01. Tradução livre).

Neste sentido, as compras sustentáveis se referem à combinação de fatores sociais e ambientais, além das considerações financeiras, na tomada de decisões de compra. Desta forma, trata-se de olhar para além dos parâmetros econômicos tradicionais e tomar decisões baseadas em critérios como o ciclo de vida e os custos associados, os riscos ambientais e sociais envolvidos, entre outras implicações (UNEP, 2008).

Conforme conceito apresentado no Guia de Compras Públicas Sustentáveis, uma licitação pautada por critérios de sustentabilidade consiste numa “solução para integrar considerações ambientais e sociais em todos os estágios do processo da compra e contratação dos agentes públicos (de governo) com o objetivo de reduzir impactos à saúde humana, ao meio ambiente e aos direitos humanos” (BIDERMAN

et. al., 2008, p. 25).

No entendimento de Oliveira (2008, p. 56) a compra pública sustentável constitui “um instrumento de gestão ambiental utilizado pela Administração Pública para inserção de critérios ambientais e sociais em todos os estágios de seu processo de compras e contratações”. De acordo com a autora, a inserção de critérios ambientais nas compras públicas se apresenta também como uma das ferramentas da gestão urbana sustentável e visa à integração dos conceitos ecológicos ao mercado.

De acordo com a definição do ICLEI (2012),

Compras públicas sustentáveis buscam integrar critérios ambientais, sociais e econômicos a todos os estágios do processo de licitação. Uma compra é sustentável quando o comprador considera a necessidade real de efetuar a compra, as circunstâncias em que o produto visado foi gerado, levando em conta os materiais e as condições de trabalho de quem o gerou, e uma avaliação de como o produto se comportará em sua vida útil e a sua disposição final (ICLEI, 2012).

Neste prisma, a sustentabilidade nas compras se relaciona, também, com a necessidade de planejamento das demandas de aquisição e contratação da instituição pública. Deve-se ter como prioridade a preocupação de comprar apenas aquilo que é imprescindível e indispensável para o desempenho dos serviços públicos e bom andamento do órgão, evitando-se aquisições supérfluas, bem como a compra de produtos em quantidades que poderiam ser evitadas. “A compra mais sustentável é muitas vezes aquela que você não faz” (UNEP, 2012c, p. 38. Tradução

Livre).

Complementarmente, Justen Filho (2012, p. 63) defende que a contratação administrativa é um instrumento capaz de proporcionar à Administração não só a satisfação das suas necessidades imediatas, mas também “o atingimento de fins mediatos, de modo que o contrato administrativo pode ser um instrumento da realização de políticas públicas mais amplas”.

Nesta esteira, a compra deixa de servir simplesmente para a aquisição de bens e serviços, podendo também auxiliar a Administração no cumprimento de obrigações relacionadas à efetividade, à eficiência, à competitividade, à transparência; à distribuição equitativa e ao desenvolvimento (UNEP, 2008).

“No âmbito macro, a contratação pública cria uma dinâmica, uma reação em cadeia que beneficia a vida econômica de um país e apoia o desenvolvimento do setor privado”, passando a existir uma “ligação direta entre o desempenho da função compras e a realização coletiva de objetivos econômicos” (UNEP, 2008, p. 8.

Tradução livre).

Destarte, ao assumir um compromisso com as compras públicas sustentáveis, dedicando tempo, investimentos e recursos humanos, os países desfrutarão de benefícios como a melhoria do desempenho ambiental (com a redução de emissões, consumo de energia e outras metas), redução dos custos, desenvolvimento de mercados para produtos e serviços mais sustentáveis, além de contribuir para atingir diversos objetivos de políticas nacionais (UNEP, 2012c).

A compra sustentável reúne não só aspectos técnicos ou econômicos dos produtos, serviços ou obras a serem contratados, mas também o desempenho ambiental e social do mesmo. As questões ambientais a serem consideradas nas compras e contratações se relacionam, por exemplo, com os materiais e produtos utilizados ou adquiridos, os métodos e procedimentos para execução de contratos e o desempenho ambiental dos fornecedores e fabricantes (IADS, 2008a).

Como mencionado, as compras públicas sustentáveis contemplam as três dimensões do desenvolvimento sustentável: social, ambiental e econômico (UNEP, 2012c). Este também é o entendimento de Justen Filho (2012), que defende que a promoção do desenvolvimento nacional através da contratação administrativa envolve dois aspectos, sendo um relacionado à conjugação das dimensões econômica e social e o segundo envolvendo a dimensão ecológica.

Justen Filho (2012, p. 64) ressalta que do ponto de vista da dimensão econômico-social, as compras públicas e os contratos administrativos devem ser “concebidos como um instrumento para fomentar atividades no Brasil”. Tais atividades podem incluir tanto “atividades materiais realizadas aqui”, quanto “o desenvolvimento de ideia, no âmbito do conhecimento, da ciência e da tecnologia”. O autor cita ainda, já adentrando as questões relacionadas aos critérios de sustentabilidade a serem utilizados nas compras, que o fomento às atividades no Brasil constitui, em última análise, “assegurar um tratamento preferencial às empresas estabelecidas no Brasil”, visando garantir empregos, recolher tributos, bem como “manter a riqueza nacional no Brasil”.

Ao tratar da dimensão ambiental, Justen Filho (2012, p. 64) adverte a “necessidade de adoção de práticas ambientalmente corretas”, capazes de reduzir ao mínimo possível, os prejuízos aos recursos naturais, bem como a sua utilização inadequada. Ressalta-se que a questão envolvendo os critérios de sustentabilidade a serem utilizados nas compras públicas será examinada adiante.

Em síntese, Justen Filho (2012) defende que as contratações públicas compreendem tanto finalidades de cunho microeconômicas, quanto finalidades macroeconômicas.

Sob o prisma microeconômico, as contratações destinam-se a assegurar a satisfação das necessidades estatais com a maior eficiência possível. Trata- se de buscar a maior vantagem, o que significa obter a prestação mais adequada mediante o menor desembolso possível.

Sob o enfoque macroeconômico, as contratações públicas são instrumento para promover o desenvolvimento nacional sustentável. Isso significa que as contratações públicas serão um meio para fomentar e assegurar o emprego da mão de obra brasileira e o progresso da indústria nacional, mas preservando o equilíbrio do meio ambiente. (JUSTEN FILHO, 2012, p. 65).

Neste prisma, conforme defendem Biderman et al. (2008, p. 10), “pequenos ajustes no edital de licitação podem operar mudanças estruturais importantes e urgentes”.