2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 25
2.1 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E SUSTENTABILIDADE 25
2.1.4 Estado, Políticas Públicas e Sustentabilidade 44
Ao discutir os dilemas e desafios que precisam ser enfrentados em relação ao desenvolvimento sustentável, Sachs (2009a, p. 82) declara que uma questão de extrema importância é a necessidade de um Estado atuante. “[...]. Sem um Estado atuante não vamos a lugar algum”. De acordo com o autor,
Necessitamos de um Estado que promova a compatibilização dos objetivos sociais, ambientais e econômicos em todos os níveis, e que promova isto com a geração de parcerias em diferentes grupos de atores sociais que, assim, passam a ter uma atuação, um papel ativo na definição das estratégias de desenvolvimento e na sua negociação. O futuro está no desenvolvimento negociado entre os parceiros sociais (SACHS, 2009a, p. 82).
Neste sentido, Vecchiatti (2004, p. 95) defende que o desenvolvimento sustentável se operacionaliza fomentando uma mudança cultural e ideológica nos indivíduos, concomitante com o apoio e comprometimento das instituições formais e informais. A autora destaca que, “além de impor leis restritivas, as políticas públicas devem procurar criar um ambiente favorável à sustentabilidade ao direcionarem as ações do Estado referentes a seus mais diversos setores de atuação”.
Ressaltando o papel dos tomadores de decisão e formuladores de políticas públicas em relação ao desenvolvimento sustentável, Simão et al. (2010) advertem que, independentemente do tipo de ação ou política pública, sua adoção implicará,
inevitavelmente, em impactos diretos ou indiretos no processo de desenvolvimento sustentável, que, consequentemente, resultarão em efeitos positivos ou negativos.
Conforme destacado no preâmbulo da “Agenda 21 Global”, uma das mais relevantes referências para o desenvolvimento sustentável, “o êxito de sua execução [da Agenda 21] é responsabilidade, antes de mais nada, dos Governos. Para concretizá-la, são cruciais as estratégias, os planos, as políticas e os processos nacionais” (CNUMAD, 1992a).
Simão et al. (2010) reforçam, ainda, que o desenvolvimento sustentável envolve tanto o setor público quanto o privado, que devem despender esforços conjuntos a fim de alcançar os objetivos da sustentabilidade.
Incorporar a característica ‘sustentável’ ao desenvolvimento é um esforço conjunto entre setor público e privado. As políticas públicas são uma das ferramentas utilizadas para esse fim, e independentemente de qual for a dimensão de sua aplicação, elas estarão impactando no processo de desenvolvimento, de forma a contribuir ou não para a sustentabilidade. (SIMÃO et al., 2010, p. 40).
De acordo com o PNUMA (2011, p. 01), “a maioria das estratégias de crescimento e desenvolvimento econômico incentivou um rápido acúmulo de capital físico, financeiro e humano, mas à custa do esgotamento excessivo e degradação do capital natural”. O esgotamento das reservas e a exaustão da riqueza natural global impactaram de forma direta e negativamente o bem-estar humano, comprometendo tanto a geração atual, quanto as expectativas das gerações futuras.
Neste cenário, apoiado nas ideias de Yunus4 (2008, p. 5, apud PNUMA,
2011, p. 02) de que “os mercados livres não têm como função resolver os problemas sociais”, o PNUMA (2011) defende a necessidade de melhores políticas públicas e regulamentações visando reduzir as externalidades ambientais e sociais decorrentes do uso inadequado de recursos e capital por parte dos mercados, em virtude de políticas e incentivos deficientes.
Cada vez mais o papel de regulamentos adequados, políticas e investimentos públicos como facilitadores – por realizarem mudanças no padrão de investimento privado – está sendo reconhecido e comprovado através de histórias de sucesso pelo mundo, principalmente nos países em desenvolvimento (PNUMA, 2011, p. 02).
4 YUNUS, Muhammad. Um mundo sem pobreza: a empresa social e o futuro do capitalismo. São
Tais argumentos corroboram a ideia de que o Estado tem o dever de planejar e adotar políticas públicas que contribuam para o desenvolvimento sustentável, conforme preconiza a Agenda 21 (CNUMAD, 1992a).
Vecchiatti (2004) expõe que a sustentabilidade depende, entre outras condições, de limites ao jogo das forças de mercado, de um aparato tecnológico eficiente e de ações oriundas a partir de percepções individuais e culturais da sociedade. Nesse contexto, defende a autora, incide a importância das políticas públicas, sendo que unicamente “uma articulação ético-política entre essas dimensões poderia direcionar uma revolução social e cultural, reorientando a produção de bens materiais e imateriais, reconciliando o crescimento econômico com as formas de desenvolvimento sustentável” (VECCHIATTI, 2004, p. 91).
Segundo Vecchiatti (2004, p. 92), a elaboração e implementação da “Agenda 21” no âmbito dos governos nacionais e locais, “contribuiu para impulsionar a criação de abordagens territoriais a partir de redes de comunicação, buscando-se soluções para os problemas referentes à sustentabilidade e à tentativa de conciliar o crescimento econômico com o desenvolvimento”.
A “Agenda 21 Global” e o “Plano de Implementação de Johanesburgo” são importantes documentos de âmbito internacional, que preconizam a necessidade de atuação do Estado no sentido de promover mudanças necessárias nos padrões de produção e consumo com vistas a viabilizar o atingimento de objetivos do desenvolvimento sustentável.
Ressalta-se, contudo, que apesar da ampla difusão do conceito de desenvolvimento sustentável ocorrida nas últimas duas décadas, proporcionada, principalmente, pela ocasião da Conferência de Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, em 1992, “não existe ainda clareza sobre sua aplicação nos processos administrativos no setor governamental” (MPOG; ICLEI, 2010, p. 06).
Nesta esfera, entre os instrumentos facilitadores no processo de transição e indução rumo ao desenvolvimento sustentável, o PNUMA (2011) ressalta a necessidade de tornar mais sustentáveis os contratos públicos, destacando a importância da participação do Estado não só como ente regulador, mas também como parte integrante do sistema, tendo em vista o seu elevado potencial como consumidor e capacidade de induzir o mercado a promover mudanças nos padrões produtivos e oferta de produtos e serviços.
ferramenta disponível ao Estado e governos locais, tem papel significativo para os avanços rumo ao desenvolvimento sustentável, tanto que vêm sendo citadas em inúmeros documentos oficiais e planos de produção e consumos sustentáveis em diversos países. Conforme destaca o Relatório “Cidades Europeias Sustentáveis”:
De todas as questões relacionadas com a sustentabilidade da atividade econômica, esta [a compra pública sustentável] é provavelmente aquela em que a autoridade local pode ter o maior impacto imediato. É também aquela em que a experiência tem demonstrado que podem ser realizados grandes melhoramentos no desempenho ambiental com uma ruptura diminuta e com a possibilidade de economia de custos. Trata-se, em primeiro lugar, de uma questão de sensibilização e, depois, de uma questão de informação, assimilação e difusão (COMISSÃO EUROPEIA, 1996, p. 92).
Neste mesmo sentido, de acordo com discussões realizadas na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (United Nations Conference
on Sustainable Development - UNCSD), a “Rio+20”, a “aquisição sustentável pode
estimular a inovação e transformar o setor público em uma força motriz no desenvolvimento de uma economia verde”.
Através de soluções a longo prazo, tais como medidas de eficiência energética, o setor público pode não só diminuir o impacto ambiental através de contratos públicos ecológicos, mas também reduzir substancialmente seus custos totais. Compra pública sustentável é um instrumento para o mercado local, que pode ter grandes efeitos globalmente, se gerida de forma adequada (UNCSD, 2012. Tradução livre).
Neste cenário, tendo em vista a necessidade de mudanças profundas nas práticas de produção e consumo, o governo, que desempenha importante papel como consumidor em grande escala, deve se portar como modelo estratégico para a mudança, visando incitar e impulsionar que tanto o consumo quanto a produção sejam pautados por critérios de sustentabilidade (BRASIL, 2011a).
Desta forma, com o intuito de elucidar aspectos relevantes relacionados ao consumo e produção sustentáveis, os conceitos são tratados na próxima seção, buscando apresentar a sua relação com o desenvolvimento sustentável e o consumo na esfera pública. Assim, juntamente com os enfoques conceituais sobre o assunto, a seção seguinte contempla também uma análise dos programas e políticas públicas estabelecidos no âmbito internacional e a sua influência no estabelecimento de políticas nacionais que culminaram, entre outros resultados, na elaboração de planos e programas voltados às compras públicas sustentáveis.