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2. CAPÍTULO 1: O BAIRRO, O CENTRO E O OLHAR PARA A CIDADE

2.6. Cecílias, Buarques e o bairro em debate

Um espaço privilegiado para a observação desta jovem camada média urbana progressista, interessada pela cidade, atenta às movimentações em seu entorno e engajada na discussão de políticas urbanas – ao mesmo tempo em que também se beneficia da ambiência urbana promovida em bairros centrais específicos na realização de seus próprios projetos de modos de vida desejáveis – é a comunidade “Cecílias e Buarques”, no Facebook65. Com mais de 7.600 membros (em janeiro de 2019), o grupo foi criado em 2014 com a intenção de estabelecer um vínculo de proximidade entre moradores da Santa Cecília e da Vila Buarque – sobrepondo redes de sociabilidade virtuais às redes de sociabilidades conformadas no território, e constituindo novas “redes multimodais” (CASTELLS, 2013, p. 163–165).

No texto de apresentação do grupo, os moderadores explicam: “Criamos essa comunidade para nos comunicarmos melhor e compartilharmos nossas experiências na vizinhança”, e estabelecem as regras para a participação. São autorizadas postagens de divulgação de eventos e iniciativas na região; alertas de “ciladas”; solicitação e indicação de serviços; postagens de doações e trocas de produtos; “e demais [assuntos] relacionados aos nossos bairros”. As restrições indicadas pelos moderadores são postagens que não digam respeito à Santa Cecília, Vila Buarque e o centro de São Paulo; e postagens que faltem com respeito com outros membros do grupo, ou que sejam “preconceituosas, racistas, misóginas, homofóbicas, lesbofóbicas, transfóbicas, gordofóbicas etc.”. Ao final das regras, o texto ressalta: “a ideia é conviver com as diferenças de nossos vizinhos”.

No cotidiano da comunidade, postagens com solicitações e ofertas de dicas de estabelecimentos no entorno, doações e trocas de objetos, busca de vagas disponíveis ou ocupantes interessados em apartamentos compartilhados, entre outros “anúncios” corriqueiros, mesclam-se a convites e propostas de sociabilização e integração, tais como busca por companhia para atividades como tomar cerveja, correr ou andar de bicicleta no Minhocão, jogar baralho, além da realização de eventos e confraternizações informais (muitas vezes nos espaços públicos, sendo o Minhocão o local mais mencionado), formação de grupos de discussão sobre assuntos diversos, e flerte entre vizinhos membros do grupo.

65 Disponível em: < https://www.facebook.com/groups/827191357353477/>. Acesso em: 20 jan. 2018. Por tratar-

se de um grupo fechado no Facebook, ainda que sem uma moderação rígida de controle de acesso de novos participantes, não mencionarei os nomes dos membros ou farei citações específicas, buscando apresentar discussões e debates de interesse para esta pesquisa de forma sucinta e genérica, sem evidenciar indivíduos ou situações que possam expor o grupo e seus participantes a qualquer tipo de escrutínio.

Também são recorrentes postagens com discussões sobre notícias gerais da vizinhança, geralmente com algum teor de debate em torno de reverberações da noção de direito à cidade. Periodicamente são publicados relatos de moradores que participaram de audiências públicas, reuniões de Conselhos Comunitários de Segurança do Estado66, assembleias e encontros diversos ligados a questões do bairro (como encontros da Associação Parque Minhocão, por exemplo). Tanto o tom dos relatos quanto o das repercussões no grupo costumam seguir um mesmo padrão: ainda que as discussões não sejam consensuais, prevalecem as defesas de posturas mais progressistas e inclusivas, e um rechaço a declarações e argumentações de cunho mais autoritário ou preconceituoso. Quando, ao final de 2017, o blog “A Vida no Centro”67 publicou um texto que descreve o grupo como sendo “o mais legal do Facebook”68, a receptividade na comunidade gerou um debate recorrente também em outras postagens: houve tanto uma celebração dos bairros, suas características e do quão cool são seus moradores, como também relatos de preocupações, como a forma como a exposição do grupo e dos bairros poderia ser fator de aceleração da gentrification.

De fato, o termo “gentrificação” é bastante recorrente nas discussões que acontecem no grupo – em uma busca rápida, ele aparece ao menos em 16 postagens ou discussões decorrentes delas69. Isso indica que, após quase uma década de acontecimentos que projetaram o bairro, o Centro, a cidade e variações da ideia de direito à cidade como objetos de reivindicação política, um novo vocabulário e um novo repertório de conceitos passou a orientar as sensibilidades dos citadinos quanto a seus modos de observar a cidade, de se estar na cidade e de se fazer cidade. A preocupação com as forças capazes de aumentar a desigualdade e reduzir a tão valorizada diversidade nestes bairros passa gradualmente a deixar de ser uma questão apenas de urbanistas, gestores públicos, movimentos sociais e pesquisadores acadêmicos, para também a estar no debate cotidiano de segmentos mais progressistas de citadinos – que não apenas se interessam e se importam com questões da cidade, como também se enxergam como agentes capazes tanto de acelerar os processos especulativos, como de também de assumir posturas mais críticas às

66 Para uma etnografia sobre as associações de moradores de bairro e Conselhos Comunitários de Segurança na

região central de São Paulo, ver Chizzolini (2013).

67 Página na internet que se define como “um hub de inovação e cultura sobre o centro de São Paulo”, e como

“uma startup focada na retomada do centro, um lugar não só para trabalhar, mas também morar, empreender, se divertir, fazer turismo e programas culturais”. Com publicações desde julho de 2017, apresenta uma extensiva produção de matérias e conteúdos diversos, sempre ressaltando atrativos e “novidades” da região central.

68 Disponível em: <http://avidanocentro.com.br/blogs/cecilias-e-buarques-o-grupo-mais-legal-do-facebook/>.

Acesso em: 20 jan. 2018.

69 Consulta realizada em 3 fev. 2019, e evidentemente não contempla discussões que tenham sido apagadas pelos

movimentações do mercado. Aqui, o conceito de gentrification revela-se um instrumento suficientemente didático para a investigação dos conflitos entre a produção de ambiências urbanas desejáveis e os interesses econômicos capazes de promover transformações na cidade capitalista. Por outro lado, é necessária uma análise crítica entre as aproximações e distanciamentos entre o uso cotidiano de “gentrificação” como uma categoria da prática, da forma como é como articulada entre ativistas, jornalistas e como senso comum, e os debates conceituais sobre as diferentes definições e limites de aplicação do conceito de gentrification, por uma perspectiva teórica e analítica, frente ao contexto de urbanização da cidade de São Paulo e, especificamente, de sua região central. Para maior complexificação destas questões, é importante ressaltar que a gentrification (assim como outras temáticas, tais como racismo, machismo, homofobia e comércio justo) não aparece no campo apenas por meio de declarações de desconfiança dos moradores e frequentadores. Surge, também, até mesmo no engajamento de proprietários e trabalhadores de alguns estabelecimentos comerciais hipsters – seja na afirmação de suas posições políticas em seus espaços físicos, nas programações culturais oferecidas e em suas declarações nas redes sociais (com o intuito de reafirmar que seus negócios são prioritariamente voltados a públicos que compartilham de valores e visões políticas similares), seja até mesmo na adoção de modelos de negócio movidos por motivações ativistas, o que contradiz a lógica de enobrecimento que muitas vezes é diretamente associada a processos de “hipsterização”70.