5. CAPÍTULO 4 – UMA JÓIA RARA NO PARAÍSO
5.1. Análise interpretativa das cenas
5.2.5. Cena do capítulo 6 – Mariana tenta defumar Antero
A cena se passa na frente da casa na fazenda de Antero, interpretado pelo ator Mauro Mendonça, e na sala da casa. Antero é uma personagem plana, pois não sofre alteração ao longo
da trama, do começo ao fim, ele quer ver a filha feliz e junto de seu amor, que é o Zeca. Antero é o marido de Mariana, e se opõe as suas ideias de tornar a filha freira.
A duração da cena é de 2 minutos e 47 segundos no capitulo seis, começando aos 26 minutos e 35 segundos e terminando aos 29 minutos e 4 segundos.
A cena
(Dia. Frente da fazenda de Antero. Ele vem andando e Mariana atrás tentando defumá-lo.) Antero: Não não não...
Mariana: Antero...
Antero: Mas que coisa sô...
Mariana: Antero... Ô homi...Volta aqui homi, volta aqui... Antero: Me deixa em paz, muié... Me deixa em paz... Mariana: Deixa eu te purificá...
Antero: Que purificá o quê.
Mariana: Oia aqui, ieu num vô deixa ocê entrá em casa de jeito manera. Antero: Que diacho!
Mariana: Você vai purificar. Ocê vai purificá sim. (Vão subindo as escadas e chegando na varanda.)
Antero: Larga de doideira.
Mariana: Vem aqui que eu tô esperando ocê. Vem cá. Antero: Larga de maluquice.
Mariana: Vem cá que eu tô esperano ocê. Antero: Sai sai sai...
Antero: Sai sai sai... (Antero entra dentro de casa.)
Mariana: Vorta aqui. Anter... Vorta aqui Anter... Ô homi! Purifica ele Nossa Senhora! Purifica ele. (Mariana entra dentro de casa. Na sala.)
Antero: Para com isso, Mariana. Para com isso. Que diacho!
Mariana: Ocê tira essa ropa, vai toma um banho. Vô defumá a casa toda com esse incenso aqui bento, depois vô queimá tua ropa. E aí quando ocê saí do banho, eu defumo ocê de novo.
Antero: Para de me amolar, Mariana. Para de me amolar. Para. OCÊ PARA COM ESSE FUMACEIRO ANTES QUE EU PERCA A PACIÊNCIA!
Mariana: Ocê sabe por que o fumaceiro tá incomodando ocê? Porque ocê trouxe o diabo cocê. Ocê pisou nas terra dele.
Antero: Para com isso Mariana! Para com isso! Mariana: ÉÉÉ...
Antero: Que maluquice!
Maria Rita: O que tá acontecendo aqui, pai? Que gritaria é essa?
Antero: Aaaah, a maluca da sua mãe tá querendo me defumar porque eu fui fazer uma visita pro nosso vizinho.
Mariana: OCÊ FIQUE LONGE DELE! Ocê fique longe dele! Maria Rita: Ô mãe!
Mariana: Ele tá com o diabo! Ocê fique longe dele.
Antero: Tá bom Mariana. TÁ BOM! OCÊ GANHÔ! Eu vô tirá essa ropa, vô tomá um banho, cê pode queimar essa ropa, pode defumar a casa, pode fazê o que OCÊ QUISÉ! MA PELO AMOR DE DEUS, ME DEIXA EM PAZ!
Mariana: Ocê cumeu arguma coisa lá?
Antero: Ôôô! Cumi um pedaço de bolo, tomei café. Mariana: ÉÉÉ...
Antero: Por que?
Mariana: Vô preparar uma sarmora pro cê botá isso tudo pra fora. MINHA NOSSA SENHORA PROTEGEI-NOS! ÓÓ! (Mariana sai.)
Antero: Eu num vô toma sarmora nenhuma. Cê me ouviu? Cê ocê vier com essa sarmora aqui, eu faço ocê engolí ela.
Maria Rita: Pai pai pai deixa ela. Deixa. Deixa ela. Antero: Aí! Haja Cristo que aguente.
Maria Rita: Senta aqui. (Eles sentam no sofá). Pai. Antero: Hum.
Maria Rita: O sinhor viu ele, pai?
Antero: Vi. Vi. (Eles riem.) Vi e conversei com ele. Maria Rita: E o que o sinhor achô dele, pai?
Antero: Um debochado. (Tempo) Ah, mas é... Quem me dera, Deus me dá meia dúzia de fi que nem ele. (Eles riem e se abraçam.)
Essa cena torna o fanatismo de Mariana mais evidente ainda do que o demonstrado na cena anterior, segundo Edmara Barbosa “Mais que religiosidade, o que estava em discussão era o fanatismo religioso. Esse era o perfil da personagem: uma beata, fanática, que impedia a filha de viver a própria vida, condenando-a à clausura para diminuir o peso de sua frustração” (BARBOSA, 2018). Mariana ao saber que o marido visitou a casa de Eleutério, ela quer defumá- lo para tirar o diabo do seu corpo e eliminar todos os vestígios da sua presença, seja roupa e até o que Antero comeu lá. A cena tem um crescente de comicidade, como na bola de neve (BERGSON, 2001) e na bolha que vai inchando até estourar (PROPP, 1992) que é uma graduação do humor, começando de algo pequeno e que vai aumentando até chegar em algo gigante que leva a uma gargalhada como se fosse o estourar de uma bolha de sabão, pois Mariana começa a cena tentando defumar o marido, depois diz que vai queimar a roupa, não permite que a filha se aproxime do pai, e por fim pretende preparar uma salmoura para Antero vomitar o que comeu na casa de Eleutério. Observamos também o muito barulho por nada
(PROPP, 1992) que é quando um personagem faz muito alarde e não consegue nada ou não chega a lugar nenhum, tudo continua como está, pois Mariana fica aterrorizada só com a visita que Antero fez na casa de Eleutério, fazendo uma grande confusão por pouca coisa. Mas na visão fanática de Mariana, isso não representa pouca coisa, pois Antero está contaminado pelo diabo e pode contaminar a pureza da sua “santinha”.
Figura 7: Mariana tenta defumar Antero
Fonte: Captura de tela do capítulo 06 (2009), gerada por mim em 2019.
O ponto principal da comicidade da cena está na ação da personagem Mariana tentando defumar seu marido, que é algo que foge do comum, do padrão, aqui ocorre o inesperado que fala Bergson (2001) e Propp (1992) que é acontecer algo que o espectador não espera, que surpreende quem está assistindo, pois essa cena é algo que foge do esperado, levando a comicidade, sendo a reta transversal que corta a horizontal que nos fala Bergson (2001). O uso de movimentos padrões (BERGSON, 2001) que se repetem com frequência, nessa cena a ação de defumar, que é a repetição, levam ao riso. Isso tudo associado ao histórico de fanatismo da personagem que o público vai acompanhando capítulo por capítulo.
Após a saída de Mariana de cena, o tom da comédia muda, pois Maria Rita pergunta ao pai sobre como é Zeca e ele responde que ele é um debochado. É uma resposta que é inesperada também, mas Antero complementa que queria ter meia dúzia de filhos como ele. Dessa forma, temos um riso ou esboço de riso de compaixão com os dois personagens. Ao contrário do
momento anterior, que estava a personagem Mariana com seu modo exagerado de ser nas suas posições religiosas.
O cômico com o modo de falar (BERGSON, 2001) que é como a personagem fala, seu modo peculiar de pronunciar as palavras, ou os jargões que usam de determinado meio, isso é evidenciado nas falas da personagem Mariana, que usa muitos termos religiosos, transitando entre o sagrado e o profano, na questão da santidade da sua filha e na perversão representada pelo “filho do diabo”, e em como Mariana se refere a ele por meio de outros termos, como na cena anterior, que ela o chama de príncipe do mal, fala que ele exala cheiro de enxofre. Dessa forma, para a composição do cômico da personagem temos a sua caracterização como beata, seus gestos, seu modo de olhar e seu modo de falar. A soma dessas características produz as situações cômicas, na relação dela com os outros personagens.
Os personagens Antero e Maria Rita, marido e filha de Mariana, se distingue nas características em relação a própria, pois são calmos, doces e alegres, o que faz a personalidade fanática de Mariana só aumentar, é a questão do contraste evidenciado por Bergson (2001) e Propp (1992), que faz as diferenças dos personagens ser evidenciadas para o público, e quanto mais for essa diferença, mais cômico será.
No fato dos “causos” de Eleutério afetar a vida das pessoas da região podemos conectar com o que fala Luciana Hartmann (2011) no seu livro, pois ela relata que as pessoas da região da sua pesquisa se referiam aos “causos” contados pelos contadores, acreditando na situação e com temor quando os “causos” eram de terror, envolvendo seres sobrenaturais. Como por exemplo, alguém falava que viu uma luz em determinada localidade à noite, as pessoas procuravam não passar por aquele local durante a noite.
Bola de neve/Bolha Contraste Muito barulho por
nada
Fora do Padrão/Inesperado
Mariana querer defumar
Antero, queimar sua roupa e fazer ele beber salmoura.
Mariana em
relação a Antero e Maria Rita.
Mariana faz todo esse escarcéu e não consegue nada.
Ato de defumar alguém só porque foi na casa do vizinho.
Tabela 5: Elementos cômicos Fonte: Elaborada por mim
5.2.6. Cena do capítulo 8 – o medo de Dona Ida