5. CAPÍTULO 4 – UMA JÓIA RARA NO PARAÍSO
5.1. Análise interpretativa das cenas
5.2.14. Cena do capítulo 77 – o defunto e o besouro
O local da cena é a fazenda do Coronel Valfrido, no seu velório. Os homens estão em volta de uma fogueira bebendo o defunto, enquanto a família está na sala rezando para o defunto.
A cena começa aos 26 minutos e 17 segundos do capítulo setenta e sete e termina aos 31 minutos. Estão na cena Eleutério, Vadinho, Antero, Zé do Correio, Seu Capita, Bertoni, Tóbi e Padre Bento.
A cena
(Fazenda do coronel Valfrido. Roda em volta de uma fogueira. Homens contando causos, bebendo e rindo.)
Eleutério: Vai dai que os cachorro num chegava antes. (Usa as mãos para mostrar a cena) Eles pegaram o difuntu e colocaram em cima da mesa, cubertu cum lençol. Aí o povo começô a chegá pra bebê u difuntu, né?
Todos: Hehehe
Eleutério: I a pinga já começô a rolá. Aí qui vai qui a muierada começô a puxá o terçu pra começá a rezá.
Tóbi: Fala pra eles cumé qui elas rezava.
Eleutério: Elas rezava assim. Pai nosso que está no céu, (faz o sinal da cruz com o copo de pinga) sanficado seja vosso nome.
Todos: Hahahaha
Eleutério: Comu qui era?
Tóbi: Assim na terá cumu nu céu.
Padre Bento: Cêis tão passando dos limites. (Padre Bento fica com a cara fechada durante toda a cena.)
Eleutério: Uai padre, u qui o sinhô qué qui eu faça. As muié... as muié repetia a reza feito papagaio. Elas num sabia as palavras direito.
Padre Bento: Pois é. Eu quero vê onde essa conversa vai pará.
Bertoni: Ê Padre Bento, dexa seu Lotério termina esse causo. Qui diachu!
Eleutério: Ma dai que ninguém se desse conta. Um (Mostra com as mãos) besourão enorme...
Tóbi: Cum chifre, patrão.
Eleutério: Cum chifre... Cum chifrão! Entrô na sala sem qui ninguém se desse conta. Atraídu pela luz da vela i du candieru. I si meteu imbaixu du lençol du falicidu.
Todos: Hahaha
Eleutério: Começô a subí pelas perna dele. Todos: Hahaha
Eleutério: Subí pelas perna dele. Aí alcançô a barriga du dito cujo. Aí foi cheganu... Chegô nas mão dele. Qui tava assim ó... (Faz as mãos) Intrelaçada nus peito. Como manda um difuntu qui si preza.
Todos: Hahaha
Eleutério: Aí, num é que o tar já tava em cima du dedu du falicidu. Qui si deu aquele ispantu, aqueli terrívi ispantu. Um deu um grito: (Imita) Ah, cuidado! Cuidado! Ah! U difuntu tá mexendo!
Todos: Hahahahaha
Eleutério: I logo dispois do primero alarme. Num é qui o dedo dele parecia qui tava mexendo memo. Hehehe
Eleutério: Aí foi aquela debandada... Aquele berero danado. Teve muié qui dismaiô na hora. Otras muié saiu correndo pela porta, se esbarano, pulano no meio da rua. Otras pulano pela janela. Hehehe
Todos: Hahaha
Eleutério: I na hora do desesperu...
Antero: Ôôô Lotéru, essa eu pagava pra vê! Eu pagava pra vê. Eleutério: Má é motivo... É causo pra ri memo.
Todos: Hahaha
Eleutério: Num istante a sala ficô vazia. Todos: Hahaha
Eleutério: Tinha ninguém! (Usa as mãos) Só o difuntu lá. Sozim! Bertoni: I us homi? Também correru?
Eleutério: Us hómi fórum os primero! Todos: HAHAHAHAHA
Eleutério: Saíram atropelano a muierada qui tava tudo bêbada qui nem nóis. Hehehe Todos: Hahaha
Padre Bento: (Tosse) Amigo Lotério. Essa conversa correno desse jeito. I a pinga sem pará. Num vai dá bom resultado.
Eleutério: Padre padre... Ô padre num começa a apurrinhá naum, padre. Eu já tô nu fim da histora. Peraí um poquim.
Antero: Se o padre num tá gostano da histora, pudia i lá rezá cum as biata. Todos: Hahahahaha
Eleutério: Seu Antero, seu Antero... Pra incurtá a histora. I atendenu aqui um pidido du padre Bentu. Vô continua aqui. (Mãos) Manheceu u dia. U dia tava amanhecenu. Ninguém mais quis vortá. Ninguém mais se atreveu a entrá ali nu velório daquele disinfeliz.
Todos: Hahaha
Eleutério: Só memo o papa difuntu qui teve coragi de entrá lá pá cumprí a função dele, né? Pra botá o difuntu nu divido lugá, lá arrumadinho dentru du caxão dele. Hehehe
Todos: Hahaha
Eleutério: Aí ele entrô... Quandu ele tava entranu, junto cus ajudante dele, seguranu u caxão. CADÊ U DIFUNTU?
Todos: Hahahaha
Eleutério: CADÊ U DIFUNTU? Todos: Hahaha
Eleutério: Aquele povão todu saindo pela janela, pela porta da frente, correnu... correnu... U difuntu si assusto Ô... I saiu correnu pelos fundu.
Todos: Hahahahaha
Eleutério: Ele foi encontradu léguas depois dali, sem intendê nada qui tinha acontecidu... (Imita o defunto) Que qui aconteceu cumigo? Que qui aconteceu cumigo?
Todos: Hahahahaha
A transcrição acimas parte do capitulo 77, continua no capituo 78 com Eleutério terminando seu causo, mas até aqui, podemos observar que o ator Reginaldo Faria usa de vários recursos já observados em outras cenas que ele conta causos como o personagem Eleutério, como o uso das mãos para ajudar a ilustrar a história narrada. O narrador usa pausas, questionamentos a quem está ouvindo, como também um diálogo com quem ouve. Nessa cena, Eleutério, muda a voz para fazer a voz do defunto, das mulheres e das pessoas assustadas com o
defunto mexer a mão. Todas essas estratégias utilizadas para a contação contribui na construção de um personagem contador de causos.
Figura 17: Eleutério mostra como defunto estava
Fonte: Captura de tela do capítulo 77 (2009), gerada por mim em 2019.
O elemento inesperado está presente nessa cena, pois Eleutério começa a contar que as mulheres ficaram bêbadas e foram rezar o terço para o defunto, a puxadora falava o padre nosso errado e as outras repetiam. Culminando com um besouro que aparece, entra embaixo do lençol e as pessoas pensam que o defunto está mexendo e se assustam, aqui compreendemos de forma cômica, uma distorção, um corpo fora do padrão. Como também o elemento cômico é revelado pela atuação de um inseto.
Durante a contação de causos, Eleutério conta uma parte do causo e dá um tempo para o público rir, para depois continuar. Assim, o causo não perde seu efeito, e a comicidade vai aumentando. Para fechar o causo, o defunto se assusta com o povo correndo e sai correndo pelos fundos também. Aqui temos o elemento cômico revelado em uma história fantástica, pois Eleutério diz que o defunto assustou com as pessoas correndo.
O contraste cômico na cena é demonstrado pelo Padre Bento estar bravo com as brincadeiras de Eleutério e dos outros homens, e os mesmos tirarem sarro do Padre, nisso ocorre
a degradação, onde uma pessoa sagrada, que é um padre, tem sua autoridade desconstruída em público. O que deixa um certo mal jeito durante toda a cena.
Corporiedade Temporalidade Modulações da voz
Eleutério usa as mãos para contar o causo.
Eleutério controla a contação do causo para dar tempo do público rir.
Eleutério representa a voz dos personagens no causo.
Tabela 14: Características do causo e do contador Fonte: Elaborada por mim
5.2.15. Cena do capítulo 78 – os “causos” no velório do coronel Valfrido