4. CAPÍTULO 3 – METODOLOGIA: A REGRA DO JOGO NO MAPA DA MINA
4.2. Registro dos “causos”
Com o registro de narrativas orais através da escrita, parte do seu sentido acaba se perdendo (BORGES, 2012), “pois sendo o causo um texto vivo, seus principais elementos expressivos, advindos da ocasião, acabam por ser desconsiderados” (BORGES, 2012, p. 17).
A entonação, o gestual e os aspectos do lugar em que o contador está influem nos significados dos mesmos, como também dão estrutura para a narrativa (BORGES, 2012), “pois emergem do mesmo estado pré-categorial, mundo-da-vida onde a narrativa foi internalizada” (BORGES, 2012, p. 18).
Ocorre um processo histórico de desmaterialização do texto, em que o ocidente privilegia o texto escrito em relação a oralidade (BORGES, 2012) “e formando o que Michel de Certeau (1994, p.221) denomina sociedade escriturística, estabelecida hegemonicamente no período iluminista” (BORGES, 2012). Foram sendo tirados dos textos os elementos de oralidade, gestualidade, caráter físico da escrita (GINZBURG, 1989).
Com isso, o texto perde as referências sensíveis, perdendo a identificação com o suporte e com o momento da produção. Apenas os meios reprodutíveis do texto são considerados pela crítica textual, primeiro de forma manual e depois de Gutenberg, mecanicamente (GINZBURG, 1989). Teremos a cisão entre narrativas que se baseiam na reprodutibilidade, no caso a literatura escrita, e narrativas orais que são irreprodutíveis, pois o significado e a recepção ocorrem ao mesmo tempo de acordo com o contexto de narrador e ouvinte (BORGES, 2012).
A construção do sentido da narrativa passa pelos aspectos histórico-culturais dos envolvidos na narração. Ao interpretar os “causos” caipiras, deve-se levar em conta o choque de temporalidades entre o capitalismo e a cultura caipira (BORGES, 2012).
A maneira de narrar do caipira incorpora características de outras culturas, sendo reconheciveis formas narrativas que levam as histórias bíblicas como ao cancioneiro europeu medieval. No entanto, a temporalidade específica se deve ao distanciamento e isolamento que esteve presente na formação da cultura caipira (BORGES, 2012).
O "causo" é escolhido quanto a relação com a situação, ou seja, o contexto em que o contador está, mesmo tendo a forma do enredo internalizada. A contação de um "causo" nunca é da mesma forma, porque é uma memória revivida no momento presente (BORGES, 2012).
A ocasião nos faz lembrar, sendo essa lembrança muitas vezes provocadas pelas pessoas de nossa convivência (BOSI, 2000). A memória soma imagens de hoje com experiências do passado, é um ato de reconstrução da narrativa. Dessa forma, ao contar um "causo" seja ouvido, vivido ou visto, o contador não traz o passado como foi, mas em diálogo com uma imagem do presente. Assim, os “causos” não vêm por pura recordação, mas por pontos disparadores do agora (BORGES, 2012).
Os sujeitos envolvidos, a situação e a ocasião de quem narra os “causos” geram signos que só possuem significados específicos neste momento. A relação com a recepção do “causo” faz com que o receptor não perceba certos signos, ou passe a vê-los após a narrativa. O discurso vivo se difere do texto escrito, pois as conexões são imediatas. Então, o receptor no momento da escuta confronta sentidos, faz relações, a partir da sua visão de mundo em ligação com o contador, e a temática do causo. Nem um mesmo contador, ou vários contadores, vão repetir um “causo” da mesma forma. Cada contador tem um modo de narrar, transferindo para os “causos” suas particularidades histórico-sócio-culturais (BORGES, 2012).
Como a escrita não faz parte do universo dos “causos” na cultura caipira, para transcrevê- los é um problema (CERTEAU; JULIA, 1989) porque o texto escrito perde relação com o momento da produção da narrativa, como se fosse uma morte do relato. Borges (2012) aponta que o registro das narrativas orais em qualquer formato acaba sendo fixador, o que entra em contradição com as culturas orais que possuem uma dinâmica de memoria flexível e fluída. Como para muitas culturas orais os processos de registros não fazem sentido algum, vale
salientar, no entanto, que se faz necessário pensar em modos de registros que consigam abarcar esses aspectos.
De acordo com Kluge (2008): “Quando algo é narrado oralmente, quais imagens são despertadas no ouvinte? O filme surge na cabeça do espectador” (apud BORGES, 2012, p. 30). Para Eisenstein (1990) existem imagens que o espectador compreende e quase lê como texto. No registro fílmico, o som dá outra dimensão somando-se imagem e escrita em um sentido polifônico, no sentido que o som é a imagem (BORGES, 2012).
Na narração do “causo” vão surgindo imagens a partir dos elementos sonoros. “Sobra a energia afetiva, que acompanha e transpassa musicalmente a representação, e que encontra modos peculiares de aparecer nas passagens de cor e de timbre, na intensidade do gesto, na entonação da voz, no andamento da frase” (BOSI, 2000, p.26).
A teorização é uma marca do espaço acadêmico, que com seus esquemas teóricos acaba descontextualizando as práticas do outro, não considerando que a cultura pesquisada possui suas especificidades que não podem ser esquematizadas (BORGES, 2012). “É preciso levar em conta, no caso de comunidades caipiras, que a prática e a teoria são um mesmo procedimento, sendo que o causo se explica na própria ocasião e no espaço em que é contado” (BORGES, 2012, p. 32). Após escrito seu significado vivo é perdido, pois o simbolismo dos contadores se perde se esvai (BORGES, 2012).
Segundo Borges (2012, p.32) mesmo em vídeo, não é possível capturar todas as teias de significações dos “causos”, e tentar fazer isso, “pode levar o pesquisador novamente à obsessão acadêmica pela fixação e cristalização do outro, assim como à ilusão de que é possível definir toda a sua complexidade existencial”. A mudança e a flexibilidade são o que movem as culturas orais, isso faz que elas resistam as conjunturas e consigam se reequilibrar (BORGES, 2012).
De acordo com autor o registro das narrativas orais deve reconhecer que o outro tem voz ativa, e não se fixar na busca pela de definição do outro. É importante enquanto pesquisador, ter consciência, que as narrativas orais dos caipiras perpetuam sua memória, como também compreendem a sua própria cultura (BORGES, 2012).
Desde a colonização, os causos são a voz de uma cultura dominada, vista por um olhar eurocêntrico como inferior e degenerada, mas que não perde a capacidade de sobrevivência e
adaptação. A memória caipira se perpetua pelo aspecto visível, no caso as celebrações, e por suas histórias, mesmo estando à margem da mídia e das escolas (BORGES, 2012).
Com o processo de industrialização, e a tal ideia de modernização do país, o modo de falar de um povo incomoda aqueles que querem ascender, e para isso desejam apagar o passado de dominação e pobreza. Então, ocorre uma negação de uma cultura que está na base da formação de uma nação (BORGES, 2012).